O Horizonte de Claire
6 Conversa difícil
O sol começava a se pôr, pintando o céu de Lâfrer com tons de laranja e violeta. Claire, ignorando as recomendações de Margot, escapou para a biblioteca real, onde sabia que Yaman costumava buscar mapas. Ela o encontrou em um canto afastado, debruçado sobre uma mesa de carvalho.
Seu coração disparou. Com um sorriso doce e os olhos brilhando com a lembrança do café da manhã, ela se aproximou cautelosamente.
— Capitão? — chamou ela, a voz suave como uma carícia. — Eu estava pensando sobre aquela história do Tubarão-Cicatriz... o senhor nunca disse como conseguiu sair da água antes que ele voltasse.
Yaman não se virou de imediato. As palavras do Rei Richard ainda ecoavam em sua mente: "Mundos como os seus não se misturam; eles colidem". Ele fechou o mapa com força, o som do papel batendo na madeira ecoando como um tiro no silêncio da biblioteca.
— Eu tenho trabalho a fazer, princesa — disse ele, a voz fria e cortante, sem olhar para ela.
Claire parou, o sorriso vacilando levemente.
— Ah, eu não queria interromper. Só achei que... como o senhor disse que o horizonte era uma promessa, talvez pudesse me contar mais sobre o que viu além dele.
Desta vez, Yaman se virou. Mas não era o homem que a olhara com ternura no jardim. Seus olhos estavam endurecidos, as sobrancelhas franzidas em uma expressão de desprezo que Claire nunca vira.
— Escute bem, menina — ele começou, usando o termo de forma depreciativa. — Eu não sou um dos seus livros de romance. Não estou aqui para ser o seu entretenimento de tarde ou o herói das suas fantasias infantis.
Claire recuou um passo, como se tivesse levado um tapa físico.
— Eu... eu não quis dizer isso, Capitão. Eu só gosto de ouvir você.
— Pois pare de gostar — ele deu um passo em direção a ela, invadindo seu espaço de forma agressiva, fazendo-a sentir-se subitamente pequena e vulnerável. — Você vive em um mundo de seda e leite morno. Eu vivo em um mundo de sangue, traição e lama. Você não sabe nada sobre a vida, Claire. Você é apenas uma criança protegida por muros altos, brincando de ser curiosa.
— Por que está falando assim comigo? — a voz dela falhou, e seus olhos começaram a marejar. — Ontem, no jardim, parecia tão diferente...
— Ontem eu estava entediado e o vinho do seu pai é forte — mentiu ele, cada palavra saindo como uma lâmina. — Mas a diversão acabou. Eu tenho um navio para comandar e uma vida real para retomar. Não tenho tempo para perder com uma princesa que não sabe nem amarrar as próprias botas sem ajuda de uma criada.
Ele pegou seus pertences da mesa com brutalidade.
— Saia da minha frente. Volte para suas bonecas e seus bordados, e deixe que os homens de verdade cuidem do que importa.
Claire sentiu as lágrimas escorrerem, quentes e dolorosas. A ingenuidade que o Rei tanto queria proteger fora ferida da forma mais cruel possível. Ela tentou dizer algo, mas o nó na garganta a impediu.
Yaman passou por ela sem olhar para trás, seus ombros rígidos. Ele sentia o peso de cada lágrima que ela derramava, mas forçou-se a continuar andando. Ele preferia que ela o odiasse por ser um bruto do que deixá-la ser destruída pelo que ele realmente era.
Para Claire, o mundo de sonhos que ela começara a construir desmoronou em segundos, deixando apenas o frio de uma biblioteca vazia e o som de seus próprios soluços.
Fale com o autor