O Infectado Verdadeiramente Especial
1 One-Shot
Mais uma vez eles iriam montar um plano. O objetivo era sempre o mesmo: conseguir extinguir todo e qualquer sobrevivente da maneira mais rápida possível. Segundo eles, como eram infectados, todos também deviam o ser. Aqueles que possuíam imunidade ao vírus não tinham o direito, pois, à vida.
Falando assim, pode parecer que eu era mais um humano tentando sobreviver entre as hordas de zumbis. Entretanto, as coisas não eram bem assim. Eu, na verdade, era um Hunter. Eu estava no meio do meu grupo de Hunters que, apesar de guardarem comigo várias semelhanças físicas, eram bem diferentes de mim.
Eu os observava de longe. Eles intitulavam-se os mais inteligentes restantes devido às habilidades que ser um Hunter nos confere. Entre elas: ser capaz de permanecer em completo silêncio, atacar com agilidade e manter algumas reuniões periódicas e, de certa maneira, civilizadas.
Entretanto, eles se consideram os melhores pois são capazes de montar planos para destruir os sobreviventes restantes.
Para mim, isso é, na verdade, uma prova de irracionalidade, além do grande poder do vírus. Eles apenas têm um desejo ardente e incessante de destruir tudo aquilo que sobrou e que ainda pode repovoar o planeta. O vírus é muito esperto: usou aqueles que tiveram uma resposta diferente à sua infecção para transformá-los em mutantes que não questionam por que estão a caça dos sobreviventes.
Eu, no entanto, possuí essa consciência.
Claro, também há as Witches. Mas o caso delas é particular. Elas vivem numa linha tênue entre a consciência e a inconsciência. Elas sabem o que é o vírus e que ele as destruiu. Sabem de sua morte iminente e de sua aparência aterrorizadora. Assim, desesperaram-se, não sendo capazes de suportar o peso de ser um infectado e chorando, pois, interminavelmente. Quando algum humano se aproxima, elas perdem o controle do seu próprio corpo, já fragilizado tanto física quanto psicologicamente.
O meu caso se aproxima muito com o das Witches. A diferença é que eu sou um Hunter e, diferente delas, não me desesperei.
Eu sei que a morte está para chegar, afinal, meu corpo está lentamente sendo digerido e deteriorado pelos agentes decompositores. Eu basicamente não me alimento, já que, no processo de infecção, perdemos muitas sensações e, dentre elas, a da fome. As minhas poucas tentativas para alimentar-me resultaram em vômitos e apenas uma piora do meu quadro.
Eu apenas torço para que os humanos estejam seguros e desenvolvam uma medicina o mais rápido possível. Talvez seja possível reverter o meu quadro e transformar-me novamente em alguém normal. Enquanto isso, eu espero.
Durante esse tempo livre, eu tento me lembrar sobre minha vida passada. Lembro-me que sou infectado faz poucas semanas, mas o que veio antes eu não sei. O vírus eliminou da minha memória qualquer experiência que eu tive antes de ter contato com ele. Minha lembrança mais antiga é o momento da infecção, quando passei por uma dor horrorosa enquanto o vírus promovia mutações nas células a fim de adaptá-las.
O restante do meu tempo é gasto sentindo as dores da infecção e o cheiro da putrefação. Claro, além disso, cultivo ódio pela ignorância de meus companheiros.
Como eu já disse, eles estavam em reunião. Como eu não queria participar, eu me afastei, e observo aqui de cima o movimento lento do sol que se põe no horizonte.
Nosso “quartel” se localiza no alto de um prédio. Já que temos maior habilidade que os outros infectados, somos capazes de subir aqui com facilidade, enquanto que nenhum outro zumbi nem os humanos são capazes de nos localizar.
É aqui que são planejados os ataques aos sobreviventes. Entretanto, eles geralmente não dão muito certo. O nosso maior fracasso se deu na última vez que tentamos atacar um grupo de sobreviventes maior. Eram em torno de seis ou sete pessoas. Reunimo-nos todos em volta deles silenciosamente no alto dos prédios. Eu, claro, também fui obrigado a ir, entretanto, é claro que não iria atacar.
