O Império dos Titãs.

12 Meu pesadelo vai para o mundo real.


"Como todos sabem, os pesadelos normalmente acontecem da forma mais inesperada possível. Os meus, por exemplo, sempre giram em torno de um lugar agradável. Lá estava eu, caminhando tranquilamente pelas matas adentro da exuberante floresta. A cada passo, uma flor diferente brotava no chão, mesmo sendo um pouco afeminado, a sensação era boa. Não era todo dia que você dava um passo e uma rosa desabrochava. Outro. Uma margarida. Mais um. Um girassol. Talvez fosse essa a sensação que Thalles ou Vinicius tinham, sendo filhos de Deméter.

Fora este fato misterioso, me perdia completamente nos pensamentos. Várias coisas agradáveis, digamos que tudo que pairava de bom no meu cérebro naquele momento cogitava um frenesi incontrolável, portanto, poderia-se dizer que eu estava naqueles dias que nada nem ninguém poderia me botar para baixo.

Como eu estava enganado...

Tudo começou a mudar quando um brilho cintilante e dourado surgiu alguns galhos e troncos à frente. Parecia um vulto, e nunca parava em lugar nenhum, mas depois de quase dois minutos perseguindo ele com os olhos, a aura fixou-se num canto, dando aproximadamente cinco metros de distância.

Curioso, claro que decidi investigar o paradeiro. Não era todo dia que algo dourado e brilhante caia na sua frente. —— Mas o que será isso? —— Murmurei, me aventurando entre os galhos e fazendo o mínimo de ruídos possíveis.

Estando próximo suficiente, consegui me acostumar com o brilho e enxergar algo negro em contraste, todavia, o passo foi mais preciso do que imaginei, e nisso, um galho seco estalou debaixo do meu pé destro e a fera se ergueu rapidamente, e na sequencia correu e levantou voo. —— O que será isso? —— Dizia, olhando o brilho se afastando até que nada restara dele, porém, enquanto me distraia, o breu começou a dominar o recinto, me virei imediatamente quando outro galho foi pisoteado.

As trevas dominavam tudo, não conseguia enxergar bem, mas somente minha posição tinha um foco fraco, como uma lâmpada pequena numa caverna, ou para ser mais exato, me sentia como o Ash entrando numa caverna sem flash no gameboy (se você já jogou Pokémon, com certeza vai entender a parte da luz envolta de mim).

De onde o ruído veio, um corpo emergiu, mas das sombras, e era indecifrável se era homem ou mulher. Não dava para ver volumes em quaisquer lugares, e seu rosto... Era totalmente opaco. Sabe o Slanderman? Então... Igualzinho. Ele estava em posição fetal, mas os joelhos estavam dobrados para cima, digamos que agachado com o rosto entre as penas com os braços envolta.

O observei por alguns instantes, até que o nervosismo começou a tomar conta. Tudo me parecia real demais, sentia o contato das plantas, a brisa soprando, meus cabelos saindo do lugar, a terra amaciando meus passos com o sapato... Tudo! Apesar disso, me entreguei ao momento e dei um passo, avaliando calmamente o indivíduo. —— Ei, tá tudo bem? —— Indaguei, iniciando meu pesadelo.

A figura humanoide levantou-se tão rápido, que só pude ver seu rosto branco e sem vida, como olhar para um papel sulfite sem desenho, me encarando, e podia jurar que se ali houvesse olhos, eles estariam arregalados. O medo começou a subir pelo meu corpo, a princípio atingia só as pernas, pois delas uma tremedeira inquietante prevaleceu, logo, invadiu o peito, fazendo o coração acelerar e as mãos irem no ritmo das pernas, e finalmente, o suor. —— Eu não queria! —— A voz do ser fez meus olhos quase saltarem, era uma mistura de feminina com masculina, uma voz dupla e anormal. —— Não queria! Não queria fazer isso! —— Ele, ou ela, seja lá o que fosse aquilo, se lamentava e estava incomodado com alguma coisa, se não tivesse notado tais aspectos, ainda estaria em pavor no meu canto.

