O Homem do Fim do Universo

9 Capítulo 9 - Maior por Dentro do que por Fora


Saímos dos corredores, Khunnie ainda estava assustado pelo que ocorrera com o Ganger do Taec, o Doctor parecia chateado e reclamava de algo sozinho. Eu apenas queria recuperar meu folego e tentar me lembrar da lembrança mais importante.

— Vamos brincar — Gwen falou se sentando ao meu lado, ela olhou cada um — O que acham, para descontrair, já que estamos presos aqui — ela deu de ombros. Estavamos em um quarto, era um quarto de criança, mas parecia de boneca, estavamos eu, ela o Owen e a Tosh, ninguém mais.

— Eu topo — falei dando de ombros, não tinha nada que me amedrontasse naquele momento, eu parecia já ter visto de tudo.

— Certo — Tosh olhou em volta — Acho melhor pensar em outra coisa além de que ficaremos presos aqui para sempre.

— Não tenho nada melhor para fazer — Owen nos olhou em desafio — E do que vai ser?

— Perguntas e respostas — Gwen falou e todos sorrimos.

— Vamos nessa — eu sorri.

A brincadeira ocorria, seguiamos a ordem de idade, dos mais velhos aos mais novos, e, claro, fui a última a escolher alguém, mas estava bem divertido. Gwen perguntava a Tosh que perguntava ao Owen que me perguntava e eu perguntava a Gwen, fizemos várias rodadas com perguntas não tão constrangedoras ou intimas, eram coisas bobas, tipo o que cada um faria se descobrisse a verdade sobre o Capitão, ou que cada um faria se saísse de Torchwood. Iamos bem com as perguntas.

— Por que você saiu do Brasil para vir para cá? — Gwen finalmente perguntou, eu ri do Owen e parei, finalmente entendi porque ela começou com aquilo. O único que sabia a verdadeira razão de minha vinda era o Capitão. Respirei fundo.

— Passo — falei passando a primeira pergunta.

— Ah, não, você tem que responder essa — Owen falou — Perguntamos ao Capitão, ele disse que você era quem deveria nos responder quando se sentisse pronta.

— E eu não estou — eu suspirei — Podemos passar para outra pergunta?

— Certo, — Tosh sorriu — O que rola entre você e o Jack? — eu a olhei sem entender.

— Ah, vai nos dizer que não tem nada entre vocês? — Gwen riu.

— Eu não sei do que estão falando. — dei de ombros, ouvimos algo bater contra a porta, deu a volta e um enorme olho surgiu na janela. Nos levantamos assustados.

— O que é isso? — Tosh perguntou assuatdo.

— Capitão! — eu fui até a janela — Capitão!

O enorme olho se afastou, ele disse algo inaudivel para nós. Owen bateu na janela. Comecei a fazer o mesmo, até que o Capitão retornou.

— Corre, Carla, corre! — olhei para quem gritava, o Doctor e Khunnie, eles estavam longe, olhei para trás, um Cyberman parado perto de mim, ele estava desligado, mas parecia que seria por pouco tempo. Saí correndo. — O que aconteceu? — o Doctor perguntou.

— Mais lembranças — falei cansada — Espera — apoiei contr a aparede, minha cabeça parecia sustentar uma bigorna.

— Não podemos parar — Khunnie falou tentando nos apressar — Eles vão voltar logo.

— Desculpa, vocês seguem e eu fico, dou um jeito nele.

— Nem pensar — o Doctor falou.

— Já sei — Khunnie vio até mim, agachou a minha frente, eu subi desajeitada — Se segura — confirmei e ele voltou a correr com o Doctor logo atrás.

Eu segurava firme em seu pescoço. Mas chacoalhava muito, eu não tinha certeza se ia aguentar por muito tempo, apenas um braço meu estava bom, o outro não servia para nada.

— Capitão! — ele me olhou — Me deixe para trás, eu vou atrasar vocês — olhei os outros, fazia pouco tempo que eu estava com eles, na verdade, eu ainda não era um deles.

— Ninguém vai ficar para trás — ele falou me ajeitando em suas costas, olhei meu braço, ele doia muito, estava destruido, provavelmente eu o perderia.

Owen e Gwen corriam a nossa frente, em nossos comunicadores Tosh nos dizia para onde ir. Olhei para trás, o enorme ser quadrupede ainda corria atrás de nós.

— Já sei.

— O que você está fazendo? — eu dava a volta no corpo do Capitão, prendi minhas pernas em volta de seu tronco.

— Me segura firme! — falei, ele não entendeu. Com o braço bom peguei a arma em seu cinto, mirei e atirei no ser que empinou ao ser atingido.

— Boa, Carla, muito boa! — ele sorria.

Outro tiro, o recuo doeu meu ombro, dei outro, o monstro foi reduzindo a velocidade até que desistiu de nos seguir. Agora eu sentia a dor do braço estraçalhado. Apoiei a cabeça na clavicula do Capitão, ele ria vendo o ser ficando para trás, eu dei apenas um riso e desmaiei com a perda de sangue.

