Notas iniciais
Faz tempo que não escrevia nada e hoje acordei inspirado. Espero que gostem!!!

Ao cair da noite, a caldeira ainda bocejava. O jardim soltava um bafinho morno das pedras, calor da noite virando névoa e a grama brilhava de pingos teimosos. As lanternas dormiam apagadas, deixando no ar aquele restinho de fuligem. Zuko chegou antes do sol se por. Encostou na coluna, camisa desabotoada (ele jura que o palácio tem microclima), cabelo bagunçado de sono curto. Esfregou as mãos, chamou uma chama pequena na palma e ficou vendo o vapor nascer quando a névoa encostava no fogo. Ele tinha um sorriso bobo de quem tava esperando alguém, e sabia exatamente quem.


Katara veio pelo corredor de pedra quase sem som. A capa azul pingava nas pontas; o capuz cobria metade do rosto, mas dava pra ver uns fios soltos do cabelo presos na têmpora pela umidade. O colar da mãe batia de leve no peito a cada passo, ela passou o polegar pelo pingente, aquele gesto automático de quem pensa e se ancora. Passos firmes, queixo alto, ombros no lugar: jeito de quem aprendeu cedo a não pedir licença.


Parou na boca do jardim e encheu os pulmões. O ar morno e úmido tinha cheiro de chuva antiga esbarrando em pedra quente. Deu vontade de sorrir, aquele sorriso pequeno que entrega mais do que devia, mas ela engoliu. Emissária, lembrou. Olhos azuis varreram o espaço, o capuz desceu um pouco, e a postura ficou ainda mais correta. Diplomacia primeiro. As borboletas podiam brincar depois.


— Achei que esse “programa de irrigação real” era piada — ela disse, tirando o capuz e ajeitando uma mecha atrás da orelha.

— É uma piada muito séria — Zuko respondeu, vindo na direção dela devagar. — A agricultura agradece, e… eu também.

O “eu também” veio mais baixo, mais perto. Katara segurou a postura, a famosa postura Katara, mas a pontinha da orelha esquentou. Zuko percebeu? Claro que percebeu. Fingiu que não, que é o jeito preferido dele de confessar que viu tudo.


— Trouxe seus relatórios — ela falou, esticando uma pasta lacrada. — O conselho pediu assinatura até o fim do dia.


— Assino já. — Ele não pegou a pasta. Em vez disso, inclinou o corpo, curioso. — Mas e o relatório que importa?


— Qual?


— O do clima — ele deu um passo pra lado, deixando a luz bater num ângulo que favorecia demais o sorriso. Desnecessário. — Vai chover?


Ela ergueu a mão, e gotinhas de agua do ar se juntaram num guarda-chuva fino, quase invisível. A névoa reverenciou a dobra e contornou o arco, obediente.


— Vai chover o suficiente — Katara disse, satisfeita com o controle. — O jardim vai passar bem.


— E a gente? — Zuko arriscou, descaradamente. — Passa?


Ela perdeu dois segundos decifrando se aquilo era brincadeira ou coragem. Era coragem. Foi aí que o coração deu uma tropicada (nada escandalosa; só o suficiente pra ela saber que estava viva).


— A gente… trabalha — respondeu, tentando soar técnica. — Com mapa, carta e paciência. Lembra?


— Lembro — ele segurou o riso. — Mas posso acrescentar “intervalos estratégicos no jardim”?


Ela mordeu a parte de dentro da bochecha pra segurar o sorriso. Não funcionou. Eles andaram entre as pedras lisas. Zuko fazia graça com o “clima interno” do palácio, Katara fazia cara de “isso é absolutamente ridículo” enquanto, por dentro, pensava que ele era pior que brasa em pano seco, encostou, incendiou. Num recanto de bambus, ele parou.


— Fecha o olho — disse ele de súbito.


— Zuko…


— Confia.


Ela fechou (com o direito de abrir se fosse bobagem). Ele estalou os dedos, acendeu uma chama mansa na palma e aproximou. O calor não era agressivo; era casa, panela, cobertor. Katara sentiu a pele do rosto aquecer de leve. Abriu os olhos. Ele tava ali, muito perto, mas respeitando aquele milímetro de espaço onde mora a escolha.


— Só pra tirar o frio de viagem — ele explicou, simples, sem forçar.


— Funcionou — ela sussurrou, e odiou o quanto soou macia.


Um passo dos guardas ecoou ao longe. Zuko inclinou a cabeça pro bambuzal e, num movimento de treino antigo, a puxou pela cintura, escondendo os dois atrás dos bambus. A mão dele ficou ali por um segundo a mais do que qualquer protocolo aprovaria. Katara piscou, surpresa. O calor atravessou a roupa e foi direto no autocontrole dela, que, convenhamos, sempre foi excelente… menos quando ele resolvia ser gentil de um jeito específico.


— Desculpa — ele recuou um pouco, sincero, ainda mais quente por causa do pedido de desculpa. — Reflexo de segurança.


— Tudo bem — ela respondeu, rápida demais, e ajeitou o capuz imaginário que nem tava no lugar. — Segurança é bom.


— E ficar perto é melhor — ele murmurou, quase pra ele mesmo.


Ela prendeu o riso nos dentes.


— Eu devia ir — ela falou, ajustando a pasta pra mão ter alguma função. — Tenho reunião com o conselho às nove.


— Eu tenho às oito e meia — ele respondeu. — Isso nos dá… — olhou pro céu que escurecia — sete minutos e uma eternidade.


— Pretende usar como?


— Com sabedoria — Zuko esticou a mão e uma fina linha de fogo foi até o lago. Uma fita de vapor se ergueu do lago, retinha, como se fosse tinta no ar. Ele desenhou três linhas, rápidas.


