O Infinito de Joseph Weeks

6 Memórias de Adam Morgan, por Joseph Weeks


Notas iniciais
Este capítulo não sofreu alterações, mas eu ainda gostaria de ver os comentários dos antigos leitores que migraram para cá. Para os novos, hoje descobriremos um pouco do passado triste de Adam, numa história contada por Lucy, sua irmã, para Joseph. Qual será a reação dele? É domingo, no Fantástico! :P Boa leitura! :D

Apesar de todo o “jantar” ter sido excepcionalmente legal – e com legal eu quero dizer que o Adam só falava dos alimentos e de vez em quando tocava no assunto Clarice Lispector – voltamos para casa, e a primeira coisa que fiz foi desmaiar na cama. Eu parecia um maratonista que havia acabado de cruzar a cidade de Los Angeles inteira, mas de alguma forma eu estava mais cansado do que nunca. Dormi como uma pedra na minha cama de casal (sim, eu tenho uma cama de casal só pra mim, me chamem de rico) e só acordei quando o sol resolveu dar o ar da graça e pensou consigo mesmo: “Hoje eu vou acordar o Joseph Weeks às sete e meia da manhã, só pra ele não perder o costume de acordar cedo”.

Dito e feito: acordei nessa maldita hora. Não tinha mais jeito, então sentei-me na cama e encontrei um bilhete no lado de dentro da porta, que estava encostada. Pus os pés no chão, peguei meus óculos de nerd que tenho desde os treze anos – presente do Darren Thomas – e li o que havia escrito.

Fui trabalhar. Sabia que você não acordaria muito tarde, então tem um café da manhã para você na mesa da cozinha. Antes que eu saísse, a Alison ligou e pediu para que você ligasse para lá. Darren Thomas quer falar com você, o número está no final deste bilhete. Só trabalharei até o meio-dia, depois voltarei para casa e teremos o resto do dia para aproveitar com uma certa Lucy Morgan.

Com carinho,

Adam Morgan.”

Há anos ansiava por um dia assim, onde eu ficasse sozinho em casa e pudesse aprontar o que eu bem entendesse. Se bem que eu terei apenas quatro horas e meia de liberdade, então saí do quarto, fiz minha higiene matinal e encontrei o café da manhã que Adam havia preparado para mim: um sanduíche natural, um pote de biscoitos na metade e um outro bilhete que indicava onde estaria o suco de laranja.

Olhando para todas aquelas delícias, tive uma maldita vontade de… vomitar de novo. Qual é, o que o meu corpo tem contra sanduíches e biscoitos? Mal pode vê-los para então liberar geral em forma de vômito? Mesmo com um sentimento de revolta contra mim mesmo, voltei ao banheiro e liberei mais ou menos 50% do que comi ontem à noite. Segunda vez seguida que faço isso, então ou eu provavelmente tenho o mesmo problema que o meu pai adotivo ou eu tenho uma doença terminal que afeta a digestão. Só espero que não seja a última opção.

Encarei a mesa outra vez, e resolvi comer normalmente como se os últimos segundos não tivessem acontecido. Adam Morgan, cujo segundo nome eu ainda tenho que me acostumar a aturar, pode até não saber cozinhar nada, mas monta um café da manhã decente o suficiente para encher o meu estômago. Depois disso, escovei meus dentes, me dirigi até a sacada e abri a porta de vidro-misturado-com-madeira-cujo-nome-eu-não-sei, logo dando de cara com o sol em meus olhos. “Sol, seu lindo, para de tentar me cegar”, ironizei mentalmente enquanto observava ao fundo os inúmeros prédios que preenchiam o centro administrativo de L.A. Mesmo não morando na parte divertida da metrópole, aqui não é tão ruim assim.

Logo me lembrei de Darren. Voltei ao quarto, peguei o bilhete com o número no final e saí à procura do telefone fixo. Encontrei-o ao lado da televisão, então tudo o que fiz foi tirá-lo da base carregadora e discar os números. Chamou três vezes antes de alguém atender.

Alô? Quem fala?

— Todo mundo fala, Ali.

Joe, é você?

— Não, é o coelhinho da páscoa. Adam disse que o Darren queria falar comigo. Algum problema?

E eu vou saber? Espere um pouco que eu vou chamá-lo.

— Certo. — Depois de alguns segundos, pude ouvir a porta do escritório se rompendo bruscamente, anunciando a chegada de um moreno Darren Thomas no recinto.