Seu corpo voltava lentamente na antiga posição em que o encontrara. Mesmo já tendo me assustado bastante, achei que se falasse mais, só poderia vir a acontecer a mesma cena de outrora. —— Não queria fazer o que? —— O interroguei, e desta vez, a figura estranha se afastou num salto ligeiro e começou a abertar sua barriga. —— Eu não queria... —— Seus dedos pressionaram contra a camisa, mas só via as palmas de sua mão, já que as sombras o consumiam quase que por completo. —— Eu não queria fazer... —— Ouvi eus dedos penetrarem na pele e o sangue escorrer. Ver seus dedos invadindo a carne por dentro da barriga, mesmo que atrás de uma escuridão, me deixou enjoado, pois logo o sangue derramava em seus pés, formando uma poça enorme envolta dele. —— Fazer isso! —— E como ultimo ato, ele rasgou a barriga, mas a visão que eu esperava ter foi totalmente diferente. Ao invés de órgãos pulsando e pedaços de carnes caindo, vi um buraco negro, mas sem estrelas ou luzes, só era mais preto no branco, a cor da pele do monstro, a única cor diferente eram as pontas das unhas que estavam embebidas pelo sangue.

Eu quase chamei o Chico pra fora. Francamente, que merda ele estava fazendo? —— Hahahaha... —— Foi aí que o choque invadiu de novo o meu corpo. Uma voz maligna, típica de demônios de jogos de RPG começou a rir, o som metálico numa sinfonia de tormento era o significando da sensação que ela me passava. —— Você acha que só Gaia é poderosa, raro semideus? —— O demônio dentro do buraco começou a tomar forma. Olhos vermelhos como a lava, contornados por um amarelo vívido, narinas das mesma coloração, mas sopravam fogo, e não, não era nada parecido com um dragão, a julgar seus dentes, tão brancos e serrilhados quanto de um tubarão, mas maiores do que de um leão. Ele sorria degustando do momento de tremor que passava dentro de mim. —— Em breve meus exércitos destruirão essa patética cópia do Acampamento Meio-Sangue! As perdas serão tão grandes que o poder do Olimpo fraquejará, e nem mesmo suas forças divinas vão me conter. Tudo será dominado pelo caos, pelas trevas, pela minha ira e minha força! —— Podia jurar que vi um punho do tamanho do meu corpo — dava dois de mim virados a largura -, sendo erguido. —— O fim está mais próximo do que você imagina. A destruição não poupará uma estátua! Uma flor! Um vestígio da imagem que um dia esse lugar foi. Vocês presenciarão o poder do trio da aniquilação! Hahahaha! —— Foi ai que o ser estranho juntou as partes, fechando aquela fenda e voltou para onde se encontrara a primeira vez, olhando fixamente um ponto específico, no qual era difícil dizer onde, pelo simples motivo dele não ter olhos. —— Eu não queria... —— Ele repetia a mesma frase e sua voz aos poucos diminuía e eu me afastava involuntariamente daquele âmbito."

[...]

Acordei tremendo e com a camisa encharcada. O barulho da minha respiração ofegante estava tão alto que conseguiu acordar Joe praticamente do outro lado do chalé. Ele veio na minha direção as pressas com suas roupas de dormir. Ainda bem que ele não tinha o costume de dormir pelado. —— Cara, o que aconteceu? —— Ele buscava informações, mas eu estava abalado demais para responder.

