O Intruso

10 Regras do Jogo


"Você salva todo mundo. Mas quem irá te salvar?"

"Ele tinha acabado de fazer sua mais nova vítima. Seu corpo estava repleto de marcas de sangue. Caminhando pelas ruas frias, com a neve branca caindo, ele se deparou com uma caverna fria, escura e profunda. Ele ficou parado, olhando a caverna, sem perceber que ela era, na verdade, um espelho." — Trecho de O Escultor de Pesadelos.

*****

2 Dias Depois

— Lucie! Eu estava tão preocupado com você! Como você está?

— Eu estou bem, Abel. Amanda ficou comigo boa parte do tempo que passei no hospital.

— Ah, sim... Me desculpe... – O garoto abaixou sua cabeça.

— Por quê?

— Eu não pude ir te visitar, eu estava formulando uma teoria... Me desculpa.

— Está tudo bem... Não se preocupe!

— Bem, você deve estar tão tensa e tudo mais, sente-se aí na mesa, eu vou ir preparar um chá para você.

Lucie deu um sorriso leve e se sentou. Abel deixou uma mochila em cima da mesa de jantar e desapareceu para a cozinha.

— Camomila? – Ele gritou depois de alguns segundos.

— Claro, é o seu preferido! – Lucie respondeu, sorrindo.

Após alguns minutos, ele voltou com uma bandeja com xícaras e um bule. Um vapor gostoso exalava por toda a sala de jantar. Ele serviu os dois e se sentou do lado de Lucie.

Os dois papearam sobre coisas triviais até ficarem em silêncio. Por alguns minutos, Lucie estava sentindo ele diferente, como se algum tipo de barreira estivesse entre os dois.

— Você lembra quando me conheceu? – Perguntou Lucie, quebrando o silêncio.

Abel deu uma engasgada com seu chá. Ele começou a tremer.

— Hm? Você se lembra? – Ele questionou, com um sorriso nervoso.

Lucie franziu a testa.

— Claro que eu lembro, tem apenas um mês!

Abel suspirou e sorriu, aparentemente mais aliviado.

— Me lembro sim, o que tem?

Lucie abaixou a cabeça e ficou séria, olhando sua xícara de chá.

— Bem, você tinha me dito que pulsos cortados não matam pessoas, lembra? Mas como você sabia que eu já tentei... Se eu nunca tinha te falado?

Abel a observou por um breve momento. Ele deu um sorriso triste e respondeu:

— Acho que um suicida sabe reconhecer outro...

A garota levantou a cabeça, olhando para ele. Ele arqueou uma manga de sua camisa, revelando várias cicatrizes por toda a extensão de seu braço. As cicatrizes dele eram extremamente profundas, diferentes das que ela possuía, que eram bem superficiais.

Os dois ficaram ali em silêncio até todo o chá acabar. Então Abel se levantou e perguntou se podia mostrar para Lucie a sua teoria. A garota afirmou com sua cabeça, então ele abriu a bolsa que estava em cima da mesa e jogou seis livros no chão.

Lucie reconheceu os livros. Afinal eram seus livros. Ela levantou as sobrancelhas, sem entender nada.

— Bem, alguns dias atrás eu voltei a ler o seu primeiro livro, O Escultor de Pesadelos, eu estava lendo só para distrair minha cabeça de tudo que havia acontecido. Mas então eu percebi uma coisa... – Abel abriu o primeiro livro numa página onde havia algumas anotações e mostrou para a garota. – O símbolo que o assassino usa nesse livro é um origami em forma de borboleta. Muita coincidência com o símbolo que o assassino da Vila Obélia anda usando. Então eu comecei a ligar os pontos.

— Hm, saquei o que você está querendo dizer. Mas mesmo assim, o intruso não mata da mesma forma que o Ceifador.

— Eu sabia que você ia dizer isso, calma que eu vou chegar nessa parte. – Abel abriu o segundo livro. – Chegamos ao seu segundo livro, Esqueletos no Armário, o seu livro mais polêmico. Nele tem uma cena onde o vilão mata o seu próprio irmão, estripando ele. Ele abre a barriga dele e deixa todos os seus órgãos para fora, pulsando.

Lucie se levantou da sua cadeira e se sentou no chão, do lado de Abel, que pegou o terceiro livro.