Idiota, você não ligou pra mim ontem!

— Eu fui embora ontem, Darren. Não me diga que já sente a minha falta.

Quer que eu seja franco? Sim, eu sinto! Não tenho mais ninguém para ser o meu paciente. Minha carreira de psicólogo está arruinada.

— Tenta ser o psicólogo da Alison, então.

Ela é adulta, não vai entender o meu método.

— Então você ligou para mim apenas para dizer que sente falta da psicologia? Um dia depois de conversarmos, você já sente isso?

Eu tenho sentimentos, cara.

— Eu também tenho, e mesmo assim não fiz questão de te ligar ontem.

Por quê? Passeou com o loiro-moreno Morgan o dia todo?

— Nada a ver, Thomas. Só almoçamos com a irmã dele, à tarde fiz uma coisa feminina demais e ao anoitecer fomos jantar no McDonald's. Só isso.

Você fala como se tivesse sido um dia normal. Não percebeu a anormalidade em almoçar com sua nova tia e ainda por cima “jantar” numa lanchonete? Cara, eu queria estar no seu lugar.

— Então deixe-me causar mais inveja: estou sozinho em casa.

JURA? A manhã inteira?

— Até mais ou menos ao meio-dia. Depois ele volta e passa o resto do dia comigo.

Isso é o que eu realmente chamo de pai atencioso. Logo você estará chamando-o de pai, aposto.

— Ainda é algo delicado, Darren. Não me sinto pronto para tal coisa.

Quando estiver, me avise. Quero ser o primeiro a saber. Ah, quase esqueci: você vomitou de novo?

— Sim, mas foi por... DARREN THOMAS, COMO VOCÊ SABE DISSO?

Eu sei até o que você fez no verão passado. Recado enviado por -A.

— Para de citar as Pretty Little Liars e foca na minha pergunta: como você sabe disso?

Eu vi você vomitando ontem de manhã, logo antes do café. Ia te visitar no quarto, a porta estava aberta e eu vi com os olhos. Satisfeito?

— É só algo passageiro, acho que deve ser uma virose ou o mesmo problema estomacal do Adam.

Ahã, sei…

— Cale a boca, seu tonto. OK, vou desligar. Mas prometo que amanhã ligo pra você de novo.

Tá. Te espero amanhã de manhã. Abraço.

— Ah tá, pensei que você ia mandar outra coisa.

Até poderia, mas quero controlar meus instintos na frente da Ali.

— Outro abraço pra você, então. Tchau.

.::.

Lá pelas 11h da manhã, a campainha tocou. Provavelmente era o Adam retornando mais cedo, mas só para garantir, concentrei-me no olho mágico e vi apenas a Lucy Morgan.

— Lucy?! O que faz aqui?

— Eu viria de todo jeito, então só cheguei um pouco mais cedo. — Ela tentou disfarçar, mas meu sexto sentido desmentiu na hora.

— O Adam pediu pra você chegar antes dele, não foi? — Arqueei as sobrancelhas, não dando saída para a loira.

— Tá, ele pediu isso mesmo. Mas eu também queria mostrar uma coisa para você.

— Sabia que você tem 23 anos? Porque sua cara de criancinha que guarda segredo não está ajudando muito a manter sua maturidade. — Falei, fazendo ela rir.

— Adoro jovens da sua idade por serem mais sinceros do que os próprios adultos.

— Devia colocar essa frase em um livro futuro. — Respondi, enquanto ela se dirigia ao quarto do irmão. Cheguei até a ficar com medo de entrar lá, mas resolvi entrar com ela.

— Um dia, quando eu finalmente tiver inspiração para algo que preste. — Abriu a porta do quarto, revelando todo o cantinho especial do Morgan. — Voilá, bem-vindo ao quarto secreto de Adam Morgan.

— Era isso que queria me mostrar?

— Ainda não. — Se agachou na cama e procurou arrancar algo meio pesado lá de baixo. —Você já conheceu toda a história de vida atual dos Morgan, mas não conheceu o mais profundo coração do Adam. Só estou mostrando porque sei que ele nunca irá lhe mostrar isto. — E enfim retirou uma caixa de papelão tampada de lá. — Senta aí na cama.

— Agora eu sei o porquê dele não te levar a sério.

— Digamos que, mesmo com toda a minha carreira de escritora, ainda guardo uma infantilidade dentro de mim.

