O Impasse de Rosa
1 I - II - III
I
Antes de abrir os olhos, Rosa sentiu um sopro frio encher seus pulmões, um cheiro de hospital e, mais que tudo, dores percorrendo seu corpo. A pele dela ardia e seus braços queimavam, mas ela sabia que aquela dor tinha potencial para ser ainda pior. Estava anestesiada.
Demorou algum tempo para que recordasse de tudo. A princípio, as memórias vieram misturadas e fora de ordem: primeiro lembrou-se do clarão, da dor insuportável e do odor sufocante de queimado. De repente, ouviu uma voz abafada, como que mergulhada sob a água, que emergiu num canto susurrado de um jeito pertubador e sínico, que ela conhecia bem. Seu coração tremeu. A voz ficou mais alta e a canção invadiu o ambiente, ao passo que Rosa já não conseguia respirar de tanto pavor. Imediatamente o quarto de UTI em que se encontrava foi tomado pela equipe médica.
Os dias que se seguiram foram tenebrosos. Ao todo, Rosa precisou passar por oito cirurgias, inicialmente para raspagem do tecido morto e depois para reconstrução da pele de quarenta por cento do corpo. Após dois longos meses no hospital, com uma série de complicações, finalmente obteve alta.
Como sua casa havia sido completamente incendiada no incidente, Rosa passou a morar com a irmã caçula, que já lhe acompanhava desde o hospital e oferecia todo o auxílio de que precisava. Mas Rosa só fazia um pedido a ela, todos os dias:
— Vê se teve notícia hoje, Márcia.
Não bastava assistir a todos os noticiários da TV. Só a internet podia oferecer a informação que Rosa queria na hora que desejasse, mas os movimentos dos seus dedos foram comprometidos pelas queimaduras, de modo que cabia a sua irmã teclar para ela.
Márcia pegou o celular e passou alguns minutos pesquisando. Nada. Ele seguia desaparecido.
— Ainda não, Rô, – respondeu a caçula – mas não fica pensando nisso. Ele morreu para nós. Morreu. Tá bom?
Rosa deu um suspiro pesado, seguido de silêncio. Sabia que ele não estava morto; na verdade, tinha certeza de que ele estava vivo e perto. Às vezes podia sentir o cheiro dele ao abrir a janela pela manhã, um odor de mar e peixe que lhe dava arrepios. Também havia noites em que ela ouvia barulho de passos no quintal, e não ignorava sua intuição: era ele, cercando sua vida, desbravando seu espaço, planejando um ataque feroz. Mas ele era covarde — disso Rosa também era certa — como um caçador que espera a presa mais vulnerável ficar só, antes de dar o bote. Ainda assim, era uma questão de tempo. Ela sucumbia de medo ao imaginar que, qualquer dia desses, ele poderia encontrar a chance de terminar o que começou.
II
No dia do incidente, Rosa completava 44 anos de idade. Não se importava que alguém lembrasse do aniversário, afinal não gostava de atrair atenções e se sentia constrangida com presentes ou surpresas. Mas era um domingo de sol. Ainda de manhã, sua amiga Soraia bateu a porta para dar os parabéns e convidá-la a passar o dia na praia de Botafogo.
Foi uma tarde gostosa. Teve queijo coalho, camarão, cerveja gelada e, claro, pagode. Rosa também convidou as irmãs, mas só Márcia apareceu, com o marido e a filha, que ficou brincando com os filhos de Soraia. Rosa gostava de observar as crianças brincarem e de ver o movimento na praia. Estava acostumada com a solidão e a tranquilidade de seus dias, mas às vezes era bom ver os amigos, a bagunça e gente gritando e dançando na areia. Ela sentia que poderia se acostumar com o movimento também. Que talvez seria bom conhecer mais pessoas, amar novamente, casar-se de novo, quem sabe? Ria de si mesma ao pensar nessas coisas. Não que não estivesse satisfeita com a vida que tinha; há tempos aprendera a ser feliz com pouco e sem companhia, só ela e Deus. Mas, naquele dia, se permitiu perguntar “por que não?”.
Havia uma resposta para essa pergunta: por medo. Seu último relacionamento foi um pesadelo que deixou marcas profundas. “Eu e Deus” tornou-se para ela um lema desde que o ex-marido tentou assassiná-la a facadas, há cerca de dez anos. Ele foi detido, julgado e preso, e Rosa mudou-se do Espírito Santo para o Rio de Janeiro, onde suas irmãs moravam. Trocou de número e escondeu-se da melhor forma que pôde. Fez alguns amigos, mas não confiava completamente em ninguém.
Contudo, o pesadelo passara há muito tempo. Rosa frequentemente se pegava pensando que talvez fosse a hora de esquecer o que aconteceu, ou que a vida ainda poderia ser tão gostosa quanto aquela tarde na praia. Fechou os olhos por um momento e fez esse pedido para Deus: que seus próximos anos de vida fossem gostosos.
