O ar era frio e úmido dentro daquela caverna. Garth passou a mão pelas paredes cobertas de lodo, iluminadas somente por uma fina fresta de luz que vinha de fora, indicando que era dia. Apesar disso, ele nunca reparara em uma noite desde que fora capturado pelas crianças. Sentou-se com as costas apoiadas na parede da caverna, uma mão apoiando o chão e a outra coçando os olhos, libertando-os da sujeira do despertar. Ully entrou na caverna alguns minutos depois, trazendo nas mãos um pequeno objeto de vidro negro.

– Aqui está sua ferramenta, Mãos-Verdes. – disse, com uma fluência maior que antes. Ully vinha melhorando seu valiriano dia após dia. – Trabalhei nela durante meio ciclo. Espero que lhe seja útil.

Garth manuseou o objeto, que era levemente divergente da descrição que dera ao dizer que precisava de uma pá para plantar. De qualquer forma respondeu.

– Será muito útil, Ully. Agradeço seus esforços.

O homem de menos de um metro de altura assentiu com a cabeça e esboçou algo que poderia ser um sorriso. Depois virou-se e saiu da caverna, provavelmente indo de volta ao trabalho.

Garth rastejara uns vinte quilômetros fugindo do ataque de lorde Liknell na clareira próxima à praia. Fora dele a ideia de incendiar o corpo daquele maldito enquanto estava desacordado, mas por alguma magia demoníaca ele sobrevivera e voltara para matar todos os valirianos. Sua perna esquerda ainda doía por causa da barraca de madeira em chamas que desabara sobre ela, embora suas feridas estivessem sarando rapidamente com o emplastro que Arkansas fizera. Ele não sabia há quanto tempo exatamente estava na companhia das crianças, tampouco se lembrava de todos os eventos que se haviam desenrolado até então. Ele conseguira alcançar um ribeiro depois de tanto rastejar. Conseguia ver a fumaça através das árvores e em suas narinas penetrava o atemorizante cheiro de carne assada. Desmaiou e acordou várias vezes antes de seu estômago gritar e ele morder uma fruta podre que estava perto. O sabor era doce, apesar de tudo, mas o fez vomitar os resquícios de bile que tinha dentro de si.

Ele vinha de uma família de plantadores, da região sul de Valíria. Trabalhava para um fazendeiro que trabalhava para um maior que pagava impostos a um senador que pagava impostos a Kahyr Lamminen. Sua memória agrícola o fez enterrar o caroço de fruta podre na esperança de obter qualquer fonte de alimento. Dos quatro insetos que conseguiu engolir depois disto, um tia algum tipo de veneno, que o apagou completamente. Acordou com uma maçã selvagem caindo sobre sua cabeça. Garth não acreditou que a árvore que plantara estava de pé, mas lá estava ela, alta e esplendorosa. As tentativas que se seguiram tiveram um sucesso mágico. Ele plantou mais de dez árvores, todas atingindo quatro metros em menos de três horas. Ully devia ter-lhe avistado enquanto plantava e gritava de júbilo. Garth ficou tão assustado com a presença do pequeno homem que perdeu o sustendo em sua perna direita, que não estava tão mal, e tombou no chão, sentindo logo em seguida um dardo atingir seu peito.

Acordou em uma caverna apertada e desconfortável, com uma criança cantando em um valiriano errado e atropelado, enquanto outra fazia um emplastro em sua perna maculada. Depois que Garth se acalmou, Ully e Arkansas se apresentaram e explicaram a situação. Aparentemente eles estavam ainda mais abismados com o efeito das árvores mágicas, pois não tinham noção alguma de agricultura. Chamaram-no Mãos-Verdes e pediram que lhes ensinasse a plantar quando estivesse melhor da perna. Arkansas transferiu Garth da toca de Ully para a sua própria quando este saíra para confeccionar uma pá, e um chá de ervas fez o valiriano adormecer assim que chegou à caverna da mulher que parecia uma menina.

Arkansas entrou cerca de uma hora depois de Ully sair. A luz do lado de fora da caverna era a mesma de sempre, como que proveniente se um sol coberto por nuvens, mas se reduziu novamente a um único feixe quando a porta de pedra foi fechada. Arkansas estava vestida com folhas secas e trazia uma bolsa de folhas costuradas cheia de frutas pendurada no ombro direito. Um arco e uma aljava com flechas de vidro negro pendiam-lhe do ombro esquerdo, e em suas mãos trazia um animal morto.