Éramos doze ao todo. Ficamos eu e mais sete de um lado da rua enquanto que os outros quatro ficaram do outro lado.
Sabíamos que havia chegado a hora do nosso ataque quando um deles atirou em um carro que possuía alarme.
O som do veículo cortou o silêncio da cidade. O barulho dos zumbis se despertando foi alto, e a sua aproximação foi muito rápida. Assim que percebemos que eles estavam muito focados no grande número ao seu redor, o nosso ataque se iniciou.
Inicialmente foram os quatro do outro lado, todos voando pelos céus tentando confundir as nossas vítimas. O pessoal do meu lado ficou extremamente animado: finalmente iriam destruir o seu pior inimigo. Entretanto, eu sabia que estávamos cometendo um erro quando vi que um dos que voavam, de repente, foi acertado por uma bala.
Estávamos nos deparando com atiradores profissionais.
A estratégia era aterrorizá-los, fazendo com que eles pensassem que os nossos números estavam todos do outro lado da rua. Assim, após alguns segundos de terror, os do nosso lado pularam em direção aos sobreviventes, dessa vez mirando-os diretamente.
Apesar do elemento surpresa, não tivemos sorte. O som dos meus companheiros sendo mortos foi incessante por vários segundos.
Eu assistia à cena toda lá de cima. Dos dez que pularam, nove perderam a vida antes de tocarem o chão. O restante conseguiu entrar dentro de uma janela de um prédio que estava aberta e se safar do contra-ataque perfeito dos sobreviventes. Ficamos apenas eu e mais um no alto do prédio, pois ele, assim como eu, havia percebido que não deparávamos com um grupo qualquer de atiradores.
Depois do acontecido, ficamos um bom tempo sem vermos mais humanos nem querer atacar. O nosso grupo reduziu-se abaixo da metade, e gastou muito tempo para recrutarmos mais Hunters para o nosso quartel.
Agora, o nosso número estava grande de novo. Entretanto, muitos estavam perdendo a vida, pois suas células simplesmente morreram sem nutrição adequada. Assim, o grupo almejava um ataque rápido.
Eu estava novamente pensando em como eles eram idiotas quando uma voz cortou minha linha de raciocínio.
— Ei, você aí.
Eu olhei assustado. Era uma voz grossa e autoritária, cujo dono eu conhecia muito bem.
— Não ache que dessa vez você irá fugir, garotinho – Ele continuou.
Diante de mim, estava o maior Hunter que eu já havia visto, cujo porte se aproximava ao de pequenos Chargers. Ele era o líder do grupo, aquele que organizava as reuniões e os ataques aos sobreviventes. Não gostava dele assim como não gostava de nenhum outro afetado pelo vírus, entretanto, tenho que concordar que ele era o mais inteligente de todos.
Dentre os infectados, nós dois éramos os únicos que ainda conseguiam conversar normalmente. Alguns outros ainda produziam sons, entretanto, eles eram majoritariamente ininteligíveis. Os restantes sequer tentavam, apenas concordando de se submeterem às ordens do líder e esperarem o próximo ataque.
— Eu nunca fugi de vocês. Eu apenas não concordo muito com os seus ataques.
— E você, por acaso, tem proposta melhor?
Ter proposta, tenho. Entretanto, não lhe apresentaria já que ele não possuía capacidade para compreendê-la.
— Você, dessa vez, vai ser o primeiro a atacar — Ele me informou.
Aquela frase apertou o meu coração.
Eu já havia participado de no mínimo cinco ataques. Eu nunca era a peça principal, sendo sempre apenas um suporte para caso a situação corresse bem. No entanto, no final, eu nunca atacava, já que isso era contra a minha natureza.
Creio eu que essa informação, de alguma forma, chegou aos ouvidos do líder.
