O Império dos Titãs.
21 As leis antigas. Um débito inquebrável.
Caminhamos por horas, seguindo o instinto do filho de Hades. Meus pés começavam a se incomodar com o fardo da caminhada e o céu aos poucos perdia a intensidade das estrelas e ia sendo substituído por uma claridade bastante significativa. Finalmente sairíamos do escuro, e não só eu, como Rezente, aceitou a ideia muito bem.
Alcancei os passos de Cody, segurando seu ombro. O semideus, surpreendido, virou-se, com seu cão de prontidão para atacar, caso fosse um inimigo, mas o nosso cheiro deixou sua movimentação tranquila, ele saberia identificar os inimigos, pelo menos torci que sim, visando que na primeira vez que tentei, ele somente levantou as orelhas e me encarou com seus olhos vermelhos profundos. —— Ei cara, vamos dar uma pausa. Todos estão exaustos. —— O semideus vasculhou os cantos, pensou por alguns segundos e se aproximou de uma árvore, tirando a mochila das costas e retirando um travesseiro de dentro dela. —— Só sei que eu não vou ficar de patrulha primeiro. E ainda bem que tem um travesseiro. —— Ele riu e também, logo estava vendo todos se acomodarem em alguns cantos. —— Ok, pelo visto eu serei o primeiro... —— Murmurei, ficando sentado no meio de todos, segurando a lança, cujo ficara apoiada em minhas coxas.
O cão infernal de Cody rodeou o garoto, se deitando envolta dele, com os ouvidos atentos e seus olhos semiabertos. O mesmo equivalei para Luana, entretanto, a filha de Hécate se deitou entre as costelas do canino e conforme ele respirava, seu rosto afundava e depois se suspendia, e apesar de ainda estar escuro, seus cabelos iluminavam bastante a área em que estávamos.
Os demais não teve tanta surpresa. Eles se deitavam, apoiando seu corpo em árvores ou pedras, dormiram rapidamente, me deixando com apenas o barulho intenso da mata e o farfalhar das plantas, quando o vento as sopravam. Esperaria o máximo que aguentasse, mas às vezes o sono me surpreende.
Teria de inovar alguma distração.
Olhei para o céu e me distrai com as ultimas estrelas brilhantes e a lua sumindo, cada vez mais o cenário tomava cor, as sombras se formavam e a grama ficava em uma tonalidade clara. Nunca tive problemas em dormir de dia, mas não sabia como os outros tratariam essa forma. De repente, algo me atingiu nas costas, um pequeno pedregulho. Me virei, surpreso, e detrás, estava a garota ruiva, me encarando com seus olhos azulados. —— Você devia dormir um pouco. —— Disse me virando, voltando a olhar para o horizonte. —— Cala boca e vem aqui. —— Bufei, me levantando e sentando ao lado dela, depois que seu cão infernal se ajeitou, liberando espaço para meu corpo.
Ficamos um tempo calados, ninguém sabia como começar a conversa, e os pensamentos distintos dominavam minha mente, ainda mais com a profecia toda vez indo e voltando, numa repetição caótica e inesquecível. —— No que está pensando? —— Ela indagou, quebrando o silêncio, e só fui perceber que me encarava por um momento, quando me virei e fiquei vis-à-vis com a filha da magia. Meu rosto ardeu um pouco, mas me mantive firme. —— Ah... Só na profecia, estou com um pouco de medo, sei lá. Essa tensão e... Umas coisinhas a mais. —— Desviei o olhar para o chão, brincando com um pouco da mata entre meus dedos. A mão de Luana foi até minha nuca, acariciando meus cabelos com suas unhas compridas. A sensação ocasionou alguns arrepios pelo meu pescoço, descendo para o corpo numa velocidade impressionante. —— Então descanse, eu não consigo dormir com o sol assim na minha cara mesmo... —— Meu pescoço desceu instintivamente até o ombro dela, cedendo a oferta tentadora. O perfume exalava de seu pescoço, mesclando-se com o cheiro de seus cabelos, dando uma combinação doce e suave, mas ao mesmo tempo, viciante.
Não aguentei por muito tempo e acabei adormecendo, deixando todo o trabalho para ela, o que me fez sentir uma culpa significativa, embora não tivesse sustentado o pensamento por tanto tempo, devido ao cansaço. Poderia compensá-la qualquer hora, bastava achar um bom motivo.
[...]
O barulho de passos raspando na terra batida me fez despertar, ainda estava deitado e de mau jeito, apoiado em Luana, a garota também acabou pegando no sono e vi só nós ainda estávamos dormindo. —— Finalmente. —— Murmurou Franchini, nos estudando com os olhos e sorrindo maliciosamente. —— Que foi? —— Esfreguei um dos olhos com a costa da mão, querendo entender a graça, até que compreendi os fatos. —— Nada não, gato. —— A semideusa sorriu, retirando uma de suas espadas da bainha e mordiscando um bolinho Ana Maria. —— Você é muito besta. —— Sorri de canto enquanto a filha de Zeus se afastava e se aproximava do grupo, se preparando para partir. Deveria ser cerca de meio dia, e graças aos Deuses, não tivemos problemas desde que partimos.
Quando me afastei do corpo da filha de Hécate, seu corpo se desequilibrou, e ela veio ao meu encontro, se revirando e se posicionando de uma maneira confortável entre o meu peito. Acordá-la seria muito injusto. Algo que notei também, além do modo fofo como ela dormia, foi que sua aura tinha diminuído, mas o sol também realçava a cor de seus cabelos, como se ela estivesse em combustão na noite e no dia, pelo vermelho vivo se destacar nos raios solares. —— Partiremos em meia hora. —— Anunciou Lélo, tomando café numa caneca preta. Incrível como aquelas malas possuíam tudo que mais gostávamos. Quisera todos tivessem missões com o mesmo agrado que minha equipe.
O cão infernal de Luana a essa altura tinha se acostumado comigo, eu simplesmente conseguia acariciá-lo e ele apenas aproveitava das carícias, mesmo sendo um animal destrutivo e carnívoro, ainda residia no seu coração o espírito fiel e calmo de um canino ao lado de sua dona, não faria mau aos amigos dela.
A brisa soprava intensamente, trazendo uma sensação refrescante. Por incrível que pareça, o calor aumentou consideravelmente. Não achei nem um pouco ruim, adorava o calor, ficar debaixo do sol na minha opinião, era uma das melhores coisas do mundo. Principalmente quando se está na praia. Como eu adorava aquela combinação...