O sol já havia se posto quando Rosa chegou em casa. Foi primeiro à cozinha para beber água. Tudo parecia normal, até ela entrar no banheiro. Havia vidro espalhado pelo chão e a janela estava estilhaçada. Imaginou que sua casa fora assaltada novamente enquanto estava na praia e correu para ver se tinham levado algo de valor. Na sala, tudo estava no devido lugar, inclusive a TV, o som e o aparelho de DVD. Foi para o quarto. Algo no ar lhe dava estranheza. Rosa temeu não estar sozinha. Colocou a mão no bolso da calça e pegou seu celular, cogitando ligar para a polícia, mas algo a distraiu. Uma das gavetas de sua cômoda estava aberta e parecia revirada. Ela se aproximou para ver.
Era a gaveta de roupas íntimas e pijamas. Ao vasculhar, não sentiu falta de nada. "Esquisito", pensou. Ficou parada diante da gaveta por um momento. Notou um fio brilhoso escapando por baixo de uma camisola. "Não é possível", balbuciou, ao ver o que era: um colar fino e dourado, bem gasto, com um pingente do símbolo de infinito, que ela conhecia bem. Não o via desde que o lançara no chão aos pés do ex-marido, no dia em que decidira se divorciar.
Rosa se virou e correu para fora do quarto. Decidiu dormir na casa da irmã para depois pensar no que fazer. Quando tentou abrir a porta que dava para fora da casa, viu que estava trancada e sem as chaves, que ela havia deixado na tranca quando chegou. “Ele está aqui”, disse para si mesma, trêmula. Procurou seu celular nos bolsos da calça e não o encontrou. O esquecera no quarto, sobre a cômoda. Correu para pegá-lo de volta, já planejando usar a janela do quarto para escapar para a rua, mas ouviu um barulho vindo de lá. Desesperou-se. Fugiu para o banheiro, trancou a porta e gritou:
— Eu vou chamar a polícia agora! Me deixe em paz!
Não houve resposta. Rosa decidiu pular a janela do banheiro, que era alta e estreita. Tentou se pendurar, mas seus braços não conseguiam sustentá-la e erguê-la até aquela altura. De repente, ouviu um estrondo na porta. Deu um salto desesperado e se pendurou novamente, fazendo toda a força que conseguia para erguer-se. Os músculos de seus braços tremiam e queimavam com o esforço, mas Rosa olhava firmemente para a saída, decidida a lutar até o fim. Houve outro estrondo e a porta abriu, chocando-se fortemente contra a parede. Rosa ainda estava pendurada.
Todo seu corpo estremeceu de pavor ao sentir as mãos dele agarrarem seus cabelos e puxá-los com força, lançando-a contra o box do banheiro, que se partiu com o impacto. Cacos de vidro voavam por todos os lados enquanto Rosa caía no chão, tomada de dor, medo e raiva. Assim que caiu, ela pegou um grande pedaço de vidro e virou-se golpeando as pernas do agressor, o qual, tendo levado um corte profundo nas proximidades da virilha, deu um suspiro de ódio seguido de um forte chute na cabeça de Rosa, que caiu para trás e se arrastou para fora do banheiro. As paredes e os singelos móveis da sala giravam ao seu redor e ela sentia um pouco de sangue escorrer pelos braços e rosto, enquanto tentava se apoiar numa cadeira para ficar de pé. Não conseguindo completar o movimento, caiu novamente no chão e gritou por socorro.
Ele se aproximava calmamente, enquanto dava tapinhas nos ombros para tirar alguns cacos de vidro que grudaram em sua camiseta. Os olhos dele tinham um brilho cruel. Parecia se deliciar com cada segundo daquele pesadelo.
— Feliz aniversário — Disse ele, antes de desferir mais um golpe na cabeça dela, que desmaiou.
Quando acordou, Rosa estava na cama, com as mãos e pés atados com cordas e um pano prendendo sua boca. A cama estava molhada com gasolina. O pavor a possuiu completamente quando imaginou o que se seguiria. Ouviu um barulho de descarga vindo do banheiro, seguido de passos se aproximando. Fechou os olhos. Ele entrou e se sentou numa cadeira ao lado da cama. Estava esperando por ela, em absoluto silêncio.
Rosa podia ouvir o barulho da respiração dele, e se perguntava se ele também podia ouvi-la, se sabia que ela estava acordada; e se aquilo também seria parte de seu jogo maligno. Tentou se acalmar, respirar lentamente, conter o choro e manter-se completamente imóvel. Era difícil demais. Ela sabia que ele a estava encarando, à espreita, louco para dar seguimento ao plano, que pelo visto não era apenas matá-la. Ele já poderia ter dado um fim à situação, mas queria mais, queria ver o desespero nos olhos dela, e que o pesadelo fosse longo. Lágrimas ameaçavam escapar dos olhos de Rosa. Orou, clamando a Deus por socorro, seguidas vezes. Tentou pensar em formas de livrar-se daquela situação, desejando que ao menos algum vizinho tivesse ouvido seus gritos.