— Por quê? – Perguntei inocentemente – Eu não sou o mais ágil nem o mais forte de vocês. Botar-me na frente apenas resultará em mais uma baixa desnecessária.
— E te botar atrás resultará em uma unidade de ataque a menos – Ele retrucou – Você não irá fugir dessa vez.
Ele realmente sabia dos meus esquemas para fugir dos padrões de ataque deles.
— Eu sou uma peça valiosa — Salientei — Você sabe que, além de você, sou o único que sei falar.
— E isso não adianta nada se não for para nos ajudar — Ele rebateu — Você poderia pelo menos ser mais discreto, sabe – Ele continuou depois de uma pausa – Por exemplo, indo às reuniões que nós marcamos. Demonstrando algum interesse. Ficar sentado aí refletindo sobre a vida não vai melhorar a situação de ninguém.
— Muito menos atacando-os – Retruquei.
— Se você quiser se juntar a eles, não irei me opor – Ele respondeu – Nesse momento tomamos conhecimento de mais um grupo de quatro atrasadinhos que ainda não pegaram nenhum helicóptero. Você pode se apresentar a eles, tenho certeza que eles estarão muito receptivos para a sua presença. É claro, nesse processo, podemos te tratar como um deles... — Ele deu um pequeno rosnado.
Mantive-me em silêncio. Não iria contra argumentar um alienado que não quer enxergar a realidade.
— Vamos logo – Ele me chamou enquanto se afastava de mim.
Eu levantei-me e permaneci-me em silêncio. Juntei-me aos demais companheiros, que pareciam muito animados com o recém-formulado plano. Alguns olhavam-me com o olhar energético, outros, com o olhar estranho e desconfiado.
— Pessoal – O líder anunciou – Tenho o prazer de informar-lhes que ele aceitou o seu papel – Disse apontando para mim – E que o plano será posto em prática hoje à noite.
Eles todos rugiram em alegria. Eu permaneci estático.
Olhei para o céu. O sol estava se pondo, indicando que, daqui a algumas horas, entregar-me-ia definitivamente para a morte.
Afastei-me novamente.
Eu estava triste. Eu estava preparado para acolher a morte, entretanto, eu esperava que ela viria de forma natural, provocada pelo meu corpo que não consegue coexistir com o vírus que o parasita. Entretanto, ela viria brutalmente, pois eu seria certamente assassinado friamente pelos sobreviventes que sempre portam armas e conhecem o nosso comportamento.
Afinal de contas, já não estava eu morto?
O que eu chamava de vida? Sofrer interminavelmente sob os efeitos de um vírus que me corrói enquanto assisto aqueles semelhantes se perderem em violência e incoerências?
Talvez a morte seja, no momento, minha única amiga, já que esperar pela cura, de repente, não é mais uma opção.
Eu poderia viver sozinho. Entretanto, isso é muito perigoso, já que não tomaria conhecimento dos possíveis grupos de sobreviventes restantes. Além disso, agora, se fugir, o meu grupo de Hunters com certeza me considerará um inimigo, o que dificultará ainda mais a minha sobrevivência. Eles me caçariam incessantemente.
Desanimado diante das possibilidades que a noite reservava, saí e fui a procura de qualquer local isolado. Queria despedir-me vagarosamente da minha trajetória de vida.
Eu sabia que era perigoso. Entretanto, eu não me importava mais com nada.
Assim, fui a um prédio vizinho ao meu, passando por uma janela que estava entreaberta. O andar em que parei parecia com um escritório, já que havia ali vários computadores e diferentes compartimentos para cada funcionário. Alguns poucos zumbis vagavam pelo andar, já fracos devido à infecção, não se preocupando com a minha presença.
Sem nada para fazer, hidratei-me um pouco, pois percebi ali a presença de um filtro de água. A ingestão do líquido me fez bem, clareando os meus pensamentos um pouco. Depois, sentei-me numa cadeira de um dos compartimentos e comecei a pensar sobre o ataque e sobre as minhas possibilidades de sobrevivência. Por fim, parei para ler os papéis que estavam sobre a mesa.
