O Intruso

16 Todas as Rosas Têm Espinhos


"Infelizmente, algumas vezes é tarde demais para recomeçar... Seu passado simplesmente não vai te deixar livre."

Lucie acordou com as vistas embaçadas. Parecia estar numa espécie de porão escuro ou algo assim. Seus braços estavam amarrados com pedaços de fio numa cadeira de madeira.

— Socorro! – Ela gritou. – Alguém! Por favor! Socorro! Abel!

Infelizmente nenhuma resposta foi obtida. Ela estava segurando firme o choro, sabia que aquele não era o momento de chorar. De repente alguns passos foram ouvidos e um vulto veio das sombras em direção à garota. Era Josh.

— Josh! Por quê? – Lucie gritou, tentando parecer que estava com ódio, quando na verdade sua voz só passava a ideia de tristeza e confusão.

— Lucie... Você realmente não entendeu? Talvez... Talvez ele realmente seja outra pessoa.

— Que? Quem?

— Eu sinto muito que você tenha que passar por isso. Mas é chegada a hora de você pagar por tudo de ruim que você fez no passado. – Falou Josh. O seu tom de voz estava diferente, mais firme, ao contrário do seu habitual tom calmo e frio.

— Como é? Josh... Josh... Nós somos amigos, não somos? Por que você está fazendo isso? Fale diretamente, sem rodeios!

Josh riu.

— Parece que você ainda não entendeu... Eu que dou as ordens aqui. Eu que mando. Se eu quiser falar o que quer que seja ou não eu posso, afinal você é minha prisioneira.

— Era você mesmo.

— Como? – Josh indagou, confuso.

— Eu estava tentando acreditar que isso era tudo um mal entendido. Que você não podia ser o intruso. Mas... É você mesmo. O Josh que eu conheci... Ele nunca existiu, certo? Tudo não passou de um alter ego, um personagem que você criou.

— Puxa vida... Sua imaginação é realmente muito fértil Lucie. Você realmente acha que sou eu quem tem um alter ego aqui?

Quando Lucie estava prestes a abrir a boca para falar alguma coisa, um barulho foi ouvido um pouco distante. Josh ficou alerta e se apressou em pegar um facão que estava numa mesa, atrás de Lucie.

— Você pode me esperar aqui? Ainda temos muito que conversar. Eu preciso mostrar pra você o que realmente está acontecendo. – Disse Josh, antes de desaparecer nas sombras.

Lucie pensou em gritar, mas um cano do outro lado da sala estava furado e um pedaço estava saltado pra fora. Se ela tivesse sorte talvez ele não estivesse muito enferrujado e fosse capaz de cortar os fios.

Mais que depressa, ela se apoiou nos pés, que Josh esqueceu de amarrar, e foi lentamente caminhando até o lado oposto da sala. Após alguns minutos cansativos, ela conseguiu. Suas pernas estavam extremamente doloridas, mas agora ela poderia conseguir se soltar. Forçou mais um pouco a cadeira nas suas coxas e panturrilhas, e com muito custo posicionou o pedaço de metal do cano entre sua mão e o apoio da cadeira, e começou a se mexer em movimentos horizontais. Alguns longos minutos se passaram e um barulho pequeno foi ouvido, e então sua mão esquerda estava livre.

Ela usou a mão livre pra remover o outro fio, e não demorou muito para que pudesse se soltar completamente da cadeira. Correu até a mesa onde Josh havia pegado um facão: ainda havia uma faca e uma tesoura. Lucie pegou a faca e partiu na mesma direção em que Josh havia ido.

Tudo estava muito escuro. Lucie não conseguia enxergar quase nada, anão ser o que estivesse bem na sua frente. Aos poucos, ela foi ouvindo passos, que progressivamente ficavam mais altos e mais perto. O coração dela começou a acelerar. Ela se apoiou na parede enquanto os passos vinham pelo corredor. Com um golpe certeiro, tudo iria acabar. Ela cerrou o punho direito, segurando com força a faca. Os passos estavam mais perto ainda. Lucie fechou os olhos e respirou fundo. O Josh que ela conheceu nunca existiu. Josh era um assassino. Josh era o intruso.