– Comer muya – disse ela, apontando para o animal. Tanto ela quanto Ully falavam um pouco de valiriano, aprendido de tanto ouvir os viajantes que vinham nas outras missões de Kahyr Lamminen.

– Ully me trouxe minha ferramenta. – Garth falou, enquanto se ajeitava novamente na parede em que estava recostado – Não é do tamanho certo, mas certamente ajuda a cavar na terra.

Ela observou o objeto, feito de vidro negro como quase tudo por ali. Entregou-lhe uma pequena fruta vermelha que tinha pouco suco e muita carne. O sabor se aproximava ao de uma maçã selvagem, mas era muito ácido e fez seu estômago arder. A pequena mulher acendeu a fogueia e assou o animal, que era do tamanho de um filhote de rato-boi. Garth se sentiu satisfeito comendo duas das quatro patas do animal, mas Arkansas comeu três vezes mais, até deixar o esqueleto do animal limpo. Depois de alimentado, ele sentiu vontade de conversar.

– Você estava com fome, não¿ — ela não respondeu. Garth fez o movimento de arrancar a carne do osso – Fome, comer.

Ela pegou uma frutinha na sacola e a comeu, olhando para o homem. O feixe de luz começou a queimar suas costas, então ele se afastou alguns centímetros para a esquerda, o que fez com que o raio atingisse os olhos da mulher, mas esta pareceu não se importar.

– Fome. Comer. – falou Arkansas, com um tom de voz neutro.

– Sim, isso mesmo. – Garth respondeu, com um leve sorriso nos lábios – Dê-me uma fruta dessas, por favor.

Ela lhe entregou a pequena fruta, que não estava tão ácida agora. Ele continuou falando.

– Posso ir lá para fora¿ — apontou para a fresta na porta de pedra – Fora, ar livre.

– Mãos-Verdes dentro. Fora perigo.

Garth não precisou pensar muito para compreender que receberia hostilidade se saísse da caverna.

– Por que¿ — perguntou.

– Estranhos vem há ciclos, toma rosto dos deuses. Altan tormenta estranho.

– Os homens que vieram antes de mim¿

Ela assentiu com a cabeça.

– E por que ainda estou vivo¿ — Garth precisou repetir a pergunta duas vezes antes de Arkansas entender.

– Faz planta crescer. Mãos-Verdes ajudar aqui.

– Sim, ajudar. Mas para ajudar tenho de sair.

– Mãos-Verdes já consegue sair¿

– Sim, consigo. – Ele não tinha certeza, mas precisava de ar fresco. Aquela caverna parecia ser um terrível baú escuro.

Saíram em um momento em que Garth pensara ser noite, mas o céu estava tão claro como sempre. Plantou com Arkansas durante horas, ensinando-a desde o enterrar de sementes de árvore até a plantação em série de grãos. Tinham muita dificuldade em comunicar-se por palavras, então passaram a maior parte do tempo em silêncio. Quando Ully chegou, o valiriano estava exausto do esforço do dia e agradeceu quando Arkansas o mandou entrar na caverna.

– Cantores vêm agora. Mãos-Verdes entra.

– Chegarão do trabalho agora. – Ully tinha um conhecimento de Valiriano significativamente maior que o da mulher – Precisamos entrar, todos.

A caverna da Arkansas era muito maior que a do homem, por isso não o admirava que o tivessem transferido para lá. Mesmo assim, a entrada era tão estreita que ele se sentiu do tamanho de uma uva quando se espremeu para passar por esta. O suava ranger de pedra sobre musgo selou a entrada atrás de Arkansas, que foi a última a entrar. Garth se escorou em sua pedra habitual e olhou para o emplastro sobre sua perna queimada e cortada. As folhas estavam secas e o mel de abelhas, endurecido. A dor era tão pouca que muitas vezes se esquecia, mas agora estava sujo de terra e pinicando. Arkansas acendeu uma tocha do tamanho de uma vela e a prendeu à parede, iluminando como nunca antes o ambiente. Um fino fio de fumaça subia pela parede, escapando peã fresta na entrada de pedra, entre a parede e o teto. Garth sentia o ferimento incomodar cada vez mais, então a chamou.

