O Homem por trás do Arco

1 Justiça Sombria (Único)


Notas iniciais
Olá, pessoal! Sou relativamente novo por aqui. Assim como vocês, sou grande fã de seriados, e essa é minha segunda fic baseada em meus herois e séries favoritos. Espero que gostem!!!

"Nenhum homem é uma ilha, isolado em si mesmo; todos são parte do continente, uma parte de um todo.”

(John Donne)

Meu nome é Oliver Queen.

Sou filho de Robert e Moira Queen.

Meu pai era um bem sucedido industrial de Starling City. Devido a isso, o patrimônio atual da minha família é estimado em alguns bilhões de dólares.

Minha irmã Thea e eu fomos criados como filhos da nobreza, tínhamos tudo o que queríamos ao nosso alcance. Nunca precisei trabalhar. Desisti da faculdade no meio do caminho.

À medida que eu crescia, durante um bom tempo minha única ocupação foi gastar de forma pródiga a fortuna da família.

Mulheres, noitadas, bebidas.

A figura do típico playboy insolente e hedonista que todo mundo já conhece.

Um tanto quanto maluco começar essa narrativa confessando meus pecados, eu sei. Quero que saibam que não me orgulho de nada disso, e que boa parte desse Oliver Queen que descrevi ficou no passado. Era necessário admitir meus erros para que possam entender o caminho de redenção o qual agora busco trilhar.

Hoje em dia, quando o sol se põe, eu tenho de ser algo mais.

Alguém mais.

Para fazer o que faço durante as noites de Starling City, precisei me tornar outra pessoa.

***

Tenho vinte e sete anos.

Há cinco, saí em viagem com meu pai no Queen’s Gambit, o iate da família.

Era uma noite de tempestade. Nossa embarcação naufragou. Futuramente eu viria a saber que aquele naufrágio não tinha nada a ver com a tempestade.

Sara Lance, minha cunhada na época, era minha amante e estava comigo. Tive que vê-la ser arrastada pelas águas furiosas. No bote salva-vidas restamos meu pai, o capitão e eu. As provisões eram poucas, não seriam suficientes para nós três.

Ali comecei a entender que meu pai não era exatamente quem eu imaginava. Havia muito mais acerca de Robert Queen do que eu podia supor. A despeito de toda e qualquer decepção que eu pudesse ter naquele momento, no bote ele ordenou que eu sobrevivesse, que fosse um homem melhor que ele e que reparasse seus erros. Disse isso antes de atirar no capitão e depois em si mesmo. Bem diante dos meus olhos. Sacrificou-se para que eu vivesse.

Pensei que a tempestade não fosse mais acabar. Vaguei à deriva por um bom tempo. Assim, mais morto do que vivo, puxando para terra o bote que ainda continha o corpo de meu pai, alcancei uma ilha remota, enevoada e selvagem no sul da costa chinesa.

Lian Yu era o nome do lugar – traduzido do mandarim, significa Purgatório.

Naquele ambiente totalmente inóspito ao ser humano eu tive que me tornar outra pessoa. Alguém forjado no fogo das dificuldades, experimentado em todo tipo de dor. Conheci pessoas que me treinaram e vivi situações que me mudaram. Foi necessário expandir minha visão de mundo, perceber que havia muito mais ao redor do meu umbigo do que eu podia imaginar.

Me obrigar a pensar em meu erros e rever meus conceitos. Descobrir um meio de redenção. Basicamente essa é a proposta de um purgatório, certo?

***

Hoje completam exatos quatro meses que fui resgatado por pescadores chineses.

Voltando a Starling City, percebi que em cinco anos muita coisa mudou, e que eu tinha muito trabalho a fazer.

Meu pai estava envolvido com gente da pesada. Mafiosos que não brincam em serviço.

Encontrei uma lista entre os pertences do homem que me deu a vida e depois se sacrificou por mim. No bolso do cadáver dele achei uma agenda contendo uma relação de nomes perniciosos; cidadãos influentes, com grande potencial para ajudar nossa população, mas que, ao invés disso, estão relacionados a atividades escusas, envenenando Starling City pouco a pouco.

Eles falharam com minha cidade. Preciso detê-los. A qualquer custo.

