O Horizonte de Claire

17 ​O Primeiro Zarpar


O sol começou a despontar no horizonte, pintando o mar de um rosa perolado e dourado, quando os primeiros raios atingiram as velas negras do Horizonte Negro. No cais, a guarda real estava em formação, mas o clima não era de escolta, e sim de uma despedida que entraria para a história de Lâfrer.

​O Último Adeus no Cais

​Claire estava parada diante de sua família, vestindo suas calças de couro e um casaco de capitã que Yaman mandara fazer sob medida. Ela não parecia mais a princesa que precisava de proteção; ela era a imagem da determinação.

​O Rei Richard aproximou-se da filha. Seus olhos, antes severos, estavam marejados. Ele retirou um pequeno broche de ouro com o brasão da família e o prendeu no colarinho dela.

​— Eu passei vinte e dois anos tentando manter você segura dentro de muros — disse o Rei, a voz falhando por um momento. — Hoje, percebo que o seu lugar nunca foi o jardim. O mundo é perigoso, Claire... mas você se tornou a coisa mais forte que eu já vi.

​Claire abraçou o pai com força, um abraço que carregava o perdão por todos os anos de silêncio.

— Eu levo o reino em meu coração, papai. Mas eu preciso descobrir quem eu sou sem o peso de uma coroa.

​A Rainha Catarina beijou as bochechas da filha, entregando-lhe um pequeno diário de couro.

— Escreva tudo, minha querida. Cada ilha, cada tempestade, cada estrela. Para que, quando você voltar, o palácio possa conhecer o mundo através de você.

​James e Elisandra, com o filho pequeno no colo, sorriram para ela.

— Se o mar ficar muito agitado, lembre-se de que este porto sempre será seu — disse James, apertando a mão de Yaman, que esperava ao lado da prancha de embarque. — Cuide dela, Capitão. Ou eu mesmo aprendo a navegar para ir buscar você.

​— Com a minha vida, James — prometeu Yaman, com uma sinceridade que não deixava dúvidas.


​Yaman estendeu a mão para Claire. Quando ela pisou no convés de madeira, a tripulação soltou um grito de júbilo que ecoou por toda a baía. Kaelen deu a ordem, e o som das correntes das âncoras subindo soou como música para os ouvidos da agora ex-princesa.

​— Pronta, Sra. Olivier? — perguntou Yaman, assumindo o leme.

​— Mais do que nunca, Capitão.

​Conforme o navio se afastava e as águas começavam a cortar o casco, Claire correu para a popa. Ela subiu no parapeito, segurando-se nas cordas, e acenou para as figuras que ficavam cada vez menores no cais. O vento bateu em seu rosto, trazendo o cheiro puro do salitre e a promessa de liberdade.

​— Olhe, Yaman! — ela exclamou, apontando para a linha do horizonte que se abria diante deles. — Ele é exatamente como você disse.

​Yaman deixou o leme por um instante com Kaelen e abraçou Claire por trás, envolvendo-a em seus braços fortes enquanto o navio ganhava velocidade.

— O horizonte?

​— Não — ela virou o rosto para beijá-lo, com os olhos brilhando de uma emoção pura e indomável. — A promessa. Eu finalmente sinto que estou viva.

​O palácio de Lâfrer tornou-se apenas uma silhueta distante contra o sol nascente. O Horizonte Negro abriu suas velas completamente, como as asas de um pássaro gigante, e mergulhou no azul profundo. Claire não olhou mais para trás. Pela primeira vez em sua vida, ela não era a filha de um rei, nem uma peça em um tabuleiro de xadrez; ela era a dona de seu próprio destino, navegando para o lugar onde o céu encontra o mar.

​O primeiro zarpar da Princesa de Lâfrer não foi uma fuga, foi um encontro com a eternidade. E ao lado do homem que a ensinara a sonhar, ela desapareceu na vastidão, pronta para ser a lenda que o mar sempre soube que ela seria.