Com um movimento rápido e certeiro, Lucie cravou a faca na barriga do vulto. Uma voz misturada com um gemido abafado foi ouvido:

— Lu... Lucie...

*****

— Olá... Eu estou procurando o registro de conclusão do ensino médio.

— Boa tarde! O senhor poderia voltar amanhã? Já estamos fechados no momento. – O atendente falou, calmamente.

— Então... Digamos que eu precise do registro de uma... digamos, amiga. Você vai mesmo me deixando esperar? É algo tão simples! – O homem disse, entregando uma nota de cem dólares para o atendente, que sorriu e saiu, voltando alguns segundos depois com uma pasta de papéis na mão. Mais que depressa o rapaz começou a folhear entre as páginas.

“Nome completo: Lucie Freewood.

Instituição frequentada: Salt Lake High School.

Nota final: 85 pontos de um total de 100. Aluna muito dedicada aos estudos.

Afiliação: Pai ???

Mãe ???

Observação: Apesar das notas altas em praticamente todas as matérias, Lucie Freewood é uma adolescente problemática e misteriosa. Passa todas as aulas olhando pro nada, como se divagasse. Nenhum aluno conseguiu fazer ou manter uma amizade ou qualquer relação com a adolescente Lucie, graças ao fato que ela sempre foi muito fria e muitas vezes má. Ela apenas perdeu nota graças a todas as vezes que foi parar na diretoria por tentar, por muitas vezes, machucar seus colegas. Lucie também nunca apresentava nenhum sinal de remorso ou arrependimento, além de mentir sempre e tentar manipular os outros. É uma adolescente extremamente instável e eu gostaria que ela tivesse um acompanhamento psicológico agora que está se formando. Atenciosamente, Lukas DeLage, conselheiro da Salt Lake High School.”

Após ler isso, o homem saiu com pressa levando os papéis.

*****

O corpo pálido de Rachel caiu no chão. O ferimento na sua barriga jorrava sangue enquanto ela gemia de dor. Lucie se debruçou sobre ela, desesperada, e começou a gritar:

— Rachel! RACHEL! Aguenta firme, por favor...

— Lucie...

— Me desculpa... Achei que fosse ele... O intruso... – Lucie falava, enquanto lágrimas escorriam pelos seus olhos.

— Lucie... Me desculpa... Por tudo... Eu... Te... Eu te—

Assim ficou o corpo de Rachel, já sem vida, sem poder terminar a frase. Seus olhos frios, e agora sem brilho, olhavam para Lucie, que não conseguia parar de chorar.

— Me perdoa Rachel... Acho que minha mãe estava certa. – Ela falava como se Rachel ainda pudesse a ouvir. – Acho que eu realmente só sei destruir tudo a minha volta. Eu deveria ter conseguido me matar aquela vez... Teria sido melhor... Pra todo mundo.

Ela ainda continuou lá, sentada do lado do cadáver frio, por longos minutos, chorando.

De repente alguém pegou-a pela cintura e começou a arrastar a garota.

— Me solta! Me solta! Seu desgraçado! Você matou Rachel! VOCÊ MATOU RACHEL! – Lucie berrava, dando tapas e socos em quem estava a arrastando.

— Lucie! Lucie! Sou eu! – Falou Abel, virando Lucie e apoiando o rosto da garota nas suas mãos.

Ela mais do que depressa abraçou-o forte.

— Rachel está morta Abel... Rachel está morta... – Ela falava baixinho, em meio à soluços e choro.

— Lucie? – Falou Josh, em pé, observando a garota.

— Abel! Ele é o culpado Abel! ELE É O ASSASSINO! ELE MATOU MEU BEBÊ! ELE MATOU CONNOR! ELE MATOU TODO MUNDO! – A garota gritou, apontando para Josh, que deixou o facão cair de sua mão. Ele parecia surpreso.