Alcancei a minha mala, próxima do meu lado esquerdo, abri o zíper e enfiei a mão canhota adentro, agarrei uma garrafa portátil e ela estava gélida. Puxei-a e quando finalmente saiu, o líquido transparente emitiu um reflexo pelos raios solares, mostrando um pouco da evaporação da água fresca. Rosqueei a tampa e matei a cede em longos goles. A primeira infelizmente não fracionei, mas vi que tinham bastantes na minha bolsa, e sendo um filho de Poseidon, conseguia sentir quando estava próximo de água, era como um sexto sentido.
Depois que me saciei, limpei os vestígios de gotas em meu queixo, infelizmente escorreu um pouco, feito isso, meus olhos se posicionaram no rosto da semideusa apoiada em meu peitoral, seus olhos estavam um tanto cinzentos, me encarando, mas assim que nossos olhares se cruzaram, Luana os desviou e se levantou, ajeitando seus cabelos e com uma luminosidade avermelhada, os fios ruivos se pentearam num liso com poucas curvas, exatamente como eu mais achava bonito nela. —— Tava me encarando por que? —— Sorri, indagando e checando o que mais tinha dentro da bolsa. Agarrei um pacote de pães fechados, redondos e macios com fatias de presunto, impressionante como alimentos ali pareciam surgir a medida que meu gosto por alimentos pairasse na cabeça. —— Eu não estava te encarando. —— Luana se levantou bufando, mas de modo amistoso e se sentou, agarrando sua mochila e dando leves acariciadas em seu cão infernal.
Tomamos um café da manhã rápido e dos zíperes laterais, achamos algumas pastilhas com a embalagem completamente esverdeada, no rótulo dizia para usarmos assim que terminássemos uma refeição. Todos, sem exceção, colocaram uma das pastilhas brancas e deixaram ela se derreter na boca. A sensação foi comum, como se comesse uma bala de halls verde, contudo, senti uma leve ardência em todas as partes da minha boca, incluindo dentes e gengivas. —— Nossa. —— O incomodo não afetou só a mim, todos lacrimejavam pelo forte sabor de menta. —— Aqui diz que é uma limpeza instantânea. Bom, afinal, esquecemos escovas de dente. Elimina todas as impurezas inclusive os restos de alimentos. Isso é bem prático. —— Dizia Franchini, limpando suas bochechas, devido as poucas lágrimas que escorreram.
Finalmente, todos estavam em pé e com seus armamentos postos e mochilas das costas. —— Alguma ideia de onde seguir? —— Indagou Lélo para Cody, que avaliava os lados, mas seus olhos ainda estavam sérios e frios. Não era o mesmo garoto que conhecera ano passado. Sua personalidade tinha sido substituída por outra severa, mas o leve toque de medo não escapava. —— Ainda não, mas devemos continuar em frente... Se eu sentir alguma coisa anormal, com certeza avisarei. —— Assentimos e começamos a caminhar imediatamente.
[...]
Tirando o desconforto do meu pescoço por dormir de mal jeito, o trajeto estava tranquilo. O sol aquecia nossas cabeças, fazendo alguns transpirarem, já eu, desde que Apolo tocou minha testa e recebeu o abraço de Rezende, não nos sentíamos desconfortados com a presença dos raios ultravioletas, mesmo esses sendo os mais escaldantes possível. —— O Marti, você não pode dar um jeito ai não? —— Lélo apontou para o céu. —— Como assim? —— O filho de Tânatos ergueu as sobrancelhas e bufou. —— Poseidon, deus das tempestades... Filho dele... Sacou? —— A ficha caiu, mas infelizmente não fazia ideia de como ajudar. —— Olha, quando eu descobri como funciona a dança da chuva, eu te aviso. —— Rimos e ficamos atentos no perímetro.
Os passos aos poucos iam mais devagar. O cansaço não era iminente, mas já preenchia o rosto de muitos. Franchini amarrou seus cabelos num coque, mostrando o lado de seus cabelos raspado. A filha de Zeus também estava incomodada e até ela não fazia ideia de como usufruir de suas habilidades para mudar o clima. Cody, coberto pelo seu capuz negro, suava bastante e todos se perguntavam, não diretamente, do porque ele se torturava assim.
De repente, os dois cães infernais cessaram seus passos, ergueram suas orelhas e farejaram o ar, com seus focinhos negros e umedecidos. Isso alertou Luana e Cody, que rapidamente desarmaram suas espadas e olharam pelos cantos da mata. —— Todos atentos! —— Franchini ordenou, e assim nos aproximamos. Minha lança estava empunhada com o escudo sendo usado como apoio a sua extensão e perfeitamente bem posto na minha defesa. Rezende estava bem atrás de mim com o arco posto e uma flecha explosiva encaixada e já armada. Seus olhos estavam tão fixados como um falcão numa presa. Lélo ergueu sua foice gigante e ficou um passo a frente, embora do meu lado direito. Ele tinha uma vantagem pelo tamanho de sua arma, e se ficasse muito perto, poderia nos prejudicar recuando ou tentando se defender. Franchini segurava suas duas espadas gêmeas. Senti uma energia elétrica percorrer todas as minhas veias no momento em que suas costas tocaram a minha, e essa tensão só piorou quando Cody ao lado esquerdo, se aproximou de mim. Senti calafrios, mas não simples calafrios, era como se me ligassem numa cadeira elétrica no meio do Alaska. O que me acalmou, foi ver Luana atrás, seus cabelos emitiam ainda aquele brilho avermelhado. —— Situação? —— Olhei pro filho de Hades, mas ele não respondeu. —— Cody! —— Reforçou Rezende. —— Eu não sei, porra! Não sei falar cão infernalês. —— Apesar da situação, consegui deixar um riso escapar dos meus lábios.
Os caninos nos rodeavam. Eles tinham uma noção melhor do que estaria por vir. Aos poucos eles sorrateiramente iam se afastando, até próximo um volumoso arbusto. Seus passos não emitiam ruído algum. Foi então que a mata remexeu e ambos saltaram para tentar abocanhar o alvo oculto. Houve um silêncio significativo. Esperamos cerca de dois minutos, em pé e focados onde os animais supostamente atacaram. —— Tente chamá-los. —— Sugeri. Luana e Cody assobiaram baixo e curto. Um assovio de alerta. Mas nada aconteceu, nem um protesto sequer.