Foi preciso me levar até a fonte que tinha no nosso chalé, para que eu pudesse mergulhar o rosto nas águas salgadas e finalmente recobrar a calmaria necessária. ——Valeu cara... Eu precisava... Precisava disso. Estou mais calmo... Eu acho... —— Foi difícil formar a frase, com um pouco de esforço a findei e meu irmão ficou mais aliviado. —— Agora me conta o que aconteceu. —— Insistia nos detalhes. —— Uma visão. Sonho. Pesadelo... Sei lá! Foi muito esquisito e muito real... Tinha... Não sei, um monstro, foi estranho cara, não quero falar disso agora... —— Entendendo minha situação, Joe deu um leve tapa no meu ombro e foi em direção ao banheiro. —— Não vai dormir mais? —— Perguntei olhando os peixes que curiosamente me observavam. —— Pra que? Quinze minutos só serve pra te deixar com mais sono, prefiro acordar de uma vez! —— Sorri e assim que ele terminou sua higiene pessoal, eu fiz o mesmo, até que finalmente nos retiramos do chalé e pela primeira vez, caminhamos juntos até o refeitório pela manhã ensolarada.

[...]

Feito os costumes rotineiros dos nossos dias passados naquele Acampamento, me encontrei trêmulo degustando a minha refeição. As mãos estavam inquietas e os talheres faziam barulhos na mesa a medida que a tremedeira aumentava. Joe observava de longe mas não dizia nada, não havia o que ser dito.

Felizmente consegui terminar meu café, e afim de esquecer aquilo, me levantei e fui dar uns passos pelo lugar, meu irmão apenas continuou sua refeição me seguindo com os olhos.

Repousei lentamente no bloco de sustentabilidade de mármore que dava acesso ao imenso portão do refeitório. Respirava profundamente, e a cada nova inalada, meu corpo ficava mais relaxado. Logo que o clico terminava, senti uma mão tocando minhas costas. —— Você tá bem, Marti? —— Olhei para trás e me deparei com Pimenta, seus olhos vibrantes repentinamente me fizeram esquecer o motivo de tanta preocupação, talvez fosse a mágica que exalava dela agora, depois de ser proclamada filha de Hécate. —— Ah, só um pouco abalado... Ícelos não foi legal comigo esta noite. —— Fiz uma leve e tosca brincadeira, e começamos a conversar sobre as loucuras que tínhamos passado.

A acompanhei até sua mesa, e lá encontrei Luana — sua irmã de pai e mãe olimpiana -, e alguns outros, não foquei muito, estava mais atento nelas. Cumprimentei a mais velha e continuei conversando com ambas, entretanto, de pé. Se fosse desrespeitar um Deus, esse Deus com certeza não seria Hécate.

Papo vai e papo vem, e o tempo não disponibilizava luxo. Já era hora de aperfeiçoar minhas habilidades, tanto como elas. Nos dirigimos até o Arsenal juntos, uma fila com poucos semideuses, Isadora e Dudu carregavam duas espadas finas e de oitenta centímetros, acho que iriam fazer um treino matinal juntos, já que agora eram irmãos. Mais a frente vi Gabe com Rezende, ele explicava como as flechas de luvas de boxe eram úteis para um nocaute, e Lyu ao lado simplesmente via como Peter trabalhava num novo dispositivo. Dizia ele que se inspirou no Arqueiro Verde. Sua geniosidade estava aumentando a cada dia, podia jurar que noite passada antes de entrar no meu chalé, vi algumas luzes no Galpão de Forja, duvido nada que não o fosse. —— Aff... Eu não sei o que usar, tudo parece tão grande pra mim. E eu não sou lá uma boa lutadora... —— Juliana resmungava, e eu apenas ria, pegando um pedaço de madeira no chão. —— Olha, tu pode fingir que é uma tosca de Hogwarts. —— A julgar pelas expressões das duas, somente eu tinha achado graça, afinal, zuar HP era o meu hobbie. —— Ah! Vocês pensam muito em armas, deveria pensar em como seus poderes são úteis! Vocês são filhas da deusa da magia e mais um quinquilhão de coisas! Por favor, vocês devem ter um estoque inimaginável de poderes e nem sabem como usá-los ainda... —— Rapidamente peguei uma aljava vazia, junto com um arco mediano e uma espada larga de oitenta centímetros, arrumei de acordo com meu gosto — arco preso ao peitoral, aljava fixada nas costas e a espada embainhada na cintura -, e esperei ambas decidirem. —— Também não sei que arma pegar... —— Reclamou Luana. —— Sabe de uma coisa? Acho que as duas deveriam pegar uma espada simples, de uns sessenta centímetros e um escudo leve. Treinem ambas com eles e depois façam um upgrade sobre Hécate. A biblioteca tá sempre livre. Estudem magias, necromancia, sei lá! Apenas acreditem no que possam fazer. —— As duas se entreolharam e seguiram meu conselho. —— Bom, vejo vocês mais tarde! —— Acenei para elas e corri para a arena de treinamento, antes que ficasse completamente lotada.

