O Homem do Fim do Universo

6 Capítulo 6 - Quem te nomeou líder?


Jun K ainda nos guiava pelos corredores e tinha arrancado o celular com o mapa da minha mão, a julgar pelo tempo que eu estava mergulhada em tédio já deviamos estar andando por seis horas ou mais. Ninguém tinha tentado entrar em contato conosco, nenhum alienigena tinha tentado nos devorar ou lutar. Estava tudo calmo.

Um homem de jaqueta de couro passou por nós, ele parecia buscar por alguém.

Seu cheiro...

— Doctor! — falei e virei para ele que parou e me olhou — Você é mais um dele, não é?

— Mais um? Não... não... Sou ele. — ele sorriu de uma forma estranha.

— Ei, Carla! Precisamos achar o ChanChan, seja mais rápida. — olhei Jun K.

— Ele tem razão, vocês precisam achar o ChanChan, seja lá o que isso for.

Ele observou meu casaco.

— Esse casaco... — eu passei a mão pelo tecido — Eu conheci alguém que usou esse casaco.

— Você conheceu o Capitão? — perguntei empolgada.

— Carla!

— Cala a boca, Jun K! — gritei, todos ficaram sérios ou assustados, não tenho certeza. — Desculpa, Doctor.

— Como sabe quem eu sou? — ele pareceu curioso.

— Eu conheci alguns de você — ele pareceu confuso — Eu não tenho certeza, mas parece que você tem várias versões ou algo assim e, sinceramente, você é o que tem o melhor gosto para roupas — ele observou o que vestia — Todos os outros você estão na sala de controle da prisão.

— E quem mais está lá?

— O Capitão está lá... E outras pessoas — dei de ombros. Senti uma pinicada na nuca, levei a mão até lá, tinha voltado a sangrar — Droga!

— Por que eu devo confiar em você?

— Não se preocupe — falei e sorri — Isso é a única coisa que tenho certeza.

— Carla! — JunHo me segurou quando minhas pernas falharam — Você é o Doctor? — o homem pareceu confiar — Por alguma razão ela está atrás de você ou vocês, não sei o que são, mas ela precisa de um você especifico, você qual?

— Não, mas posso tentar descobrir. — ele falou — Como chego no painel de controle? — ele me tirou das mãos de JunHo.

— Ela vai te levar até lá- apontei para uma das cameras de segurança, o Doctor ia sair correndo quando segurei sua jaqueta — Se encontrar o Capitão, diga a ele que estou me lembrando.

Ele confirmou.

Meus joelhos fraquejaram, JunHo me segurou, eu o olhei e dei um sorriso meio morto. Ele ajeitou meu corpo nos braços e me ergueu, eu apaguei.

Quando acordei estava deitada em algo duro, não que o chão não fosse duro, mas agora era algo frio. Levantei meio zonzo, levei a mão até a nuca, um curativo. O enorme casaco não estava comigo. Mas eu precisava dele, eu preciso dele para... Para quê?

Assim que me sentei observei um homem, não como os outros, esse tinha um corte no braço que fora tapado com um péssimo curativo. Observei-o por alguns instantes, até ele soltar um 'tsc' e gritar por JunHo que surgiu correndo. Ele estava ferido, alguém tinha acertado JunHo, eu me assustei em ver aquilo.

— Como você está? — ele perguntou preocupado.

— O que aconteceu? — eu levei a mão para a marca em seu rosto, ele contraiu — JunHo — olhei em volta, estavamos presos — Onde estamos?

— Jun K nos trouxe até aqui — ele falou me ajudando a descer — Depois que entramos perdemos o sinal do seu celular e fomos presos.

— Quem é ele?

— Ah, sim, claro. Taec. Um dos nossos — observei o homem que estava longe.

— Quem machucou você?

— Não importa.

— JunHo — eu o parei, ele virou o rosto — Quem machucou você?

— Você — eu não entendi — Você foi quem me acertou e quem nos prendeu aqui também.

— Calma... Como? Eu estava apagada.