– Arkansas. – ela o olhou com o rosto sem expressão – Ferimento. Preciso trocar as ataduras.

Ela fez menção de ir ajudá-lo, mas Ully a interpelou e lhe cantou qualquer coisa no idioma das crianças da floresta. Ela olhou para Garth e em seguida se direcionou para a porta. Pela primeira vez em muitos sonos ele viu o céu escurecido e coberto por nuvens. Não era tão bela quanto a noite estrelada de Valíria, mas era bom ver algo familiar naquele mundo estranho. Ully pegou um frasco de barro em algum lugar sombreado da caverna e derramou o conteúdo sobre o emplastro de folhas. Com mãos habilidosas, ele limpou o ferimento e refez o curativo. Sua perna esquerda estava queimada do fim da virilha ao joelho, e lascas de madeira insistiam em penetrar sua carne em um corte de vinte centímetros que estava se fechando em uma cicatriz horrenda. Ully derramou mel quente sobre a mácula e envolveu com longas folhas verdes, amarrando-as com tiras de pele de animais.

– Amanhã falaremos com Hennay. – disse Ully, enquanto terminava o serviço.

– Quem é Hennay¿ — perguntou Garth.

– O grande pai. Nosso Kahyr.

– Nosso Kahyr¿

– Sim. Os estranhos sempre falam de um Kahyr Lamminen. Que devem obediência a ele.

– Ah, sim. – Garth riu – Mas Kahyr não é o governante. Ele nos manda viajar.

– Governante. – Ully ecoou, assimilando a nova palavra – Hennay é nosso governante. Levo-te até ele amanhã.

– Por que¿

– Não pode ficar escondido para sempre. Hennay vai gostar de suas mãos verdes, vai querer que plante no Braço. Sabe plantar árvore-coração¿

Garth não reconheceu o nome, mas presumiu que esta seria uma árvore qualquer.

– Sim, é simples. – respondeu.

– Então deve ser escolhido pelos deuses.

O comentário incomodou Garth. Ele tinha seus próprios deuses, que o tinham protegido por toda a vida. De todos os homens que haviam saído de Valíria naquela fatídica missão três anos antes, somente ele sobrevivera. Rezara todos os dias, no mar de Sothoryos, no Golfo da Mágoa, nas Ilhas do Verão enquanto trabalhava escravamente na construção do porto e aqui, nas Terras do Poente. Pedira aos deuses que o mantivessem vivo, que o deixassem voltar para casa para rever sua mãe e seu irmão mais novo. Rezara aos cinco grandes e a dezessete dos menores. E agora estava vivo, saudável e prestigiado por estes pequenos seres. Não duvidava nem um pouco de que fosse escolhido pelos deuses, mas nenhum deus que conhecia tinha a ver com árvores.

– A que deuses se refere¿ — perguntou a Ully.

– Às árvores-coração. – respondeu o homenzinho – Altas e brancas, com folhas vermelhas e rostos esculpidos. Olhos que nos observam.

Garth vasculhou uma imagem em sua memória, mas teve de confiar na imaginação, já que passara tempo demais em cavernas para vislumbrar as excentricidades da floresta. Sorriu com o canto da boca quando projetou o rosto gordo de Kahyr Lamminen na árvore, com aquelas enormes bochechas rosadas.

– O que seus deuses fazem¿- Garth continuou perguntando.

– Olham por nós e nos protegem. Há quem diga que eles são os espíritos dos nossos ancestrais, que nos observam em muitas épocas diferentes. Que os deuses ainda estão vivos e ficam no Norte. Que eles só têm poder dentro da magia de Altan. Que talvez nem sequer existam. Que vivem nas árvores ou são as árvores.

– E em que você acredita¿

– Que me protegem. É o suficiente.

O valiriano assentiu com a cabeça em sinal de concordância. Talvez realmente não importasse o nome dos deuses, só sua relação com eles. As paredes tremeram e a tocha caiu no chão. Ully a colocou no lugar com a maior calma do mundo.

– O que aconteceu¿ — Garth perguntou.

– As raízes estão se movendo. É a resposta dos deuses.