Durante o dia sou Oliver Queen: continuo agindo como o playboy bilionário displicente e arrogante de cinco anos antes, preocupado somente com futilidades. Hoje mesmo cometi uma de minhas excentricidades corriqueiras para chamar atenção. Os tabloides me adoram. Esse ar irresponsável é meu disfarce ideal, porque me torna insuspeito. É um meio de ajudar a cidade sem comprometer aqueles que eu amo.

É a forma mais eficaz de manter Laurel Lance longe de mim. De modo nenhum posso envolvê-la nisso.

Durante as noites, venho para o Verdant, um antigo prédio abandonado das Consolidações Queen, situado no bairro periférico Glades; um antigo galpão pertencente a uma fábrica da minha família o qual transformei em uma badalada boate e que serve de fachada para a base operacional de minhas atividades noturnas.

No subsolo do Verdant estabeleci uma espécie de esconderijo. Quando não estou pelas ruas caçando criminosos, é lá que fico, muitas vezes treinando minha pontaria e velocidade com o arco, aprimorando meus movimentos no mudjong ou pendurado em meus aparelhos de exercícios, fazendo barras na Escada Salmão, flexões e abdominais de cabeça para baixo.

Mas não essa noite. Essa noite devo caçar.

John Diggle é um bom homem, além de um aliado importante. Estou aprendendo a confiar nele e sinto que a recíproca pode ser verdadeira.

Dig frequentemente me acompanha em minhas noites de Cruzada. Dessa vez, porém, pedi que permanecesse no covil e me desse suporte de lá.

O trabalho de hoje é algo que preciso fazer sozinho.

***

Há mais um nome para eu riscar da lista. Sempre há.

Richard Bradford é o alvo da vez.

Herdeiro do ramo de indústrias farmacêuticas e atual vereador de Starling City. Histórico impressionante: Estelionato, suborno, acusações de homicídio, agressão, coação. Nada ficou provado e ele nunca respondeu pelos crimes, porque as testemunhas curiosamente desapareciam ou simplesmente desistiam de depor, mesmo sob proteção policial. Ele tem boas conexões, é influente, paga os melhores advogados e provavelmente tem uma legião de tiras em sua folha de pagamento.

Andei pesquisando e descobri que nosso ilustre Bradford está metido em desvio de verbas públicas – milhões de dólares necessários para manter funcionando adequadamente hospitais e centros de saúde vão para seu bolso impunemente. Não bastasse, ele triplica seu “lucro” revendendo armas ao crime organizado, provavelmente um meio de economizar para sua futura campanha, já que pairam fortes boatos de que se candidatará a prefeito nas próximas eleições.

No que depender de mim, isso não acontecerá.

Uma esplêndida lua cheia escoltada por poucas nuvens e muitas estrelas flutua acima de mim, bailando no céu escuro de Starling City.

Dig interceptou uma ligação de Bradford, na qual ele marcou de encontrar seus comparsas essa noite, na região portuária da cidade. Faltam poucos minutos para a negociação, mas estou bem perto agora, a menos de duas quadras. Desloco-me sorrateiramente pelos terraços dos prédios mais baixos.

O vulto silencioso e iluminado de Starling se agiganta diante de mim. Nasci e cresci aqui. Não permitirei que ninguém a transforme em uma pilha de escombros.

A distância entre o prédio em que estou e o próximo é bem curta, então salto de um telhado para outro sem problemas. Falta pouco agora.

Subitamente vejo meu reflexo na claraboia do prédio e me detenho por um breve momento. Definitivamente o homem que ali enxergo não é Oliver Queen.

A imagem refletida na superfície vítrea mostra alguém quase na casa dos trinta, de olhos profundamente azuis e mais melancólicos do que eu gostaria, disfarçados por uma pesada maquiagem verde de camuflagem e de rosto parcialmente sombreado por um capuz verde. Usa a barba loira bem cerrada. Seu semblante está perigosamente sério, concentrado na missão prestes a executar.

Não somente o capuz, mas todo o seu traje é verde. Pode parecer um erro tático a escolha da cor, pois um uniforme preto seria melhor para se camuflar em incursões noturnas pela cidade.

Entretanto, há uma razão para o verde. Ele tem a cor das matas onde lutei e corri por minha vida, da vegetação predominante em Lian Yu. Visto esse manto verde para honrar aqueles que o usaram antes de mim: Yao Fei. Shado.