Poucos metros correndo me aproximei da entrada, o lugar vasto já tinha muitos presentes e isso realmente me incomodou. Nunca conseguia ser o primeiro. Retirei meus pertences e os coloquei próximo de um boneco de madeira esculpido justamente para receber golpes e de frente a um alvo que se destacava numa distância considerável na minha posição. Lugar perfeito para treinar arco e flecha e esgrima, ou deveria dizer: manuseio contra o boneco de madeira louco pronto para receber golpes sem fazer nada.

Saquei a espada, deixando o arco de lado. Apliquei o primeiro golpe contra uma suposta mão do boneco, e assim que a espada o atingiu, este começou a rodear e logo um novo projétil do mesmo tamanho e forma do que eu bati, veio ao meu encontro, mas pude desviar graças ao meu reflexo. —— Ah! então você tem seus truques! —— Respondi surpreso olhando o rosto inanimado e bem mal feito do adversário.

Passei pelo menos uns quarenta minutos socando, golpeando e desviando dos projéteis, e deveria dizer que depois da primeira surpresa — sim, ele não girava sempre do mesmo lugar, mudava o curso para poder nos surpreender e tornar a luta mais imprevisível do que costumava aparentar -, alguns golpes fortes contra mim foram surtidos, mas logo meus reflexos se encontravam atentos e conseguia fugir nos últimos instantes de ser pego.

Satisfeito com o progresso, respirei um pouco e olhei para o arco. —— Hora da mira. —— Peguei o instrumento, equipei a aljava vazia, mas tcharam! Assim que coloquei minha mão nas costas, uma dúzia de flechas pontiagudas apareceram. Peguei uma e a ajustei o mais rápido que pude no arco, o que levou dois segundos. —— Sou péssimo em mira... Ajo mais por instinto... —— Me consolava, parado e observando o alvo. Afrouxei a corda e olhei de novo para meu alvo. Segurei com mais firmeza a flecha e bum! Levantei meu arco com tudo puxando a corda e logo disparando o primeiro tiro.

CLACK!

A primeira flecha ficava cravada no canto superior esquerdo, um tipo ruim, acertei a ultima marcação, o que consideravelmente valia menos pontos. —— Ah, mas isso não vai ficar assim! —— Peguei outra flecha e com o mesmo movimento mas com uma leve inclinação para a direita, disparei outra flecha.

CLACK!

Bem mais próximo do alvo, mas agora a segunda flecha atingia a segunda pior marcação, embora do lado direito superior. —— Hm... —— Comecei a entender como funcionaria os tiros. Pegando a terceira e ultima flecha para aquele alvo, ajustei num ângulo meio a meio das duas ultimas medidas, baixei um pouco minha mira e finalmente, lancei.

CLACK!

Nem precisava dizer, o ponto menor não aparecia mais. Um tiro perfeito e bem sucedido. —— Assim que eu gosto! —— Murmurei, em busca de mais alvos e em diferentes colocações.

[...]

O sol do meio-dia finalmente destacou-se no centro do céu azul. O suor era iminente, assim como músculos exaustos e hematomas nos dedos de tanto armar e desarmar as flechas e aplicar golpes com a espada.