Dei um passo a frente na formação, todos me avaliavam, mesmo achando que fosse má ideia, ninguém impediu, assim como qualquer um ali, sabíamos os riscos e eu não era um idiota a ponto de me descuidar com tão pouco. Além do mais, minha arma era tão longa quando a de Lélo. Pude ouvir um rastejar e algo emitir um brilho esmeralda das sombras. —— Pode aparecer quando quiser, demônio. —— Desafiei-o, porém, para minha infelicidade, tive uma risada maquiavélica como resposta. A voz feminina, mas entoando perigo ruía do mato seco, deixando cada vez mais audível o som de seu rastejar. —— Corajoso, garoto. Será que consegue arcar com a minha aparição? —— Murmurava ela, dando ênfase em cada palavra começada com "S", como uma cobra sibilando. —— Olha, eu já derrotei uma Dracaenae tão musculosa quanto o Broly... Acho que dou conta de mais uma. —— Teve mais risos em protesto. —— Certo. Você quem quis assim. —— Seus sussurros me davam um leve arrepio, mesmo com toda a coragem do mundo e estando ao lado de um grupo com os mais poderosos daquele prédio (não todos, obviamente), o jeito como aquela criatura falava, deixava até Franchini com os braços trêmulos. E sim, eu vi isso.
Repentinamente, da mata, os dois cães infernais saltaram, seus orbes agora emitiam um brilho esmeralda. Lélo se obrigou a recuar um passo e deixar a lâmina do armamento frente ao seu peito. A haste estava firmemente em suas mãos, apesar de notar de longe o suor escorrendo de seus dedos.
Os animais rosnavam, Cody e Luana tentaram juntos com palavras confusas, detê-los. Em vão. Os caninos cavavam o solo, como um touro, o tamanho deles era quase semelhante. Um pouco menor, deveria dizer, por poucos centímetros. —— Cuidado, vamos juntos. —— Alertou-me Lélo. Assenti e dei um passo razoavelmente lerdo. Os inimigos mantiveram a formação. Respirava pesadamente, uma coisa na qual eu jamais faria, seria matar um cachorro, mesmo que ele fosse do Submundo, mas há certas circunstâncias que devemos ignorar nossos acordos mentais e seguir adiante. Eu não deixaria os antigos guarda-costas, que outrora nos protegeram, viessem com sede de matança e nos exterminasse. Protegeria meus amigos.
Uma imensidão negra rapidamente surgiu, na velocidade de um piscar meu e do meu parceiro. Isso não estava nos nossos planos, Biel atrás de nós, sem que qualquer um percebesse, sacou uma flecha e a deixou posta no centro de seu arco, mirando o nada, avaliando a possível aparição do inimigo. Por instinto, eu me virei com a lança para o lado de Lélo, e a ergui, sem saber como, eu tinha uma noção considerável de onde o cão infernal ia surgir. Já tinha levantado o armamento, quando da sombra do calcanhar do filho de Tânatos, o focinho, logo em seguida, as presas, iam surgindo. Quando a cabeça atravessou por completo da viagem nas sombras, uma flecha passou zunindo, acertando certeiramente o olho do animal, e atravessando um pedaço de seu rosto. Como consequência, o segundo olho se soltou e foi rolando pelo chão, enquanto o sangue banhava a mata esverdeada. Num minuto, não havia mais vestígios do antagonista. Apenas um volume de pó, sendo varrido pelo vento.
—— Puta merda, Rezende! Que belo tiro! —— Elogiou Franchini, segurando suas duas espadas com mais firmeza nas mãos. Ela portava um sorriso malicioso, como se a morte do cão a excitasse. —— Obrigado. —— Respondeu Biel, fazendo um sinal de continência para Lélo. O filho de Tânatos suspirou, rindo e assentiu. Eu estava com o armamento fincado no solo, perto do calcanhar do semideus. Isso não o assustou, pois ele conseguiu, com seus reflexos meio divinos, avaliar cada passo meu. Retirei a lâmina da terra e me ajustei, embora tarde demais. Nos distraímos. O peso do segundo cão infernal fez as veias do meu braço pulsarem no instante que meu corpo era lançado para o solo. Numa velocidade assombrosa, o filho de Apolo retirou outra flecha e a pendurou no seu arco, disparando contra o crânio do cão de Luana. A filha de Hécate reprimiu um grito de sua garganta. Talvez, ou obviamente, tivesse tido uma ligação forte com o animal. Eu consegui girar o corpo mole do inimigo, a fim de que não caísse por completo em cima de mim. Sangue esguichou no meu rosto e depois o pó grudou um pouco no líquido rubro, deixando um risco vermelho brilhante no meu rosto, da minha bochecha esquerda, atravessando meu nariz e findando próxima do meu ouvido direito. Todos riram, com exceção de Cody.
—— Maldito! —— Das árvores, o corpo de uma imensa serpente foi se revelando, ela estava curvada, por isso só vimos primeiramente a parte de sua "barriga". Suas escamas ao contato com o sol, criavam um brilho esmeralda idêntico aos que estavam nos olhos dos cães infernais. Uma lança tão grande atravessou o tronco de uma árvore e pela força e potência do corte da lâmina, a madeira cedeu e arrebentou, como a machadada de Abraham Lincoln no filme que ele caça vampiros. Tivemos bastante sorte da mesma não cair em nossa direção. A lança tinha uns quatro metros de altura, mas sua parte afiada não era igual a nenhuma já vista. Ela era tão gigante quanto um facão de açougueiro, mas em comparativa ao corpo do nosso inimigo, que possuía cerca de três metros e meio. Os seios dela, bem volumosos, se demonstravam despidos, redondos e aparentemente bem durinhos. Os seios perfeitos, poderia dizer, se os mamilos não tivesse a cor verde musgo e claro, não estivessem no corpo daquela mulher cobra.
A sua presença me deu arrepios inquietantes. Senti uma aura tão tensa quanto a que senti próximo de Gio e Cody, embora um pouco mais forte. Os cabelos dela se resumiam em dreads verdes escuros, tão escuro quanto as algas. Já seu rosto, por mais estranho que fosse todas aquelas junções, tinham traços bem femininos e joviais. Seus olhos tinham a cor de esmeraldas, claro, seus dentes, apesar dos caninos sobressaltos, emitiam um brilho tão forte, quase chegando ao nível do sorriso de Apolo. E seu nariz... Era fino e bem alinhado no rosto, somando uma beleza incrível, mas ao mesmo tempo, medonha. —— Como ousam assassinar meus filhos? —— Filhos? Que tipo de criatura mitológica estávamos lidando agora? Francamente, muitas se passavam pela minha mente, e eu ignorava o fato de ser quem eu realmente não queria que fosse.