– Resposta a quê¿

– Às preces. É hora de adorar a eles, por isso todos os cantores estão do lado de fora. Acendem uma fogueira e cantam e dançam em volta dela. Alguns podem voar. É lá que Arkansas está.

– Arkansas é cantora das árvores¿ Pensei que fosse caçadora.

– Oh, não exatamente. – respondeu Ully em um riso fraco. Foi a primeira vez que Garth o viu rindo – Arkansas é uma warg. Ela troca de peles com animais selvagens, como os lobos, e sai à caça dos menores.

– Troca de peles¿

– Sim, entra no corpo deles e os domina. Poucos têm esse dom, mas ela consegue.

Um dom, pensou, para mim parece uma aberração.

Pelo relógio que havia na mente de Garth, a noite dos deuses durou vários dias. Dormiu e acordou, comeu e saiu na penumbra para evacuar e voltou. Um, dois dias. Uma semana ou duas, ele já não tinha mais noção do tempo que passava, e o amanhã em que supostamente conheceria Hennay nunca chegava. Ele acordava e via Ully, que parecia nunca dormir. Comiam, sempre este mais que aquele. Garth falava. Contou sobre sua viagem, do pouco que pudera ver dentro do casco e entre os remos. Soubera da traição de Jaemon Lyyr, e depois da traição de Liknell Argrazz. Falou que estivera nas Ilhas do Verão, uma terra rica e densa de florestas. Vira homens de pele negra vestindo plumas e fazendo um ritual de sexo selvagem na mata. Depois falou de Valíria, dos campos agrícolas, da Cidade Franca e do deserto das Terras do Longo Verão. Falou dos dragões e do ouro, e de Kahyr Lamminen passeando pelos campos a procurar camponeses com braços fortes para serem remadores.

Ully falou sobre o mundo em que vivia, enquanto visivelmente melhorava sua pronúncia de valiriano e vez ou outra ensinava uma palavra no idioma cantado das crianças da floresta. Chamavam a si mesmos de “Cantores da Terra” e viviam em um continente que se estendia milhares de quilômetros a norte, mas só a Campina era guardada pelo Tormento de Altan, uma névoa mágica que afastava os invasores e protegia os cantores das venturas do mundo exterior.

Quando todos os assuntos se esgotaram, Garth preferiu permanecer calado. Sempre fora do tipo de homem que conversa muito, dentre os amigos o que mais bebia e gritava. O que encantava as mulheres com sua lábia e conseguia tudo o que queria na conversa, mas aqui, diante de seres mágicos e dias e noites eternas, parecia ter perdido sua habilidade. Dormiu e acordou cinco vezes até que a luz começasse a suavemente penetrar na caverna pela fresta na porta. Foi uma questão de poucos minutos até que Arkansas entrasse tão calma e serena quanto antes. Ela se dirigiu logo para Ully, cantando algo em uma língua incompreensível. Logo em seguia o homem perguntou:

– Consegue andar, Mãos-Verdes¿

– Acho que sim. – respondeu.

– Então vem logo, porque Hennay está lá fora.

O valiriano se apressou em sair, enrolando-se mais firmemente no amontoado de tecidos em que suas roupas haviam se transformado. Levantou-se na direção da porta recém-aberta sobre sua cabeça, sentindo sua visão girar por ter levantado tão rápido. De pé, Garth ficava com os ombros e a cabeça para fora da toca de Arkansas. Apoiou os dois braços no exterior da pedra e passou as pernas para o lado de fora, sendo seguido pelos dois cantores da Terra. Pôs-se de joelhos antes de tentar caminhar, ainda com os olhos rejeitando a luz, mas mesmo assim se desequilibrou. Precisou se apoiar em uma árvore para se firmar de pé. Malditas pernas fracas, pensou, por quanto tempo fiquei sem andar¿

Cambaleou apoiado nos outros dois até perto de uma árvore alta e branca com folhas vermelhas. O rosto esculpido foi dica final para Garth compreender que se tratava de uma árvore-coração. Um cantor velho estava ajoelhado em frente à árvore, e aparentemente não percebeu a presença dos três até que Arkansas começou a cantar no idioma da floresta.

– Chaya’mundya nomanhelellecu’o. To. Ba. To.