— Eu já liguei pra polícia, eles estão vindo...

— Lucie? – Falou Josh, confuso. – Acho que entendi. É tarde demais não é? Me perdoe, eu não pude te salvar.

Josh sentou no chão e ficou lá, parado com uma expressão fúnebre. Lucie não entendeu nada, mas não ligava mais.

— Onde nós estamos? – Ela perguntou pra Abel.

— Curiosamente, nós estamos no porão da sua própria casa Lucie. Eu ouvi os gritos e vim o mais rápido que pude.

Aquilo tudo era muito estranho, mas Lucie não se importava. Continuou abraçada com Abel até que sirenes foram ouvidas.

*****

Detetive Fischer algemou Josh e o jogou no banco de trás da viatura. Depois se dirigiu até Lucie e disse:

— Eu sei que você passou por um choque muito grande hoje, por isso eu recomendo que você descanse. Mas amanhã eu preciso do seu depoimento, será de grande ajuda no julgamento dele. – Nesse momento passaram levando o corpo já coberto de Rachel até o carro funerário. – Eu sinto muito pela sua perda.

Quando o detetive estava saindo, Lucie o parou, segurando seu braço.

— Fischer? Como Caleb está?

O detetive limpou a garganta e respondeu:

— Ele está muito bem, senhora. Já se recuperou do acidente e no momento está numa missão especial.

Lucie ficou um pouco mais tranquila. Estava prestes a entrar para dentro de casa quando ouvir Fischer a chamar, do lado da viatura:

— Lucie! Josh quer falar com você antes de irmos. Você não precisa se não quiser.

Ela concordou e seguiu até o lado da porta traseira do carro, onde o jardineiro estava.

— Lucie, antes de falar com ele, você não quer passar a noite num hotel? Ou com alguma companhia? Não é bom ficar sozinha após um evento traumático. – Fischer falou. Sua voz não tinha nem um pingo de preocupação.

— Eu vou ficar com Abel. Ele está lá dentro, preparando um chá de camomila...

— Quem? – Perguntou, intrigado.

— Abel... Ele me ajudou muito durante todo esse tempo que eu passei aqui.

— Hm... Não conheço, mas fico feliz que você não esteja sozinha. Bem, boa noite. – O detetive falou, entrando no carro e esperando.

Lucie se aproximou um pouco da janela de Josh e ouviu ele dizendo, bem baixinho:

— Senhora Lucie, Josh não é o assassino, e a senhora sabe disso. É meu último pedido: por favor, reaja!

Antes que ela pudesse dizer algo, Josh acenou para Fischer acelerar, e a viatura partiu rua afora, deixando Lucie parada lá, confusa.

Ela entrou para dentro. Algumas peças começaram a se encaixar na sua cabeça. Ela andou lentamente até a cozinha, onde Abel estava parado em frente à um balcão. O chá estava fervendo.

— Sabe... Algumas coisas ainda não fazem sentido. – Lucie falou, com o tom de voz firme.

— Sério? Como o quê?

— Josh... Eu ainda tenho muita certeza que ele jamais machucaria alguém, afinal quando ele matou Connor pra me salvar ele entrou em estado de choque. Ele também jamais mataria Happy, muito pelo contrário, Josh ama animais. E o mais estranho: Josh estava comigo uma vez quando o assassino atacou... Não faz sentido. Anão ser que...

— Que? – Perguntou Abel, puxando uma faca de cozinha da gaveta do balcão.

— Anão ser que o assassino e o intruso sejam duas pessoas diferentes.

Abel sorriu e se virou de frente para Lucie.

— Meus parabéns, senhora Freewood. Finalmente começou a usar essa sua cabecinha.

Um arrepio subiu dos pés a cabeça de Lucie. Ela estava do lado de uma vela enorme acesa, mas isso ainda não ajudou a amenizar o frio na barriga que ela sentia. Reunindo as poucas forças que sobraram, ela apenas disse:

— Você...