O Infinito de Joseph Weeks

12 "Morrer é a Melhor Solução" - Joseph Weeks


Notas iniciais
O título já deu medo em vocês mesmo, então não há o que dizer. Apenas... boa leitura e falem da fic para todos que conhecem. Estou doente por falta de comentários :'(

De repente, ouvi pequenos burburinhos vindos do outro lado da porta. Como eu ainda estava na cadeira de rodas, optei por conduzi-la até a coisa de madeira e ver, disfarçadamente, o que estava havendo. Abri a porta de leve, deixando apenas metade da minha cabeça para fora. Com um olho, percebi que os barulhinhos vinham de Adam e Lucy. Ele estava chorando novamente – uma cena difícil de se ver para mim – enquanto ela o consolava e parecia acalmá-lo com palavras. Atentei-me ao que estava sendo dito, e me arrependi segundos depois.

— Por que a vida tem que ser tão injusta logo comigo, Lucy? — Adam repetia a cada cinco segundos, me deixando ainda mais confuso se a culpa de ele falar isso era minha ou da Dianna Morgan.

— Adam, para de dizer isso. Você sabe que não é sua culpa. — A loira acariciava os cabelos do irmão.

— Claro que é. Todo mundo tinha uma vida normal. Dianna era feliz, eu era feliz, você vivia muito bem e o Joe não tinha a mim em sua vida. Bastou a minha existência para que tudo acontecesse: a morte dela e do meu bebê, a rejeição que você sofre do pai, o câncer em dose dupla do Weeks… É tudo culpa minha, Lucy! — Lágrimas insistiam em escorrer de seus olhos.

Como eu podia fazer alguém sofrer tanto por minha causa?

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Passei a noite em claro, rebobinando em minha mente aquela cena. Adam culpava a si mesmo por algo que aconteceu nas pessoas à volta, e eu estava incluído nisso. Claro que a culpa não era realmente dele, foi só a vida injusta que puniu as pessoas que ele tanto ama ou amou justamente no momento em que elas (e eu) conviveram com o Morgan. “Para de falar esse sobrenome, criatura. Você odeia o nome Morgan eternamente”, foi meu único pensamento avulso e irônico em meio a milhares de perguntas que fiz a mim mesmo e a Deus naquela mesma noite.

Ainda vivi várias outras noites como aquela nos dias que se passaram, enquanto eu sofria com as consequências da quimioterapia e me alegrava com a imagem da Srtª Holiday me dando aulas online enquanto eu estava no hospital. De início, eu rejeitei a ideia; não queria ser um peso na vida dela. Mas agora, tenho até o prazer de chamá-la apenas de Lauren enquanto conversamos sobre a diferença que a crise econômica de 1929 fez ou está fazendo na minha vida atualmente. De vez em quando, até mesmo a própria Rachel Smith entra nas aulas para que eu realmente me sentisse em uma sala escolar. Ela fazia isso interrompendo a professora para corrigir algo que ela tenha dito errado e que eu nunca teria alterado. É, certas pessoas não mudam mesmo.

Lembra dos meus vômitos recorrentes? Antes eles ocorriam devido ao efeito que o câncer fazia nas regiões afetadas. Então, eles ainda acontecem; mas pelo menos não é sem motivo: o Dr. Recalque Hudson explicou que tudo não passa das consequências do tratamento. Continua sendo culpa da doença, em parte.

Depois de mais uma noite em claro relembrando todos aqueles pensamentos de culpa, finalmente havia chegado o dia em que eu poderia ir para casa. Ou melhor, a noite em que eu iria para casa. E não, a quimioterapia não terminou, mas eu acho que Ryan cansou de olhar para a minha cara de quem rebate a inveja dos outros e disse que eu poderia ficar em observação no meu próprio lar.

— Está pronto, Joe? — Adam entrou em meu quarto, com minhas coisas já em mãos.

— Pronto para sair deste confinamento digno de Big Brother e voltar para o aconchego da minha cama? Você ainda pergunta, Adam? — Ironizei, fazendo-o rir vagamente. Depois daquela cena de choro, eram raras as vezes em que ele sorria. — Brincadeirinha. Vamos logo.

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— Chegamos. Lar, doce lar. — Meu pai adotivo se pronunciou, quando enfim estacionou o carro na vaga do prédio. — Chega de comida hospitalar, não é?

— Espero nunca mais olhar para aquele lixo em forma de “alimentação saudável para vítimas do câncer”. — Falei, logo abrindo a porta do carro e descendo do mesmo.

Fechei a porta, assim como ele; e logo entramos no apartamento. Lá, me deparei com Lucy e Rachel Smith (também não entendi essa parte) segurando uma faixa escrita “Bem-vindo de volta, JOE Weeks”, com um bolo de cenoura em cima da mesa de jantar na cozinha.

— Sério? Tudo isso porque o tratamento vem reagindo o bastante para eu voltar pra casa?

— Teríamos feito melhor, mas esses dois aí… — Rachel apontou para os irmãos Morgan. — …Não se decidiam no que fariam para a sua volta.

