​As cortinas de seda balançavam suavemente com a brisa da tarde, trazendo o perfume das flores do jardim real para dentro do aposento. Claire estava sentada à beira da janela, seus olhos perdidos na linha onde o céu encontrava o oceano.

​— Acha que ele será como nos livros, Margot? — perguntou Claire, a voz carregada de uma ingenuidade doce.

​Sua dama de companhia, que organizava algumas joias sobre a penteadeira, sorriu com benevolência.

— O amor, Alteza? Ele costuma ser mais barulhento e menos organizado do que nos seus livros de poesia.

​— Mas eu não me importo com a bagunça — Claire virou-se, os olhos brilhando. — Eu ainda aguardo por ele. Não um amor por obrigação ou contrato, mas um que faça meu coração acelerar como o galope de um cavalo. James encontrou isso em Elisandra... eu sei que o meu também está por aí, em algum lugar.

​— Pois hoje é a noite perfeita para o destino te ouvir — Margot apontou para os vestidos expostos. — Qual será a armadura para o Baile de Primavera?

​Claire levantou-se e caminhou entre as peças. Seus dedos tocaram um tecido acetinado em tom azul-sereno, com bordados em prata que lembravam a espuma das ondas.

— Este. Quero parecer com o mar hoje. Ele parece tão livre...

​Enquanto isso, a quilômetros dali, o ranger das madeiras e o cheiro de salitre dominavam o cenário. O navio imponente de Yaman Olivier acabara de lançar âncoras no movimentado porto de Lâfrer.

​Yaman saltou para o cais, ajustando o casaco e sentindo o peso familiar de seu pequeno mico no ombro. Ao seu lado, seu braço direito e amigo de longa data, Kaelen, observava o movimento das carruagens com desconfiança.

​— É um reino próspero, capitão — comentou Kaelen, cruzando os braços. — Mas cidades assim costumam ter guardas demais e paciência de menos para homens como nós.

​— Só estamos aqui por negócios, Kaelen — Yaman deu um sorriso de lado, observando as torres do castelo ao longe. — Abastecemos as despensas, conferimos o estoque de rum e voltamos para onde ninguém nos dita regras. O mar é o nosso único mestre.

​— E quanto tempo isso leva? — Kaelen perguntou, conferindo o ouro no bolso.

​— O tempo de um brinde e uma boa história — Yaman piscou. — Dê as ordens aos homens. Quero o estoque cheio ao amanhecer. Vou ver o que essa "nobreza" tem a oferecer antes de partirmos.

​O pirata mal sabia que o "negócio" daquela noite seria muito mais complexo do que apenas moedas de ouro e sacas de grãos.