O Império dos Titãs.

10 Aprendendo a lidar com os poderes.


Começamos a caminhar e quando me dei conta já estávamos em frente ao pátio. Todos nos cercavam, mas seus olhares eram distintos a nossa posição. O sol aos poucos chegava mais próximo do centro do céu. Os raios davam uma sensação gostosa. Calor... Ou melhor, um clima fresco, em que eu podia muito bem nadar na praia e ainda pegar uma cor se quisesse. Óbvio que preferiria surfar.

Ao meu lado, não tão paciente e desaproveitando o clima, encontrava-se Lyu batendo seus pés, a cada segundo que passava perto dele chegava a conclusão de que ele estava ficando realmente problemático. Mas não ia falar aquilo, certamente o magoaria, mas fala sério... Era muito nervosismo em seus ombros. —— Vou mandar a Ariel fazer uma massagem pra você relaxar! Tu tá conseguindo me deixar nervoso também! —— Consegui formar uma frase decente sem que o atingisse no emocional, mas que também o fizesse pelo menos tentar parar com toda a euforia dos batuques dos pés.

Finalmente, saindo do refeitório, encontrei o primeiro semideus que fazia parte da minha lista. —— Ei! Rasquel! Chega aqui! —— Meus berros invadiam cada canto da imensidão do lugar, embora não fosse tão potente a ponto de alcançar o som alto das conversas e risadas do refeitório, ou da maré que chocava-se com as rochas, na praia, todavia, foi suficiente para atrair a atenção do mancebo. Ultimamente notava que ele andava muito solitário, porém, não é pra menos, ser o único proclamado pelo senhor dos ventos. Gozado era pensar que eu era eu tio agora.

Rasquel se aproximou, como de costume, vestia um shorts, com tênis e meias curtas, acima, uma blusa com toca, cobrindo seus cabelos dando liberdade aos óculos na sua face. A expressão em seu rosto era às vezes tão séria que me perguntava como ele poderia ser filho de Éolo. —— Fala ae... —— Não era difícil perceber que ele ainda estava abalado, só que eu não ia aguentar dois dos meus amigos com aquele clima ameno no ar. —— Seguinte! Fique aqui com o Lyu, na moral! Eu vou trazer o pessoal que te falei, Lyu, mas enquanto isso, não saiam daqui! E cara, você é filho de Apolo, haja como tal! Olha o sol formidável! Vamos, distraia-se. —— Meu balbuciar foi mais uma bronca do que um alerta. Quase mandei nele. Mesmo sabendo o quanto ele era teimoso, esperava que seguisse o que tinha dito.

Ambos assentiram e começaram a conversar, não quis me envolver no assunto, tampouco saber sobre o que falavam. Uma coisa era certa, Lyu me deu sua palavra de que não ia comentar nada e com ninguém enquanto o grupo todo não estivesse junto.

Afastando-se deles, comecei a vasculhar os cantos. Era difícil achar as pessoas certas, mesmo tendo alguns em mente, não iria ser fácil achá-los no meio de tantos. —— Bom, vamos começar pelos mais raros. —— Disse voltando para o refeitório.

[...]

O barulho estava bem alto, vários conversando, rindo, e outros amontoados nos cantos, cabisbaixos e principalmente calados, mas eram, por sorte, a minoria. Na mesa de Hades, avistei os dois filhos. Não que achasse Nico indigno de saber daquilo, mas acontece que muitas das vezes ele agia mais por brincadeira do que com seriedade. Meus passos iam ficando mais lentos a medida em que pensava como chamar Cody. Foi então que o garoto saiu, com seu prato em direção a fogueira, deixando ele sozinho na mesa. —— Perfeito. —— Murmurei me aproximando dele. —— Psiu, ei, Cody! —— Meu sussurro estava um pouco alto demais, apesar de que era preciso. —— Ei Marti. O que tá fazendo atrás dessas moitas? —— Ele observava a cena achando no mínimo engraçado. —— Olha, não é hora para caçoar do meu disfarce. Você já terminou de comer? —— Cody continha os lábios reprimidos, sabia que estava prestes a gargalhar. —— Sim... —— Falou ele com dificuldades. —— Ótimo, agora pare de ser lerdo e me encontre no pátio. —— Adentrei no meio das folhas até sumir do foco dele. Pelo menos consegui ver ele acenando positivamente.