Passei rapidamente na enfermaria, Jujubs ajudava naquela área, já que recentemente era a única que tinha desenvolvido os poderes curativos de Apolo. —— Hey, Marti, o que foi? —— Ela enfaixou o pulso de um garoto e foi até mim, o mesmo se levantou satisfeito e agradeceu de longe, ela apenas retribuiu com um sorriso e um aceno. —— Ah, nada demais, só dores musculares e essas besteirinhas aqui. Tem algum anador ou algo assim? —— Ela riu. —— Não, não aqui. —— Bufei decepcionado. —— Droga, pelo visto vou ter que aguentar isso. Beleza, vou te deixar trabalhar. —— Uma coisa boa para os filhos de Apolo é que se eles ajudassem na enfermagem, não tinham que limpar o chalé e nem participavam das lavagens de louça, por isso Jujubs sempre estava lá e rindo dos seus irmãos por não poderem curar ninguém ainda. —— Não enquanto eu estiver aqui. —— Ela sorriu e me fez sentar numa das macas. Suavemente ela levantou uma parte da minha blusa, repousando suas mãos nas minhas costas. —— Adoro massagem! —— Brinquei. —— Não vai ser massagem, seu besta. —— Ela retrucou. Fiquei quieto esperando sua dádiva acontecer.

E não é que aconteceu?

Um brilho forte e dourado surgiu nas minhas costas, um brilho similar ao do meu sonho. Fiquei boquiaberto, mas então recordei que era uma fera mística que possuía tal coloração similar. Não poderia ser Jujubs.

Quando a aura baixou, meu corpo estava renovado, não tinha mais dores, e os hematomas? Desapareceram completamente, assim como o suor. —— Caramba! Isso é melhor que néctar! —— Me levantei alongando o pescoço e os braços. —— Claro, isso se chama dom! E é claro, eu tenho o melhor. —— Fiz uma típica expressão de invejoso. —— Ui, ela tem um dom! —— Levantei as mãos encenando e ela riu. —— Bom, obrigado mesmo! Vou bater um rango agora! Você deveria fazer o mesmo. —— Ela assentiu sorridente. —— Eu vou fazer isso agora mesmo. —— E saímos daquele ambiente fúnebre — só pelo fato de uns choramingarem de dor -.

[...]

O almoço foi rápido. Tinha sido um dos primeiros a chegar, comi uma macarronada com almôndegas e coca zero — era costume — pra acompanhar. Meus pensamentos focavam-se de novo no sonho e como aquela aura me era familiar, algo me dizia que eu ia descobrir alguma ligação com Apolo, mas não sabia o que e muito menos quando, então tomei liberdade de fazer o que ninguém jamais tinha feito. —— Outro prato, por favor. —— Assim, o que antes estava vazio, agora estava repleto de macarrão com aquelas bolinhas de carne suculentas.

Caminhei lentamente até a fogueira e despejei toda a comida. —— Metade ofereço em nome de meu pai, obviamente, e esta outra metade, eu concedo a você, grande Apolo. Peço o seu apego para que me ajude com essas dúvidas inquietantes... Seria muito grato se me ajudasse... —— O fogo consumiu o alimento e estalou algumas vezes, me afastei torcendo para que nada acontecesse, nada como um pedaço do sol caindo aqui e explodindo tudo. Mas o fogo se acalmou e voltei calmamente para minha mesa.

Cansado do tédio, resolvi caminhar.

[...]

