O Instinto
4 Como Madame Bovary
Notas iniciais
QUATRO:
... todos tenemos um amante por ahí.
“Você acha que Capitu traiu Bentinho?” [1]
É ilusão ou estás a mencionar literatura brasileira? Encaro-te. Por algum motivo, teu rosto parece-me meio tensionado, ainda que um discreto biquinho indique reflexão.
“Por que a pergunta?” abordo com cuidado. Um suspiro.
“Não sei.” Começas a mordiscar as unhas. “Sempre achei que ela amava Bentinho.”
Assim como disseste me amar?
***
Tudo que tu dirias se não tivesses a boca colada na minha: [2]
"Eu sou sua puta, sua cachorra — e não, não vem dizer que me ama. Amor eu já tive demais. Cansei de amor. Quero mais. Quero sentar no teu colo e te beijar como uma vadia. Quero ficar excitada só de tocar na sua boca. Quero gemer alto só de roçar na sua língua. Quero me molhar toda só de sugar o seu lábio. Esqueça que estou cega. Para de achar que é o meu pai. Que coisa chata! Aperta logo a minha bunda, porra, e para de dizer que eu sou linda: me chama de gostosa. Faz eu me sentir a mulher mais maravilhosa. Geme baixinho enquanto eu mordo o seu ombro. Sussurra no meu ouvido enquanto eu chupo o seu pescoço. Diz que estava com saudade de me pegar desse jeito. Aí você pergunta: o que eu te dou em troca? Eu te dou tudo, eu te dou meu corpo inteiro pra você judiar dele e me fazer sofrer muito, muito, muito. Já te dei até meu orgulho pra você pisar, mas isso não faço mais. E eu disse que não queria saber de amor, mas já mudei de ideia. Tá me ouvindo?"
O beijo acaba.
"Eu acho que te amo, Davi Reis."
***
Agora é minha vez.
“Eu só sei que Bentinho com certeza amava Capitu.” Pode haver argumento mais forte que este?
Piscas de um jeito meio estranho. “Você acha?”
Não posso aceitar que duvides disto. Se nem o amor de Bentinho é uma certeza, o que mais resta? Agitado estou. Os pés batucam sem controle sobre o colchão. “Mas ele largou o seminário por ela!"
Por que soltaste esse risinho? Por que me debochas?
“E isso foi sacrifício? Bentinho apenas juntou o útil ao agradável.”
Fico calado por um instante. Os olhos coçam.
“Mas ele a amava. Eu tenho certeza.”
Assim como eu digo te amar?
***
Um fiapo de voz escapa-te da garganta e vai-se enrolar no ar.
“Para de me provocar!”
Provocar? Quem, eu? Eu não, senhorita! Sou um menino bom, boníssimo. Envergonhado estou de que aches isto de mim! Por tua acusação injusta irei parar. Duvidas? Pronto, parei! O que achas? “Me come, Davi...” Ah, que gemido gostoso... Mas ainda não sei se obedeço. As mãos nos joelhos; o nariz nas coxas; parece-me meio bom demais assim, não concordas? “Cachorro...” Mais? “Putinho...” Sim, só para você. “Filho da puta...” Não, não, não...
“Você não pode me tratar assim e querer algo em troca, Megan Lily.”
Dedo em meu queixo. “Eu posso exigir o que eu bem entender de você, garoto.” Fazes bem então em exigir. Vá lá! Podes me ordenar. “Me chupa. Agora!”
“Me obriga,” eu digo. Ah é? Tu pegas nos meus cabelos. Tornam-se arreios para ti, e com eles vai me guiando até que eu nada possa cheirar ou degustar ou sentir senão tua carne. Se ainda posso respirar, fazes questão de sufocar-me com os quadris. É, tuas pernas agora são minha prisão. Não me importo. O que mais desejo é te venerar. Pense nesse pobre homem como... Um escravo! Um objeto — sim, amor, podes sentar na minha cara, não tenhas pena de mim — o qual usas para teu prazer, e depois — porra, eu vou enfiar essa língua na tua boceta como se estivesse te fodendo — jogas fora. Acabou. Au revoir.
Amor, posso te pedir uma coisa? Podes mexer teus quadris assim, para cima e para baixo, assim como faço quando me chupas? Ah, Deus... "É disso que você gosta, naughty boy?" Sim, sim, sim... "Que eu rebole na sua cara?" Por favor! "Safado... Pede pra mim, pede?" Pedir não, eu imploro! "Fode a minha cara, Megan, por favor..."
Um fiapo de voz escapa-te da garganta e vai-se enrolar no ar.
"Jamais pare de me provocar, Davi Reis."
***
“Em relação a Madame Bovary," tu concluis "não há dúvida. Ela certamente traiu." [3]
Há uma última tentativa de defesa?
“O marido dela também a amou," disparo. Sim, que exemplo infalível!
Na verdade, nem tanto.
“É,” tu concordas. Respiro mais leve. Contudo, logo volta o brilho felino nos teus olhos, e eu sei que terminou minha vitória. Meio travessa, meio amarga, continuas. "Mas ele não foi homem suficiente para satisfazê-la.”
A mulher insatisfeita de quem falas é Emma Bovary ou de Megan Lily?
***
"O que tem no celular?"
"Veja por si próprio, querido."
...
"Que vídeos são esses?"
"Assista a cada um deles, amor."
...
"Mas que porra é essa?!"
"Que boca suja, menino."
...
"Que homens são esses?!"
"Meus amantes, Davi."
...
"Gosta do que vê, Davi?"
Silêncio.
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