Certo, dois já foram... Faltam alguns. Repentinamente quando sai das folhagens, trombei com Thalles. Ele estava com um pote de cereais nas mãos. —— Pô cara! Era meu café da manhã nutritivo! —— Me levantei pelo choque, limpando minhas calças com o leite e restos de cereais nela. —— Eca, bem nutritivo. Bom, tá ocupado? —— Ele me olhou, olhou para o prato, depois para mim de novo. —— Não mais. —— Sorri. —— Perfeito, vá para o pátio, preciso falar com você e mais um pessoal. —— Ele arqueou as sobrancelhas, duvidoso. —— Mas... —— Rapidamente o cortei. —— Sem mais, vá. ——

[...]

Depois dos três primeiros, decidi que seria melhor trazer o resto comigo, pois alguns poderiam se misturar com seus irmãos, amigos, seja lá o que rolasse a mais por lá, e acabar esquecendo. Peeta já estava comigo, procurávamos Dudu, já que ele não estava nem em sua mesa e nem no seu chalé, possivelmente estaria na colina, o lugar mais próximo do céu existente lá. —— Fiquei sabendo que o Lyu falou contigo sobre os sonhos dele e você não levou a sério. —— Puxei um assunto, mesmo parecendo carrancudo, estava dialogando normalmente. —— Não foi bem assim, mas sim, eu achei forte demais a preocupação dele. Eu nunca "zoou" com ninguém, mas hoje não resisti quando ele veio me contar. —— Ele se expressava do modo mais honesto que minha percepção pode aceitar. Suas palavras, embora com um pingo de graça, estavam banhadas pela verdade. Estranho era eu saber como isso acontecia. Parecia que conseguia detectar as verdades e mentiras dos outros. Devia ser só intuição, afinal, Poseidon não tem nada relacionado a verdade. —— Bom, ele falou comigo também, e cara... Ele estava realmente preocupado. —— Peeta começou a mexer no seu martelo, e quando olhei, percebi que vestia uma camisa preta do Batman. —— Sério? Até aqui você vem com essa porcaria? —— O filho de Hefesto começou a rir por alguns instantes. —— Eu queria te provocar. Missão bem sucedida. —— Ri desdenhosamente e com várias pausas em cada "riso". —— Engraçadinho você. Ha. Ha. Ha. Enfim, vê se acha o Dudu por ai. —— Peeta concordou e começou a procurar no canto esquerdo, já eu, ficava com o direito, descendo próximo a plantação de morangos.

Passaram-se vinte minutos e nada de Dudu ou qualquer alma viva ali. Apenas eu e os morangos. Nesse tempo me peguei pensando no passado. Tudo que abandonara. Minha família, amigos, até... Não, não deveria pensar naquilo. —— Que droga. —— Falei baixo, agarrando um morango com brutalidade, quase esmagando ele com os dedos. —— Será que prestam para serem comidos? —— Ótimo, agora eu estava falando com um morango, esperando que ele dissesse algo similar a: "Claro, me coma, estou bem suculento! " ou quem sabe: "Não, eu sou venenoso, se me engolir vai ter seu estômago derretido!".