O traje é justo o bastante, confortável, e não atrapalha meus movimentos. O homem no reflexo porta um belo e trabalhado arco. De suas costas projeta-se a sombra de uma aljava, repleta de flechas de pontas verdes, que eu mesmo confecciono.

O vigilante encapuzado me olha de volta, e tanto ele quanto eu, Oliver Queen, sabemos o que deve ser feito: o certo.

Mais alguns passos e alcanço a beira do terraço. Diante de mim se descortina a ampla visão da zona portuária.

Starling City é uma metrópole – está entre “as meninas dos olhos” da América – e o fato de ter seu próprio porto é obviamente um ponto decisivo para que a cidade cresça, se expanda financeiramente, sobretudo devido ao grande número de navios de todos os portes e funções que ancoram aqui diariamente.

Por outro lado, devido a ser essa uma área mais afastada e comumente deserta no período noturno, geralmente é usada para realização de negociações criminosas entre corruptos e foras da lei. Exatamente como agora.

Abaixo de mim vejo empilhadeiras estacionadas e uma porção de contêineres abarrotados de cargas. Essas são as docas de Richard Bradford, e evidentemente ele as utiliza para muito mais do que simplesmente carregar e descarregar toneladas de medicamentos. Observo o oceano calmo e os grandes navios ancorados e silenciosos.

— Oliver, pode me ouvir? – pergunta subitamente a voz procedente do ponto eletrônico em meu ouvido direito.

— Alto e claro, Dig. Prossiga.

— Estou captando movimento à sua direita. Confirma contato visual?

Viro a cabeça na direção indicada por John e realmente avisto a luz dos faróis de um carro escuro que adentra as docas rodando lentamente, quase sem ruído. Logo atrás vem uma van, também escura, vidros insufilmados.

— Contato visual confirmado, Dig. Aí vem o nosso cidadão honorário.­­

— Agora o movimento acontece à sua esquerda. Confirma?

— Afirmativo. Devem ser os amigos a quem Bradford repassa as armas. Está quase na hora da festa começar, Dig. Eu gosto de festas, principalmente daquelas para as quais não me convidam.

— Isso é sério, Oliver. – ralha meu parceiro sem esconder certo tom de preocupação na voz — Andei dando uma boa olhada na ficha desse Bradford, e o cara não é brincadeira. Com a grana que tem e nesse ramo ilegal que ele trabalha, não me espantaria se contratasse ex integrantes das Forças Especiais como guarda-costas. Ao menor sinal de problema me contate, ou dê o fora daí. Está me ouvindo?

— Entendido. —concordo lacônico.

Não totalmente convencido por minha resposta curta e direta, Diggle resolveu frisar:

— Repetindo, Oliver: Ao menor indício de que as coisas estão fugindo do controle, trate de me contatar ou abandone a área.

— Não se preocupe, John. Hoje é só mais um dia de trabalho. – eu asseguro já buscando uma flecha específica na minha aljava — Preciso ir agora.

— Entendido. Cuide-se, companheiro.

Mal John terminou de falar e eu já desço pendurado pelo cabo que minha flecha especial enviada com precisão esticou entre o terraço onde estive e os contêineres empilhados nas docas adiante. Aterrisso silencioso como um felino sobre o grande compartimento de carga do topo e olho para baixo.

Conto pelo menos dez homens fortemente armados fazendo a segurança enquanto perto dos carros Bradford conversa com um homem grandalhão de cabelo platinado e glaciais olhos cinzentos. Apanho outra flecha na aljava. Estico a corda do arco. Calculo meu tiro mentalmente, levando em consideração a distância dos alvos e a posição do vento. Disparo e repito o processo mais um punhado de vezes, tão rápido que, antes que os homens se deem conta, todos os pneus dos carros já estão comprometidos.

Agora os olhares vasculham ansiosamente as pilhas de contêineres. Envio mais uma flecha e atinjo uma das luzes principais que iluminavam a negociação clandestina, atrapalhando a visibilidade dos atiradores. Ato contínuo começo a me mover.

Confusão. Nervosismo. Bradford e o grandalhão se abaixam atrás dos carros.

Os homens destravam suas armas automáticas.

— Matem o desgraçado! – ouço alguém gritar — É o maldito Capuz!

O Capuz.

Esse é o apelido que ganhei da mídia e das autoridades.

Vai servir enquanto eu não encontrar outro melhor.

