Notas iniciais
Não levem à mal... É só uma fanfic que surgiu do nada, sem motivo algum... Gosto do Shaka, mas adoro humilhar personagens! hehehe
Bjos, desculpem qualquer erro e boa leitura!

- Estou cansado! Cansado! – gritava Saga.

Ele, até o momento, velava com toda a paciência do mundo o choro do amigo.

Aiolia parecia totalmente acabado. Seus olhos inchados e com fundas olheiras davam-lhe um ar doente e, se não estivesse corado pelo Sol de Atenas, achariam que estava enfrentando algum tipo de peste. Emagrecera para agradar ao amado, drasticamente, e fora rejeitado por ele, novamente. E era isto que rezava para Saga.

Haviam tido suas desavenças, porém, era pra ele que corria quando necessitava de um colo. Saga fora amante de Aiolos, e se lembrava bem disto, e era, portanto, o mais próximo de uma família que tinha.

Só que Saga não estava cansado das lamúrias do Leão, mas de vê-lo sofrer por quem sofria.

- Não! Não quero que vá até lá. Ele vai achar que não sou homem suficiente para resolver meus assuntos! Não quero que ele tenha uma ideia errada de mim.

O leonino pedia, implorava, segurando os pulsos de Saga. Porém, sentiu seus pulsos serem agarrados por outras mãos, idênticas às que segurava. Kanon o agarrava, cuidadosamente, e o fazia soltar seu irmão gêmeo.

Apenas um gesto de cabeça foi o suficiente para as cópias se entenderem e Saga sair em disparada até a Casa de Virgem. Sabia que da Casa de Gêmeos Aiolia não ouviria nada do que diria. E assim seria melhor, afinal, queria fazê-lo superar o virginiano, não sentir-se humilhado por suas palavras.

Não precisou pedir permissão nas Casas seguintes a sua, então entrou feito uma bala de canhão na morada de Virgem e indo cada vez mais para dentro de lá, procurando pelo guardião dela. Não se surpreendeu nem um pouco quando o encontrou sentado, envolto em mantos caros, joias raras e frutas frescas. Sentiu o sangue subir até sua cabeça, sua veia na testa palpitar ao ver a expressão de desdém de Shaka. Desejou quebrar seu pescoço. Torcê-lo com força, muita força.

- Entra em minha Casa sem pedir permissão e me encara com uma postura hostil. Por um acaso não se esqueceu de que não é mais o Grande Mestre daqui, não é? É preciso lembra-lhe que lhe foram impostas limitações?

- Talvez eu deva lhe lembrar do ser insignificante que é, Shaka.

- Como disse?

- Você me ouviu. Quem pensa que é para fazer tão pouco de Aiolia? Você não é um deus, Shaka.

- Mas sou o mais próximo de um. Não estão no mesmo patamar que eu. São poeiras perto de mim.

Saga riu. Agora ele se sentava na frente de Shaka. Sabia que tentar usar a força física não ajudaria. Não agora, pelo menos. Teria de debater com ele cara à cara.

- Do que ri?

- De você.

-...

- Você se acha muito poderoso, Shaka, um semideus. Mas semideuses são, quase sempre, heróis de muitas guerras. Olhe para você, sentado confortavelmente sobre estes tecidos, feitas por mãos pobres de crianças, tão heroicas como nós outros. Mas não você. Não. Você nunca saberia o que é um sacrifício.

- Me sacrifiquei por Athena!

- Sabendo da misericórdia dela em trazê-lo de volta. E, mesmo que ela não o trouxesse de volta, você teria feito apenas aquilo pelo que nasceu para fazer. E veja estas joias, quantas pedras bordando este tecido...

- Vai dizer que foram feitas por crianças, também?

- Talvez... Mas este bordado me parece de velhas. Os bordados das jovens jamais se igualarão aos das velhas corcundas, quase cegas.

- Vai dizer que meus alimentos também são feitos por crianças e velhas tortas?

- Não... colhidos por uma população que mal tem para alimentar os filhos.

- E você vive de quê, Saga? Fotossíntese?

O indiano não conseguiu segurar a risada. Mas não esperava que o grego achasse graça.

- Não, eu cultivo boa parte da minha comida... Agora, alguém tão divino como você não deveria usar isto tudo, afinal, seu plano está muito acima do nosso.

- Saia daqui, Gêmeos.

- Não.

- Estou ordenando!

- Você não é um deus, nem um rei para ficar ordenando nada! É apenas um pobre coitado digno de pena.

- Fala de minhas coisas como se eu estivesse sentado em pecados. Se bem me lembro, em sua época de reinado, estava sempre cheio de adornos.

