O Intruso

2 É Hora de Seguir Em Frente


"Apenas feche os olhos, iremos jogar nosso pequeno jogo."

Dois Meses Antes

Chovia abruptamente naquela noite. As gotas fúnebres escorriam pela janela do táxi, trazendo consigo um clima melancólico. Lucie estava com uma sensação estranha no peito, como se sentisse que não deveria estar ali. Como se não devesse estar em nenhum lugar.

Quando o automóvel transpassou a placa de boas vindas, o motorista finalmente olhou para a garota através do espelho do carro. Ela era jovem, não aparentava ter mais de vinte cinco anos. Loira, com os cabelos aparentemente ondulados. Sua pele era clara e seus olhos, azuis. Ela fitava a janela desde que a viagem começara.

— Vila Obélia... Não é um lugar muito conhecido... Por que você viria para um lugar assim? – indagou o motorista.

— Eu não sei... Acho que... Preciso de inspiração. Vi numa página da internet que esse era um lugar muito calmo, com uma taxa de criminalidade muito baixa, então resolvi vir passar um tempo aqui... – A garota respondeu, sem sequer tirar os olhos da direção da janela.

Após essa pequena troca de palavras, o silêncio voltara, mas não demorou muito para que o carro parasse na frente de uma casa. Uma que o motorista julgava extremamente macabra.

— Hã... Tem certeza que é aqui, moça?

— Hm? – Lucie pareceu não se dar conta de que haviam chegado, mesmo olhando para a janela. – Sim, é aqui.

O motorista observou aquela casa com um pouco de receio. Não conseguia imaginar o que uma pessoa normal iria fazer em um lugar assim. Era uma casa aparentemente antiga, de madeira rústica, dois andares e com janelas extensas.

— Aqui... – Lucie entregou a quantia que o motorista havia combinado com ela no início da viagem.

Desceu do carro, parecendo não se importar com a forte chuva que caía. Pegou suas bagagens e marchou rumo à sua nova casa, ao mesmo momento que o táxi acelerou e desapareceu na escuridão. Lucie pegou a chave principal de seu bolso e a levou até a fechadura. Só então ela percebera que o fecho da porta estava danificado, o que significava que a casa estava aberta.

— Ótimo. – Pensou irônica.

A primeira coisa que fez ao entrar em casa foi soltar Happy, seu pequeno cão de estimação, de raça pinscher, que veio a viagem toda deitado em seu colo. Estranhamente, Happy era muito apático, e lembrava muito a dona. Após ser solto de sua coleira, começou a explorar sua nova casa.

Lucie observou a moradia. Uma escada enorme na sala guiava até o segundo andar. O assoalho, ao ser pisado, fazia um eco baixo. A casa, praticamente sem mobília, era fria.

— Os móveis que encomendei ainda não chegaram... Ótimo, eu adoro dormir no chão. – Resmungou a garota, irônica.

Subiu até o segundo andar e ajeitou um cobertor no chão duro. Deitou-se e ficou olhando para o teto até pegar no sono e adormecer.

*****

Na manhã seguinte, Lucie acordou com alguém batendo na porta. Despertou e desceu até o primeiro andar, tentando ajeitar o cabelo ao mesmo tempo. Ao abrir a porta, se deparou com um rapaz magro, de estatura alta, cabelos muito negros, de aparência jovem e feição bonita.

— Pois não? – Indagou a jovem.

— Bom dia! – O garoto soltou um sorriso tímido. – Eu sou seu vizinho da frente, meu nome é Abel, prazer!

— Prazer, meu nome é...

— Bem... – O rapaz branco a interrompeu de forma repentina.

— Eles me entregaram uns móveis ontem à tarde, e acho que são seus. Eu vi você chegando ontem, mas estava um pouco tarde então eu deixei para vir te dizer isso agora. São seus?

— Acho que sim, mas tenho que conferir.

— Tudo joia, vou buscar o recibo que a loja deixou e você confere, pode ser? – Perguntou Abel.

— Sim, tudo bem.

— Eu já volto...? – Ele franziu a testa, como se perguntasse algo.

— Ah, Lucie, meu nome é Lucie!

— Lucie? É um bonito nome! – O elogio dele pareceu ser irônico. – Hm... Por que eu tenho a impressão de já ter te visto em algum lugar?

— Se você não sabe, por que pergunta pra mim?

— Desculpe, eu devo estar te confundindo... – O rapaz ficou sem graça depois da resposta que recebera.

— Não, eu que peço perdão, não foi minha intenção ser grossa, é que... – A garota hesitou por um tempo, como se buscasse uma desculpa. – É que eu dormi muito mal essa noite, sabe.

Abel sorriu e concordou, acenando com a cabeça.

— Meu nome é Lucie Freewood. Eu sou uma escritora de livros. Não que você vá me conhecer, não sou muito famosa.

O garoto ficou boquiaberto.

— Eu não acredito... Lucie Freewood, aqui, na minha frente! — Ele estava tão excitado que suas palavras saíam todas quase inaudíveis. – Eu... Eu já li toda sua coleção de livros... Desde ‘O Escultor de Pesadelos’ até ‘O Mar Esmeralda’!

— Puxa... – Lucie estava perplexa. – Nunca conheci ninguém que já tenha lido todos os meus livros...

— Eu já! Eu sempre sonhei em te conhecer e agora você está aqui, na mesma cidade que eu! O que você veio fazer aqui?

— Eu estava procurando um local tranquilo para escrever meu próximo livro, aí alguém me recomendou esta pequena cidade na internet, e eu não vi lugar melhor. – Lucie não expressava um sorriso, seu rosto sempre tinha uma única figura.

— Bem, você poderia autografar um livro pra mim? – Questionou Abel, em êxtase.

— Claro...

— Espere só um pouco que eu já volto, com o livro e o recibo! — O garoto começou a correr em direção à sua casa.

Quando ele pisou na calçada, parou subitamente. Ficou alguns segundos ali, parado, até que se virou e disse em voz alta:

— E Lucie...

— Sim?

— Pulsos cortados não matam pessoas... – Após dizer isso, continuou correndo até entrar em casa.

Lucie ficou parada, estava chocada. Levantou o braço e puxou a manga de sua blusa, revelando algumas cicatrizes verticais..

— Como... Como ele sabe? – Falou para si mesma.