—— Seus filhos? Desde quando cobras dão a luz a cães infernais? —— Indagou Luana, encarando o óbvio. Ela se aproximou de mim, com sua espada roxa empunhada. Seus cabelos aos poucos intensificavam o brilho. Os demais mantiveram a mesma formação. —— Não me reconhecem, fedelhos? Isso é uma ofensa! —— Urrou indignada a monstruosidade. Sua lança bateu no chão e emitiu um leve tremor. —— Achei que fossem mais dignos da minha presença, emitem um cheiro tão forte que pude sentir do Tártaro! —— Realmente os boatos se concretizaram. Ter três filhos de cada um dos três grandes, mais um de Apolo e outra de Hécate, deuses extremamente influentes e poderosos, não trariam uma viagem agradável e sem adrenalina, mas eu jamais pensei que poderíamos chamar à atenção dela... Quando finalizei o pensamento, seus olhos me encararam e minhas pernas começaram a tremer. —— Você. Filho de Poseidon, neto de Apolo. Seu nome? —— Sobre meu pai, eu até entenderia o fato dela identificar pelo motivo do cheiro salgado que emitia, mas meu avô? Nem eu sabia disso, desde a ultima visita, que me encontrei com o deus em... Pessoa? —— Como sabe que sou neto de Apolo? —— Me posicionei à altura, ignorando o fato de que ela tinha perguntado primeiro. —— Quanta falta de educação! —— Outro pequeno tremor pela lança. —— Ok. Serei um pouco bondosa! Seu cheiro, por mais que seja de água nojenta do mar... Exala algo quente, como o fogo, e além do mais... Você e seu amigo moreno ali atrás, são os únicos que não estão transpirando pelo calor. —— Eu tinha cheiro de fogo agora? Estranho, a segunda alternativa até caiu bem, mas essa do cheiro... Me deixou confuso. —— Seu nome, agora. —— Ela cruzou os braços, queria saber como suas unhas gigantes não arranhavam-na.
Dei mais um passo, ignorando aquela aura sentida. —— Vinicius Martinato. —— Cuspi as palavras, como se ela estivesse a minha altura. —— Digno. Não tanto como os antigos heróis... Embora seu nome tenha muito a ver com Apolo... O da voz agradável. Agora Martinato? Muito novo. Estou acostumada com mais antigos. —— Ela coçou seu queixo, pensativa. —— Meu nome é recente? E o que você acharia de Facebookson? —— A mulher cobra arqueou uma de suas sobrancelhas. —— Eu diria que a mãe ou o pai são bem... Retardados. —— A lança se apoiou no ombro dela. —— Olha só! Não somos tão diferentes assim, se ignorarmos o fato do seu corpo ser de uma cobra, você ter cabelo e mamilos verdes, e dentes gigantes... Apesar disso tudo, compartilhamos o mesmo pensamento! —— Abri uma brecha teatral em minha posição, deixando o peito disponível para uma flechada ou, uma unhada ligeira da parte dela, mas, como havia previsto, ela apenas me observou, avaliando as minhas palavras. —— É... Mas ainda somos muito diferentes. —— Seu muito foi enfatizado. —— Aliás, você sabe com quem está falando, não é, bastardo? —— Assenti. Ela riu. —— Prove. —— Obrigou com voracidade. —— A julgar pela sua aura, pelas histórias e meu conhecimento... Creio que você seja Equidna. A mãe dos monstros, casada com o temido e poderoso Tifão. —— Seus lábios se deleitaram com minhas palavras. Pude até presumir uma malícia, banhada por uma excitação anormal. —— Por ter respondido corretamente e bem educadamente, você será o ultimo semideus que minha filhinha irá devorar. —— Assim, de sua boca, uma espécie de lagartixa escorreu da sua longa língua fina.
Desta vez, todos nós nos afastamos. Desde que ela tinha sido revelada, todos, sem exceção, se antenaram cem por cento, as brechas antes nem percebidas por nós mesmos, estavam totalmente protegidas com nossos armamentos. O confronto de personalidades dos três grandes foi totalmente ignorado por nós, devido a imensa e poderosa presença de Equidna. A medonha, brincava com seu verme mutante, deixando que caminhasse entre seus dedos. —— Há apenas dois jeitos de se matar uma Hidra, sem contar com a força de Héracles... —— Sussurrava ela. —— Será que vocês sabem? —— Ela arremessou a lagartixa — com toda certeza, se Lyu estivesse aqui, sairia correndo agora e xingando aquilo de cria do demon -, e quando estava prestes a atingir o chão, o verme cresceu numa velocidade incalculável. Suas patas tocaram o chão e a criatura já tinha cerca de seis metros, com cinco cabeças de dragão, e a do meio cuspia fogo para cima. —— Vejamos o quão habilidosos vocês são. —— Ressaltou a mãe das criaturas, cruzando os braços e se apoiando em uma árvore, assistindo nossa suposta aniquilação.
—— Comunicado rápido: Só há dois meios de se matar uma Hidra na nossa situação. —— Comecei o aviso, correndo para um lado, desviando de ser abocanhado pela cabeça da ponta esquerda. Lélo fez o mesmo, só que do lado direito. A do meio tentou atingir Luana, que esquivou por poucos centímetros, e com a ajuda de uma adaga retirada de sua cintura, perfurou o olho da serpente, que protestando, cuspiu fogo na sua frente, por sorte, não havia ninguém para ser atingido. —— Desembucha, Martinato! —— Gritou Biel, correndo ao lado de Lélo, junto com Cody, atirando duas flechas elétricas na pata dianteira destra. As correntes eletrizaram os músculos da fera, deixando sua perna incapacitada, por isso ela à arrastava agora. Infelizmente não contamos com a ajuda de sua cauda, e isso fez com que uma rasteira fosse perfeitamente bem aplicado, no outro trio.