— Acho que aqui estamos seguros — o Doctor falou — O que está acontecendo nesse lugar?

— Eu quero sair daqui — falei.

— Senta aqui — Khunnie me sentou em uma divisão da prisão — Doctor, o que é essa coisa que nos prendeu aqui?

— Eu não sei, nunca encontrei algo assim. — ele estava pensativo e dava voltas em torno do próprio corpo — Carla, posso olhar o seu ferimento novamente?

Confirmei, ele apontou aquela caneta engraçada. Escaneou o machucado e novamente a dor que parecia que ia me matar. Apertei a mão de Khunnie que fez careta sentindo dor, eu segurava os grunhidos.

— Chega! — Khunnie falou, o Doctor afastou o instrumento — Isso vai matá-la de dor.

Eu fiquei tentando recuperar o folego.

— Eu não faço ideia do que seja isso na sua mente — ele continuou a dizer.

— Doctor... — eu olhava no sentido contrario ao deles — Doctor! Corre!

Falei pulando de onde eu estava sentada, puxei os dois. Um cyberman nos perseguia. Eu corria tonta, não conseguia firmar os pés a cada passada. Minha mente começou a se apagar, eu me forcei a ficar acordada. Apaguei.

Acordei deitada no chão, alguém estava perto de mim, me virei sonolenta. Khunnie, ele me olhou e pediu para eu fazer silêncio, não estavamos sozinhos. Olhei para quem estava perto, Jun K tinha uma marca no rosto. Woo observava o corredor. JunHo e o Doctor não estavam por ali. Me levantei sentindo minha cabeça pesar. Apoiei nos joelhos e ouvi um grito ao fundo, eu conhecia aquela voz.

— Mãe? — eu olhei os meninos comigo, eles se olharam confusos — Mãe! — eu gritei — Mãe! — eu comecei a chorar — Mãe! — eu urrei chorando.

Homens de lata andavam pelas ruas, e a mulher para quem eu tinha acabado de contar que eu era filha fora morta. Bem na minha frente. Foi naquele momento, foi ali que eu tive o clic, foi ali que eu corri para cima dos enormes monstros e comecei a lutar. O Capitão estava nas ruas, ele e os outros lutavam contra aqueles seres, e ao me verem correram para me ajudar, eu estava grudada em um Cyberman e gritava conforme o atingia com socos inuteis.

Eu encostei na parede, minha cabeça voltara a pesar, olhei para os meninos, eles estavam paralisados, alguém mais estava ali. Busquem por quem poderia ser, mas no fundo eu sabia quem era. Olhei na direção que os meninos olhavam, e lá estava ela, ou melhor, lá estava eu, com o rosto inchado e com raiva. A arma apontava para todos e vários raios saiam de sua ponta, eu tinha um sorriso, um sorriso que eu só vi uma vez em mim e ele não era coisa boa.

Olhei para trás e corri. Corri o máximo que meu corpo permitia naquele momento. O raio fora lançado contra mim, eu dei mais um passo e me joguei tentando desviar, quando entrei em um lugar, eu não vira direito, apenas vi que era azul por fora. Lá dentro encontrei o Doctor e JunHo. Os dois sorriram para mim.

— O que é isso? — eu perguntei assustada.

— Isso é a TARDIS — o Doctor sorriu ainda mais — Você costumava gostar dela.

— E acho que isso não vai mudar minha opinião, ela acabou de me salvar — eu sorri.

— Te salvar do quê? — JunHo perguntou confuso.

— De mim — eu falei e por alguma razão me lembrei que tinha um monitor que nos permitiria ver de fora, fui até lá, o Doctor me assistia cuidadoso. Mexi em uma alavanca e olhei o monitor, eu podia vê-los, JunHo parou atrás de mim e assistiu ao que eu assistia, a minha eu do passado prendia os outros com as correntes do Khunnie.

— Temos que fazer alguma coisa — ele falou e olhou nós dois.

— Eu não posso fazer mais nada — falei e suspirei, os dois me olharam confusos — Meu último encontro comigo quase fez com que eu me matasse — eu ri — Isso seria suicidio?

— Não tem graça — JunHo falou, eu desfiz o sorriso.

— Eu não posso me meter ali, eu sempre me trago algo, alguma memória pesada, não posso me envolver mais comigo.

— Mas precisamos salvá-los — ele falou — Ou você irá matá-los.

— Eu sei... — eu desviei o olhar dele e olhei o monitor — Eu sei que vou — olhei o Doctor — O que me diz, isso é algo fixo no tempo ou mutável?

— Não posso te dizer isso.

— Spoiler? — ele confirmou. — Doctor... — eu ia até a porta — Se esse fosse meu último momento, o que você gostaria que eu soubesse? — dei um riso seco.

— Que ele sempre te amou.

Eu passei pela porta e senti uma lágrima escorrer pelo meu olho. Fechei a porta da TARDIS e caminhei em minha direção, seria agora.