O importante é que os criminosos tremam ante a menção desse apelido.

Agora mesmo eu os vejo apavorados, olhando para todos os lados, tentando distinguir algo na escuridão acima deles.

Essa noite eu sou a única coisa entre eles e um novo carregamento de armas pesadas para fortalecer suas atividades criminosas.

Apesar de apenas quatro meses terem transcorrido desde que passei a vestir meu manto em Starling City, os delinquentes locais já começam a perceber que represento um grande risco para suas ocupações ilícitas.

Eu sou o medo no coração deles. O motivo de hesitarem em puxar o gatilho. O fator que os impede muitas vezes de tirar uma vida. Eu sou a certeza de que de alguma forma pagarão por seus crimes. Sou o tremor nas mãos e o suor frio na têmpora. Eu sou a causa de seus batimentos cardíacos acelerados, os olhos arregalados, a boca seca, o frio na barriga. A adrenalina os cega e os atrapalha.

Comigo é diferente. Eu sei usá-la a meu favor.

Agora, por exemplo, conforme corro seguido de perto por perigosas rajadas intermitentes de submetralhadoras – provavelmente Uzi, uma espécie de pistola-metralhadora israelense capaz de disparar dez tiros por segundo – uso minha adrenalina como meu combustível. Ela me ajuda a realizar movimentos praticamente impossíveis quando estou totalmente calmo, sem sua presença em meu sangue.

Saber manter-se frio em situações extremas é crucial. Estar a um triz da morte nos ajuda a enxergar tudo com maior clareza. O perigo desperta meus instintos mais primitivos de sobrevivência, e a adrenalina se torna um catalisador importante, quase viciante. Quando me vejo sob fogo inimigo, aflora em mim a animalidade que me salvou tantas vezes na ilha. Dig já observou isso repetidamente, dizendo que essa agressividade que eu trouxe comigo pode acabar me prejudicando em algum momento. Talvez ele tenha razão, estou tentando melhorar isso conforme me readapto a civilização. Por enquanto, todavia, nessas horas me sinto como um tigre faminto liberto da jaula.

Os guardas estão fortemente armados, mas isso passa muito longe de me deter. Movo-me com agilidade ao longo das docas, saltando de um contêiner para outro sem a mínima dificuldade. As sombras acobertam meus movimentos velozes e furtivos.

Para quem foi treinado nas encostas escarpadas e nos terrenos irregulares de Lian Yu, o deslocamento rápido sobre essas pilhas de compartimentos de carga é algo quase corriqueiro. Assim que a primeira Uzi lá embaixo trava por falta de munição, sem parar de correr eu preparo uma flecha e reteso a corda do arco. O atirador não conseguirá repor o pente vazio porque minha pontaria certeira o calou para sempre.

Vendo o que aconteceu ao companheiro, os outros atiradores buscam proteção atrás dos carros na hora de remuniciar suas armas.

Garotos espertos! Nada mau! Nada mau mesmo. Melhor até do que eu esperava.

Mesmo assim, muitos não chegaram a conseguir se proteger porque os peguei antes. Meu arco trabalha sem parar. Minhas flechas voam rápidas como o pensamento.

Gritos de ódio e de dor se confundem com o pipocar insistente das armas e o zunido mortal de minhas flechas. John Diggle deve estar acompanhando a batalha, sentindo o coração apertar. Mas não tenho tempo para tranquilizá-lo agora.

À medida que me movo incessantemente e faço meus disparos, percebo que gradativamente as submetralhadoras vão parando de matraquear. Só restaram quatro atiradores, e logo trato de desarmá-los usando meu arco.

Salto para o último contêiner, e de lá para o chão.

Os inimigos me cercam.

O primeiro deles se posiciona em um Kamae confiante e dispara um atemi.

Karatê. Muito bom. Mas não é o suficiente.

Sem dificuldade bailo girando por baixo do soco, me ergo, atinjo com o pé direito a perna de apoio dele e, após desestabilizá-lo, o golpeio com o arco em cheio no rosto. Antes que ele caia, outros dois já investem ao mesmo tempo, tentando me esmurrar. Movendo o tronco para a direita e para a esquerda, recuo dois passos simultaneamente aparando os socos de ambos os lados com o arco e, assim que tenho uma oportunidade, desfiro um chute potente que nocauteia os dois ao mesmo tempo. O último deles avança de canivete em punho. Golpeia reto com perigosa habilidade.