Salvador Desconhecido, um dos livros mais dramáticos. Nele todas as pessoas próximas do personagem principal começam a morrer de uma doença misteriosa e ele precisa dar um jeito de impedir. Na vida real, esse livro iria fazer alusão ao clube de literatura.

Lucie estava boquiaberta.

— Aqui eu fiquei um pouco confuso, procurei por alguma coisa relacionada no quarto e quinto livro, mas não achei nada. Mas quando li O Mar Esmeralda, seu último livro, percebi que o assassino tinha pulado os outros dois. Nesse livro, no final dele, durante o clímax, a personagem principal precisa incriminar o assassino de seus pais. Eu sei que isso não parece ter nenhuma ligação com você, mas eu me lembrei de Walter. Por que ele faria algo com você? Eu sei que vocês discutiram e tudo mais, mas isso não faz sentido. Acho que ele foi pago pelo real assassino para invadir sua casa. Talvez o intruso soubesse que você ia matar ele, eu não sei e--

Lucie pegou no braço de Abel.

— Não é isso Abel...

— Você não acredita né?

— Eu quero dizer que não tem nada haver com Walter! Em O Mar Esmeralda, a personagem principal não consegue incriminar o assassino dos pais, se lembra? Então ela mata a mãe dele, e forja uma cena de suicídio. Só que ela deixa uma pista mostrando que o suicídio é na verdade um homicídio. E ela coloca tudo apontando para o assassino dos pais.

Abel olhou para Lucie, tentando entender o que ela estava tentando dizer.

— Rebecca, Abel! Rebecca!

Ele concordou com ela.

— O intruso agora vai tentar te incriminar pela morte de Rebecca, o que significa que não temos muito tempo, precisamos descobrir rápido qual será o próximo livro que o assassino irá usar como base! Eu leio Chamada Perdida e você lê Eu Sei Quem Me Matou, até ver se a gente descobre qual será o próximo passo dele!

Nesse momento uma mensagem chegou ao telefone de Lucie. Ao verificar, ela ficou pálida.

— Isso não será necessário Abel... Eu lamento, mas preciso ir.

— O que? Espera! Onde você está indo?

Lucie pegou seu casaco e saiu correndo pela porta principal, ignorando totalmente Abel. Ao caminhar alguns passos pelas calçadas, ela se esbarrou com uma mulher.

— Ai, olha por onde anda imbecil! – A mulher de pele negra falou.

— Me desculpa, eu estou com pressa, com licença.

Lucie se virou e começou a correr novamente, mas a garota a puxou pelo braço.

— Lucie? É você? Eu iria reconhecer esses olhos em qualquer lugar...

Lucie então ficou séria. Abel apareceu logo atrás.

— Lucie! Finalmente eu te alcancei!

Ele parou, observando a garota segurar o braço de Lucie.

Os três ficaram em silêncio por um tempo.

— Lucie... Por favor... Eu preciso conversar com você.

Lucie puxou seu braço.

— Hm, vocês se conhecem? – Abel perguntou, confuso.

— Abel, essa é Rachel. Uma, digamos, amiga de infância.

— Prazer... – Disse o garoto, pegando na mão da jovem. – Lucie, o que aconteceu? Por que você saiu correndo daquele jeito? Você não acha que minha teoria está certa, né?

Lucie olhou firmemente nos olhos de Rachel, e depois nos olhos de Abel, antes de responder:

— Não, Abel, sua teoria é perfeita, e é por isso que eu não posso confiar em ninguém agora...

— Como assim?

— Abel, apenas três pessoas conhecem minha coleção tão bem assim para planejarem isso!

— Ótimo, então vamos atrás delas e--

— E essas três pessoas são Roger, Rachel... e você, Abel.

Os três ficaram em silêncio até Lucie se virar e sair correndo novamente. Do outro lado da rua, um carro preto seguia lentamente a garota que corria pelas ruas.

Na delegacia, Fischer e Caleb investigavam Lucie.

A lista de suspeitos de Lucie tinha três pessoas. Mas a lista de suspeitos da policia tinha apenas uma suspeita.

3 Anos Atrás

Já estava anoitecendo e Lucie estava revisando todo o texto de seu novo livro. Uma mensagem fez seu celular vibrar em cima do criado mudo. Ela colocou seu notebook de lado na cama e esticou sua mão, pegando o telefone. Quando ela leu a mensagem, estranhou um pouco: O número não estava salvo na sua lista de contatos.

