O Infinito de Joseph Weeks
8 A Nova Escola de Joseph Weeks
Notas iniciais
— […] Só quero dizer que a culpa não é sua pelas suas duas perdas. Veja bem, eu perdi meus pais para sempre e sei que a culpa não é minha pelo simples fato de que minha mãe já disse ter me amado. Você não pode se culpar pela morte de um ente querido. Se aconteceu, é porque tem algum propósito na sua vida. Algo vai acontecer depois, e esse algo é que pode fazer você ver o mundo com outros olhos.
— Então… — Abriu um sorriso sincero. — Eu acho que já encontrei esse algo.
— Quem?
— Você, Joe. Você é o filho que eu sempre sonhei em ter, e agora está aqui, na minha frente e dando conselhos. Quer saber de uma coisa? Joseph Weeks, eu sinto que sou seu pai, mesmo não compartilhando o mesmo sangue que você. Eu te amo, filho.
Aquelas palavras se enfiaram no fundo do meu coração, causando um verdadeiro transtorno em mim naquele momento. Adam Morgan havia acabado de dizer “Eu te amo, filho”, muito antes de eu ter a certeza de dizer “Eu te amo, pai”.
Fiquei sem reação por um momento, enquanto ele continuava parado e seus olhos marejados, ameaçando chorar.
— Desculpe, eu não aguento te ver chorar, Adam. — E então o abracei novamente.
Alguns segundos depois, ele entendeu o meu gesto e passou seus braços pelas minhas costas, e ficamos abraçados por longos segundos. Eu podia senti-lo chorar em meus ombros. Talvez porque eu não tivesse retribuído com um “Eu te amo, pai”, ou então por estar emocionado pelo abraço que ofereci.
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— Sabia que eu não estou com a mínima vontade de ir para a escola? — Falei, enquanto tomávamos café da manhã juntos. Era a primeira vez desde o dia da adoção; só que agora a diferença é que faríamos isso de segunda a sexta. Tudo por causa da prisão obrigatória, ou como a maioria dos humanos chamam, a escola.
— Sabia que esse é o mínimo que você pode fazer para entrar na faculdade?
— Não gosto quando você usa minhas próprias frases contra mim.
— Acha que Lucy não dizia a mesma coisa quando tinha dez anos de idade? Mesmo assim eu ainda a incentivava a estudar, e olhe no que ela se tornou hoje.
— Uma escritora de sucesso que está com um bloqueio criativo dos ruins. — Pisquei o olho esquerdo e arqueei as sobrancelhas, com um ar de “Sinta a verdade se voltando contra si mesmo”.
— Muito engraçado, Joe. Estou chorando rios de tanto rir. — Ele ironizou, devolvendo minha afronta com um olhar de “Vamos jogar este jogo, e que a sorte esteja ao meu favor. Sinta o recalque”, me fazendo expressar uma cara de “Sério que você deixou isso subentendido? Fala diretamente, pois indiretas são para os fracos”.
Adorava quando simplesmente parávamos de conversar com a voz e nos comunicávamos apenas pelos olhares. Era algo que eu havia aprendido com o Darren desde criança, e agora Adam havia entrado na coisa toda de conversar com o rosto e não com a voz. Era relativamente divertido, principalmente quando ele voltava do trabalho com um estresse dos grandes. Os olhares sempre o aliviavam, e passei a usar essa artimanha quando eu queria algo.
— Quanta ironia em um único olhar, Adam. Está aprendendo os segredos da comunicação facial muito bem, diga-se de passagem.
— Conviver com Joseph Weeks é mais rentável do que todos pensam.
— Ainda é Joe para você, não se esqueça disso. — Falei, finalmente terminando meu prato e me levantando da mesa. — Vou só lavar o prato e o copo para depois pegar minhas coisas, OK?
— Pode deixar isso aí na pia. Depois eu lavo.
— Não quero ser um incômodo mesmo longe de casa, Adam.
— Eu insisto. Te devo uma depois de tudo o que fez por mim.
— Não foi nada, sabe disso.
No final das contas, acabei deixando o prato e o copo na pia e fui escovar os dentes normalmente. Reprimi toda e qualquer vontade de vomitar no vaso sanitário, eu já estava de saco cheio do meu próprio organismo por isso. Apenas peguei minhas coisas e então eu e o loiro descemos o elevador, partindo para o carro logo em seguida. Coloquei minha bolsa no banco de trás, sentei-me na frente e logo nós estávamos indo rumo ao meu novo colégio.
Para ser sincero, eu não sabia bem o que esperar de lá. Sempre estudei em meu próprio quarto, com a ajuda de Ali e Darren – mesmo ele sendo mais novo que eu, tinha um QI praticamente igual ao de Einstein – por isso estava com receio de que eu acabasse sofrendo com as mudanças. Em meio a todos os meus devaneios, o carro parou de repente, e acabei me tocando de que já havíamos chegado.
