O Infinito de Joseph Weeks
10 O Problema de Joseph Weeks
Notas iniciais
Do nada Dr. Ryan apareceu no quarto. Virei minha cabeça e encontrei uma expressão completamente confusa em seu rosto: uma mistura de alívio + nervosismo + medo de falar algo + incomodado com a cena em família do ambiente.
— Oi? Parou no tempo, Dr. Ryan? — Aproximei-me e movi minha mão na frente de seu rosto. Logo ele piscou três vezes e voltou à realidade.
— Não, eu estou vivo ainda, obrigado por perguntar.
“Médico arrogante, ainda vou arrancar esse cérebro de caralho junto com seu cabelo sem vida e colocar uma azeitona no lugar”, pensei comigo mesmo. Incrível como meus próprios pensamentos me causam risadas.
— Ryan, eu te peço para que não confronte meu filho desse jeito. Não é legal e acabou me ofendendo também, obrigado por imaginar isso.
“Vida longa pra você, Ryan Hudson! Quero que veja minha vitória, sinta seu recalque batendo e voltando”, ironizei mentalmente. Dessa vez consegui controlar meu riso. Fiquei normal pelo segundo seguinte, até que percebi o que Adam havia dito.
Como assim, ele havia me defendido de um médico que acima de tudo era seu amigo de longa data? Depois que eu digo que a minha vida nunca foi normal depois de ser adotado, aí Darren Thomas não acredita. Quero só ver ele duvidar depois disso.
— Enfim… — O médico ignorou o comentário defensor do paciente deitado e analisou seus prontuários. — Tenho duas notícias para vocês dois. Uma delas não é muito animadora.
“Jesus, eu vou morrer. Acho que é isso. Tenho alguma doença terminal relacionada ao estômago ou algo do tipo, só pode.”
— Então começa com a mais animadora. — Falei. Percebi também que Adam riu na hora.
— Adam Morgan, você ainda vai ter de ficar em observação hoje, mas amanhã de manhã já poderá ir para casa.
— Que bom, Ryan. Obrigado por dizer.
— Por favor, me chame de Dr. Ryan. — “A partir deste minuto, eu decreto que odeio Ryan Hudson eternamente”, pensei outra vez. — E, Joseph Weeks…
— É Joe para você. — Corrigi novamente, mostrando que ele não é o único que dá as cartas por aqui. Joe Weeks chegou na área, bitches.
— Joe… Recebi os resultados de seus exames. E eu simplesmente não sei como vou dizer isso para você.
Afastei-me da frente do Ryan (nessa bagaça de cérebro que tenho, eu o chamo como quiser) e segurei a mão esquerda de Adam, apertando-a fortemente em seguida. Eu não estava preparado para o que poderia vir a seguir.
E então ele apenas disse que deu uma infecção de várias semanas no meu estômago e que eu logo ficaria bem, precisando apenas de alguns remédios diários para sarar. Gritei de felicidade e abracei o Morgan ao meu lado, depois saindo pelo recinto, abraçando Ryan Hudson – sério que EU fiz isso? – e depois me ajoelhando em agradecimento.
Na verdade, seria até menos mal se o que imaginei acima realmente acontecesse, porque o que houve na realidade foi algo completamente diferente do descrito.
— Você… — Dava pra perceber que o médico estava se segurando para não tomar as dores. Se bem que ele é arrogante mesmo. — tem… — Segurando-se para não falar besteira, o medo dele acabou sendo transmitido para mim. — …um câncer no intestino delgado e no estômago.
Não consegui esboçar uma única reação enquanto estava na frente do Doutor-Arrogante-Impiedoso-Egoísta Ryan Hudson e Adam. Apenas exclamei um breve e baixo “Oh” enquanto meu pai adotivo parecia entrar em pânico total com a notícia. Veja o detalhe; não é ele o doente da vez, e sim eu. As reações deveriam ter sido inversas: eu em pânico e ele calmo. Porra, por que minha vida tem que ser completamente ao contrário?
.::.
Depois da notícia drástica que não fez a minha ficha cair de imediato, voltei para casa com Lucy sem falar sobre o ocorrido. Ficamos calados até que, quando chegamos ao estacionamento do prédio, a loira deixou o carro no lugar certo, encostou-se nas costas do banco de motorista e quase arrancou os cabelos.