Ela não sabia a quanto tempo estavam lá, mas ainda era noite quando o ouviu levantar-se da cadeira e sair do quarto, impaciente. Ela não tinha muito tempo. Rolou pela cama cuidadosamente, inclinando a parte inferior do corpo para fora da cama até conseguir tocar o chão com os pés. Tentou se equilibrar em pé, para poder se aproximar, aos pulos, da janela do quarto — que, graças a Deus, estava semiaberta. A janela dava para um pequeno quintal, de frente para o portão da rua. De repente, uma música começou a tocar em volume alto na sala, e ela pôde ouvir seu algoz cantar, triunfante:
— Eu voltei, e agora pra ficar… porque aqui, aqui é o meu lugar… larará… — a voz se aproximava lentamente — Acorde, querida!
Desesperada, Rosa saltou na direção da janela, chocando o corpo contra a parede. Desequilibrou-se, mas não caiu. Pressionou o rosto contra o vidro da janela para abri-la mais e lançou-se, de cabeça, para fora. Seu quadril e coxas ficaram presos no batente, e ela precisou se arrastar para completar o movimento, de modo que não deu tempo de cair do outro lado antes de ser alcançada. Sentiu as mãos dele deslizarem por suas canelas e se agarrarem nos calcanhares com força, tentando puxá-la de volta para o quarto. Rosa se debateu e tentou fazer o máximo de barulho que pôde, para que algum vizinho ou caminhante da rua a ouvisse. De fato, um vizinho a ouviu e gritou, do outro lado do muro, “o que está acontecendo aí?”.
— Que se dane, Rosa — disse o algoz, soltando as pernas dela para fora da janela e tirando uma caixa de fósforos do bolso da camiseta- não vai ser bem como eu planejei, mas você vai morrer agora. Queime!
Assim que Rosa caiu no chão, ele jogou o fósforo em chamas sobre ela. O fogo se alastrou rapidamente por suas roupas e corpo, que estavam sujos com a gasolina da cama. Tomada por adrenalina, ela se debateu na tentativa de apagar o fogo. Era tanta adrenalina, que ainda não havia espaço para a dor. Ela foi tomada por um desejo inexorável de viver. Ouviu pancadas no portão. Era o vizinho, acompanhado de outro homem. Eles saltaram o portão e se aproximaram, ao que Rosa gritou “a mangueira!”. Havia uma mangueira próxima à entrada da casa, que eles usaram para terminar de apagar o fogo. Ligaram para o socorro, enquanto Rosa via a imagem de sua casa envolta na fumaça. A dor já estava insuportável a essa altura. Antes mesmo de ser levada para dentro da ambulância, apagou.
III
Cuidar dos últimos preparativos para o casamento era emocionante. Rosa não imaginava que ainda poderia ser feliz, após todos os horrores que viveu. Não tinha nenhuma expectativa de ser amada por um homem, ainda mais com todas as cicatrizes que lhe envolviam. Seis anos haviam se passado desde o incidente, e, após um bom tempo de acompanhamento com terapeutas ocupacionais e fisioterapeutas, Rosa recuperou parte satisfatória dos movimentos dos dedos, pescoço e rosto. O que não pôde ser recuperado foi compensado com adaptações ambientais, de modo que Rosa conquistara a independência de que precisava para cuidar de si mesma.
Além das terapias físicas, uma das assistências mais significativas pelas quais passou foi o Grupo Terapêutico para Queimados, oferecido por uma ONG local. Foi onde encontrou incentivo para buscar independência, e onde conheceu Francisco, ou Chico, como ela preferia chamá-lo. Era o homem mais tímido do grupo, mas atraia a atenção de Rosa sempre que falava algo. A história dele era também das mais tristes; perdera a esposa e os dois filhos num incêndio acidental, há muitos anos. Quando soube de sua história, Rosa sentiu por ele uma enorme compaixão, mas nunca chegaram a conversar até que ele decidiu se aproximar dela após um dos encontros. Criou-se uma conexão rápida entre os dois, mas Rosa ainda sentia insegurança demais para entrar em um relacionamento outra vez.