No canto de uma das folhas, escrito de maneira rápida, havia várias palavras desorganizadas. Devido à escuridão em que o local estava imerso, ler era uma tarefa muito árdua. À primeira vista, não consegui entender nada. Entretanto, após analisar com mais calma, distingui duas caligrafias, uma maior e outra menor. Por fim, percebi que se tratava de um diálogo.
Ele se iniciava pela letra maior.
— Amor, fui buscar suprimentos no supermercado.
— Saí também – A letra menor respondeu – Hospital.
— Escutei gritos, fui verificar.
— Encontrei duas sobreviventes.
Depois, havia alguns corações vermelhos, e depois mais mensagens.
— Amor – Era a letra maior novamente — Saí para levar os oito. Leve a outra metade ao anoitecer.
Fiz algumas contas rápidas. Se a pessoa havia levado oito e isso correspondia à metade, havia no total dezesseis. Mais o casal que escrevia... No total, havia dezoito pessoas.
Dezoito pessoas... Eu nunca havia escutado sobre esse grupo.
Isso significava que eles haviam se salvado. Dezoito pessoas salvas na infestação. Se esse grande número se foi e eu não tomei conhecimento, provavelmente havia muito mais grupos que se foram sem eu saber.
Eles estavam conseguindo.
Essa notícia levantou o meu astral. De repente, eu tinha forças para aguentar o que estava por vir.
Eu levantei-me da minha cadeira animado. Eu tinha o azar de ter sido infectado, mas pelo menos eu sabia que tudo não estava perdido.
Com esse pensamento, eu deixei o prédio.
O tempo logo em seguida passou rápido. Quando a noite caiu completamente, eu voltei ao quartel, onde eles já estavam se preparando para poder ir atacar os sobreviventes. O nosso alvo não estava muito distante, entretanto, teríamos que sair um pouco mais cedo para podermos alcançá-lo no tempo planejado.
Passamos pelo alto dos prédios. A cidade estava imersa em escuridão e silêncio. Os únicos ruídos eram gritos distantes de infectados, podendo ser risadas dos Jockeys ou tosses dos Smokers. Nós, ao contrário deles, avançávamos silenciosamente. Já que o nosso alvo possuía somente quatro sobreviventes, concluímos que não era necessário que mais que oito de nós fôssemos.
Finalmente, o primeiro do grupo parou subitamente e fez um sinal para que todos nós fizéssemos o mesmo. Depois, começou a apontar freneticamente para um prédio, sinalizando que o nosso alvo estava ali.
Eu não lembrava corretamente como era o plano, pois não prestei a devida atenção. Eu apenas sabia que devia ir a frente e tirar os sobreviventes da sala segura de alguma forma. Depois, eu devia fazê-los afastar dela e se separarem, para que o nosso grupo pudesse atacá-los adequadamente.
Entramos todos no prédio por janelas diferentes. Não sabíamos onde eles estavam e, portanto, era necessário achá-los.
Meu coração estava batendo rápido. Eu estava com medo, já que era a primeira vez que a minha atuação era crucial. Entretanto, como eu já havia aceitado o meu papel, pensei que, quanto mais rápido eu agisse, mais cedo acabaria meu sofrimento.
Começamos a procurar. Rapidamente, eu consegui sentir o cheiro de humanos... Eles estavam no mesmo andar que eu, o terceiro. Aquele cheiro despertou alguma sensação estranha em mim, como se eu estivesse sendo energizado. Esse cheiro afastou de mim o medo e intensificou a minha ansiedade de achá-los.
Continuei procurando. À medida que me aproximava, o cheiro ficava mais forte, e mais a sensação se intensificava.
Por fim eu encontrei a porta onde eles se encontravam.
E então, do nada, eu tive uma vontade absurda de quebrar a porta e entrar dentro do quarto que ele estavam.