- Atrevo-me a dizer que fui um ditador, portanto me sentia no direito de possuir riquezas, poderes acima de tudo. Sonhava em me tornar um deus. Mas você... Você mente tão bem que acredita que é um!

- Ora, já chega!

Virgem se levantou, mas Gêmeos permaneceu sentado.

- Como ousa insinuar que eu não sou portador de uma aura divina, muito maior do que de qualquer um aqui?

- A única coisa que você possui maior que a todos é seu ego. Você se inflou tanto dizendo ser mil e uma reencarnações que esqueceu as abdicações que as divindades fizeram para que fossem consideradas dignas de amor total. Você se for um deus, é um deus mau. Alimenta-se constantemente das mágoas que causa, tristeza que os outros choram por sua causa, brinca com o coração dos outros e depois de sugar cada gota da felicidade e do amor deles por você, os atira, secos e raquíticos, apenas uma carcaça, num canto, e parte para a próxima vítima. Sua diversão é ver quem aguenta mais ou quem aguenta menos?

O mais jovem deu um sorriso vitorioso e sentou-se novamente. Os incensos queimando à sua volta o empalideciam levemente.

- Isto tudo é por Aiolia? Há! Ele não passa de um imbecil. Ele vem aqui há meses, sempre perguntando o que devia fazer para ter-me em seus braços e ainda assim não entende o motivo de eu acha-lo tão cheio de defeitos que o mando corrigir. Sabe o que ele tem que fazer para me conquistar? Ser outra pessoa...

Saga olhava sério para Shaka. O indiano sorria e seus dentes pequenos e brancos lhe causavam certa repulsa. Era como um lobo domesticado. Bem cuidado, mas pronto para atacar ao menor sinal de sono. Soltou um suspiro e olhou em volta, depois voltou-se para o indiano.

- Acho que eu me enganei...

- Esteja certo disso.

- Você não pode ser um deus mau... Você não pode ser deus nenhum. É uma pessoa fraca e digno de pena.

- Dobre sua língua, Saga!

- Não, não para você.

Levantou-se e mirou os olhos no loiro sentado. Via as mãos de Shaka apertarem-se acima de seus joelhos.

- Você se sente tão seguro de si. O dono da verdade. O favorito de deuses e mais deuses. Mas você não acredita em nenhum deles. Não, você não consegue crer em nada. Tenta se redimir para todos os deuses, pedir perdão por seus pecados, então cria fantasias de que eles são seus amigos. Pois lhe digo: nenhum deus nunca será seu amigo. Jamais! Se cerca de tesouros terrenos, mas se diz espiritualmente elevado. O que aconteceria se eu rasgasse esta seda? E se eu, com toda minha força, amassasse todos estes pratos de ouro? O que houve com você, Shaka? Esta ficando vermelho... Você não é divino. Você não sabe nada destes deuses, apenas suas mitologias! Tantas horas de meditação, tantas ordens para que castiguem os que o interrompem. Sei o motivo de não abrir seus olhos. É porque não conseguiria se olhar num espelho. Tem medo de seu próprio reflexo. Você é bonito por fora, mas uma besta por dentro. Critica tanto para os outros, “sortudos” por poderem ouvi-lo reclamar, de meu amor por meu irmão, meu carinho absoluto por Afrodite, a quem tenho quase como a um filho, se eu pudesse... De como me sinto bem em saber que algo de Aiolos ainda sente carinho por mim... Você tem inveja de tudo isso. Sente-se pequeno por não ter tudo isso e pisa em todos nós com esta falsa elevação.

Saga destruía as coisas de Shaka e falava tudo sempre de olho nele. Via-o ficar ainda mais alterado, mas sem dizer uma palavra. Seu peito arfava de raiva. Quando finalmente parou, ele abriu a boca.

- Sabe Saga, você tem palavras bem fortes contra mim. Porém, o maior pecador de todos é você. Tentou matar a deusa, seus companheiros, nos colocou uns contra os outros e, assim como disse que eu fiz, sentou e esperou o perdão dela. Pior ainda: matou seu amante, o Aiolos, e ainda usou o melhor amigo dele, Shura, para fazê-lo. E agora, sente-se na obrigação de defender a honra de Aiolia. Se pensa que me causou mal fazendo toda esta bagunça, se engana. Apenas me deixou mais próximo de ser uma divindade. Tem razão no que disse: deuses não precisam de luxo.

- Mas você ainda não entendeu! Shaka, você não é um deus! É um pobre coitado que não sabe apreciar um amor tão singelo como o do Aiolia! O rapaz se mataria por você, se assim pedisse!