— OK, Joe, esse silêncio está me matando. O que houve com você e Adam naquele quarto de hospital hoje mais cedo?
— Eu não quero falar sobre esse assunto por enquanto.
— Vou continuar insistindo e você sabe disso.
— Eu não sei se consigo falar sobre isso, Lucy. Você não entende a minha situação? — Soltei meu cinto. — Estou numa situação de risco e Adam também. É algo que exige muita coragem para ser colocado pra fora.
Saímos do carro, pegamos o elevador sem falar mais nada e depois entramos no apartamento onde vivo. Ela largou as chaves na cozinha e praticamente se jogou no sofá. Fui junto e larguei meu corpo ao lado dela também.
Somente depois de alguns segundos de puro silêncio eu resolvi falar.
— Eu tenho câncer em duas partes do corpo, Lucy.
Virei-me para ver sua reação. Lucy Morgan estava parada, olhando para o nada e seus olhos estavam quase saindo para fora de suas órbitas, enquanto sua respiração acelerava ainda mais.
— Você está bem? — Fiz a pergunta mais estúpida da face do planeta. “É claro que ela não está bem, seu idiota! Não vê que está quase surtando mentalmente?”, pensei.
— Não sei dizer. — Balançou levemente a cabeça, como se quisesse esquecer algo. — Adam com problemas de mutilação e internado num hospital. Eu com um bloqueio criativo. Você com uma doença terminal. Meus pais enfrentando uma crise no casamento depois de anos esbanjando felicidade. Isso não…
— Por favor, não complete essa frase. — Interrompi-a. Não queria que dissesse “Isso não tem como ficar pior”. — Boatos por aí explicam que se a pessoa proferir isso em voz alta, acaba piorando.
— Incrível como você consegue me fazer rir em horas difíceis.
— Aprendi a usar meu lado mais leve para deixar os problemas menos pesados. — Sorri timidamente.
O telefone fixo tocou bem na hora, e eu fiz sinal de que atenderia o telefonema. Dirigi-me até onde o mesmo estava e o atendi.
— Alô?
— Sabia que você atenderia, Weeks.
— Darren Thomas?
— O próprio.
— Por quê está ligando para mim?
— Só queria saber como você está. É difícil encontrar algo para fazer quando a Alison está ocupada.
— Quer mesmo que eu seja sincero?
— Agora fiquei com medo. — Deu para ouvir sua respiração ofegante. — Foram aqueles exames, não é? Eles deram algum resultado desastroso?
— Sim, eles deram. Mas isso é algo que eu não posso falar por telefone.
— Então vem aqui no orfanato conversar comigo. Talvez você só precise de um psicólogo grátis para te ajudar.
— Tá bem, vou ver se consigo ir aí ainda hoje. Tchau, idiota.
— Até mais, seu lesado.
— Cale-se, inocente. — E então desliguei o telefone.
Perguntei para Lucy Morgan se ela poderia me levar ao orfanato para que pudesse conversar com o Darren Thomas. Ela permitiu, sabendo de suas habilidades como psicólogo; e ainda se prontificou a me levar até lá. Andamos até o elevador do bloco, e quando eu entro, encontro alguém muito parecido com…
— Rachel Smith?
— Joseph Weeks. Bom te ver também. — O elevador se fechou neste instante. Lucy fingia não prestar atenção em nós.
— Mora aqui no prédio?
— Não, é que meus pais são separados e eu vim visitar o meu pai. Mas foi desnecessário vir, ele estava ocupado demais com seus negócios de advocacia.
— É chato quando nossos pais não se importam conosco.
— É. — Revirou os olhos pelo ambiente, querendo encontrar outro assunto. — Mas e quanto a você? Seu pai se importa contigo?
— Mais do que você imagina, Rachel.
— Por favor, me chame apenas de Rach.
— Tudo bem… Rach. Meu pai adotivo, como eu havia te dito antes, é bastante atencioso. Mas nos últimos dias eu é que tenho de dar atenção a ele.
— Por quê?
— Ele tem alguns problemas de saúde. E eu também descobri ter uma doença terminal hoje mais cedo.
— Nossa… Que tipo de doença você tem?