Sabe aquele famoso modo "foda-se" que as pessoas dizem ativar ora ou outra? Bom, aquele foi um bom momento do meu se encontrar ligado. Levei o morango a boca, mas antes de conseguir colocá-lo ao toque da língua, um centauro agarrou meu pulso, fazendo eu largar o morango e deixá-lo cair no chão. —— Qual é?! —— Protestei, insatisfeito com aquilo. —— Calma filhote do mar. Acredite, isso não iria te fazer bem. —— Quando me virei, deparei com Adalberon parado e com os braços cruzados. Seu rosto com a típica cara de tédio. —— Ah... Você. —— Com os pesares dos pensamentos, pareci um pouco, ou bastante decepcionado com alguma coisa, não que isso fosse fazer aflorar o lado sentimental do quadrúpede humano. —— Sim, eu. E você me deve sua vida. —— Dizia ele triunfante. —— Por que devo tanto assim? —— Sentei no gramado, e se pudesse me ver num espelho, diria que parecia aqueles carinhas de animes, quando algo irritante acontece, com um bico enorme e os olhos aborrecidos para o lado contrário do portador da razão. —— Não seja ingrato moleque! —— Ele berrou, e estava abaixado, curvando um pouco suas patas de cavalos, já suas mãos, ficavam na cintura. Típica posição de um mandão. —— Ah, como se eu te devesse muito. E afinal, por que te devo isso? —— Adalberon percebeu que eu estava mesmo em dúvida, sem entender nada pra falar a verdade. —— Se você comesse um desses morangos antes de Dionísio autorizar a colheita deles... Bom, digamos que você teria um deus bem irritante infernizando hoje e até o fim da sua vida. —— Engoli seco. —— É... Obrigado, eu acho. —— Ele cavou a terra, bufando pelo nariz. —— Ingrato. —— Cruzei os braços ainda emburrado. —— E você parece que me ama. Fica me perseguindo. —— Pude notar veias saltarem na sua testa e seus punhos se fecharem com firmeza. —— Calma lá! Eu tô zoando! —— Sua expressão se aliviou um pouco. —— Me respeite, seu peixe! —— Me levantei, emputecido. —— Olha quem fala! O cara meio pônei e meio anão de jardim! —— Mesmo não parecendo muito inteligente o que eu disse, foi suficiente para irritar ele. —— ESCUTA AQUI, SUA ANÊMONA, ACHO BOM BAIXAR OS MODOS SE QUER SABER O MOTIVO DE EU ESTAR AQUI! —— Sinceramente parecíamos duas crianças trocando ofensas mas sem dar socos um nos outros. Eu tinha noção que se chegasse a este nível, eu estaria perdido. Mas sua frase causou tanto efeito em mim, que sentei ao lado de alguns morangos e esperei ele se acalmar também.

Ambos serenos, Adalberon agarrou um ramo das plantações e fungou bem fundo. —— Adoro esse cheiro! —— Mesmo por trás daquela figura máscula e cheia de ira, será que existia um centauro calmo e romântico? Fiquei rindo aos cantos, imaginando ele cantando uma de sua espécie. Me recuperando, usei o máximo da concentração, a fim de não dar vestígios da graça. —— Então... O que você tem pra falar pra mim? —— Ele caminhou até mim, com os braços novamente cruzados. Exibia seus músculos como se quisesse me humilhar ou intimidar, não sabia ao certo o quê. —— Na verdade, são as palavras de Quíron que vou transmitir à você. —— Quíron havia me prometido respostas, mas porque mandara aquele paspalhão? —— E por que ele mesmo não vem me contar? —— Encarei seus olhos castanhos escuros. —— Se você não sabe, ele teve que voltar para o outro acampamento. Sua pesquisa requer uma atenção extrema. E ele precisa ser bastante dedicado. Mas enfim, você quer ou não saber o que ele disse? —— Simplesmente concordei com a cabeça, quieto e esperando ele prosseguir. —— Ótimo. Pois bem, quanto aos seus pais, pode ficar tranquilo, sua família já foi alertada e avisada da melhor maneira. Sabem o que você está passando e como não podem fazer nada. Ninguém, inclusive os pais se seus amigos, de qualquer um aqui, aceitou as coisas muito bem, essa é a pior parte, admito, mas eles foram conscientizados, de um jeito ou de outro, tiveram que aceitar a razão. —— Ele fez uma pausa, cheirando de novo os morangos. —— Por acaso esse cheiro te lembra alguém? —— Tive de perguntar, seus olhos pareciam viajar centenas de anos luz dali. —— Ér... Não! —— Sua reação de espanto só mostrou o quão mentiroso ele estava sendo. —— Tá bom então, e eu sou o bozo! Isso ai é um olhar apaixonado... Qualquer um pode ver... —— O centauro corou, mas logo ficou vermelho de raiva. —— Isso não vem ao caso! Continuando. —— Ele tossiu para espantar o assunto e voltar ao foco principal. —— Bom, eles estão bem, protegidos também. Então com isso não tem mais com que se preocupar, porém... Saiba que por ser um escolhido de Poseidon, o seu cheiro, o seu sangue, atrai e pode atrair um número imenso de criaturas. Os cheiros dos filhos dos três grandes são os mais deliciosos para as bestas que os aguardam lá fora. Sua vida agora é essa. Não mudará nunca mais. Sempre terá um monstro te esperando para devorá-lo. Parece injusto ou assustador? Bom, sabemos, mas você é filho do poderoso Poseidon, tem habilidades que podem te salvar sempre, assim como aliados bem poderosos... Bom, o recado basicamente se resume nisso, mas por experiência próxima, eu sendo uma criatura mitológica, também posso sentir seu cheiro, mas sangue de semideus não me agrada, é um paladar mais recaído das feras malignas... Contudo, seu cheiro não tem características só do mar... É mais forte que isso. Portanto, tome bastante cuidado, Martinato. Isso é um conselho de Centauro para Meio-Sangue. —— Absorvi cada informação, cada detalhe e não questionei nada. Essa era a minha nova vida. Minha nova rotina. Minha nova casa. Meu novo lugar. Sempre desejei algo mais intenso no decorrer dela, mas agora que o consegui, parecia ser demais para suportar, mas eu era forte, pelo menos me considerava. Ia suportar isso, e se fosse para morrer, que assim seja. Mas levaria muita daquelas malditas feras pro saco comigo.