Me esquivo rapidamente para a direita ao mesmo tempo em que acerto sua mão com meu arco, obrigando-o a soltar a lâmina. Persistente, ele dispara um soco, o qual desvio com um movimento do meu braço arqueado.

A seguir, enquanto giro meu corpo, agarro o braço do inimigo e me inclino para frente. Puxo então o adversário contra mim, de modo que ele esbarra na parte externa das minhas coxas e lateralmente no meu quadril; então eu o alavanco usando o próprio peso de seu corpo. Preso pelo braço, ele gira no ar, vitimado por um movimento impecável de judô e cai pesadamente diante de mim, desorientado.

Nesse instante ouço o clique de uma arma sendo destravada. O grandalhão de cabelos platinados se apoderou de uma Uzi e está prestes a me fuzilar.

Rapidamente abraço o criminoso desorientado que acabei de derrubar e o levanto diante de mim, utilizando-o como escudo humano. A rajada da submetralhadora retalha o corpo do homem que estremece intensamente sob os impactos sucessivos.

Percebendo que logo os tiros irão varar o meu escudo improvisado, o deixo escorregar para o chão e corro o mais rápido que posso em direção a uma pilha de caixotes dez metros adiante. A linha de fogo me persegue implacavelmente. Sinto uma bala resvalar queimando por minha braçadeira de arqueiro e me jogo atrás dos caixotes bem a tempo.

Silêncio. O homem está com certeza substituindo o cartucho vazio da arma.

A Uzi faz tanto sucesso entre os mafiosos porque é uma arma poderosa, leve e incrivelmente fácil de recarregar, mesmo num ambiente escuro como as docas nesse momento. Com admirável rapidez o grandalhão inseriu o pente. Porém, antes que possa erguer a submetralhadora, já o tenho em minha mira. Assim que solto a corda estirada do arco, um zumbido fino anuncia o disparo. A flecha cruza o ar de forma veloz e atinge o inimigo em cheio no olho esquerdo. Deixando escapar um grito de agonia, ele cai com o dedo involuntariamente pressionando o gatilho, atirando no vazio, os projéteis perdendo-se no nada.

Escuto passos rápidos nas docas. Meu alvo corre em direção à agua, tentando escapar.

Preparando a última flecha da noite, puxo a corda do arco conforme persigo o criminoso. Não foi difícil alcançá-lo, porque seu condicionamento físico é péssimo. Ademais, ele chegou ao fim do píer e agora se encontra sem saída. Sua única chance é se atirar no mar calmo que nessa noite beija suavemente a zona portuária de Starling. Entretanto, ele sabe que não vou permitir. Por isso, se vira para me encarar.

Descarregando toda a raiva que trago no peito, grito com voz rascante:

Richard Bradford, você falhou com esta cidade. – e estico a corda do arco ao máximo, ouvindo-a ranger conforme se distende.

— Tem razão. – ele concorda lívido, apavorado — Eu errei e devo pagar por meus crimes. Mas não assim, vigilante. Em um tribunal. Num julgamento. Mereço uma chance.

— Uma chance... — repito sarcasticamente, sempre o mantendo sob minha mira— E onde está a chance da população carente do Glades, por exemplo, que morreu em hospitais por falta de recursos que deveriam ter sido adquiridos com as verbas desviadas por você?

— Quem você pensa que é para me julgar, seu verme? Seu Zé-Ninguém fantasiado! – a raiva faz a voz do homem tremer — Acha que pode me deter? Não faz idéia de com quem está se metendo, eu vou...

Bradford não chegou a concluir a frase por dois motivos: Primeiro, porque enquanto falava, tentou sacar traiçoeiramente uma Glock de dentro do paletó. Segundo: porque obviamente eu fui mais rápido.

Swiss! – sibilou agudamente a flecha que atirei.

Ouço o chicotear da corda contra o arco quando o disparo é efetuado com perfeição e vigor. Num piscar de olhos a flecha acerta o alvo, ou seja, o coração de Richard Bradford. O vereador presunçoso e corrupto estremece sob o impacto. Uma pancada seca em seu peito se faz ouvir quando a flechada o alcança. Surpreso, o homem me fita de olhos arregalados, um filete de sangue a escorrer do canto de sua boca comprimida, a flecha atravessada no tórax. Desequilibrado, vê-se projetado para fora do píer, mas acredito que já estava morto antes de atingir o oceano. Um baque surdo do corpo na água. E tudo está acabado.