Ei, Lucie... Será que podemos se encontrar qualquer dia desses? Eu preciso muito conversar com você. Rachel.

"Rachel? Que Rachel?" – Pensou.

Ela ligou para o número. Após chamar algumas vezes, uma voz um pouco familiar atendeu:

— Lucie?

— Ah, essa Rachel... O que você quer de mim?

Um suspiro foi ouvido do outro lado da linha.

— Como eu disse na mensagem, será que podemos nos encontrar para conversar?

— Não vejo motivos para isso. – Respondeu Lucie, com um tom extremamente frio.

— Por favor Lucie, eu tenho algo importante para falar.

— O que é tão importante que você não pode me falar por essa ligação?

Rachel ficou calada alguns segundos.

— É sobre Samuel...

Lucie ficou pálida. Uma lágrima caiu do seu olho direito. Ela marcou o encontro com Rachel naquela noite mesmo, num restaurante perto do seu apartamento.

*****

Dia Atual

Lucie corria pelas ruas, esbarrando em algumas pessoas. Após alguns minutos, chegou à porta de um antigo galpão. A mensagem que foi enviada pelo celular de Rebecca dizia para ela ir sozinha até esse endereço e pegar uma caixa de papelão ali, ou Abel iria ser a próxima vítima do intruso.

Ela abriu a porta lentamente, um frio terrível subia pela sua espinha. Isso claramente podia ser uma armadilha do intruso para pegá-la sozinha, mas ela não iria arriscar a vida de Abel. Ele era muito importante para ela, mas do que ela conseguia assumir.

Ela caminhou pelo galpão. Uma pequena caixa podia ser vista mais a frente, no chão. Ela se apressou e foi até a caixinha, com o coração acelerado.

Ao pegar a caixa, algo começou a vibrar dentro dela. Lucie hesitou por alguns segundos, até abri-la e ver um telefone tocando. Ao atender, uma voz abafada que Lucie já tinha ouvido antes começou a falar:

— Meus parabéns, senhora Freewood... Você realmente parece se importar com Abel. Quando foi que você começou a se importar realmente com as outras pessoas?

— Você... Seu maldito! O que você quer de mim, desgraçado? – Lucie respondeu o intruso.

— Ora, eu já te falei o que quero antes, não falei? Mas eu entendo que vacas não ouvem muito bem, sorte que eu sou uma pessoa paciente, então eu posso repetir: Eu quero que você pague pelos seus pecados.

— O que quer dizer com isso? Que pecados?

— Freewood, por favor, não banque a santa. Você já fez muitas coisas erradas na vida, está na hora de pagar por elas. E eu sou o seu juiz.

— Não entendo, se você quer me fazer pagar por qualquer coisa que eu tenha feito, por que está matando outras pessoas?

Uma risada foi ouvida.

— Meu anjo, algumas vezes é necessário cometer alguns crimes para que a justiça seja feita. Nesse caso, qualquer pessoa que esteja no meu caminho deve ser exterminada.

— Vai se foder, seu doente! Por que você não aparece pra me matar e acaba logo com isso?! Hein?

— Ora, assim não teríamos nenhuma diversão! Mas sabe, eu estava lendo um livro seu e percebi que podemos adicionar ainda mais diversão nesse jogo...

— O quê?

— Minha próxima vítima será Amanda Roberts.

Lucie ficou paralisada.

— Mas dessa vez eu vou te dar uma chance de salvar essa pessoa. Você aceita essa chance?

Lucie deu um suspiro.

— O que você quer?

— Ora, ora, ora! Eu realmente pensei que você não ia aceitar... Que ia simplesmente deixar ela se danar. Bem, parece que pessoas mudam, não é mesmo? Bem, já que você aceitou, podemos começar oficialmente nosso jogo!

— Do que você tá falando?

— Oh, esqueci-me de citar as regras do jogo, mil perdões! Bem, como eu dizia, eu estava lendo um livro seu e gostei muito da ideia. Então, a primeira regra é que você deve ficar com esse celular junto com você o tempo todo. Ele é um celular não rastreável. Segunda regra: Nada de falar disso pra ninguém, ou contatar a polícia, senão Abel e Amanda vão deitar embaixo de sete palmos. Terceira regra: Eu vou ligar pra você quatro vezes e pedir quatro, digamos, favores diferentes. Se você completar todos, eu não toco em Amanda. Simples né?