Preso nos pensamentos, mal pude acompanhar os passos de Adalberon, me virei e ele já estava galopando colina abaixo. —— Eu ainda não tinha terminado. —— Agarrei um pouco de terra com grama fresca pela raiva. Descontei num inocente de novo. Mas no meio de tanta grama e terra, só aquele pouquinho não faria mal, pelo menos pensava assim. Com tanta gente destruindo a natureza, acho que Deméter não iria descontar sua fúria em mim.

Mais acima, Peeta aparecia junto com Dudu, eles acenavam na minha direção, e rapidamente fui ao encontro deles. Faltavam poucos.

[...]

Próximos ao final da descida, me afastei alguns passos dos dois, que imediatamente notaram a minha ausência. —— Que foi, Marti? —— Eu limpei o suor devido a longa caminhada. —— Nada não, vão indo, tem uma pessoa que eu preciso chamar, mas ele é meio problemático... Acho que só ouvirá a mim. Se não com certeza vai rir de todos e levar tudo na brincadeira. —— Eles se entreolharam, e mesmo assim não disseram nada. —— Bom, encontro vocês no pátio, eles estão no chafariz, não é difícil achar. Me esperem e explicarei tudo quando chegar. —— Os dois concordaram e saíram as pressas para o local designado.

Bom, agora era hora de falar com o filho mais descontrolado de Ares.

[...]