— Dig?

— Na escuta, Oliver! Você está bem?

— Estou inteiro. Já Bradford... Vamos dizer que ele não será mais um problema.

— Entendido. O suplente dele vai ter que assumir.

— Acredito que sim. E espero que seja mais honesto que seu antecessor. Para seu próprio bem.

— Quem não vai ficar nada feliz com essa história é o Detetive Lance.

— Bem lembrado, John. Preciso avisar a Polícia.

— Faça isso e volte para cá. Basta de emoções por hoje.

— Sim, senhor. – respondo com um sorriso cansado — Câmbio. Desligo.

***

Novamente sobre os telhados dos prédios mais baixos, me desloco, buscando tomar a rota mais rápida para o covil. Em certo ponto me aproximo da beirada do terraço e me deparo com o prédio do Departamento de Polícia. Vejo algumas luzes acesas.

Empunho meu celular irrastreável e disco nove-um-um. De onde estou, posso ouvir o telefone soando no interior do edifício policial. Depois de tocar três vezes, o homem da lei que eu menos esperava é justamente quem atende a ligação:

— Departamento de Polícia de Starling City. Lance falando. Boa noite.

Acionando o aparelho modulador de voz que trago preso ao cinto do traje, respondo:

— Boa noite, detetive.

Ele fica em silêncio por um momento.

— Você... – finalmente diz com um suspiro simultaneamente cansado e furioso.

O Detetive Quentin Lance é um policial honesto e dedicado que trabalha noite e dia para combater o crime na cidade. Por obra do acaso, ele também já foi meu sogro e, assim como sua filha Laurel Lance, me responsabiliza pela morte da outra filha, Sara, que estava comigo no iate. Se tem alguém que Lance odeia mais que Oliver Queen, esse alguém é o Capuz, porque o vigilante age à margem da Lei e muitas vezes tira a vida dos bandidos. Ele não aprova esse caminho. Diz que isso não é justiça.

— Há uma entrega para você no porto, detetive. Dois peixes grandes.

— Além dos peritos, devo mandar uma equipe do IML? Alguns sacos mortuários, quem sabe?

— Talvez seja uma boa ideia... – respondo com voz neutra.

Ouço o policial praguejar do outro lado da linha e logo um baque – imagino que ele socou a mesa.

Antes que se refaça, acrescento:

— Procure nas docas de Richard Bradford.

— Bradford? – Lance não esconde a surpresa na voz – Está matando políticos agora?

— Estou tirando do caminho qualquer um que torne Starling um lugar pior para se viver. – retruco e quase me espanto com a frieza em minha voz.

— E o que você espera? Um agradecimento meu? – seu tom agora é áspero, exaltado — Ouça bem: você não é um heroi. Você é um assassino. Vigilantismo é errado. Continuarei caçando você, e só vou parar quando te achar e te desmascarar. Vou expor você e jogá-lo na cadeia pelo resto da sua vida.

De onde estou, posso vê-lo claramente em sua sala agora, andando de um lado a outro, vermelho, as veias do pescoço inchadas, olheiras, ar cansado. Arfando ao telefone.

Então respondo:

— Pode ser que um dia consiga. Mas não será essa noite. A propósito, detetive: parece exausto. Devia descansar.

E desligo o celular.

Vejo sua silhueta atravessando o escritório rapidamente em direção à janela, porém, antes que tenha chance de espiar pelas persianas, naturalmente já desapareci de seu campo visual.

É hora de voltar para meu esconderijo e riscar mais um nome da lista de meu pai.

Para muitos, eu sou só Oliver Queen, e aos olhos desses não pareço lá grande coisa.

Para os bandidos, entretanto, eu sou outra coisa.

Sou o homem atrás do arco.

As noites pertencem a mim, e eu não vou parar até que minhas flechas tenham feito justiça.

Fim

Notas finais
E aí, o que acharam? Que tal comentar, acompanhar, recomendar essa história? Críticas construtivas são sempre bem vindas. Se você curtiu essa fic, me ajude a divulgar, por favor. Desde já agradeço! Até a próxima história!!!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!