O som das botas de couro pesado contra o mármore do Grande Salão ecoava como batidas de um tambor de guerra. Yaman Olivier atravessou os portões, mas não era mais o homem que fugia de si mesmo. Ele carregava a autoridade de quem sobreviveu ao próprio inferno pessoal. O mico, agora um veterano silencioso em seu ombro, parecia reconhecer o luxo familiar.

​No topo da escadaria, a família real aguardava.

​O Reencontro com o Príncipe e o Rei

​James foi o primeiro a descer. Ele não levava a mão à espada, mas sim estendida.

​— Capitão Olivier — disse James, com um sorriso de quem entende de batalhas e de amores difíceis. — O mar demorou a devolvê-lo. Meu filho mais velho já corre por estes corredores, e você ainda cheira a sal e teimosia.

​— Príncipe James — Yaman apertou a mão dele com firmeza. — O mar não devolve nada que não seja conquistado.

​Yaman subiu os últimos degraus e parou diante do Rei Richard e da Rainha Catarina. O silêncio que se seguiu foi pesado. O Rei o estudou; viu que os cinco anos tinham arrancado do pirata qualquer rastro de arrogância, deixando apenas a determinação de um homem que sabia o que estava perdendo.

​— Você voltou, mesmo depois de tudo o que eu disse — afirmou o Rei, a voz cansada, mas sem o veneno de outrora.

​— Majestade — Yaman fez uma reverência profunda, mais sincera do que qualquer outra. — O senhor me disse que eu esmagaria a flor. Eu acreditei. Fugi para que ela não murchasse... mas descobri que o horizonte é cinza sem a luz dela. Não vim pedir permissão para entrar no seu reino. Vim pedir perdão por ter demorado tanto para entender que meu porto é ela.

​A Rainha Catarina sorriu, os olhos marejados.

— O perdão não é nosso para dar, Capitão.

​Enfim, Claire

​Foi então que as portas laterais se abriram. O burburinho do palácio silenciou.

​Claire apareceu. Ela não usava as sedas que ele lembrava. Estava com suas calças de couro, a camisa branca de linho com as mangas dobradas e o cabelo ruivo preso em uma trança desleixada que deixava alguns fios soltos contra o rosto. Ela não caminhava; ela avançava com a confiança de uma leoa.

​Yaman sentiu o ar abandonar seus pulmões. Ele esperava encontrar a menina de dezessete anos, mas diante dele estava uma mulher cuja força superava qualquer tempestade que ele já navegara.

​Eles pararam a poucos passos um do outro. O mundo ao redor — o rei, o príncipe, os guardas — desapareceu.

​— Você está atrasado, Olivier — disse Claire. A voz dela não era mais aguda e vacilante; era firme, melódica e tingida de uma ironia que escondia uma saudade avassaladora.

​Yaman deu um passo à frente, os olhos fixos nos dela.

— O vento não estava a meu favor, Alteza. Ou talvez eu fosse um covarde demais para admitir que o mar era pequeno demais para esconder o que eu sentia.

​Claire sorriu, mas era um sorriso que cortava.

— Você me chamou de criança. Disse que eu era uma distração entediada.

​— Eu menti — sussurrou ele, a voz rouca, estendendo a mão trêmula, mas parando antes de tocá-la. — Foi a maior mentira da minha vida. Eu tentei salvar você de mim, mas acabei me perdendo no processo.

​Claire olhou para a mão dele, depois para o rosto marcado pelo tempo. Ela deu o passo final, eliminando qualquer distância. Ela pegou a mão dele e a colocou contra o próprio rosto, sentindo a pele áspera e quente dele.

​— Você não me salvou, Yaman. Você me despertou. Eu passei cinco anos cavalgando contra o vento para ver se sentia metade da liberdade que senti quando dancei com você naquele baile.

​O momento foi mágico. O sol da tarde entrava pelos vitrais, lançando cores de ametista e ouro sobre eles. Yaman tocou o rosto dela com as duas mãos, como se estivesse segurando o tesouro mais precioso do mundo.

​— Eu não sou um príncipe, Claire. Nunca serei. Minha vida ainda cheira a perigo.

​— E eu não sou mais uma boneca de porcelana, Capitão — ela respondeu, os olhos brilhando com lágrimas que finalmente podiam cair. — Se você vai voltar para o mar, eu espero que o seu navio tenha espaço para uma princesa que sabe usar uma espada melhor que muitos de seus homens.

​Yaman riu, uma risada que vinha do fundo da alma, e encostou a testa na dela.

— Meu navio sempre foi seu, Claire. Eu apenas estava guardando o lugar do capitão até você chegar.

​Sob o olhar de toda a corte, no centro do palácio de Lâfrer, o pirata e a princesa selaram o destino. Não foi um beijo de conto de fadas, mas um pacto de almas rebeldes que decidiram que o horizonte, finalmente, seria alcançado juntos.