— Obrigado mesmo assim. — Agradeci, e logo nós quatro devoramos o bolo inteiro em menos de 1 hora.

Conversamos sobre diversas coisas nesse meio tempo. Senti-me como o Charlie de “As Vantagens de Ser Invisível” depois de sair do hospital, quando a família dele agiu como se os dias turbulentos de sua vida não tivessem existido. Nenhum dos três tocou no assunto do câncer, o que foi bom para mim, já que eu não aguentava mais falar sobre isso. Senti algumas dores na barriga, mas achei que fosse devido aos ataques de risadas e ao bolo que havia comido; assim, não dei tanta importância a isso.

— Joe, acha que consegue ir para a escola amanhã? — Lucy perguntou, tirando-me do transe mental. Já eram 22h, e Rachel já tinha ido para casa.

— Posso tentar. Se amanhã eu estiver melhor do que hoje, e se o Adam permitir… — Falei.

— Só se você melhorar, mocinho. — Ele respondeu.

— Ótimo. Porque, se você quiser ir, terá de se jogar na cama agora. Está tarde. — A loira advertiu, fazendo cara de mandona.

— Tudo bem, “tia”. Vou dormir agora. Boa noite a todos vocês. — Eu disse, saindo do sofá e indo para o meu quarto.

Troquei de roupa, apaguei as luzes, liguei o alarme e já estava pronto para me deliciar na maravilhosa cama, até que…

— Preciso vomitar. — Afirmei para mim mesmo, e saí correndo para o banheiro.

Tranquei a porta, e em questão de milissegundos eu já estava despejando toda a comida no receptor de necessidades humanas de quase todos os tipos – vulgo vaso sanitário. E por algum motivo que meu cérebro não teve a chance de investigar, comecei a chorar. Lágrimas iniciaram o seu trabalho de sair dos meus olhos, enquanto eu me lembrava de tudo que havia ocorrido de ruim na minha vida nos últimos tempos. Lembrei-me da época em que vomitava sem saber do que se tratava. Dos ataques de mutilação que o Adam fazia em si mesmo, e eu tive de ajudá-lo. De quando a Lucy me contou sobre Dianna Morgan. Das idas e vindas ao hospital, que resultaram em um câncer duplo. Dos inúmeros dias em que passei deitado em uma cama dura daquele quarto claustrofóbico.

— Seria melhor se eu não tivesse descoberto sobre isso. — Sussurrei.

— Joe, você está bem? — Adam gritou, do outro lado da porta.

Não respondi. Não queria responder. Não queria ser um incômodo na vida dele outra vez. Ele precisava viver a própria vida sem estar rodeado de tristezas consecutivas.

— Seria melhor se eu tivesse morrido quando fui abandonado! — Gritei o mais alto que pude. E finalmente me lembrei das lâminas de vidro que escondi de meu pai adotivo após o último ataque que quase resultou em sua morte.

— Se eu morrer, você será feliz, Adam. Acredite em mim. — Afirmei com a maior das certezas, e pude ouvir a respiração dele acelerando, ainda que a consideráveis metros de distância e uma porta entre nós.

— Joe, não faz isso. Você é meu filho!

— MAS VOCÊ NÃO MERECE SER MEU PAI! — Vociferei, já com uma lâmina em mãos e os olhos inundados de lágrimas. — Me desculpe por tudo, Adam, mas morrer é a melhor solução.

E então comecei a rasgar meus pulsos com o vidro. Enquanto o sangue começava a jorrar de onde eu havia cortado, o mais velho tentava abrir a porta, sem sucesso. Pude ouvir Lucy chamando uma ambulância do outro lado da porta. Os dois estavam chorando. Forcei a lâmina contra minha pele, o que provocou cortes mais profundos e uma dor intensa, a qual eu sabia que iria parar depois que eu morresse.

De repente, tudo começou a ficar turvo. As dores se agravaram, o sangue percorria todo o chão do banheiro, mas eu controlei meus gritos. Não queria que fosse algo sofrido. Eu queria morrer por minhas próprias escolhas.

Morrer é a melhor solução.” Foi meu último pensamento antes de apagar. De vez.

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Finalmente abri meus olhos, dando passagem para uma enorme claridade de cor branca invadir meu campo de visão. “Eu morri, não sou mais um problema na Terra. O Adam agora pode viver feliz, sem ter um peso como eu em sua vida. Ele já sofreu demais com a Dianna”, esses foram apenas alguns dos meus pensamentos mais anormais enquanto eu tentava distinguir as coisas que haviam no ambiente branco. Infelizmente, uma voz conhecida me tirou do pensamento de morte.

— Esquina que te viu, Joseph Weeks, você quer me matar do coração? De novo?

Pisquei os olhos três vezes para ver se aquilo era realmente verdade. “Tenho duas alternativas: ou eu morri e depois o Darren Thomas veio junto, ou eu ainda estou vivo e ele veio me visitar com todos os xingamentos possíveis na boca.” Obviamente, era a segunda opção.