Francisco venceu pela paciência, após meses e meses acompanhando Rosa até sua casa, visitando-a durante a semana, insistindo em levá-la para tomar um sorvete ou jantar. Aos poucos ela passou a ter mais confiança, deixando-o entrar em sua vida. Estavam com apenas dois meses de namoro quando ele pediu a mão dela em casamento. Foi uma surpresa enorme para Rosa, mas ela disse “sim” com alegria. A notícia encantou muitas pessoas, para além do convívio dos dois. Chegaram a ser noticiados no Diário do Rio, e muitos se emocionaram com a história deles, mas Francisco evitava holofotes ao máximo, recusando, inclusive, um convite para ser entrevistado num programa de TV.
O casamento foi simples. Convidaram poucas pessoas, apenas amigos íntimos e alguns familiares. Rosa estava extremamente feliz até deparar-se com o primeiro sinal intrigante, no mínimo, ainda na noite de núpcias. Ambos eram cheios de cicatrizes no corpo, mas uma das cicatrizes de Francisco chamou atenção. Quando Rosa perguntou sobre cicatriz de sua virilha, ele respondeu que foi um acidente de trabalho da época em que era operário de obras de construção. Ela não fez mais perguntas, mas sempre que olhava para a cicatriz, sentia um arrepio na espinha.
Nos dias que se seguiram, procurou atentar-se a outros sinais que confirmassem a possibilidade sombria que sondava seus pensamentos. A voz dele, o cheiro, a altura, o olhar… seriam os mesmos com os quais convivera há mais de vinte anos? Esse enigma seria mais simples de decifrar se a imagem de seu ex-marido não estivesse tão embaçada em sua memória, como numa foto antiga e gasta pelos anos. No dia do incidente, ela não o olhou nos olhos em nenhum momento. Mas do cheiro ela se lembrava bem, e Francisco não tinha cheiro de mar, como ele.
Quanto ao comportamento, Francisco não mostrava inconsistências. Conversava pouco, mas seus atos eram repletos de gentileza e carinho. Dedicava-se com afinco aos cuidados com a casa e o jardim, e nas horas vagas estava sempre lendo um livro. Ia com ela para a igreja toda semana. Rosa por vezes sentia culpa por tê-lo associado ao ex-marido, mas guardava escondida em seu coração uma suspeita de que ambos fossem a mesma pessoa. Não obstante, a cada gesto de amor que recebia do marido, desejava nunca ter nutrido tal desconfiança.
Ela teria abandonado as suspeitas, e certamente escolheria permanecer ao lado dele pelo resto da vida, não fosse aquela manhã atípica de janeiro. Já estavam casados a três meses quando aconteceu. Rosa acordou com um barulho vindo da cozinha e um cheiro de bolo de fubá tomando conta da casa. A música tocava em volume alto, acompanhada da voz do tímido Francisco, que naquele dia acordara com excelente humor. Mas a cantoria acabou quando Rosa entrou na cozinha aos gritos e destruiu a caixa de som com um cabo de vassoura.
— Meu Deus, Rosa, era só o Roberto Carlos! — exclamou Francisco, pasmo — o que deu em você?
Rosa voltou para o quarto e permaneceu deitada pelo resto do dia. Ele, diversas vezes, perguntou qual era o problema, se ela estava bem, ou se havia algo que ele podia fazer. Ela olhava atentamente para ele, e a cada vez que o observava, tinha mais certeza. As lembranças voltavam mais vívidas do que nunca. Eram os mesmos olhos de seu malfeitor, a mesma voz e até o cheiro se revelou o mesmo. Ela não compreendia o porquê de todo aquele teatro. Por que ele não acabava logo com aquilo? Ele sempre quis brincar um pouco antes de finalizar o ataque. Mas Rosa percebeu que o ponto final daquela saga estava nas mãos dela.
Ela esperou que ele dormisse. Ele parecia muito preocupado antes de pegar no sono, mas, quando finalmente adormeceu, Rosa levantou-se e caminhou delicadamente até a cozinha. Lá, pegou uma faca bem afiada e, segurando-a firmemente com as duas mãos, retornou para o quarto. Observou Francisco por mais alguns momentos. O rosto dele, sessenta por cento consumido por cicatrizes, revelava uma simplicidade surpreendente. Ela se inclinou sobre ele e encostou a cabeça em seu peito. O coração dele batia tranquilo. Rosa sabia que, enquanto aquele coração batesse, ela não teria paz. Ergueu a faca e aprontou-se para realizar o golpe. Hesitou. Olhou em volta. A cabeceira da cama, confeccionada por ele, seria testemunha do que ela estava prestes a fazer, assim como a cômoda e a cadeira de balanço… Todos eles testemunhariam contra ela diante de Deus. Talvez fosse o caso de continuar esperando pelo julgamento de seu malfeitor, em vez de se tornar igualmente réu.
Ela largou a faca e partiu.
Francisco a procurou por um tempo, mas nunca mais a viu, nem teve notícias dela. Ele gosta de imaginar que, se ela não voltou ainda, é porque lá, onde quer que ela esteja, está bom.
Fale com o autor