— Foi outra você — ele suspirou — Esse lugar vai me deixar louco.

— Outra... eu...?

— O que você está fazendo com ele? — Um homem me empurrou para longe de JunHo, era o mesmo do machucado.

— Taec, calma, ela não vai fazer nada.

— Ela te socou e quase arrancou meu braço.

— Não fui eu — falei.

— Ei, Taec! — Jun K se aproximou — Ela diz a verdade, ela não fez nada.

— O único que deveria estar bravo com ela sou eu, ela me acertou em cheio durante a luta.

Eu estava confusa, me afastei do grupo, fui até o que pensei ser a porta, estava trancada.

— Isso é seu — Woo me entregou o casaco — Eu tentei limpar o sangue que grudou nele, espero que tenha ajudado.

— Obrigada — o vesti — Woo... O que está acontecendo?

— Bem, uma você surgiu na nossa frente, nós meio que surtamos, mas você estava com outra mulher de cabelo loiro e cacheado. Você e ela nos renderam, Taec nos achou e tentou parar, mas você estava com um canivete e acertou ele. Nos prenderam aqui e fugiram.

— Isso faz quanto tempo?

— Umas dez horas, eu acho.

Eu fiquei apagada por dez horas?

Comecei a buscar pelos bolsos do casaco algo que pudesse nos ajudar ali, só achei o canivete. Na porta tentei achar um buraco, espaço, qualquer coisa que eu pudesse usar para abrir, não encontrei. Andei pelo lugar buscando por aberturas, saídas de ar, qualquer coisa.

Os homens ainda brigavam de forma barulhenta.

Observei no teto uma saída de ar, ia ser por ali mesmo.

Desparafusei a mesa do chão, a empurrei com dificuldade até ficar embaixo da saída de ar, subi nela, e fiquei nas pontas dos pés, eu me esticava ao máximo. Consegui soltar um lado e depois o outro a puxei de forma barulhenta.

Assobiei para os homens. Eles me olharam.

— Alguém pode me ajudar a subir nisso aqui?

— Para quê? — Nichkhun perguntou.

— Saída! — JunHo respondeu.

Nichkhun veio até mim.

— Acho bom você não nos abandonar aqui.

— Não vou, pode confiar.

Fiquei em pé sobre seus ombros. Me esforcei para chegar até o duto, peguei impulso, ouvi Nichkhun me xingar, mas finalmente eu estava dentro. Coloquei a cabeça para fora.

— Jun K, pode me dar o celular?

Ele jogou para Nichkhun que me entregou.

— Seja rápida.

— Darei meu melhor.

Eu olhava o sinal do celular tentando entender como ele poderia estar voltando a funcionar conforme eu me afastava da cela. Encontrei uma saída que pareceu ser em um dos corredores. Bati com força na saída de ar e pulei. Vários alienigenas passavam por ali. Segui um enorme grupo que chegava a uma enorme escada, era a saída. Olhei para trás, muitos seres ainda estavam lá dentro. Meu celular começou a tocar enquanto mensagens chegavam desesperadas.

— Alô?

— Carla! — River — Que bom que está viva, eu não os encontrava em nenhum lugar, nem a Tosh te achou.

— Tosh?

— Esquece... Onde você está?

— Na saída... — falei pensativa.

— Saída?

— É...

— Carla, saia daí. — era o grito do Capitão por trás — Não é a saída!

— Capitão... É sim, todos eles estão fugindo, é a saída.

— Não confie na sua mente!

— Mas...

— Onde estão os meninos? — River tomou a comunicação de volta.

— Droga! — fechei os olhos com força e os abri, estava de frente para a área de saída do lixo. Olhei em volta confusa e me xinguei — Eu não tenho certeza.

Dei as costas para a saída do lixo.

— Ei! — eu parei, aquela voz, não era possível — Você!

Olhei para quem me gritava, e lá estava eu, parada com a minha postura de três anos atrás, eu usava um short jeans e uma camisetona do meu pai. Eu ia brigar comigo mesma.

— River...