Minha atenção foi vinculada ao movimento aleatório do corpo da criatura de cinco cabeças, o que foi um erro tremendo. A segunda cabeça do lado esquerdo veio ao meu encontro, me empurrando com o focinho. Senti o calor de uma de suas exaladas na respiração, subindo pelas costas, e depois só pude me sentir leve, antes que a gravidade me puxasse para baixo, me fazendo rolar e chocar forte contra o chão. Uma dor lancinante invadiu meu pulso. Ele tinha sido quebrado pelo peso de meu corpo em cima e o movimento contraditório do escudo no chão. —— Puta merda! Pessoal, é preciso cortar as cabeças e queimar a área do pescoço, assim elas não podem crescer novamente, ou então, cortar a jugular do meio, sem arrancar o sua cabeça, um feito quase impossível. São nossas chances! —— Equidna ria do meu desespero pelo membro quebrado. Não me atrevi a olhar a ferida. Sinceramente, a ultima coisa que eu queria olhar naquele momento era meu pulso fraturado com um pedaço de osso sobressalto, rasgando minha pele.
Franchini montou na criatura, sabe-se lá como, junto cm Luana, ambas davam inúmeras estocadas nas costas da criatura, mas suas escamas estavam muito mais resistentes que o normal. Os risos da mãe das feras só aumentava. Gargalhadas ecoavam de sua garganta. Me levantei, deixando o meu braço machucado imóvel e o escudo no chão. Empunhava apenas minha espada, o melhor armamento no momento para se usar com apenas uma mão. A lança foi deixada ao lado do escudo. Biel se levantou atordoado e rodopiou antes que fosse esmagado pela pata traseira do animal. Infelizmente seu arco ficou para trás e se arrebentou com o peso do inimigo. Seu rosto não demonstrou nem um pouco de alegria. —— Maldita. —— Grunhiu Lélo, pegando sua foice e desferindo cortes na área da costelas, mas por mais que ele fosse forte, apenas arranhões leves se formavam. Irritada, ela se virou com sua cauda, jogando o corpo do filho de Tânatos para trás, ele rolou algumas dezenas de vezes, e quando parou, seu rosto ficou inexpressivo. Não sei dizer se apenas desmaiou ou se havia sido morto. —— Desgraçada! —— Banhado pelo ódio, o filho de Apolo sacou sua arma reserva e rumou as cegas contra o inimigo, perfurando em raiva incontrolável a carne do inimigo, que não cedia em sua resistência assombrosa. A cabeça do canto direito o abocanhou, mas graças ao couro forte, os dentes não penetraram no corpo de Biel. Ele relutou, mas a inimiga apertava cada vez mais.
Se não fizéssemos algo, ele seria morto.
Corri aos gritos, chamando atenção da segunda cabeça, ao lado da que tinha o filho de Apolo entre suas mandíbulas. —— Seu verme, quero ver me comer! —— As ofensas, embora ridículas, surtiam um efeito bastante proveitoso dos inimigos. Ela veio ao meu encontro, com uma velocidade estável desta vez. Me esquivei para a esquerda, desferindo um golpe em seu olho, cegando mais um de seus cinco pares. A fera urrou, incomodada, e isso despertou o interesse da do meio em mim, que começou a cuspir fogo em minha direção, mas eu me deitei e rolei para baixo do longo pescoço da recente, onde estava esticado, recebendo todo o calor lancinante das chamas. Ela não era imune ao fogo. O pescoço derretia aos poucos e eu fui correndo. Pelo menos uma cabeça a menos para nos livrarmos. —— Você não é tão inteligente! —— Berrou Franchini. —— Não mesmo, escrota! —— Provocou Luana.
Irritada e não sabendo quem atingir, a cabeça do meio seguiu as duas garotas, cujo corriam pelas suas costas em direção ao outro par de cabeças do lado esquerdo. Elas se enrolavam, tentando abocanhar as meninas, mas nem chegaram perto do feito. Dava para ver a luz avermelhada surgir pela garganta da do meio. —— Esquentadinha. —— Sussurrou Rezende, quase sem ar, pelo aperto. Por sorte eu já estava vem abaixo do inimigo. Escalei seu corpo e caminhei pelo pescoço, já que a Hidra o mantinha imóvel, apenas apertando a sua vítima. —— Não é hoje que você vai engolir meu amigo, desgraçada! —— Berrei, fincando a lâmina no seu olho, atravessando até o outro. Ela urrou e abriu sua boca, deixando o corpo imóvel do moreno cair num baque forte contra o solo. Sua respiração era fraca. Estava apenas desmaiado. A nossa sorte é que ele caiu bem em frente a pata paralisada. Foi então que a ideia surgiu.
Corri para as costas, e com um forte movimento, decepei a cauda do animal. Cody estava nas costas do animal, com as mãos no solo, reunindo energia, estava explicado o fato dele ter desaparecido no meio da batalha, mas em prol a isto, uma cratera mediana se rompeu do chão, dando abertura para vários zumbis com armaduras irem de encontro ao corpo da Hidra. Eles eram do tamanho de fisiculturistas, repletos de carne em decomposição e elmos, armaduras e braceletes enferrujados. —— O que é isso? Antigos Arnolds? —— Murmurei, arfando. —— Antigos filhos de Ares esquecidos pelo seu pai. Mortos sem honra. Escravos agora do Submundo. —— Dizia sem fôlego o filho de Hades. —— Vão servir para imobilizar o inimigo. —— Acrescentou ele.
Os dez guerreiros correram e cada um deles se ocupava com uma parte do corpo. Seis deles agarraram três pernas do réptil, sendo assim, não conseguiu mais se mover. Os outros quatro, escalaram os três pescoços sobrando, dois cuidaram das duas do canto, enquanto os outros dois restantes, agarraram e levaram a cabeça cuspidora de chamas ao chão. Um deles se sentou em seu focinho, botando peso. O outro, numa espécie de mata leão, imobilizou suas mandíbulas. Luana, com raiva, pelo ataque surtido contra Lélo, cegou cada uma delas da forma mais violenta possível com a ponta de sua lâmina roxa. Gio apenas arrancou um dos dentes caninos da do meio. —— Souvenir. —— Riu, colocando a presa na sua bolsa.
Embora cansado, senti uma energia me renovando. Olhei para cima e logo percebi que tratava-se dos raios solares. Uma aura dourada repousou sobre meu corpo, secando o suor e explodiu na área do meu pulso. Assim que deixou se ser tão intensificada, senti meus dedos e o movimento voltar aos poucos. Eu tinha sido curado, ou havia me curado?
Seja o que fosse, deveria descobrir mais tarde.