Shaka levou poucos segundos para destilar o que ouvira sobre ser um “pobre coitado” e se levantou de um pulo, olhos ainda fechados, e seus pulsos firmes, prontos para socar o que estivesse na frente. E num só grito, disse:

- Pois acho que vou pedir! Talvez eu peça para que ele se mate! Para que se jogue da mais alta colina em direção às pedras!

- E por que faria isso?

- PORQUE ELE NÃO É VOCÊ!

Um silêncio tomou conta da casa de Virgem. Saga olhava para Shaka, que tinha o rosto transformado numa grande máscara que repuxava a cada arfada de ar. Suas mãos, até então firmes, agora tremiam. O mais velho via os olhos se mexerem embaixo das pálpebras, rápidos, mas perdidos, como se tentassem encontrar uma porta que deveria estar ali. Sentiu que Shaka queria fugir. Ficaram quietos tempo suficiente para ver o rosto de Shaka voltar a cor natural.

- Pra onde foram suas palavras tão afiadas e cortantes, Gêmeos? Engasgou-se com elas?

- Não, com as minhas não. Com as suas.

- Agora entende porque não quero Aiolia?

- Acho... – tentou falar.

- Chega. – Virgem se aproximou dele. Chega de achar as coisas... Ele jamais será você. Você é quase um deus, assim como eu. Saga...! Olhe isso! Estamos acima de todos aqui!

- Shaka – ele tirava as mãos do indiano de cima de seu corpo –, juro que por alguns segundos cheguei a achar que eu estava errado! Juro! Mas durou apenas segundos! Ah, Shaka...

Lágrimas escorreram pelo rosto de Saga.

- O que houve com você? Você era um menino doce, com sede por bondade e conhecimento. Olha só pra si. Vil... Eu percebo agora que não estou mais com raiva de você por fazer Aiolia de tolo... Estou com pena de você... O que os treinamentos e as batalhas fizeram a você! Sua bondade se foi!

O mais velho passou as mãos pelo rosto jovem de Shaka e o segurou, depositando um beijo em sua bochecha.

- Você escapa da loucura acreditando nestes mitos mortos. Esconde-se de todos neste véu de fumaça. Não vou mais atormentá-lo, nem vou deixar que Aiolia o faça. Vou pedir à nossa deusa que converse com você. Não posso fazer isso. Exigi demais de você, e olhe no que deu. Tão amargo e solitário...

- Chega! – gritou. – Fora da minha casa! Não quero sua pena. Não quero seu carinho! Não quero a deusa! Não quero o amor patético do Leão! Eu quero distancia de vocês! Eu pensei que em você ainda vivesse a chama de um semideus que foi, mas vejo que aquilo não passou de um devaneio. Só passará por esta casa, de agora em diante, a mando da deusa! Fora!

Saga balançou sua cabeça negativamente. Sua cabeleira balançou quando o fez. Saiu da casa dele pesaroso e sentindo-se culpado.

E lá permaneceu o virginiano. Ficou em pé por horas, na mesma posição, mas não percebeu. Seu coração ainda batia rápido. Seus incensos e suas velas começavam a se apagar. Num movimento suave, abriu os olhos e andou em direção a uma vela quase desvanecida. Ao lado dela, um belo ornamento feito de ouro o refletia. Olhou o reflexo de seus ombros e subindo o os olhos até o pescoço, e dele não passou. Tentou, por várias vezes, mas não conseguia. Saga estava certo. Não conseguia se olhar no espelho. Não só isso, ele estava certo sobre tudo.

A amargura de sua alma já lhe refletia na boca. Seu corpo, mente e alma padeciam. Quantos anos aguentaria ainda? Não queria muitos, apenas o suficiente para chegar à insanidade total e morrer meditando. Soprou aquela vela e andou, sentindo agora o peso das próprias pernas. Estava indo cada vez mais para o fundo. Passou por seu Jardim, tão sagrado quanto sua falsa alma, e continuou a andar. Então, ao sair da Santa Casa de Virgem, chegou a uma pequena cabana. Empurrou a porta com a mão e entrou. Há anos não entrava lá. A poeira dominava o local. Era lá que ficava para descansar quando não treinava. Estava tudo da mesma forma que deixara quando abandonou o local e foi morar de vez na Casa de Virgem.

Numa cadeira no canto havia um lençol dobrado. Bateu o pó que estava em cima e o abriu. Um pouco comido pelas traças, mas ainda aproveitável. Estendeu-o no chão e se deitou. E, conforme se lembrava do ser humano que ainda era, chorava. Não por finalmente perceber que não era um deus e apenas um ser humano, ou pelas palavras duras de Saga; chorava porque ainda era um menino. Um menino totalmente sozinho.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!