— Comporte-se, não converse com os populares e seja um bom aluno.
— Por que eu conversaria com os populares?
— Algumas pessoas fazem isso para chegar rapidamente ao topo do círculo social. Mas eu espero que você seja… bem, apenas você mesmo. — Sorriu, deixando à mostra seus dentes reluzentes. Eles ainda fariam um pacto com o sol na tentativa de me cegarem.
— Valeu, Adam. Vejo você na hora da saída. — O abracei, peguei minha bolsa atrás e então finquei os meus pés na Journey High School, a escola na qual eu teria que pisar nos próximos três anos de minha vida.
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Depois de encontrar meu armário e despejar todas as minhas coisas lá, caminhei rumo à sala de história, onde eu passaria os dois primeiros horários. Entrei na sala, e por um milagre ninguém me analisou de cima a baixo nem nada, então apenas prossegui até uma carteira qualquer. Joguei minha bolsa – agora bem mais leve – na primeira cadeira da terceira fileira, que curiosamente se localizava em frente ao quadro-negro, cujo nome eu não entendo mesmo. Se é “quadro-negro”, por que o quadro é branco? Esta escola chamada Journey High School tem algum preconceito contra negros, por acaso?
Estava perdido em meus pensamentos quando a professora da matéria adentra a sala de aula. Todos se calam, e um silêncio sepulcral invade o lugar, e enquanto isso eu nem tentava olhar para a cara dela. Deveria ser uma idosa.
— Olá, alunos! Sei que não estão habituados a terem uma professora tão jovem assim, mas espero que eu possa me dar bem com todos vocês. Sou Lauren Holiday, sua nova professora de história. — Dei-me uma chance e ergui meus olhos para ela. E, sinceramente, eu comecei a agradecer mentalmente à mãe da Srtª Holiday por ter concebido uma filha tão gata e ainda por cima loira até o último fio de cabelo. E que curvas, meu Deus...
Do nada, alguém me cutucou por trás. Eu não queria me importar com isso, mas ao final de três tentativas, virei minha cabeça e olhei para a garota que havia me cutucado.
— Já fui aluna da Srtª Holiday no ano retrasado, quando estudei na Runway Medium School. O ensino dela é um tanto quanto anormal, mas eu acho que você vai gostar.
— Hein? — Soltei, apresentando meus olhos de assustado.
— Ah, eu sou muito lerda mesmo. Oi, eu sou Rachel. Rachel Smith. — Estendeu a mão, e num gesto de educação cumprimentei-a. — Deve estar estranhando o fato de eu falar com você.
— Por que eu estranharia?
— Você é novo, e eu já conheço praticamente metade do colégio.
— Ah, então você é popular…
— Não exatamente. Sou apenas a líder do clube de história e do clube de música.
— E conhece metade da escola inteira por isso? — Falei. Aquela conversa estava ficando interessante.
— É, pode-se dizer que sim.
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Depois de uma aula “muito” interessante de história onde a Srtª Holiday fez uma revisão sobre tudo o que alunos normais viram no ano anterior (eu também vi, mas nunca fui um aluno normal, já que Ali era minha professora particular), Rachel Smith ofereceu um lugar para mim em sua mesa no intervalo para o almoço, mas rejeitei e disse que comeria sozinho mesmo. Quando encontrei uma mesa decente para comer, meu celular – o qual ganhei de presente de um feliz Adam Morgan duas semanas atrás – começou a tocar “Dark Side” descontroladamente, então eu meio que me vi obrigado a atender.
— Por que não me ligou hoje de manhã? — Tinha que ser o Darren.
— Primeiro, ainda é de manhã. Não passou do meio-dia ainda. E segundo, eu estou na escola e já havia lhe dito isso desde a semana passada.
— Ah, foi mesmo, desculpa. Só queria dizer que sinto a sua falta.
— Ai, que meloso, Thomas. Deixa de ser tão carinhoso comigo.
— Você não entende, Joe. Estou carente de amigos. Pareço um condenado à prisão domiciliar, nunca saio de meu quarto para outra coisa a não ser comer, tomar banho e pedir um filme emprestado à Alison. Preciso conversar com você pessoalmente, ou então irei enlouquecer de verdade.
— Oh, isso é grave. — Eu sabia muito bem do que Darren Thomas era capaz quando se estressava. — Tá, quando eu voltar para casa falo com o Adam e depois vejo a situação, OK?
— OK. Tchau, Weeks. — E desliguei a ligação.
E como a vida impõe coisas do nada na minha frente, Rachel apareceu na mesa mais rápido do que eu tentando comer antes do fim do intervalo.
— Queria ficar sozinho ou apenas conversar ao telefone?