O chalé da guerra não nem de longe o mais chamativo, só pelo fato das cercas elétricas, um javali ao centro, armas apontadas para todos os cantos, esqueletos enfeitando a entrada, facas cravadas nas portas, paredes e todos os cantos. Pelo menos não exalava um cheiro ruim, até que era cheiroso, difícil acreditar, mas como tinha muitas meninas, talvez a higiene fosse considerada importante. —— Alex! —— Berrei, e nada aconteceu. —— Porra, será que ele está dormindo... —— Foi então que um grito de dor e um estrondo de algo chocando com uma estante presenteou a quietude. —— Ai caralho! Meu joelho! Porra, que dor! —— É. Ele tinha acabado de acordar. Da janela, ele abriu, quase cortando seus dedos com os parafusos que formavam uma espécie de armadilha para cair no dedo de pilantras. —— E ai, viadinho. —— O sol parecia cegá-lo, pois ele olhava prum lado e eu respondia de outro. —— Viadinho é o seu pai. —— Uma explosão aconteceu no céu. —— O outro pai, porra! Assim fica difícil! —— Logo o cenário ficou quieto, só com nossas vozes interferindo a naturalidade. —— Tá, tá... O que você quer? Tá cedo ainda! —— Esfreguei os olhos com a ponta dos dedos. —— Mano, cala a boca e vai tomar um banho logo, anda. —— Ele recuou e bateu a cabeça na parte de madeira da janela. —— Puta merda! Hoje não é meu dia! —— Desastrado como sempre, pelo menos achava graça no meio de tanta grosseria. —— Anda logo, Cinderela. É importante, e você que adora aventuras, vai gostar. —— De longe pude ainda ouvir sua voz mais agitada e animada. —— Vai rolar sangue?! —— Não acreditei que ele tinha perguntado aquilo, mas quando ele apareceu vestindo uma jaqueta de couro e com a escova entre os dentes e a espuma da pasta caindo no canto do lábio direito, percebi que tinha sido aquilo mesmo. —— É... Quem sabe. Agora termina ai e vamos. —— Ele terminou de escovar os dentes, largando suas roupas por cima da sua beliche, e pouco se importando com a bagunça que fazia. Quando cuspiu finalmente a pasta, voltou com os dizeres. —— Acho bom que role! Perai, só falta passar o deso! —— Depois do desodorante, uma ajeitada básica no cabelo, uma raspada na barba e mais alguns outros produtos para melhora a sua cara — não que funcionasse -, ele saiu, com a jeans preta e botas bem exageradas. —— Parece que tudo que tu curtia tem ai. —— Eu olhava minhas roupas, uma camisa simples, calça justa e tênis baixos. —— Ah, sabe como é. Sempre bom estar vestido para matar! —— Ele juntou o maxilar, como se mordesse os próprios dentes com força, sorrindo e colocando um ray ban preto. —— É... Matar galinhas. Agora ouça. —— Ele coçava o queixo, inexpressivo. Parecia não parar muito para ouvir ultimamente. —— Nós vamos nos encontrar com alguns amigos. Pelo amor dos deuses! Não caçoe ou irrite ninguém. O assunto é sério e dependendo da gravidade, podemos até encontrar alguns monstros... —— Rapidamente ele se encontrava com uma lança em punhos. —— Você disse monstros? —— Dizia ele sarcasticamente. —— Porra velho! Você tá prestando atenção no que eu disse? —— Indaguei furioso e ele percebeu a minha ira, mesmo sendo maior que eu e com mais músculos, desde que fui proclamado filho de Poseidon, todos mantinha uma distância considerável e um respeito maior por mim. Assim como os filhos de Zeus e Hades. —— Tá bom cachorra. E eu ouvi. Sem zoar, sem irritar, apenas ouvir. Ah, vamos logo que eu ainda quero comer. —— Toquei a palma da mão canhota na testa repesando se aquilo foi uma boa ideia.

[...]

Bom, infelizmente não consegui chamar todos. Nelson ninguém, até mesmo Peeta, não conseguiu achá-lo. Mas se caso o visse depois da "reuniãozinha", o deixaria por dentro dos fatos. Biel e Gabe também não achava, mas desde que Gabe tinha sido proclamado filho de Nêmesis, dificilmente ele se encontrava ali, talvez estivesse fazendo planos de vingança ou algo semelhante. Biel por sua vez poderia estar treinando arco e flecha, então não quis atrapalhá-lo. Ainda mais com um dia iluminado como aquele, depois deixaria todos conscientes, e isso era uma promessa mental.