— Oi pra você também, Darren.

— Nada de “oi”. — O mais novo deu um tapa na minha cara. Era impressão minha ou ele havia ficado mais hábil nesse quesito? — Já não basta o câncer duplo que você tem, ainda se achou no direito de tentar se matar! Tem algum juízo restando nesse seu cérebro de araque?

— Se você entendesse o meu lado… — Ainda tentei me justificar, mas a própria Alison Knight – em carne, osso e roupas – surgiu de algum guarda-roupa vindo do reino de Nárnia para defender o Darren.

— Nenhum problema deste mundo é o suficiente para uma tentativa de suicídio, Joe. Você realmente não entende a gravidade da situação? Tive que deixar a Chloe tomando conta do orfanato e ainda passar por cima do cadáver dela para trazer seu amigo especial.

— Sério, a Chloe? Achei que você fosse a “dona” daquele lugar. — Ironizei, como se nas últimas horas não tivesse acontecido toda a coisa dos cortes. — Espera… Pensei que você já tinha pedido demissão de lá.

— Oi? — Darren ficou sem entender.

— Joe, isso era pra ser um segredo absoluto. — Ali sussurrou, de um modo que até os passarinhos do lado de fora ouviriam.

— Enfim… — Voltei a falar. — Eu só não queria ser mais um peso na vida do Adam, sabe.

— Mas por que você acha isso? — A mais velha interrogou.

— Eu ouvi ele dizendo para Lucy que todas as pessoas à volta dele nunca são totalmente felizes. Sabe, a coisa com os pais dele, a ex-esposa, a própria irmã… E agora eu.

— Cara, você devia ter me dito isso antes. Eu jurei a você que me vingaria do Morgan se ele fizesse algo contra você.

— Ele não fez nada, Darren. Eu fiz. Entrei na vida dele e a estraguei mais ainda.

— Tudo bem… — “Tia” Ali pressionou seus dedos contra a cabeça e respirou fundo. — Eu vou falar com ele e depois volto.

O garoto ficou olhando para a mais velha; quando ela finalmente saiu, ele se virou para mim com aquela cara de “a curiosidade tá me matando, fala logo ou eu não responderei pelos meus próximos atos” e perguntou:

— Agora você vai contar exatamente essa história da Alison se demitir.

— Darren, o Doutor Recalque Hudson vai chegar daqui a pouco. Depois eu te explico.

— Não importa o quão doente você esteja. Se esse assunto for interferir na minha vida, conte logo os mínimos detalhes.

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Alguns minutos depois de eu ter contado toda a coisa da “Tia” Ali para o Thomas, o Dr. Ryan chegou com Adam e disse que eu teria de ficar para fazer mais uns exames e, consequentemente, receber mais um coquetel de remédios. “Que vida a minha, tentei me matar e ganho quimioterapia”, ironizei mentalmente. Passei por todo aquele processo novamente – nada que eu já não tenha enfrentado até aquele momento – e acabei ficando no hospital até o amanhecer, quando eu saí daquela espécie de Big Brother da vida real para a civilização com o braço inteiramente enfaixado e uma leve tontura, que também é resultado do tratamento normal.

— Nunca mais faça isso de novo, Joe. — Meu pai adotivo falou para mim, enquanto voltávamos de carro para casa.

— Não posso garantir. — Brinquei.

— Joseph Weeks… — Sua voz engrossou, mais do que o normal.

— Tá, não vou tocar naquelas lâminas de novo. Mas…

— Lá vem.

— Você também não pode mais se cortar de novo. Fará isso por mim?

— É como um distúrbio, filho, eu… — Lancei um olhar maldoso para ele, que mesmo não olhando diretamente, notou a gravidade da promessa e rapidamente mudou de opinião. — Tudo bem. Quando chegarmos em casa, vamos jogar aquele vidro num lugar bem longe de nós.

— Vai ser o recomeço das nossas vidas. — Falei, esperançoso com o que poderia vir.

— Talvez possa. Ainda tem o seu câncer duplo.

— Tá, tirando isso… Vamos viver o presente. Porque, afinal de contas, o passado é a folha anterior. Vamos escrever a página onde estamos.

— Joseph Lispector, estou gostando de ver. Onde aprendeu isso?

— Sem querer te deixar triste de novo, mas... Uma certa Lucy “Morgan”… — Fiz aspas com as mãos em Morgan, para deixar claro o meu ódio quanto a essa palavrinha. — …me disse que a Dianna falou a mesma coisa quando se casou com você.

— Se vamos recomeçar nossas vidas, vamos ter de falar sobre ela uma hora, então... É, a Dianna disse exatamente isso.

Notas finais
Sem tentativas de assassinato contra a minha pessoa, por favor. Tadinho do Joe, eu sei. O bom é que ele vai recomeçar do zero junto com o Adam nessa nova jornada. Outra coisa: estou pensando em adaptar a fic para que os personagens sejam de alguma série existente. Só farei isso depois do final da história, mas se quiserem, podem dar sugestões nos comentários ;)