Os músculos do meu corpo ficaram tensos. Eu sabia o que estava acontecendo: meu instinto queria falar mais alto. O vírus queria manipular meu cérebro para infectar o máximo possível.
Eu, entretanto, não deixaria isso acontecer.
Assim, saí o mais rapidamente dali para que o cheiro não me fizesse mais mal e fui a busca dos outros.
Rapidamente reunimos novamente os oito no andar e eu lhes contei onde eles estavam.
Os olhos de todos brilharam. Eles queriam o mais rápido possível infectar os sobreviventes. Um deles começou a andar rapidamente em direção a porta que eu lhes indiquei. Entretanto, eu dei um pontapé nele, fazendo-o cair. Depois, o repreendi, já que era eu quem devia atuar primeiro.
Mandei-os espalhar, e assim eles fizeram. Eu me aproximei da porta novamente, já sabendo que aquilo me traria efeitos colaterais.
Fiquei energizado novamente. Minha respiração ficou mais ofegante e o meu coração mais acelerado. Depois, controlar meu corpo ficou difícil. Todos os meus músculos estavam coordenados querendo apenas uma coisa: destruir a porta e atingir os sobreviventes. Entretanto, eu tinha que ser mais forte.
Como iria chamar atenção deles?
Eu, primeiramente, pensei em bater na porta e esperar pacientemente. Entretanto, quando eu levantei a minha mão para o fazer, vi que não daria conta. Meu braço tremia de vontade de quebrá-la e entrar lá dentro.
Eu não poderia me aproximar muito deles. Assim, teria que fazer algum barulho aqui fora.
Dessa forma, pensei que poderia fazer barulhos de passos, ou jogar alguns objetos no chão. Isso certamente iria atrair a atenção deles.
Assim eu fiz. Comecei dando passos pesados no corredor, apesar do meu instinto dizer para eu ficar em silêncio. Apenas com esse movimento escutei alguns barulhos no interior do quarto. Depois, peguei um quadro que estava na parede e joguei no chão, produzindo um estrondo que ecoou por todo o prédio.
— O que foi isso?! – Uma voz grossa perguntou, assustada.
O som da voz de humanos mexeu na minha cabeça, fazendo com que ela perdesse o controle por alguns segundos. Eu agachei e mirei a porta para atacá-la. Ainda bem, eu consegui desviar, pulando para outro lado. Entretanto, toda as vezes que fazemos isso, produzimos um rosnado e um grito muito altos.
O som ecoou por toda a cidade.
Alguém deu um grito, e uma movimentação intensa começou dentro do quarto.
— Um Hunter – Outra voz masculina respondeu – Ele está no prédio.
— Ah, não... – Uma voz feminina dessa vez – Será que a gente não pode ter nem uma noite de sono em paz?
— Não enquanto não sairmos daqui, Ro... – A primeira voz disse novamente.
— Vamos matar esse Hunter – A quarta e última voz, também masculina, se pronunciou.
— Ah, claro, Ellis – A segunda disse – Podemos também aproveitar para morrer.
— Que mal há? — A voz cujo nome era Ellis respondeu — É sair, matar e voltar.
— Nick tem razão, Ellis — A primeira voz disse — Ele não poderá nos fazer mal aqui dentro da sala segura. Não iremos sair.
Eles não estavam dispostos a sair do quarto. Assim, teria que apelar para a minha habilidade especial: a fala.
— Ajuda! — Gritei.
— Há alguém lá fora! — A voz feminina disse, chamada de Ro.
Como eu já estava perdendo o controle novamente, aproveitei a oportunidade para pular e gritar novamente.
— De novo! – Ro repetiu.
— Eu falei que tínhamos que ir! – Ellis disse – Vamos, vamos!
— Antes um deles que todos nós! — Nick advertiu.
— Ninguém vai ficar para trás, Nick — A primeira e mais grossa repreendeu-o – Alguém precisa de ajuda. Vamos todos nós resolver esse problema.
— Já estava quase dormindo... – A voz de Nick reclamou.