— Era uma espécie de câncer nos pulmões que resolveu migrar para o estômago. É como se fosse uma… — Rach me interrompeu.
— Metástase. Como o câncer de Hazel Grace.
— Também conhece a história dela?
— Fico fascinada com histórias de drama com tragédia. Como um prazer vergonhoso. Mas, enfim… O que você vai fazer agora? Tipo, sabendo que tem duas bombas-relógio dentro de você que podem explodir quando bem entenderem?
— Não sei. Eu ainda não pensei nisso. Quero apenas focar no fato de que quero terminar o meu dia como se não houvesse nenhum problema comigo.
Nesse momento, o elevador parou no térreo, e nós três saímos do mesmo.
— Precisa de carona, Rachel? — A mais velha perguntou.
— Não precisa, eu vou de táxi. Meu pai não sabe que eu sei a senha de seu cofre.
— Bonita, mas não burra. Gostei. — Ironizei, causando breves risos no ambiente. — Nos vemos por aí, então.
— Até mais, Weeks.
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— Joe, querido! O que faz por aqui? — “Tia” Ali me recebeu de braços abertos quando passei pela porta do orfanato novamente. Retribuí o gesto, partindo para um abraço com ela.
— Oi, Ali. Vim só conversar com o Darren mesmo, nos falamos por telefone mais cedo.
— Como ele falou com você por telefone?
— Eu pensei que… — Logo assimilei: ele invadiu o escritório. Aprendeu comigo, que emoção! — Deixa que eu resolvo essa parte. Posso ir no quarto dele?
— Claro que pode! Eu sei o quanto vocês são amigos.
Afastei-me dela e de Lucy, que ficou conversando com a '‘chefa’'. Bati em sua porta duas vezes e depois abri, encontrando um Darren Thomas roncando alto pra caramba.
— Não acredito que você vai me receber desse jeito. — Falei, de uma forma audível que o fez acordar.
— Joe Weeks. Sabia que você viria.
— Mas eu não sabia que você tinha invadido o escritório da Alison só para falar comigo. Pilantra.
— Fazer o quê se aprendi com você?
— Pelo menos coloque os créditos originais no final! — O abracei e depois nos sentamos na cama.
— Então… Qual foi o resultado dos exames?
— Espero que você esteja preparado. Quando eu recebi a notícia, meu mundo caiu. — Respirei fundo, expirei, fechei os olhos e contei até três. — Eu descobri que tenho um câncer e uma metástase.
— Oh, meu Deus. — Ele levou suas mãos à boca, em sinal de surpresa. — Não vou mentir pra você: estou muito assustado agora.
— Todos aqueles vômitos, as vezes em que senti tonturas e falta de ar… Sempre achando que era uma crise de asma. — Baixei minha cabeça.
— Você não sente vontade de colocar tudo pra fora? Quero dizer, sem ser a comida, gostaria de desabafar? Sabe que eu não sou de escutar, mas é bom para você assimilar os últimos acontecimentos.
Deitei-me em um dos lados da cama e o mais novo no lado restante. Estávamos repetindo a velha cena de desabafo que fazíamos antes.
— Meu pai adotivo corta os próprios braços e pulsos por causa da ex-mulher morta. Eu vomito quase todos os dias e sinto que vou morrer a cada vez que minha respiração fica mais difícil. Não consigo encontrar meu lugar no mundo.
— Eu também não consigo encontrar.
— Mas o meu caso é diferente. Tem um planeta inteiro lá fora que espera por mim, e a única coisa que falta para mim é… — Lágrimas teimosas insistiram tanto que saíram de meus olhos. — Viver. — Rendi-me ao choro como nunca. — Minha vida é uma porcaria! Uma merda total!
— Joe, sua vida não é uma porcaria nem nada disso.
— É sim, Darren! O universo sempre está conspirando contra mim! Não consigo viver normalmente, feliz e com um pai que me ama. Eu ainda não disse que o amo, mesmo sabendo que tenho toda a liberdade de fazer isso! Minha vida É uma porcaria!
Pela primeira vez em todos os meus 15 anos, estava chorando numa mistura de muitos sentimentos. Raiva, frustração, tristeza e insatisfação com tudo o que vinha acontecendo à minha volta.
Morrer parecia uma ideia agradável diante das minhas doenças terminais.
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