Sem delongas, Cody se aproximou e deu as honras, perfurando a jugular lentamente do inimigo, como um mestre no corte. A respiração da fera acalmou e em seguida, explodiu-se em pó dourado. O rosto de Equidna agora não era tão amistoso. —— Porcaria. Cria inútil. —— Reclamava insatisfeita. —— Só deixou dois desacordados... Nem para matá-los... —— Consegui suspirar aliviado. Lélo não tinha dos abandonado. Pude ver de soslaio que Luana limpava uma lágrima. Sabia que Lélo tinha uma amizade forte com ela.
Equidna se recompôs, avaliando o nosso pequeno exército de homens fortes, e depois estudou nossos corpos. Eu estava quase me entregando a pedir uma prece, mas meu pai não estava numa situação tão favorável a ponto de me ajudar. Eu só tinha uma gargantilha com água, mas não queria sacrificar seu uso agora. Muitos de nós só tínhamos arranhões superficiais. E eu sabia que tinha uma pomada de néctar curativa. O melhor a se fazer no momento era guardar para fins mais drásticos. —— Ok. Vou brincar um pouco. —— Sua cauda rastejou tão rápido que não pude acompanhar. Ela atingiu Luana, que foi empurrada com força ao lado de Lélo. Não se moveu mais. Meu coração se acelerou e eu corri para minhas armas deixadas no chão. Recuperei o escudo e a lança, depois de deixar a espada de volta em sua bainha. Desta vez eu estava sendo consumido pela raiva.
Corri até alcançar Cody e Fran, ambos fizeram o mesmo. Nos reagrupamos numa formação tripla. Os três dos três. Cada um me olhava, por eu ter ficado no meio. Minha aura exalava fortemente, e era perceptível um brilho alaranjado envolta do meu corpo. —— Se controle, Martinato. —— Disse Gio, mas ignorei sua frase rapidamente. —— Marti, pense antes de agir, se você desmaiar, estamos perdidos. —— Informou Cody, preocupado.
Os guerreiros esquecido por Ares atacavam Equidna com suas forças sobre-humanas, mas apenas podiam socá-la algumas vezes, antes de serem totalmente fatiados por suas garras. Não levou três minutos para o ultimo, que saltou e conseguiu aplicar um soco no queixo da mãe dos monstros, fosse pego pelas garras e cortado em quatro pedaços.
Seus corpos eram absorvidos pela terra, tinham voltado para o Submundo, onde supostamente fariam faxinas ou coisas menos importantes. —— Fran, você é uma filha de Zeus, correto? —— Ela me encarou com seus orbes azuis celestes. —— Claro que sou. —— Sorri, mas um sorriso de pura ira. —— Então crie eletricidade em suas armas. —— Felizmente, a coisa que Franchini mais sabia utilizar, se voltava a sua manipulação a energia elétrica. Suas armas ficaram estalando pela energia que as consumiam. —— Cody... Reze ao seu pai. Peça ajuda... Precisamos de uma habilidade nova, urgentemente. —— Algo dentro de mim dizia que se ele o fizesse, seria concedido. Como um dejavu. O semideus fechou os olhos, forçando as sobrancelhas, rezando silenciosamente. —— Que graça! Estão pedindo ajuda! Serei boazinha e deixarei que terminem suas preces. Afinal, não teria graça alguma derrotar vocês tão rápido! —— Reprimi a sensação de fúria dentro e mim e pensei o mais alto que pude.
"Apolo! — Parecia que meu grito tinha sido real, pois com os olhos fechados, ouvi meu berro saindo e se espalhando por uma área totalmente branca. — Sim, netinho? — O som da voz do deus preencheu meu coração de alegria. — Onde estamos? — Repentinamente, sua imagem surgiu. — Digamos que na sua cabeça. — Se eu pudesse me ver, com certeza teria arregalado os olhos e erguidos as sobrancelhas. — Não se surpreenda. É um feito que qualquer deus pode fazer. Mas o tempo aqui, embora seja lento, não é infinito. Diga. — Engoli seco e pensei na melhor maneira que o grandioso deus do sol pudesse me ajudar. — O senhor, além de ser responsável pela medicina, artes, morte, luz, razão, oráculos, profecias, maldições e sei lá mais quantas coisas eu poderia citar... É o dono da grande constelação, o Sol! — Seu sorriso iluminou mais do que era possível o ambiente. Dava para ver a luz branca no branco, como os holofotes no céu escuro. — Obviamente, netinho. Mas o que isso lhe beneficia? — Sorri, um sorriso verdadeiro e repleto de calma. — O senhor poderia me conceder o poder do calor das chamas do sol? Não sei se é impossível isso, mas acredito que esse seja um momento bem útil, mas suponho que eu precise ser merecedor, ou... Lhe presentear com algo bastante valioso. — O deus assentiu, mais sorridente ainda com a clareza que as coisas se tornavam previsíveis para mim. — Eu não sei se atualmente tenho tamanha honra para receber esta bênção, porém... — Retirei minha armadura e em seguida, o casaco pesado e volumoso da cor bege escurecida. Avaliei bem a expressão do deus sol, além do seu sorriso, seus braços estavam cruzados e desta vez ele vestia uma armadura totalmente trabalhada em ouro. — Eu lhe presenteio com a pele do impenetrável leão de Neméia. Um utensílio dignos de reis e com certeza, digno de deuses. Um presente único. — Repousei a manta em meus braços, erguendo ao deus, e com isso, me curvei lentamente, esperando para saber se seria aceito, ou não. — Eu, Apolo, o incrível deus do Sol, das artes, medicina, dos oráculos, senhor da morte súbita, da luz, razão e verdade, patrono da serpente, do corvo e do magnífico grifo, aceito sua oferenda. — Um peso foi retirado do meu corpo. Agora entendi o porque daquele sátiro esfregar tudo isso na minha cara. Talvez fosse a única chance de eu ter algo tão valioso, mas seria recompensado com algo tremendamente importante naquela troca. O peso da manta foi sumindo conforme ela se desmaterializava."
Abri os olhos, cego pela forte luz e o aceno do deus, e isso fez a imagem de Equidna surgir em minha frente. Algo estava reluzindo de seu corpo, e pude notar que vinha da minha posição, pois o brilho emitia bem na minha frente e as escamas praticamente refletiam a aura ativa envolta de mim. —— Um sacrifício digno, para uma bênção incrível. Eu deixo você usar essa, vovô divino. —— Vangloriei pela rima totalmente sem sentido ou até mesmo sem concordância. Cody ao meu lado, abriu os olhos e tinha uma espécie de olhar mais animado, mas sua boca ainda era inexpressiva. Fran foi a única que ficou atenta e sem rezar. Ela tinha os poderes necessário para meus planos e obviamente Zeus não estaria com tempo para uma filha agora.