Se eu contasse para vocês que achei outra rota, vocês acreditariam? Pois é. Aquele caminho dava direto a um estábulo, poucos tinha descoberto, já que haviam mais pegadas de sátiros e cavalos do que de humanos. Muitos cavalos relincharam a minha presença e curvaram-se respeitosamente. Não entendi muito bem, até que um imenso corcel branco parou a minha frente e fez o mesmo, e pude ouvir algumas palavras, mas não entendi de onde o som dela veio. "Bem-vindo, senhor, filho do grande Poseidon, o nosso criador!". Foi ai que a ficha caiu, ela tinha vindo do cavalo. —— Caramba! Eu consigo, consigo ouvir seus pensamentos! —— Respondi entusiasmado. "Evidentemente que sim, senhor. O senhor é filho do nosso criador, logo pode se comunicar com qualquer tipo de equino ou parentes próximos de nós." O linguajar daquele quadrúpede realmente me encantava. —— É realmente incrível isso, mas por favor, me chame apenas de Marti. E qual o seu nome, se é que posso saber. —— O corcel relinchou e cavou a terra. "Senhor, não posso me dirigir assim de tal maneira imprópria a sua majestosa presença. E claro que o senhor pode saber meu nome, é uma honra que o tenha conhecimento. Me chama Agasias, um nome dado pelo seu próprio pai. Carrego comigo com a vida." Com tantos "senhor", me senti um general e ele sendo um cadente. Com a palma destra suavizei minha expressão contida nas sobrancelhas ao toque. —— Muito bem, Agasias, seria de grande valor para mim se pudesse me chamar apenas de Marti. Se isso não for suficiente, bom, receio que seja uma ordem. —— Não custava nada apelas. "Se o senhor deseja tal mandamento... Quem sou eu para questioná-lo? Certo, Marti... O que o trás ao nosso estabelecimento?" O corcel se virou, dando espaço para eu olhar tudo ao redor, até que me peguei olhando para o dorso do equino, ele tinha asas, então tudo girou e a coincidência bateu.

Me afastei dois passos e o encarei assustado. —— Você! Você não é um cavalo comum, certo? —— Agasias virou sua cara diagonalmente, parecia confuso. "O senhor nunca ouviu falar dos Pégasus?" Percebi que teria que me acostumar com a palavra senhor enquanto conversasse com aquele cavalo. —— Sim, já ouvi falar... Mas pensei que eles não gostavam de se associar com os humanos, ou semideuses... Poucos foram os heróis que tiveram contato com a sua raça magnífica. —— Agasias se curvou no momento em que terminei minha frase. "É realmente uma honra ouvir tais palavras, senhor Marti." O corcel voltou a sua posição normal. "Com o passar dos anos, nós disponibilizamos nossa presença aos semideuses, vimos que ajudá-los em suas missões poderia acarretar um futuro próspero a nossa existência. Mas é claro que apenas os honrosos podem nos montar. Já o senhor, pode escolher qualquer um daqui caso um dia queira cavalgar ou simplesmente saber como é voar no dorso de um Pégasus." Suas asas se abriram e fizeram um movimento bastante similar aos homens quando apresentam seu gado ou coisas do gênero. Eram tantos cavalos bonitos, Pégasus admiráveis... Um dos meus sonhos sempre foi ter um cavalo num sítio, agora... Eu podia escolher qualquer um! —— Ficaria bastante agradecido se pudesse dar uma volta com você, Agasias. —— O Pégaso se virou e liberou suas asas, dando espaço para eu montar. "Espero que goste de velocidade." Ele argumentou. —— Se for andando em um cavalo, não me importo nem um pouco, ainda mais num Pégaso. —— Assim que montei ele começou a correr e levantou voo.

Se eu passei quase o dia inteiro voando com Agasias? Evidente que sim.

[...]

O crepúsculo vespertino pairava no céu e Agasias suspirava. Enchi uma lacuna com água fresca para ele e deixei duas dúzias de torrões de açúcar em seu estábulo — os torrões ficavam disponíveis numa caixa grande e trancada onde os equinos não conseguiam quebrar, sequer abrir o pote, notei isso pelas marcas de coices passados -, claro que deixei maçãs e algumas cenouras também, um bom banquete para um amigo novo e raro de se encontrar. Mas como a consciência sempre batia, vendo todos os outros ali, acabei pegando e disponibilizando um para cada corcel no recinto. Acho que devo ter distribuído uns cem, cento e vinte cubos, mas pelo menos deixei todos os cavalos contentes.

[...]

