O Jogo
8 Capítulo VII - Abandono
Notas iniciais
Agradecimentos: Obrigada por terem lido e comentado a fic Amandha LP e Vi Joy.
Tenham uma boa leitura!
POV — Cecílie
A noite caía e aquele sótão ficava cada vez mais escuro. Quando a lua subiu ao céu, ficamos iluminados apenas pela luz do luar, não havia lampião, não havia lanterna, vela ou lâmpada. Comecei a ouvir barulho de ratos, esses animais nojentos... Pragas, me davam nos nervos e a poeira do sótão estava incomodando meus olhos e meu nariz, parecia que ninguém havia subido no lugar há anos. Ariane começou a tremer de frio, ela ainda estava um pouco molhada por causa do lobo que a jogou na piscina, Hideki também, mas ele se mantinha firme, era admirável. Eu estava começando a ficar com sono, mas tinha medo de dormir e dar de cara com o Peão ou acordar acorrentada novamente naquele porão escuro. Desde a discussão que tivemos ao chegar ao sótão, não falamos mais nada, fez-se um silêncio assustador no cômodo. Ouvimos passos, todos se agitaram e se esconderam entre os entulhos guardados ali, inclusive eu. Os passos iam se aproximando e então, houve um estrondo, eu tinha certeza de que todos haviam ouvido. Estiquei o pescoço para ver o que era, claro, eu sabia que era o Peão, mas não pude conter o extinto curioso, ele havia derrubado a porta e estava parado sobre ela, olhando ao redor, ele sabia que estávamos ali e procurava por nós. Me encolhi entre os objetos empoeirados e fechei os olhos com força, senti algo subindo por minhas pernas, eu sabia o que era, mas queria estar errada. Abri os olhos lentamente e vi o rato imenso que subia minhas pernas, apavorei-me, aquele era o meu maior medo, não podia gritar, então, peguei o rato e o tirei da minha perna, ele mordeu o meu dedo fazendo com que eu o jogasse longe, estremeci de susto do momento e derrubei uma pilha de objetos empoeirados. Fodeu. Ouvi os passos novamente e corri para longe do meu abrigo, meus amigos também correram e foram rumo à porta, o Peão não atacou, procurava por algo, ou melhor, alguém. Quando ele viu Hideki que resolveu atacar, ele correu atrás do garoto e Hideki derrubou vários objetos sobre ele. Corri para a porta, mas a madeira em que eu pisei quebrou e meu pé ficou agarrado, me desesperei e tentava me livrar da madeira, Andrew e Damon pararam a porta e ficaram em dúvida se deviam me ajudar, Ariane puxava os dois, não fiquei com raiva dela, era natural que quisesse correr por sua vida e também, eu estava estragando tudo. Anna estava encolhida ao lado de Damon.
— Vão! — gritei — Corram!
— Como assim?! — gritei Damon — Não podemos te deixar!
— Seus idiotas! Não a ouviram? Vão! — gritou Hideki.
Hideki correu até a porta e os empurrou para que rolassem escada a baixo, eu podia ouvir o estrondo e os resmungos de meus amigos, todos haviam partido e eu estava sozinha, minha morte era eminente, eu merecia. O Peão se aproximou de mim com o facão em mãos, fechei os olhos aguardando por minha morte, mas nada aconteceu, abri os olhos novamente e ele continuava lá, parado.
— Ande logo! Me mate! — gritei.
Ele balançou a cabeça negativamente.
— Não seria justo, nem divertido, você foi abandonada por seus amigos, deixarei com que você fuja e depois vou atrás de você. — respondeu.
— Você quer que eu sofra mais não é mesmo? — rosnei.
O Peão riu.
— Sim, seria mais interessante assim. — ele me puxou, me libertando da madeira. — Adeus Cecílie.
Abaixei a cabeça e me encolhi, fiquei sentada no chão abraçando os joelhos, fiquei assistindo o Peão saindo pela porta e descendo as escadas. Minutos depois eu resolvi me levantar. Desci as escadas e fiquei vagando pela enorme mansão, decidi desistir novamente do jogo e aceitar minha morte, eu passava próxima aos lobos, mas eles apenas rosnavam e latiam, nunca me atacavam. Deveria ser porque eles sabiam o meu destino. Os animais começaram a brigar entre si, deveria ser apenas para me amedrontar mais.
O tempo passou e eu continuava vagando pela mansão, meus pés já doíam e minhas pernas pareciam pesar toneladas, passei por um relógio e instantes depois ele começou a badalar, ouvi atentamente e contei cada uma das altas badaladas, doze. Olhei para o relógio e ele marcava meia-noite. Meia-noite... Agora deveria ser minha hora de partir. Virei para trás e olhei pelo extenso corredor, ele estava lá, como eu havia previsto, estava com o mesmo facão em mãos e me observando, ele balançou a cabeça com desaprovação.
— Não... Eu te dei uma chance de viver e você a desperdiçou, agora, é sua hora de partir. — falou.
— Eu entendo. — assenti — Então que a morte venha, já passou da minha hora de partir.
O Peão ergueu o facão, fiquei imóvel e de braços abertos tentando não me apavorar com aquilo, ele jogou o facão em minha direção com uma mira precisão, o facão atravessou minha cabeça, desta vez, me matando. Finalmente. Caí ao chão, fiquei observando meu corpo frio e sem vida, era deprimente ver você mesma morta, mas tentei não expressar nenhuma emoção. Por ter perdido o jogo, eu teria de pagar e eu sabia exatamente para onde ir, tinha de aceitar meu destino. Minha alma, eternamente aprisionada e amaldiçoada.
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POV — Demônio da Morte
Finalmente. Finalmente Cecílie morreu, já estava mais do que na hora dela partir e se tornar mais uma entre as milhares de almas aprisionadas e amaldiçoadas em meu saco de almas, fiquei decepcionado por meu Peão ter demorado tanto tempo para matar apenas uma garota, até considerei a hipótese de ele estar sensibilizado por ela e mandar outro Peão para cuidar dos jovens. Aproximei-me da vela que estava escrito o nome de Cecílie e fiquei a admirando enquanto a pequena chama se apagava. Quando a vela dela se apagou comecei a gargalhar, voltei a me sentar em meu trono e me surpreendi ao ver Cecílie, ela havia chegado tão cedo e tão facilmente, normalmente as almas que passavam a me pertencer não faziam isso, ficavam vagando pela Terra até eu ir buscá-las.
— Que bom que chegou, veio cedo, me poupou do trabalho de ir atrás de você. — falei.
Ela se aproximou de mim. Abri o saco de almas e ela foi sugada para dentro delas, eu adorava aquilo, sempre que abria o saco eu ouvia as vozes e os gritos agoniados das almas que eu aprisionava, mas logo tinha de fechá-lo para que elas não fugissem. Voltei a gargalhar satisfeito de estar recebendo almas jovens tão rapidamente. Assim que cessei a gargalhada, voltei a observar a estrela do jogo, agora, com apenas cinco velas acesas.
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