Finalmente, todos estavam reunidos, alguns ficaram alarmados por eu ter trazido Alex comigo, mas não podia fazer nada, se a situação exigisse perigo, eu preferia ter ele como ajuda. Mas muitos não se contiveram, muitos em específico. —— O que ele tá fazendo aqui? —— Thalles perguntou bastante incomodado. —— Qual o problema, grão de lixo? —— Suas bochechas começaram a ficar vermelhas. —— Tirando o fato de você ter matado dois dos nossos com seus poderes de puta louca, nada não. Nada mesmo! —— Alex estralou o pescoço. —— Ai, porque você não faz uma árvore de maconha e fica apamps com a ervinha? —— Thalles pegou seu pedaço de madeira. Alex segurou com mais firmeza sua lança. —— E se eu quiser fazer uma raiz brotar da tua bunda? —— O filho de Ares riu com o canto dos lábios. —— Ai eu vou fazer essa lança visitar seu cu e sair pela garganta. Que tal? —— Ambos estavam prestes a se atacar, e eu achei incrível ninguém impedir ou ao menos amenizar as coisas. Será que eu tinha que fazer tudo? Agarrei a lança de Alex com a mão canhota, que exigia mais força e com a esquerda, abaixei a tora de Thalles. —— Que tal os dois agirem com maturidade e ouvirem o que o Lyu tem pra dizer? —— Thalles repousou seu porrete de madeira nas mãos. —— Certo, mas não confio em alguém que mata sem pensar. —— Alex sorria confiante, como se as mortes não significassem nada. —— Você tem medo da minha aura, isso sim. —— Bom, no meio da guerra, Alex tinha conseguido despertar seus poderes como filho de Ares, mas saiu fora do controle, a aura de guerra, emitida quando em situações bem complicadas, dão mais força, resistência e vários outros atributos, mas os deixam loucos, Alex por exemplo, consegue ativar ela a qualquer instante, não é a toa que era o mais forte dos filhos de Ares, porém, ele perdia completamente a noção das coisas se ficasse mais de dez minutos com ela ativada. —— Sabemos do que ele é capaz, mas aqui estamos treinando para controlar nossos poderes, e não houve mais nenhum atentado depois daquilo. Não podemos culpá-lo inteiramente, ele não sabia como controlar e perdeu a consciência no mesmo instante que ativou. Nas outras vezes, ele estava sã e agora consegue desativar a aura antes de ficar louco, você sabe muito bem disso. Todos nós tivemos problemas... Eu mesmo ainda não consigo controlar as águas com perfeição. Dos qualificados ele é o mais experiente, assim como você, Thalles, ambos dominam os poderes muito bem, agora chega de baboseiras! Lyu... —— O loiro ficou feliz que a discussão cessou e no meio de todos, contou seu sonho mais uma vez, e explicou o que sentiu, como as imagens eram reais e como talvez os monstros fossem entrar para o acampamento em que estávamos.

Depois de contar cada detalhe, ele se sentou e ficou olhando as águas imóveis do chafariz. —— Mas você tem alguma noção de quando isso pode acontecer? —— Falou Peeta. Agora ele levava a sério a situação. —— Não, mas algo me diz que logo, e bem rápido... —— Retrucou ele, um pouco incomodado com o amigo que outrora duvidara dele. —— Bom... Mesmo que isso aconteça, como vamos impedir? Sabe, eu mal consigo soltar uma rajada de vento sem ficar trêmulo e cansado... Se isso por exemplo acontecer hoje? —— Rasquel era sábio, suas perguntas tinham uma lógica e razão incontestáveis. —— O melhor a se fazer é treinar. —— Alex mordia um pedaço de madeira pequeno, similar a um palito de dente. —— Treinar não é sempre a solução, e se não tivermos tempo? —— Alex bufou com a pergunta do filho de Éolo. —— Olha, vocês ficarem conversando não vai ajudar nada, os mais experientes com os poderes divinos podem dar dicas, eu por exemplo, sinto a aura e sei como controlá-la, vocês devem fazer delas suas emoções e dominá-las. Eu sempre penso em morte, isso me faz me sentir poderoso, mas é pela minha familiaridade com Ares, vocês devem encontrar a de vocês. —— Thalles interveio. —— Mesmo não gostando... Tenho que concordar com ele. Eu penso na natureza e com ela dominando o mundo. É uma sensação boa, e isso me dá forças e com essa emoção no controle, eu consigo fazer as árvores, grama, terra, tudo, entrar em contato comigo. —— Rasquel colocou sua mão no queixo, provavelmente pensava em alguma sensação e tentava assimilar ela. Eu não fazia diferente.