Lucy retirou a tampa da caixa e revelou várias fotos e objetos dentro dela. Fiz um gesto como que se eu fosse pegar uma das coisas, e ela permitiu que eu o fizesse. Retirei uma foto de Adam – que estava bem mais jovem naquela foto – e uma mulher ao lado, vestida de noiva.

— Ah, eu me lembro dessa. Ele te contou que já foi casado?

— Sim, mas de uma forma bem breve.

— Nossa, você tinha que ter visto. Ele e a Dianna, a garota sortuda ao lado, eram tão apaixonados que causava inveja em quem chegava perto. Se conheceram na faculdade, e desde então não se desgrudavam mais, até que depois da formatura acabaram se casando. Eram o casal modelo da família. — Ela pegou outra foto de dentro e mostrou a mim. Dessa vez, ele já aparentava estar mais velho e a tal Dianna continuava sem rugas, mas com as mãos na barriga. — Essa aí foi quando eles descobriram que teriam um filho. O Adam ficou tão feliz com a gravidez da esposa que no dia seguinte a esta foto, correu para o supermercado e pediu para o locutor pronunciar no alto-falante que durante aquele dia, todos os produtos estariam pela metade do preço devido à boa vontade do empresário. Dianna estava fazendo as compras da casa comigo e logo começou a chorar.

— Que loucura. Queria ter visto. — Comentei.

Depois de alguns segundos sem falar nada, Lucy pegou um par de sapatinhos azuis e imediatamente pude ver lágrimas começando a rolar de seus olhos.

— Está tudo bem, Lucy? — Perguntei, inclinando minha cabeça para o seu olhar.

— Está, sim. É só que esse par de sapatinhos me lembram o dia mais triste da vida do meu irmão. — Colocou o par em uma das mãos, e com a outra enxugou as pequenas gotas. — Ela havia tido o bebê quando eu cheguei no hospital com esses sapatos em mãos. Mas o Dr. Ryan Hudson, que era muito amigo da família, saiu às pressas da sala de cirurgia com Adam ao lado. Os dois estavam apreensivos, e Ryan voltou para dentro e me deixou com ele ali, do lado de fora. Quando descobri que Dianna corria risco de vida, meu primeiro impulso foi entregar os sapatinhos a ele, dizendo que se tudo estava correndo bem até aquele momento, o resto terminaria de uma boa forma também. — Ela voltou a chorar, e então colocou o objeto de lado para limpar o rosto com as duas mãos.

— E eu acho que já sei o que aconteceu depois. Ela morreu e o filho também.

— A reação do Adam impressionou a todos nós. Ele pegou o par de sapatinhos e saiu para o estacionamento. Lembro-me de que eu o segui e vi o carro dele saindo em disparada do local, então peguei o meu veículo e fui atrás dele. Acabamos parando numa praia, e só ali, com o meu presente em mãos, ele se permitiu chorar em meus ombros. Ficamos abraçados até o pôr do sol.

— Quando isso aconteceu? — Eu e meus ataques de insensibilidade.

— Há uns seis meses atrás. Por isso ele não gosta muito de falar sobre isso. Mas na última vez, eu acabei incentivando-o a adotar um filho. Para ocupar seu coração novamente. E, Joe, você é essa pessoa que pode fazê-lo feliz de novo. Não o deixe ficar triste de novo, pois é a última coisa que eu quero para o meu irmão. Ele pode até ter o direito de cuidar de você, mas nas circunstâncias em que acabei de explicar, é você quem tem que cuidar de um Adam que amo e admiro desde que me entendo por gente.

.::.

O resto do dia correu conforme o plano de Adam Morgan: saímos para almoçar com a Lucy, depois passeamos pelo centro comercial de Los Angeles – e, obviamente, fizemos algumas compras – e só voltamos para casa quando a lua se firmara em seu lugar no céu. Mais uma vez, voltei muito cansado; apenas comi alguma coisa, tomei banho e fui direto para a cama.

Pensei em tudo o que Lucy havia me dito hoje. A felicidade de meu novo pai depende de mim para que seja real em sua vida. E eu sei que posso dar um novo sentido à vida dele, tanto quanto ele pode dar um novo significado para a minha própria vida.

Notas finais
Quero ver seus comentários, pessoas. E para os novos, o próximo capítulo será um tanto quanto polêmico. #Medo