— E quais são esses favores?

— Isso é surpresa, querida! Bem, agora você pode voltar para sua casa e agir normalmente, okay? Amanhã nós começaremos nossa caçada juntos! Beijinhos.

Após isso a ligação foi encerrada. Lucie estava se sentindo impotente. A vida de Amanda e Abel estava em suas mãos, e o intruso ditou as regras para salva-los.

*****

Algumas batidas na porta assustaram Abel. Já estava um pouco tarde para receber qualquer visita. Ele caminhou lentamente e abriu a porta.

— Lucie?

A garota, que estava olhando para baixo, levantou seu olhar e olhou para ele.

— Você se importa se eu dormir aqui essa noite?

*****

3 Anos Atrás

Lucie caminhava com pressa, tentando desviar das mesas cheias de pessoas. Rachel estava esperando por ela, impaciente e nervosa. Quando ela se sentou, Rachel deu um sorriso, tentando derrubar o clima estranho.

— O que foi? Cadê Connor?

— Lucie... Eu lamento muito...

— Por favor, você não lamenta nada, você é--

— O que vão querer? – Perguntou a garçonete, interrompendo Lucie.

— Pode me trazer tequila? – Disse Lucie, olhando para o chão.

— Quantas doses?

— Uma garrafa.

A garçonete olhou com o canto do olho para Lucie.

— Só isso?

— É.

A moça saiu andando e após alguns rápidos minutos, voltou com a garrafa de tequila. Lucie destampou a garrafa e encheu seu copo.

— Você estava falando? – Perguntou Rachel.

— Nada. Vá em frente, o que tem Samuel?

— Eu não sei como te dizer isso, é...

— Vá em frente, merda.

Rachel olhou séria para Lucie

— Samuel está morto, Lucie.

As duas ficaram em silêncio um tempo. Lucie então fez uma cara de dúvida e perguntou:

— Só isso? Você me fez vir até aqui pra isso?

— Escuta, Lucie, eu sei que você e seu irmão não tinham um relacionamento muito bom, porém nesse momento, você é a única parente viva dele, e você precisa ir e decidir o que fazer com o corpo, assinar uns papéis e tudo mais...

— Primeiro, Rachel, Samuel não era meu irmão. – Disse Lucie, começando a beber seu segundo copo. – Segundo, por que Connor não pode resolver isso? Ele que cuidou do Sam todo o tempo que ele passou no hospital!

— Olha... – Respondeu Rachel, enchendo um copo de tequila. – Eu sei como se sente... E se quiser, eu posso ir com você. Não são muitas horas de viagem daqui até Salt Lake City.

— Acho que a última pessoa que eu quero pra me acompanhar em qualquer coisa é você! – Lucie se levantou, preparada para ir embora, porém Rachel a segurou pelo braço.

— Lucie... Eu sinto muito!

— Você sente muito? Sério? Eu sinto mais! Porque você foi uma das pessoas mais especiais pra mim... O meu primeiro beijo foi com você... Eu te contava absolutamente tudo... Quando você me dizia que a gente ia ficar juntas para sempre era mentira? Porque sinceramente, até hoje eu não entendo porque você faz aquilo. Por que você ajudou aqueles garotos?

— Eu era uma criança, Lucie.

— Grande coisa, eu também era! E você sabia o quanto a borboleta escarlate era importante pra mim! Era minha motivação, minha esperança! E mesmo assim você não hesitou em contar tudo para eles!

Lucie começou a aumentar sua voz. Algumas pessoas que estavam no restaurante começaram a olhar as duas.

— Lucie... Podemos terminar essa conversa no seu apartamento? Lá eu vou te contar tudo, prometo.

Lucie fez uma cara de deboche, pegou a garrafa e saiu. Rachel pagou a conta e saiu logo atrás.

*****

Dia Atual

Já era madrugada quando a janela da casa de Lucie foi aberta. O intruso começou a caminhar lentamente pela casa, vasculhando algumas coisas. Ao subir até o quarto de Lucie, ele percebeu que ela não estava ali.

Mas isso não fazia diferença, ele caminhou até o criado-mudo e pegou o colar de Lucie. O barulho da porta principal sendo aberta o surpreendeu.