—— Seguinte... —— Sussurrei, como se ainda rezasse. —— Vou precisar que eletrifique o máximo que puder a cauda dela... Se fizer isso, o sistema nervoso do corpo dela vai entrar em colapso, sendo assim, ela ficará paralisada e indisposta a se locomover. Vai ser bem difícil, eu imagino, mas não impossível. Cody, o que conseguiu? —— O filho de Hades apontou com os olhos para o chão e eu segui o movimento. A sua sombra remexia e se erguia uma pouco, imaginei ter sido a umbracinese, uma enorme e poderosa habilidade. Hades foi generoso. Sempre achei ele um deus mesquinho, mas minha opinião sobre o senhor do Submundo agora mudou. —— Certo, use isso na sombra dela, para que a prenda, assim não teremos nem que sair do lugar e abriremos vantagem contra Equidna. Ela é muito, muito rápida mesmo, então vou ter que iniciar um dialogo, espero que ela conceda. Se acontecer, vocês façam exatamente o que eu disser. Prenda ela com as sombras e corar, eletrocutando a cauda dela, já eu... Bom, vou surpreendê-la. —— Os dois assentiram.
Dei uma dúzia de passos para frente e a mulher me encarou. —— Acha mesmo que vai me derrotar sozinho? —— Indagou, risonha e avaliativa. —— Eu? Claro que não, eu não teria a menor chance! —— Ensaiei um jeito de dizer tais palavras como se estivesse maravilhado. —— Não o entendo. Está feliz por lutar comigo, moleque? —— Me armei na defensiva, teatralizando pavor. —— O que? Lutar com a senhora? Imagina! Eu não sou louco, a única coisa que gostaria de fazer é correr e levar meus amigos comigo, e nunca mais ter que presenciar uma luta contra a senhora. —— Minhas palavras a fizeram sorrir de uma maneira mais amistosa. —— Então, você teme a mim? —— Ela rastejou até próximo do meu rosto, ficando vis-à-vis comigo. —— Bastante. —— Desta vez nem precisei mentir. Na mesma velocidade que se aproximou, ela voltou ao seu ponto de origem. —— Eu poderia deixar outro de meus filhos lutar com vocês. Mas... Eu estou com uma vontade incrível de comer a carne de um de vocês. Façamos assim, deixe um dos desacordados aqui e eu libero que partam. —— Ela me encarou com deboche. —— Sua generosidade é realmente gigantesca, minha senhora. Mas não haveria uma maneira de que eu pudesse levar todos? —— Equidna repousou seu indicador no queixo, deixando sua garra erguida até próximo de um de seus dreads. —— Creio que não. —— Ela respondeu, olhando o corpo de Biel, como se ele fosse o mais saboroso. —— Não mesmo? —— Insisti. —— Já disse, não tornarei a repetir. —— Esclareceu autoritária. —— Tudo bem, quem sabe a nossa opção seja melhor. Agora! —— Apontei a lança no alto e Gio começou a correr, Equidna começou a rir, mas quando foi se mover, algo a travou. Ela olhou para trás e viu sombras prendendo seu corpo com firmeza. Cody atrás se esforçava bastante.
Gio com seus passos rápidos e largos aos poucos se aproximava dela. Ela me ultrapassou e eu fiquei instigado a usar meu novo poder, e com a sincronia perfeita. —— Está na hora de queimar. —— Sorri enfurecido e minhas mãos se credenciaram. Lancei o máximo de chamas em direção ao rosto da mulher, que enfurecida, mas sentindo a queimação, esfregou seu rosto com as duas mãos. Franquini saltou até sua barriga e desferiu dois cortes, cravando as lâminas e despejando toda a eletricidade armazenada em seu corpo contra o dela. Foi como um trovão tivesse a atingido e o cheiro do seu corpo sendo consumido pelas correntes elétricas ficava mais forte, fumaça saia de todas as partes.
A filha de Zeus, cansada, desprendeu suas armas da cintura da fera e com passos rápidos, mas tortos, conseguiu tomar distância. Já eu, me aproximei e vi o rosto dela sem reação, mas movendo os olhos a cada passo meu, me encarando e prevendo seu fim. —— Eu até poderia te matar agora, ser um semideus conhecido por muitos, o primeiro a matar Equidna a mãe dos monstros. Mas não vou. Como honra, e sei que até as feras tem, deixarei que viva, mas saiba que, você está em débito comigo, quer queira quer não. E este débito pode ser sujeito as leis mais antigas, que nem os deuses podem recusar. Não arruinarei sua reputação, imagina? Todos os seus filhos acharem que você ficou fraca e perdeu para semideuses? Terrível, não? Bom... Logo seu corpo se reestabilizará, e não quero estar por perto. Mas chegará uma hora que você vai me retribuir e eu sei disso. —— Me virei, olhando meus amigos acordando e encarando o corpo da fera caída, seus olhares eram de admiração. Ergui o braço canhoto para cima e no mesmo instante uma unha do dedo indicador atravessou meu peito, a dor veio tão rápido que foi difícil descrever. —— O meu débito não conta hoje, portanto, eu ainda posso matá-lo... —— Disse ela, as ultimas palavras, até seu corpo se paralisar completamente e alguns seres alados a carregarem para longe. Só pude ver Luana e Biel correndo até mim e senti a mão de Cody me envolvendo num abraço. Gio apenas tampava a ferida para que eu não perdesse mais sangue, mas ela tinha perfurado meu coração.
Tudo foi ficando escuro, e nem o brilho forte dos cabelos de Luana ficaram chamativos. Conseguia ver apenas um cinza mais forte vindo dela, até que finalmente cedi ao que me implorava adormecer, mas sabia que seria um sono eterno desta vez...
[...]