— Sim.

— Ela é real? — ela apertou algumas coisas.

— É sim, por quê?

— Me dê alguns minutos e já te ligo.

A ouvi me gritando junto ao Capitão.

Guardei o celular no casaco e observei aquela eu mais nova.

— Gostei do casaco...

— Eu também gosto — respondi confusa.

— Vai ser meu...

— Vai ter de pegar.

Ela veio, ela tentou me acertar, mas se tinha uma coisa que eu conhecia era a mim mesma, bloqueei o gancho de direita, parei o chute, me derrubei ao chão. Eu esperneava com meu peso sobre mim mesma.

Outro soco, me acertei, fui para trás zonza. A outra eu não perdeu tempo me acertou novamente, caí sem saber par aonde ir, um chute, eu não conseguia me mover.

— É meu.

— Carla! Carla! Carla! — Owen dava tapinhas no meu rosto.

— Eu... Eu... o perdi — senti meus olhos se encherem. — Owen, eu o perdi!

— Não... Ele está bem.

— Não... Eu o vi sendo levado.

— Não...

Eu me sentei a voz ainda falava.

— Capitão...

— Quem? — a minha eu mais nova parou de vestir o casaco.

Eu levantei, ela me olhou assustada. Fui até ela, acertei meu melhor gancho, ela caiu, tomei o casaco para mim e dei mais um soco em mim mesma só para ter certeza de que ela ficaria apagada.

Vesti o casaco, peguei o telefone. Liguei.

— River...

— Só falar.

— Preciso que me rastreei e abra aporta para os meninos.

— Fazendo.

Desliguei, observei os mapas que tinham me enviado e observei os aliens que eu deveria evitar. Fui correndo pelos corredores apressada. Cheguei de fora da porta, avistei o painel que controlava a porta, olhei uma camera e fiz sinal para River, comecei a digitar apressada como o Doctor loiro tinha feito antes. Um clic e a porta se abriu. Os meninos sairam correndo, JunHo veio até mim e observou meu rosto, eu devia estar péssima.

— O que aconteceu?

— Eu me encontrei — sorri dolorida.

— Dois, vamos logo, precisamos achar o ChanChan e sair logo daqui — Jun K falou — E é por aqui que vamos seguir.

— Não — eu falei olhando o mapa — É por aqui.

— Não!

— É sim.

— Quem te nomeou líder? — ele desafiou, eu suspirei, não estava com cabeça para discutir.

— Ninguém, mas eu tenho os mapas e a comunicação.

— E por que eu deveria confiar em você? — Taec cresceu.

— Não estou pedindo para confiar, eu só... Quer saber, que se dane, sigam o caminho de vocês, eu sigo o meu, e caso alguém encontre a saída tenta achar o outro ou sei lá, só sai.

Falei indo pelo caminho que eu tinha falado. Eu precisava seguir logo, minha mente estava me matando.

— Doctor! Essa luz deveria estar acesa? — perguntei.

— Não... Interessante — ele começou a mexer nos botões, era o Doctor do nariz grande.

— O que ela quer dizer?

— Não sei, mas pode ser divertido.

Apoiei na parede tonta, minha cabeça não estava boa.

JunHo se sentou ao meu lado, apoiei nele por instinto, ele passou a mão pelos meus ombros, ele sabia como aliviar minha mente, mas algo aconteceu, algo que me deixou sem ação e a todos, alguém estava me beijando. A pessoa se afastou.

— Por que você fez isso? — eu perguntei assustada.

— Porque era assim que você se acalmava — Taec se afastou parecendo cansado, olhei os outros, ninguém entendia — Você não se lembra mesmo? — neguei.

— Desculpa, eu... — eu grunhi de dor, meu cérebro pareceu expandir, se espremer no meu crânio e depois voltar. Isso estava me cansando. Eu preciso encontrar o último deles e achar esse tal Doctor, preciso fazer minha memória voltar.

Me levantei escorada na parede, encarei Taec, ele me observava atento.

— Vamos, precisamos ser rápidos.