Me encontrei vagando perante a floresta antes da escuridão tomar posse e a noite reinar acima de nós. Algo estava estranho, o silencio da mata... Normalmente ela se encontrava cheio de ruídos e barulhos de insetos, mas desta vez... Desta vez ela estava silenciosa demais. Prestando atenção ao máximo que minha percepção provia das necessidades comuns de espionagem, consegui ouvir passos lentos e suaves ao sul. —— Quem mais estaria aqui? —— Murmurei tão baixo que sequer consegui ouvir direito o som da minha voz. Cautela era tudo.

Sorrateiro como uma formiga, adentrei no meio de alguns arbustos e notei a presença de Daniella — a filha de Ares que tinha sido nocauteada por ela mesma -, ao seu lado, o moleque careca que não sabia o nome, ambos avaliavam o local e notei algumas silhuetas enormes a três passos de distância dos dois semideuses. —— Vai logo com isso, Daniella! Pallas não irá gostar se falharmos... —— Seu tom de voz me parecia muito suspeito. —— Cala a boca, Rafael! Se falharmos seremos mortos ou por Pallas ou pelo meu próprio pai, pela traição. Mas a recompensa por ajudar os Titãs é muito melhor do que ser apenas uma lacaia e ignorada filha desse deus de meia tigela. Nem ouso dizer o nome para que sua fúria não caia sobre mim. —— Mesmo ela não revelando, soube que tratava-se de Ares, mas isso não era leviano a ponto da traição que eles estavam prestes a cometer. —— E o nosso grupo? —— Rafael continuava me dando informações valiosas. —— Eles que se fodam. Eu vou fazer minha parte. Ei! Vocês, estão preparados? —— Dai as sibiladas começaram e meu coração disparou, e infelizmente dei um suspiro que fez alguns galhos farfalhar. —— O que foi isso? —— Questinou Daniella. —— Talvez um lagarto, que se foda! Termina logo isso, pelos céus! —— A filha de Ares sorriu e ergueu os braços para a barreira protetora. —— Eu, Daniella, filha do grande deus Ares, concedo passagem para todas as feras místicas que se encontra aqui e agora fora desta proteção! —— Conforme ela foi recitando as palavras, seu amigo fez o mesmo, mas ao invés de fizer Daniella e filha de Ares, ele disse seu nome e filho de Éolo.

Um tremor surgiu e eu perdi o equilíbrio, caindo próximo deles. "MERDA! Uma ajuda seria ótimo!" —— Eu sabia que tinha alguém aqui! —— Meu pensamento agiu no mesmo instante que Daniella urrava. —— Não importa, já foi feito, ele será devorado. —— Rafael disse convicto da minha morte. —— Pallas! Fizemos de acordo com o que mandou, nos tire daqui, por favor! —— Ela fez uma prece ao chão e logo ela e seu amigo foram cobertos por um manto negro. —— Boa sorte com os exércitos aniquiladores... —— Foram as ultimas palavras de Daniella.

Me levantei, assustado, sem armas e sem qualquer ajuda por perto, então, para melhorar minha sorte, das sombras, um enorme ser, ergueu-se e rugiu furiosamente. —— Vou lutar contra um leão? —— Perguntei ao nada, mas ai tudo fodeu de vez, pois uma serpente se levantou das costas da fera e quando o rugido cessou, outra cabeça ao lado baliu, e percebi que tinha um rosto de carneiro ou coisa parecida, seus chifres se alongavam e eu tinha certeza que tanto eles, quantos os dentes da cara de leão, estavam bem afiados.

Com sua demonstração de grandeza, a Quimera deu um passo ultrapassando os limites, e atrás delas, uns dez escorpiões gigantes mostraram suas presas e pinças repletas de venenos. Não tinha escapatória, eu morreria ali e sem chance de levar pelo menos um comigo.

—— Foi um prazer viver nesse mundo, mas achei que duraria mais... —— Minha ultima frase antes de esperar o golpe ou a mordida mortal da Quimera, e assim aguardei com os olhos fechados e as mãos cerradas em punhos firmes, sem alternativas, sem esperanças, sem nada.