— Covarde — Ro xingou-o — Há alguém necessitado lá fora e você só pensa no próprio umbigo.
— Ok, ok! — Nick disse antes que mais alguém o reprendesse.
Eu havia conseguido. Eles estavam saindo.
Assim, a fim de evitar que o meu instinto falasse mais alto novamente, eu corri para o final do corredor, onde o cheiro estava um pouco mais fraco.
Eu fiquei assistindo a porta de longe. Primeiramente, eu escutei o barulho de armas, o que me encheu de medo. Eles estavam se equipando para fazer a sua caça. Depois, eles abriram a porta silenciosamente, esperando vários segundos antes de saírem completamente.
Assim que um dos homens tirou a cabeça para fora e me viu, eu dei um pulo para o outro lado do corredor.
— Ali! — Ele gritou.
Eu escutei vários tiros atrás de mim. Entretanto, eu dobrei o corredor, e continuei correndo até as escadas.
Eles, infelizmente, chegaram ao mesmo corredor que eu antes que eu pudesse chegar às escadas.
O som de tiros atrás de mim foi incessante. Alguns passaram muito perto de mim, outros nem tanto, entretanto, devo afirmar que vou um extremo golpe de sorte nenhum ter me atingido.
Quando sumi nas escadarias, um deles gritou:
— Droga! Vamos, ele não pode fugir.
Eu desci dois lances de escada e fugi para o primeiro andar, ou seja, a recepção. Assim que o primeiro deles chegou às escadas, eu comecei a escutar o som dos meus companheiros gritando.
Depois disso, uma tremenda confusão começou.
Eu me escondi atrás do balcão da recepção, pois não queria que ninguém me visse. O som de metralhadoras dominou o local, e eu escutei o som de dois dos meus companheiros sendo mortos.
Isso me desesperou.
Assim, eu saí de detrás do balcão e me escondi em uma salinha escura perto dele. Dentro dela, havia apenas algumas caixetas e algumas prateleiras. Eu fiquei atrás de alguns entulhos. Não me moveria sequer um milímetro até tudo acabar.
— Ro! — O homem da voz grossa gritou após alguns gritos de Hunter.
Escutei o som de passos na escada novamente. Alguns desciam e outros subiam, assim, não sabia mais onde estava cada um.
De repente, eu escutei o som de passos na recepção, bem perto de mim. O humano estava pertíssimo de mim, bastava entrar na porta para poder me ver.
Entretanto, eu escutei o som de quatro gritos. Quatro dos meus companheiros estavam no andar, e todos eles pularam simultaneamente no humano.
Escutei mais tiros e socos. Um dos Hunters morreu. Os passos se aproximaram de mim e, quando eu percebi, ele entrou dentro da sala em que eu me encontrava e fechou a porta.
Estávamos imersos na mais completa escuridão.
De repente, um clique. Ele havia acendido a sua lanterna. Ele a apontou para mim e, antes que pudesse atirar, eu gritei:
— Não!
Alguns segundos de confusão se sucederam, enquanto ele decidia o que fazer.
— Por favor — Continuei.
— Não sabia que infectados falavam — Era a voz de Nick.
— Eu posso...
Minha frase não foi completada. O cheiro dele invadiu as minhas narinas, fazendo com que o meu cérebro se enlouquecesse. Todos os meus pensamentos se resumiam em pular e atacá-lo naquele exato momento.
Os músculos da minha perna ficaram tensos. Eu estava perdendo o controle.
Não. Eu não podia ser dominado.
— Eu posso... te... ajudar — Continuei.
Ele abaixou a arma. Esse movimento foi o suficiente para o instinto me dominar completamente.
Gritei e pulei.
Ele estava em minhas mãos. Agora, não havia nada que eu pudesse fazer. Estava sendo controlado pelos instintos.
De repente, a porta foi aberta.
Olhei em direção a ela.
Havia outro humano ali.
O som do disparo foi a última coisa que escutei. Minha visão escureceu e, de repente, eu via somente o preto.
Não havia mais nada.
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