"—— Aquele maldito! Como ousa usar as leis antigas contra mim? Agora eu não posso quebrar este débito, senão serei varrida para o esquecimento. Não existirei mais. E todos irão se esquecer do meu nome! Ah! Cretino! —— Os urros de Equidna se espalhavam por uma caverna nos alojamentos do Tártaro. Eu estava parado, presenciando tudo. Meu corpo era apenas uma luz fraca e meio azulada. —— Será que eu morri? —— Me perguntei, olhando tudo, até que do nada um corpo atravessou o meu, e sequer pareceu se importar, com exceção de um leve arrepio. —— Mãe... Boatos estão se espalhando. A senhora foi derrotada por três semideuses? —— Outra vez um corpo passou por mim sem que eu notasse. Ele também se arrepiou e me encarou com apenas um único olho. Ciclopes. Mas rapidamente se lembrou da conversa e virou-se. —— É mamãe, mas estão dizendo que foi apenas um filho de Poseidon, neto de Apolo que a derrotou. Você tá fraca? Posso te matar? —— Sua pergunta deve ter deixado Equidna muito irritada, mas a mulher serpente apenas se aproximou, encarando os dois com seus orbes esverdeados. —— Não, seus acéfalos! Eu não fui derrotada, apenas surpreendida! Eu sequer usei meu poder total. Olhe para mim! Vocês ousam achar que eu nessa forma estou com meu verdadeiro poder, crias inúteis?! —— Ela berrou, segurando o maior, que deveria ser o mais velho. —— Mãe, não me machuque. Não fui eu quem disse isso. Só quis perguntar. Sempre quis ser famoso. —— Suas desculpas não ajudaram muito. —— Famoso? Acha que pode suceder o meu trono? Cretino! Renasça do corpo do poderoso Tártaro e reflita sobre o que disse! —— Ela o espremeu com tanta força que o corpo explodiu em sangue para todos os lados, assim como membros e órgãos. —— Mamãe, o que aconteceu? —— Ela se aproximou do mais novo, que sequer importou a cena do massacre de seu irmão. —— Calado, pirralho. Se não quiser vira poeira, simplesmente faça o que eu disser. Retire esse boato ridículo, se não todos os meus filhos arcarão com a minha fúria! —— Ela saiu da casa e o ciclope a seguiu. —— Infelizmente não posso me livrar do débito. Como ele soube? Ah, que seja, este moleque é engenhoso, por mais que eu me irrite com isso, ele conseguiu me surpreender. Adorável. Mas minha lealdade por enquanto favorece o lado do trio supremo de Titãs. Por hora, permanecerei quieta, até que finalmente me livre desta sentença maldita. —— Seu corpo cresceu tanto, que vinte metros cobriam apenas sua calda. O ciclope apenas presenciou aquilo. Realmente ela não usou nem um terço de seu verdadeiro poder contra nós. —— AINDA ESTÁ AQUI, FILHO INSOLENTE? —— Berrou Equidna, fazendo o ciclope correr aos prantos."
[...]
Minhas pálpebras estavam pesadas, mas o sol aos poucos deixavam-nas resistente ao clarão. O brilho e o calor da estrela cintilante me relaxava, recuperando-me conforme eu me adaptava aos hematomas. Ainda sentia uma forte dor no peito e na parte superior das costas. —— Água... —— Busquei pela minha bolsa ou gargantilha, mas nada estava por perto.
Minhas palavras soaram tão fracas que duvidaria muito que alguém ouvisse, mas por sorte, a filha de Hécate, que estava em guarda, olhou para trás e se encheu de ânimo. Se levantou num salto e correu até mim, me dando um abraço. Senti uma pontada bem forte e o meu coração bateu rapidamente, mas a cada batida célere, era uma agulhada dentro de mim. —— Assim eu vou morrer de dor. —— Ela entendeu o recado e se afastou. —— Achei que tinha te perdido. —— Murmurou Luana, com a testa colada na minha. —— Ainda vai ter que me aturar bastante, ruiva. —— Sussurrei, respirando pesadamente. —— Acho bom. Muito bom. —— Suas palmas se envolveram nas minhas bochechas. —— Eu não quero cortar o clima, mas... Será que você tem um pouco de água? —— Indaguei e ela riu, puxando para perto sua mala e retirando uma garrafa portátil com água gelada. Agarrei o objeto e comecei a beber vorazmente. Matei todo o líquido que ali repousava. Arfei e limpei algumas gotas que escorriam pelos meus lábios até o queixo. —— Ahhh... Prometo que irei dar uma das minhas pra você depois. —— Ela sorriu, forte e sem mostrar os dentes. —— Não precisa. —— Sua testa tocou a minha de novo.
Por mim, eu poderia ficar daquele jeito por horas, e não pude evitar de acariciar seus cabelos, mas o falatório alertou um dos campistas, que se ergueu e fez com que Luana se afastasse um pouco, apenas um pouco, e as maçãs de seu rosto estavam tão vermelhas quanto seu cabelo. Cody esfregou os olhos e me viu, com o peitoral enfaixado, e não se conteve. Correu e me abraçou, sorrindo alegremente. —— Achei que você tivesse partido. Senti sua alma no Submundo por vários minutos... Por sorte Biel conseguiu desenvolver os poderes de cura à tempo de te salvar. Já não bastava sentir mortes toda hora me infernizando... Não queria sentir a de um dos meus melhores amigos. —— Não contive a felicidade e o envolvi no abraço. —— Cara, se acha mesmo que eu vou deixar vocês assim fácil? Qual é? Eu sou tipo aquele chiclete que não larga do tênis, você pode até tentar tirar com uma faca, mas ainda sempre sobre m pedaço do desgraçado. Bom, aquele desgraçado sou eu, e acho bom vocês se acostumarem comigo aqui! —— Rimos e acordamos os demais, que vieram me abraçar e contar sobre os fatos. Como eu fui arrastado, a distância que percorremos. Exatamente tudo.
No meio da euforia, Cody se levantou e caminhou até próximo de uma elevação de terra. —— Pessoal... —— Sua voz não foi ouvida por ninguém. Ele ignorou aquele fardo e repousou sua mão na terra curvada, mas numa altura maior que a dele várias vezes. A terra cedeu ao seu toque e afundou, como uma porta escondida que tivera sido relevada. —— PESSOAL! —— Berrou ele, e todos olhamos juntos. —— Quem ai quer dar uma voltinha no Submundo? —— Perguntou ele, sorridente e com suas armas em levantadas.
"A passagem vai se abrir, quando o filho do pós-morte sorrir." O verso pesou na minha mente, uma das sentenças estava concretizada. Agora faltava apenas achar um objeto, no meio do Submundo, em qualquer lugar, e inclusive, teremos de enfrentar a escuridão e uma cegueira farta, para no fim achar um meio-irmão e resgatar a alma do meu irmão. Francamente, será que todos sobreviveríamos àquilo?
Se estou respirando até agora, bom... Que seja. —— Eu topo! —— Exclamei.
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