O Instinto do Professor de Dança

1 O Instinto do Professor de Dança


O Instinto do professor de dança

Em Londres, parecia que todos os caminhos levavam a um só lugar. Um bairro residencial bastante conhecido por todo cidadão, principalmente se ele ou ela estiver passando por algum problema específico demais para a Scotland Yard, simplório demais, como diria meu marido. Falando nele, é a causa para que o nosso bairro, mais especificamente ainda, a nossa casa fosse tão conhecida.

Entendam, eu poderia ter me casado com um advogado, como minha mãe queria; poderia ter me casado com um médico, como alguns sugeriram e até mesmo me casar com um professor. Contudo, eu escolhi algo um pouco mais inusitado que reúne todas essas profissões em uma só. Eu me casei com um detetive particular.

Não poderia mentir para mim mesma e dizer que é fácil, afinal cada dia é único e em alguns deles tenho vontade de atirar meu marido pelo Tâmisa. Já o ameacei inúmeras vezes, mas nada diminui o seu senso de “eu mesmo”. E embora a convivência seja marcada por palavras objetivas e incontroláveis ironias, é nesse caos irreparável que encontro sentido em amá-lo. De fato, que graça teria ser casada com Sherlock Holmes, ser a única que ele amou, se não fosse deveras estranho?

Essa excentricidade, no entanto, logo se transformou em rotina. Brigas mediadas por floretes, violino na madrugada, conhecidos dos mais sujos becos da Inglaterra, sons de tiros e perseguições sem fim, tudo isso se tornou normal. Ainda assim, conseguimos encontrar tempo para uma conversa branda frente à lareira e até mesmo atividades imorais.

Meus primeiros dias como a senhora Holmes foram os mais engraçados e cansativos possíveis. Meu carcereiro estava disposto a usar todos os métodos disponíveis para me lembrar de que nada mudaria na forma com a qual nos tratávamos. E dentre todas as possibilidades, a mais, eu diria... ousada, foi me ensinar a dançar.

Nunca fui uma boa bailarina e não sinto vergonha nisso, visto minha habilidade com armas. Entretanto, como meu marido gosta de me ver zangada, eu não tive escolha e fui obrigada a aprender a valsar ao menos... No dia em que ele propor o tango, será o fim do casamento.

Eu estava sentada no meu lugar favorito da sala. Frente à janela que dava para a rua, quando ouvi os passos leves de meu marido vindo para o andar de baixo. O silêncio só passaria a ser nosso amigo meses depois, enquanto isso, sentíamos a necessidade de falar e alfinetar um ao outro sempre que possível. Era e ainda é uma espécie de ritual em que eu ergo meus olhos de um livro e sorrio de lado para o meu marido, enquanto ele me encara.

─ Está tudo bem, Holmes? – ainda não me acostumara a chama-lo de Sherlock, aliás, até hoje ainda é um pouco estranho. – Vai dizer que eu deveria estar lavando pratos?

─ É claro que não, Bergerac. – no caso dele não era por dificuldade ou embaraço, mas pelo simples fato daquele já ter se tornado um apelido carinhoso. – Só estava lembrando que eu prometi algo a você e não cumpri.

─ De todas as promessas que me fez, Holmes, não sinto a falta do cumprimento de nenhuma. – respondi tornando a mirar meu livro.

─ Pois eu, ao contrário, me lembro de uma que ainda está em aberto. – comentou ele vindo em minha direção. – Deixe seu querido Poe de lado por um momento, Bergerac e levante-se. – pediu estendendo a mão para mim.

Ainda que magoada por ter minha leitura interrompida, o obedeci e me ergui, sendo imediatamente puxada mais para perto em seguida. Para quem se intitulava um misógino, Sherlock mostrou-se bastante acostumado ao contato físico naqueles primeiros dias, o que conseguia me deixar sem jeito, muitas vezes.

─ Eu prometi que a ensinaria a dançar. – disse com um sorriso esperto.

─ Ah sim, e eu me lembro de que uma vassoura estava envolvida nisso. – observei astutamente, já querendo me afastar. Contudo, as mãos que me prendiam eram fortes. – Holmes, minha mãe tinha ataques de raiva frequentes por tentar me ensinar. Permita-me poupá-lo disso.

─ Eu sempre cumpro minhas promessas, Anne. E não se preocupe, eu saberei conduzi-la melhor do que a finada Susanna.

─ Sempre tão confiante. – desdenhei sem conter uma risada. – Está certo então, mas se Watson voltar a tempo de me ver nessa situação, você está morto.

─ Já fiz mais visitas ao Tâmisa por sua causa do que sou capaz de contar. – lembrou ele referindo-se as vezes em que o ameacei de jogá-lo no dito rio, o que nos fez rir juntos.

─ E mesmo assim insisti em me chatear, como agora. O pomposo detetive não tem limites. – brinquei, sentindo uma leve tontura.

─ A sua língua faz com que eles inexistam. Ou espera que eu a deixe ganhar sempre? – indagou ele me trazendo mais para perto.

─ Seria o apropriado, afinal, como descobriu, eu estou sempre certa. – tornei a brincar sentindo uma leve pressão no meu eixo. – Mas você não deveria estar me ensinando a dançar?

E ele apenas fez um sinal de cabeça para que eu olhasse para o chão e sorriu. Estávamos dançando desde o início da discussão, ao que parecia. Céus... como ele conseguia? Quer dizer, não que nunca tenha feito eu me movimentar sem que eu percebesse antes. No início do caso Stanpleton, fez com que eu andasse meia quadra apenas mantendo o contato visual, segurando meu braço com força...

─ Engraçado, não é? Como você se move por instinto quando está comigo. – observou ele cheio de si.

─ Digamos apenas que, em certas ocasiões, a conversa fica tão interessante que não faz diferença se meu corpo está indo para frente ou para trás. – respondi dando de ombros, sem conter um sorriso de trégua.

Continuamos a dançar pela sala, até que me inclinei para beijá-lo. Foi quando Watson entrou, batendo a porta e nos assustando.

─ Perdão... parece que estou interrompendo uma lição de dança importante. – observou ele reprimindo um risinho por me ver corada.

─ De forma alguma. – respondi nervosa. – Vou ver a senhora Hudson lá em baixo, vocês fiquem à vontade. – acrescentei passando meus olhos de um para o outro.

Antes que eu descesse, Holmes me segurou pela mão e beijou-a, sorrindo para mim como se dissesse que novas oportunidades para dançar pela sala se tornariam frequentes, visto que Watson se mudaria para junto de Mary em poucas semanas. Em resposta, revirei os olhos com descrença, mas sorrindo e segui para o andar de baixo... Holmes é mesmo impossível.

Notas finais
Bem, enquanto a terceira fic não chega... vamos matando a saudade. Espero que gostem, deixem reviews para que eu saiba. Bjooos!

P.S: Anne aprendendo a dançar... quem diria...
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!