Após o banquete matinal, o Rei Richard convidou Yaman para uma caminhada pela galeria superior, que rodeava o pátio interno do palácio. Lá embaixo, sob o sol suave da manhã, Claire, James e Elisandra participavam de um jogo de peteca. O riso de Claire subia pelas colunas de pedra, límpido e cristalino, enquanto ela corria desajeitadamente com seu vestido de seda, com uma alegria que parecia iluminar todo o pátio.

​O Rei parou, apoiando as mãos pesadas no parapeito de pedra, observando a filha. Yaman parou ao lado dele, mantendo uma distância respeitosa, mas com o olhar fixo na mesma direção.

​— Ela é como uma manhã de primavera que nunca conheceu uma tempestade, não acha, Capitão? — o Rei começou, a voz baixa e carregada de uma proteção paternal que não admitia réplicas.

​Yaman observou Claire tropeçar e rir, sendo amparada por James.

— Ela tem uma luz rara, Majestade. O tipo de luz que não se encontra em mapas.

​Richard virou o rosto lentamente para o pirata. O olhar do soberano era como aço.

— Exatamente. E luzes assim são facilmente apagadas pelo vento bruto. O senhor é um homem do mar, Olivier. Eu vejo as cicatrizes em suas mãos e a sombra em seus olhos. O senhor já viu o lado sombrio do mundo, já matou, já roubou e já sobreviveu a coisas que minha filha nem consegue imaginar nos pesadelos dela.

​Yaman sustentou o olhar, sem intimidar-se.

— Eu não nego quem eu sou, Majestade.

​— Pois deveria considerar quem ela é — continuou o Rei, apontando para Claire lá embaixo. — Ela é uma menina. Dezessete anos de pureza, de sonhos sobre heróis de livros e finais felizes. Ela é meiga, ingênua e acredita que o mundo é um lugar gentil porque eu construí esses muros para garantir que assim fosse. O senhor, por outro lado... o senhor é um homem. Um homem que carrega o peso de uma vida de escolhas difíceis e perigosas.

​O Rei deu um passo à frente, diminuindo o espaço entre eles.

— Entenda, Olivier. Eu o convidei como hóspede porque aprecio uma boa história e reconheço um homem de valor quando vejo um. Mas não confunda minha hospitalidade com cegueira. Eu vi como ela olha para o senhor. E vi como o senhor a olha. Mundos como os seus não se misturam; eles colidem. E nessa colisão, é a flor que acaba esmagada, nunca a rocha.

​Yaman sentiu o peso das palavras do Rei. Havia verdade nelas, uma verdade que o incomodava mais do que gostaria de admitir.

— O senhor está me pedindo para me afastar?

​— Estou dizendo que seria melhor para ambos — Richard disse, voltando a olhar para a filha. — Deixe que ela continue sendo a menina que acredita em contos de fadas. Não traga a realidade do seu convés para os jardins dela. Mantenha as suas histórias na mesa de jantar e a sua distância no restante do tempo. Quando o seu navio estiver pronto, o senhor partirá para o seu horizonte, e ela permanecerá aqui, segura. É assim que deve ser.

​Yaman apertou levemente o parapeito de pedra. Lá embaixo, Claire pareceu sentir que estava sendo observada. Ela olhou para cima e, ao ver Yaman, abriu um sorriso radiante, acenando com a mão. O pirata sentiu um aperto no peito que nenhuma tempestade jamais lhe causara.

​— Ela merece o mundo, Majestade — murmurou Yaman, sem desviar os olhos dela.

​— Ela merece o mundo que eu criei para ela — rebateu o Rei, friamente. — Não o seu. Estamos entendidos, Capitão?

​Yaman demorou a responder. O silêncio pesou entre o monarca e o fora da lei.

— Entendidos, Majestade. Eu sei exatamente o lugar de um homem como eu em um palácio como o seu.

​O Rei Richard assentiu, satisfeito, e retirou-se, deixando Yaman sozinho na galeria. O pirata ficou ali, observando Claire jogar, sentindo pela primeira vez que o seu "horizonte" talvez fosse o lugar mais solitário da terra.