O Instinto
6 The shadows go down...
Notas iniciais
SEIS:
“... and it’s all in her head.”
Do abajur provinha luz. Dessa luz, saiu tudo: os contornos e os recheios, as ideias e as formas. Os elementos foram-te preenchendo a retina até que os desenhos, antes todos em tua mente, tomassem projeção no mundo externo.
Não percebi nada disto, claro. Estava virado para um lado, sabe lá Deus se adormecido ou acordado, e então me batucasses as costas.
“Davi, Davi, Davi!”
Foi assim que terminei olhando no castanho de teus olhos. Foi assim que eles terminaram olhando no castanho dos meus também.
“Davi, acho que estou enxergando!”
Tocas meu rosto com mãos molhadas — molhadas de lágrimas —, reencontrando cada feição pela qual um dia te apaixonastes. Os olhos meio caídos, o nariz meio comprido, os lábios meio ressequidos. Corres um dedo por eles. “Eu tinha me esquecido como você é bonito!”
Ainda não sei se acredito.
“Mas você não via nada há umas horas atrás!” Estalas a língua, fazendo pouco de minha desconfiança.
“E ainda não vejo quase nada... Só vultos. Mas o seu rosto eu conheço de qualquer jeito!” Afagas o rosto em meu peito, cobrindo-o de carícias. “Eu sou uma mulher apaixonada.”
Fim.
...
Querido Davi,
Espero que não se importe com a liberdade poética que exerci para escrever seus pensamentos. Depois de meses observando cada movimento seu, senti-me pronta para representá-lo. Se não foi suficiente... Bem, tantas coisas não são suficientes! Eu mesma pareço não ter sido suficiente para você.
Quando você terminou comigo... Ah, que dor foi! Eu tinha acabado de recuperar minha visão, em uma cena tão parecida com a que descrevi acima. O único momento real em seis capítulos de pura ficção... Quando renasci nos seus braços. E eu juro que ouvi um pouquinho de felicidade em sua voz!
Mas essa alegria não pode ter durado muito, se você logo me abandonou! Comecei a pensar então quando falhei... Fora eu muito fácil? Escrevi você me colocando no mais alto dos pedestais como uma mulher superior, a qual você nunca poderia alcançar. Fora eu muito fiel? Escrevi você decepcionado com a forma cruel que eu te traíra, com dezenas de homens diferentes. Fora eu muito pura? Escrevi você enlouquecido com o jeito que eu te tocava, te chupava, te fodia. Até uma orgia cheguei a sugerir! Que depravada eu me fiz ser!
Assim eu nunca fui, e talvez você seja um dos únicos a saber. Não importa que a imprensa diga o contrário. Apenas eu tenho noção do quão romântica, doce — pura! — posso ser. Deixei que você conhecesse cada uma de minhas facetas, algumas com maior ou menor relutância, na esperança de que não acreditasse que sou vazia ou fútil. Você entendeu a mensagem, mas não foi suficiente.
Eu sei que você me traiu. Essa também é um dos poucos fatos verdadeiros aqui relatados. Não houve nada mais verdadeiro que sua traição. Irônico, não?
A realidade é que não sou a mulher que eu desejo ser. Sou só uma mulher apaixonada, afinal, e como tal ainda nutro esperança.
Eu sei que você vai se cansar dela. Nem tente negar! Eu te conheço antes dela. Ela conhece Davi Reis: o homem trabalhador, o homem dedicado, o homem maravilhoso. E eu? Ah, querido, eu conheço o Golias: o ser revoltado, o ser problemático, o ser instável. O que Manuela Yanes faria se entrasse em contato com sua outra metade? Os seus maiores podres já decorei de cor. Posso fazer uma lista com todos os seus defeitos. Ela não seria capaz de citar um ou dois.
Anteontem: “Sinto sua falta”. Ontem, ligou para dizer que estivera ouvindo Daft Punk e lembrara-se de mim. Qual será o acontecimento de hoje? Quantos pequenos instantes são necessários para reconstruir uma relação que você próprio destruiu?
Não sei se vou te mandar essa carta. Se recebê-la em mãos, saberá então que não me acovardei. Caso eu a mantenha para mim, no entanto, esta será mais uma das muitas epístolas que escrevi na esperança de comunicar-me com o maldito homem que ainda amo. Nada realmente novo em minha trajetória recente.
Já a história... Ah, ela me parece um pouco surpreendente. Nunca fui versada em literatura, mas creio que essa foi uma tentativa válida. Talvez uma pequena ampliação aqui e acolá e estará pronta para ser publicada! Seria este o tal caminho que meu grandpa insistia que eu descobrisse para mim? Se eu me tornar escritora, serei mais respeitada? Não faço ideia, mas vou tentar.
Quando você pegar o conto escrito em segunda pessoa e com linguagem difícil de entender, perceberá exatamente a mulher que perdeu. Se estará cedo ou tarde demais para você, a decisão será minha e somente minha. Até lá, boa sorte com sua vidinha.
Yours,
Megan Lily.
São Francisco,
06/01/2015.
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