O silêncio pairou por exatos três minutos, até que Dudu se levantou. —— Bom, eu já tenho uma noção. Eu consigo fazer raios caírem do céu e outro dia podia jurar conseguir gerar cargas com as minhas mãos... E eu sempre pensava em estar fundido com o trovão, com os ventos, isso me dava uma sensação de poder e de autoconfiança. —— Todos ficaram imaginando como ele se sentia, mas principalmente como podia gerar cargas aleatoriamente. —— Bom, faz sentido. Nossos corpos emitem cargas elétricas, mesmo que bem pequenas, às vezes conseguimos dar um choque numa pessoa por ter atrito nos pés e coisa e tal... Não sei bem como explicar isso, sou péssimo em física, mas faz sentido, talvez sua carga seja maior que a nossa. Acho que valeria a pena você treinar isso. Esfregue suas mãos e tente gerar uma carga. —— Todos analisavam minhas palavras e ninguém opinava em nada, talvez a minha lógica tivesse sido perfeita. —— Certo... Vou tentar. —— Antes de começar, Thalles se pronunciou. —— Pense no que você disse, e deixe essa emoção te dominar. —— Ele fez que sim com o balançar da cabeça e logo começou a esfregar suas mãos. Fiquei com os braços cruzados até ver sua pele começar a se avermelhar. —— Dudu, a sensação! —— Relembrei, e ele fechou os olhos com mais firmeza e então algo surpreendente aconteceu, suas mãos brilhavam num tom branco e inquieto. Faiscas se juntavam nas palmas das mãos e iam correndo e trocando de palmas numa velocidade incrível. —— Cara! Isso é demais! —— Todos ficamos surpresos e logo alguns começaram a imaginar algo físico similar aos seus poderes e imaginar as melhores sensações.

Mesmo com um incentivo grande vindo do sucesso de Dudu, o ato não durou muito tempo, e os outros falhavam inúmeras vezes. —— É impossível... —— Rasquel arfava, mas todos conseguiram sentir o vento forte que soprou quando as veias saltaram em sua testa. —— Acho que esse cenário não é bom para você treinar. Espere os outros, depois te dou uma dica. —— Falou Lyu e ele apenas concordou, se apoiando no mármore do chafariz, devido a falta de um banco coletivo.

Cody estava quieto, que até tinha esquecido da sua presença. Ele não tentara nada desde o feito de Dudu, sequer moveu um dedo. —— Cara, por que você não tenta? —— Ele olhou para suas mãos, com um pouco de medo. —— Eu já consigo controlar meus poderes também... —— Me surpreendi. —— Então por favor, nos mostre. —— Ele engoliu seco. —— Não, não quero parecer uma aberração... —— Bufei e soquei seu ombro fracamente. —— Pare de besteiras! Pense que somos mutantes! Não ia ser legal ser um mutante? Agora vá, mostre! Todos nós somos iguais, não tem motivo para se sentir um monstro. —— Minhas palavras deixaram ele mais tranquilo, e confiante, Cody se levantou e juntou seus braços nas costelas. Seus dedos estava erguidos e ele olhava destemido para o solo composto por rochas. Repentinamente, uma cratera se abriu, com medidas similares a um caixão. —— Uou! —— Se surpreendeu Peeta, olhando próximo. —— Cuidado! —— Alertou Cody, com a voz exigindo força para ser emitida. —— Ainda não acabou, aah! —— Dava para notar o esforço em sua concentração. Logo, cinco esqueletos subiram com a terra que se encaixou perfeitamente. Neles haviam armas como elmos, escudos e espadas. —— Olha, você pode trazer armas nos momentos em que tivermos desarmados! —— Ele sorriu. —— Melhor do que isso. —— E então a mágica aconteceu, as caveiras começaram a se juntar, cada osso em seu devido lugar, com eles completos, empunharam as lâminas e escudo contra a caixa toráxica, esperando as ordens.

Ele chegou perto delas e as caveiras com seus orbes sem nada, acompanharam o movimento do filho de Hades. —— Essas caveiras são uma excelente válvula de escape. Sem mencionar que depois que são derrotadas, suas armas ainda ficam, então, sim, serve para nos equipar em medidas extremas. —— Todos prestavam atenção, mas Dudu ainda gerava novas cargas e cada vez mais a duração era maior, contudo, o desgaste o consumia rigorosamente. —— E qual é a do buraco? —— Alex perguntou, curioso. —— Bom, se você cair, vai direto para o submundo. E tem uma morte horrível, se for pego, claro. —— Ele riu. —— Vou manter distância de você. —— Avisou a prole de Ares. —— É melhor. —— Cody retrucou triunfante.