Katara ergueu a própria mão, puxou um fio de água e bordou no vapor as letras minúsculas, que só se liam se a luz estivesse no ângulo certo: “a noite está linda”. A frase durou o suficiente pra eles dividirem um sorriso cúmplice, e se desfez. Zuko tenta moldar com a dobra de fogo e com um letra feia escreve: “Não mais que você!”


— Sutileza nível Senhor do Fogo — Katara diz rindo.


— Fiz curso com o Tio Iroh — ele devolveu, orgulhoso de leve.


O vento tentou bagunçar a névoa; Katara corrigiu a curva com um gesto quase invisível. Zuko aproveitou a deixa pra uma investida mais explícita:


— Aviso técnico — ele falou, chegando mais perto. — Quando você faz isso, eu esqueço todas as palavras de rei que aprendi.


— “Isso” o quê?


— A dobra de água com maestria e ainda ter paciência comigo.


Ela desviou o olhar e riu como quem falhou em esconder a alegria.


— Senhor do Fogo…


— Sem título, por favor. — Ele baixou mais a voz, como se a própria névoa pudesse fofocar. — Eu gosto de ser só Zuko quando você fala.


“Perigo”, o cérebro dela avisou. “Cuidado”, o coração devolveu. “Agora”, a vontade disse.


— Tá — ela aceitou, simples. — Zuko.


Ele piscou devagar, como quem guarda a palavra num bolso que ninguém mais toca.


— Posso…? — A mão dele pairou no ar, pedindo autorização pra tocar a bochecha dela de novo. Katara assentiu, tão pequena quanto um gesto pode ser.


O toque aconteceu como a primeira vez que a mar encosta no tornozelo quando a gente entra na água: um susto bom. O calor na medida certa, o pulso dela disparando no mesmo ritmo da chama. Ele inclinou só um pouco, a distância de uma decisão. Ela se aproximou um milímetro, ganhou coragem, perdeu a fala. Encostaram as testas, foi isso, e ficou perfeito ali, num abraço que ainda não existia, mas já quase.


— Isso é loucura? — ela sussurrou, e não tinha drama; tinha cuidado.


— É — ele respondeu, e o sorriso veio junto. — Mas daquelas que deixam a gente melhor.


Um chamado ecoou do lado de dentro: “Reunião em cinco minutos!”. O mundo lembrou seus horários. Katara desfez o guarda-chuva d’água numa única gota.

— Eu tenho que ir — ela disse.

— Não antes disso...

Antes que ela recuasse, ele pegou a mão de Katara. A palma fria encontrou a dele, quente, e um fiapo de vapor subiu entre os dedos, tímido. Zuko entrelaçou os dedos devagar, perguntando com o olhar se podia ficar. Ela respirou curto, um “sim” escondido no fundo do peito. Ele apertou um pouco mais, firme sem exagero, e a água que ainda escorria da capa desceu pelo pulso dela, correu pelo antebraço dele e caiu no peito exposto, virando pequenos “pss, pss” que sumiam no ar em vapor.

Zuko se aproximou um passo. O calor do corpo dele empurrou o frio da noite, e a névoa pareceu encostar neles por curiosidade. Ele tocou a bochecha dela com as costas dos dedos, deu tempo pra recusar. Katara não recuou. A mão livre dele pousou leve na nuca dela; a dela subiu, encostou de relance na cicatriz, um “eu vejo”, antes de repousar no peito dele, onde as gotinhas ainda riscavam caminhos e evaporavam ao toque.

O beijo veio sem pressa. Primeiro um encostar de lábios, breve, como quem testa a temperatura; depois, um voltar mais demorado, encontrando o ritmo certo. Fogo e água se trombaram no meio do caminho e fizeram o que sempre fazem quando escolhem ficar: vapor. A névoa ao redor engrossou só um pouco, como se o jardim respirasse com eles. O calor dele acalmou o frio dela; o frescor dela domou o ímpeto dele. As gotas que escorriam pelos braços e pelo peito de Zuko sumiam assim que chegavam à pele, cada uma virando um suspiro morno no ar. Quando se afastaram, ficaram com as testas coladas mais um segundo, rindo baixinho do próprio nervosismo.

— Isso foi… — Zuko riu baixinho, ainda sem jeito de esconder — incrível.

— Foi — Katara concordou, o sorriso preso no canto da boca.

Os dedos deles já estavam entrelaçados. Zuko apertou de leve, o polegar fazendo um carinho distraído nas costas da mão dela, e levantou o olhar até encontrar o azul que sempre o desmontava.

— Fica aqui comigo mais um pouco?

As bochechas de Katara ficaram quentes na hora. O colar bateu de leve no peito quando ela respirou fundo.

— Eu queria — disse, sincera. — Mas tenho responsabilidades. — Os olhos brilharam. — Só que… se você quiser caminhar pelo jardim, quando a névoa baixar… me chama.

Zuko assentiu, com aquele sorriso que acende sem pedir. Aproximou-se devagar, encostou a testa na dela um instante, o mundo parou nesse gesto e então deu um beijo de despedida. Foi macio e calmo, daqueles que agradecem. O calor dele encontrou o frescor dela e, no toque, um fiozinho de vapor subiu, como um suspiro do próprio jardim.

— Até logo, Katara — murmurou perto da boca, sem soltar a mão.

— Até logo, Zuko — ela respondeu, corada e feliz, apertando os dedos dele uma última vez antes de ir.

Notas finais
Obrigado por lerem e se quiser deixe um comentário, adoraria saber o que achou!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!