Lucie andava sem rumo pela casa. Quando entrou na sala de estar, uma pancada na sua cabeça a fez desmaiar. O intruso deu uma risada e saiu com o colar, deixando o corpo de Lucie caído no chão.

*****

— Claro que você pode dormir aqui... – Respondeu Abel, abrindo a porta totalmente e dando espaço para a garota passar.

Ela entrou e sentou-se no sofá. Abel sentou na poltrona do outro lado da sala. Os dois ficaram em silêncio por um bom tempo.

— Eu... – Lucie tentou falar algo, mas nenhuma palavra veio a sua boca. Abel se levantou e subiu as escadas.

— Vou preparar o quarto de hóspedes para você...

— Abel, é...

— Que foi? Eu estou deixando a sala inteira pra você procurar provas contra mim, já que eu sou um suspeito. O que mais você quer? – O garoto parou no meio das escadas, olhando fixamente para o chão. Ele parecia extremamente decepcionado.

Lucie deu suspiro breve, e então respondeu:

— Me desculpa... É que...

— Tá tudo bem Lucie... É claro que tá tudo bem. Eu sou mesmo um suspeito. Mas eu conheço mais alguém que conhece seus livros tão bem a ponto de fazer isso tudo: você.

Lucie franziu a testa: Abel estava mesmo suspeitando dela?

— O que? – Ela deu uma risada irônica. – Você não tá falando sério né?

— Claro que eu estou.

— Você não pode suspeitar de mim, eu--

— AH, EU NÃO POSSO SUSPEITAR DE VOCÊ? – Abel deu um murro na parede da escada, assustando Lucie, e começou a gritar. – MAS ENTÃO POR QUE VOCÊ PODE SUSPEITAR DE MIM? EIN?

— Abel, escuta, eu falei aquilo apenas por que--

— EU NÃO QUERO SABER LUCIE!

Lucie estava perplexa.

— Espera, você pode deixar eu te explicar?

— QUER SABER DE UMA COISA? É MELHOR VOCÊ IR EMBORA ANTES QUE EU CHAME A POLÍCIA!

Lucie deu um sorriso nervoso e olhou para baixo. Ela se virou, tentando segurar as lágrimas e começou a andar em direção a porta. Quando ela pegou na maçaneta, ela parou e ficou por alguns segundos ali, antes de se virar e voltar até o pé da escada.

— Quer saber Abel? Você não passa de um garoto fraco e impotente que não sabe se impor.

— O que disse?

— VOCÊ É UM BABACA! É ISSO QUE VOCÊ É!

— Ah, agora eu sou o babaca aqui?

— É sim!

— VOCÊ SABIA! VOCÊ SABIA O QUANTO ISSO IA ME MACHUCAR! E MESMO ASSIM VOCÊ FEZ!

— Você nem está deixando eu te explicar!

— POR QUE EU NÃO QUERO SABER! EU NÃO QUERO MAIS ME SENTIR ASSIM! VOCÊ SÓ SABE DESTRUIR TODO MUNDO À SUA VOLTA!

As lágrimas começaram a cair pelo rosto de Lucie. Mas não eram lágrimas de tristeza, e sim de raiva.

— Você tá certo Abel, eu só sei destruir todo mundo a minha volta. POR ISSO QUE EU DEVERIA DEIXAR ELE TE MATAR AMANHÃ!

— Que? Como assim?

—Se você tivesse me deixado falar você ia saber...

— Ah, sim, claro... – Balbuciou Abel, irônico.

— Quer saber, eu estou indo, curta bastante sua solidão.

— É melhor mesmo.

— Você é igual a ela...

Abel cruzou os braços e perguntou:

— Quem?

— Rachel. – Lucie respondeu friamente.

Ela caminhou até a porta e saiu, tentando secar as lágrimas no caminho.

Quando estava prestes a entrar em casa, uma mão a puxou.

— Senhora? – Josh perguntou, aparentemente preocupado. – Aconteceu algo? A senhora está chorando.

— Josh? O que você está fazendo aqui tão tarde? – A garota respondeu, sem graça.

— Josh esqueceu alguns itens no jardim, então Josh voltou para pegar...

Lucie deu sorriso falso. O jardineiro deve ter percebido, pois ele abriu os braços, claramente simbolizando um convite pra um abraço.

A garota o abraçou por alguns minutos.

— Josh?

— O que foi, senhora?

— Posso dormir na sua casa essa noite?