Bom, todos estavam dando duro nos treinamentos, e eu não podia deixar de fazer o mesmo. Me aproximei das águas inquietas e coloquei minhas mãos na superfície. Senti como se ela fosse firme e eu pudesse andar nelas, mas não abusaria de apenas uma sensação. —— Uma sensação de autoconfiança e força... —— Pensei comigo andando sobre o mar, no meio das tempestades, controlando furacões e derrotando várias criaturas. Isso me deixou com uma sensação de poder realizar tudo, mas haviam suas exceções. Abri os olhos convicto de que sairia e como se puxasse a água com os dedos, elevei meus braços e me virei para direção dos chalés. Me seguindo, um chicote de água estava flutuando ao meu comando. O feito exigia esforço, notava o cansaço invadindo meu peito, já que em poucos segundos arfava e não respirava normal.

Aproveitando do chicote, o lancei contra o chão, e com fúria ele bateu nas rochas perfeitamente bem esculpidas, o choque foi forte, abrindo uma fina camada, mas profunda, e onde a água havia acertado. Rachaduras acompanharam aos lados. —— Isso pode fazer um estrago. —— Disse, e bastante confiante. —— Mas ainda falta muito... Você está quase acabado e só fez um ataque. Esse pensamento não é suficiente. —— Questionou Alex. —— É o melhor que eu tenho por enquanto. Sério... —— A verdade estourou nos meus lábios. —— Então foque-se mais, hoje e nos próximos dias. Só assim você poderá dar tudo de si. —— Reforçava Thalles. Se não fosse por aquela rixa entre ele e Alex, com certeza formariam uma excelente dupla. Um prendendo o inimigo e o outro fazendo dele em pedacinhos.

Lyu foi o único agora que não tentou nada, ele estava em silêncio, se perdendo em seus pensamentos. —— Mano... Acredite, nós estamos levando isso a sério, mas se você não tentar se fortalecer, vai ser em vão também, não concorda? —— Ele se virou. —— Concordar eu até concordo, mas que tipo de poderes será que eu tenho? —— Eu quis dar um soco bem forte na cara dele, mas apenas respirei fundo. —— Escuta aqui, você tem que treinar arco e flecha. Pelo menos para se defender em uma guerra. Será seu melhor armamento. Segundo, esse seu sonho, pode ser um poder também. Apolo é o deus dos oráculos, clarividência faz parte dele, e pode fazer parte de você também. Você tem o som... Use sua voz, sei lá. Ele é deus de tantas coisas! Por favor, apenas tente e peça conselhos para ele no almoço e na janta, não parte só de nós saber o que podemos fazer. Ninguém aqui tem noção de tudo que pode fazer. —— Ele se levantou e finalmente mudou a expressão em seu rosto. Estava com coragem e determinação. —— Certo! Vou encontra o Biel! Vou praticar um pouco de arco e flecha. —— Ele correu em direção da arena logo sumindo.

Os demais ainda estavam treinando. Rasquel aos poucos melhorava e conseguia manter os ventos soprando contra as árvores, e elas se envergavam algumas vezes. —— Pessoal, não vamos ficar fazendo isso aqui no meio do pátio. Vamos nos focar em lugares mais específicos. Temos tempo eu suponho, mas lembre-se... Lyu não teve um sonho, eu tenho certeza de que aquilo foi uma visão do futuro próximo. —— Eles me olharam curiosos, querendo entender como eu tinha essa resposta. —— Como você... —— Peeta nem terminou a frase e eu logo o interrompi. —— Eu simplesmente sei, sinto uma ligação com Apolo, não sei dizer, mas sei. Então por favor, levem esse treino a sério e conte para seus irmãos e amigos, faça-os treinarem. Ajudem aqueles que não tem ideia do que fazer, sei que aqui todo mundo manja um pouco de mitologia, ensinem e se preparem... —— Dei uma pausa olhando para a praia. Precisava avisar Joe. Precisávamos treinar. —— Sinto que uma guerra está por vir. —— Finalizei o diálogo indo para praia, enquanto os demais corriam para fazer o que eu tinha indicado.

Precisávamos nos preparar, o mais rápido possível.