— Foi apenas um amigo meu de outro lugar que ligou para mim.
— Então você tem um amigo? — Mordisquei minha mini-pizza.
— Sim, mas ele está muito longe e só nos comunicamos por telefone. — Menti. Não queria dizer que era adotado.
— Tenho certeza de que você está mentindo, garoto. Aliás, qual é o seu nome?
— Joseph Weeks, mas pode me chamar de Joe.
— Tudo bem… Joe. Enfim, acho que está mentindo.
— E por qual razão você diz isso? — Tomei um gole de meu suco de caixinha, tentando parecer verdadeiro.
— Está nervoso demais, tanto é que eu acho que até seus Países Baixos estão tremendo de medo. Qual é a verdade sobre esse seu amigo aí?
— Eu acho que você é intrometida demais para o meu gosto.
— E eu acho que você é sincero demais pra mim.
— Jura? Descobriu agora? — Ironizei. Outra artimanha by Darren Thomas.
— É, descobri agora. E então, qual é a verdade?
— Não confio em você o suficiente para contar a longa história da minha vida.
— Não contarei para ninguém. Palavra de historiadora e cantora. — Rachel estendeu seu dedo mindinho e esperou que eu fizesse o mesmo.
— Mesmo tendo conhecido você há pouquíssimas horas, sua habilidade em me convencer funcionou. Tudo bem, então. — Entrelacei meu dedo ao seu, em sinal de acordo. — Você vai conhecer agora a grande e nada interessante história de Joseph Weeks.
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— Viu? Eu disse que não seria tão ruim.
— Na verdade, você meio que disse isso, Adam.
Obviamente, eu e Adam Morgan estávamos conversando sobre o primeiro dia de aula enquanto voltávamos para casa de carro.
— Eu? Nada disso, só avisei para que não conversasse com os populares usando o intuito de ter uma ascensão social na escola.
— O que é quase a mesma coisa. Não conversar com o clero e a nobreza do Journey High School é como admitir que é um camponês da classe mais baixa da sociedade.
— Traduza para mim, por favor. — Ri com seu comentário.
— Foi o que vi na aula de história hoje. Cá entre nós, a professora é muito mais bonita que a Lucy.
— Agora sim eu quero conhecê-la logo.
— Então quer dizer que o meu pai adotivo é um tarado? Interessante… — Ironizei, fazendo-o cair na gargalhada.
— Eu não sou bem um tarado. Estou mais para pai de família.
— Uma família incompleta porque falta ter uma mulher no meio, não é? Tipo… Uma mãe para mim, sabe. — Soltei, na maior inocência do mundo.
— Oh, Deus, uma hora isso iria chegar. — Ele disse no mesmo momento em que havia estacionado o carro. Retirou as mãos do volante, ficou sério e olhou fixamente em meus olhos. Lá vem bomba. — Você sabe muito bem de tudo o que passei e ainda passo. Não sei se estou pronto para seguir em frente agora, querido Joe Weeks.
— Adam Morgan, você está com medo de viver?! — Esbravejei, arregalando meus olhos em seguida. — Porque, pelo que eu saiba, viver é aprender a amar e a ser amado. Descobri que sou amado por você e estou começando a aprender isso. Mas se você realmente está com medo… — O mais velho me interrompeu.
— Não é bem medo, Joe. É uma espécie de recuo. E se tudo der errado novamente?
— Ah, já entendi o seu “medo”. — Fiz aspas com as mãos. Ainda estávamos no carro, então ele abriu as janelas e depois eu continuei. — Você não está com medo de seguir em frente. Seu medo é de que tudo que ocorreu com a Dianna aconteça novamente. Mas você tem que aprender que a vida também é feita de erros e acertos. Seu pior erro foi se mutilar por algo que não foi sua culpa. Em compensação, meu melhor acerto foi ter aceitado a entrevista com você naquele dia.
— Agora eu estou com vontade de chorar.
— Engole o choro. Homens fortes e grandes não choram por palavras carinhosas, pelo amor de Deus. — Empurrei-o de leve, e depois saímos do carro rumo ao apartamento.
Chegando lá, não consegui evitar o que segurei durante tantas horas: corri para o banheiro e liberei praticamente meu lanche inteiro no vaso sanitário. Num ato de impulso, forcei lágrimas a saírem de meus olhos.
— É a segunda vez que vejo isso, Joseph Weeks. — Adam apareceu na porta, aparentando uma preocupação óbvia. — Tem certeza de que não é nada?
— Tenho, é só que…
Dizem que a vida pode simplesmente ser interrompida no meio de uma frase. Naquele segundo imaginei que a minha morte seria no meio de uma explicação sobre meus vômitos sem motivo, pois senti tudo girar ao redor e então senti um baque na minha cabeça.
É, meu organismo não segurou mais essa.
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