O Horizonte de Claire
13 O reencontro
O som das botas de couro pesado contra o mármore do Grande Salão ecoava como batidas de um tambor de guerra. Yaman Olivier atravessou os portões, mas não era mais o homem que fugia de si mesmo. Ele carregava a autoridade de quem sobreviveu ao próprio inferno pessoal. O mico, agora um veterano silencioso em seu ombro, parecia reconhecer o luxo familiar.
No topo da escadaria, a família real aguardava.
O Reencontro com o Príncipe e o Rei
James foi o primeiro a descer. Ele não levava a mão à espada, mas sim estendida.
— Capitão Olivier — disse James, com um sorriso de quem entende de batalhas e de amores difíceis. — O mar demorou a devolvê-lo. Meu filho mais velho já corre por estes corredores, e você ainda cheira a sal e teimosia.
— Príncipe James — Yaman apertou a mão dele com firmeza. — O mar não devolve nada que não seja conquistado.
Yaman subiu os últimos degraus e parou diante do Rei Richard e da Rainha Catarina. O silêncio que se seguiu foi pesado. O Rei o estudou; viu que os cinco anos tinham arrancado do pirata qualquer rastro de arrogância, deixando apenas a determinação de um homem que sabia o que estava perdendo.
— Você voltou, mesmo depois de tudo o que eu disse — afirmou o Rei, a voz cansada, mas sem o veneno de outrora.
— Majestade — Yaman fez uma reverência profunda, mais sincera do que qualquer outra. — O senhor me disse que eu esmagaria a flor. Eu acreditei. Fugi para que ela não murchasse... mas descobri que o horizonte é cinza sem a luz dela. Não vim pedir permissão para entrar no seu reino. Vim pedir perdão por ter demorado tanto para entender que meu porto é ela.
A Rainha Catarina sorriu, os olhos marejados.
— O perdão não é nosso para dar, Capitão.
Enfim, Claire
Foi então que as portas laterais se abriram. O burburinho do palácio silenciou.
Claire apareceu. Ela não usava as sedas que ele lembrava. Estava com suas calças de couro, a camisa branca de linho com as mangas dobradas e o cabelo ruivo preso em uma trança desleixada que deixava alguns fios soltos contra o rosto. Ela não caminhava; ela avançava com a confiança de uma leoa.
Yaman sentiu o ar abandonar seus pulmões. Ele esperava encontrar a menina de dezessete anos, mas diante dele estava uma mulher cuja força superava qualquer tempestade que ele já navegara.
Eles pararam a poucos passos um do outro. O mundo ao redor — o rei, o príncipe, os guardas — desapareceu.
— Você está atrasado, Olivier — disse Claire. A voz dela não era mais aguda e vacilante; era firme, melódica e tingida de uma ironia que escondia uma saudade avassaladora.
Yaman deu um passo à frente, os olhos fixos nos dela.
— O vento não estava a meu favor, Alteza. Ou talvez eu fosse um covarde demais para admitir que o mar era pequeno demais para esconder o que eu sentia.
Claire sorriu, mas era um sorriso que cortava.
— Você me chamou de criança. Disse que eu era uma distração entediada.
— Eu menti — sussurrou ele, a voz rouca, estendendo a mão trêmula, mas parando antes de tocá-la. — Foi a maior mentira da minha vida. Eu tentei salvar você de mim, mas acabei me perdendo no processo.
Claire olhou para a mão dele, depois para o rosto marcado pelo tempo. Ela deu o passo final, eliminando qualquer distância. Ela pegou a mão dele e a colocou contra o próprio rosto, sentindo a pele áspera e quente dele.
— Você não me salvou, Yaman. Você me despertou. Eu passei cinco anos cavalgando contra o vento para ver se sentia metade da liberdade que senti quando dancei com você naquele baile.
O momento foi mágico. O sol da tarde entrava pelos vitrais, lançando cores de ametista e ouro sobre eles. Yaman tocou o rosto dela com as duas mãos, como se estivesse segurando o tesouro mais precioso do mundo.
— Eu não sou um príncipe, Claire. Nunca serei. Minha vida ainda cheira a perigo.
— E eu não sou mais uma boneca de porcelana, Capitão — ela respondeu, os olhos brilhando com lágrimas que finalmente podiam cair. — Se você vai voltar para o mar, eu espero que o seu navio tenha espaço para uma princesa que sabe usar uma espada melhor que muitos de seus homens.
Yaman riu, uma risada que vinha do fundo da alma, e encostou a testa na dela.
— Meu navio sempre foi seu, Claire. Eu apenas estava guardando o lugar do capitão até você chegar.
Sob o olhar de toda a corte, no centro do palácio de Lâfrer, o pirata e a princesa selaram o destino. Não foi um beijo de conto de fadas, mas um pacto de almas rebeldes que decidiram que o horizonte, finalmente, seria alcançado juntos.
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