– Ela disse que temos uma boa notícia. – traduziu Ully, sussurrando. O velho continuava imóvel em sua posição, embora sua face mostrasse que estava incomodado. Arkansas continuou cantando.

– Debrucae camberrae nemotis nho absum. Absum.

Ully esperou um pouco, talvez buscando a tradução das palavras na memória.

– Disse que você é mágico. Está falando de suas mãos verdes.

Hennay finalmente se levantou e virou. Tinha uma expressão friamente neutra, mas as dezenas de manchas no seu rosto o deixavam com ar sombrio e irritado. Ele começou a falar em sua língua cantada, se dirigindo a ninguém e ao mesmo tempo a todos.

– Xhanae minhoi. Mutsa alin. Ahoyen.

– Disse para se ajoelhar. – sussurrou Ully.

Garth obedeceu, ficando quase da mesma altura que os homenzinhos. Hennay passou a fitá-lo com um par de olhos estreitos como os de um gato. Tinham uma cor dourada leve e emanavam uma espécie de poder que fazia o valiriano se sentir ainda mais fraco que já estava. Por fim, o velho homem se dirigiu a Arkansas e pronunciou qualquer coisa que Garth não conseguiu ouvir. Ficou esperando Ully traduzir, mas este não fez nada além de uma expressão perplexa, tal qual Arkansas. Demorou tanto até que alguém fizesse alguma coisa que ele resolveu perguntar a Ully.

– Você ouviu o que Hennay disse¿

– Sim. – respondeu – disse que você não é mágico, e sim só mais um estranho.

Garth se sentiu como um criminosos descoberto, e pensou em mil coisas antes de ter algo a dizer.

– Mas você viu, não¿ — estava decidido a provar ser mágico, pois, mesmo que ele mesmo não acreditasse só os deuses sabiam o que os cantores poderiam fazer ao impostor – Você me viu fazendo as árvores crescerem.

– Eu vi, mas Hennay não.

– Posso demonstrar, aqui e agora mesmo.

– E contestar a palavra de Hennay¿ Não, não pode.

O velho homem cuja palavra valia mais que testemunhas começou a falar em valiriano.

– Eu sei o que pensa, estranho Mãos-Verdes. – a pronúncia era lenta e cheia de erros, mas o costume de se comunicar com Ully e Arkansas facilitou a compreensão das palavras – Posso ler sua mente. Você veio do Nascente com aquele Liknell, estou certo¿

Liknell. O nome fez Garth arrepiar-se de fúria. Então o maldito sobrevivera.

– Sim, o maldito sobreviveu. – Hennay respondeu aos seus pensamentos – Mas o expulsei destas terras há um ciclo. Agora me diga, Mãos-Verdes, por que não devo expulsá-lo também, ou matá-lo¿

– Posso... Posso plantar, senhor. – respondeu, hesitante.

– Plantar¿ — o velho respondeu rindo – Já não temos árvores demais¿

– Nós acreditamos que ele pudesse plantar no Braço, Hennay. – Arkansas interveio, em seu valiriano parcialmente desenvolvido. Possivelmente queria que Garth ouvisse seus planos.

– Não, não poderia. – o Grande Pai respondeu – Isso que você pensava ser magia é apenas um efeito do tormento de Altan. Já sabíamos dele há ciclos, por isso ninguém aqui aprende a plantar. Dentro da Campina estamos bem supridos de árvores. No Braço, qualquer semente que enterrar rachará perante o sol do deserto.

– Então não há razão nenhuma para Garth permanecer conosco. – disse Ully, olhando para o chão.

– Exato. – respondeu Hennay – E então, Garth Mãos-Verdes, quando pretende partir¿

– Não pretendo. – respondeu. Um gemido de consternação partiu de seus companheiros – Não tenho para onde ir. Posso fazer qualquer coisa que fizerem, mas não tenho como sair daqui. E mesmo que eu consiga voltar para casa, Kahyr Lamminen certamente me matará.

– Sempre esse maldito Lamminen – suspirou o velho homem – Bem, você pode ficar aqui e ser morto por mim.

– NÃO! – gritou Ully – Ele pode trabalhar comigo. Posso ensiná-lo a trabalhar obsidiana.

O valiriano se impressionou com a atitude do homenzinho. Haviam passado muito tempo juntos, e talvez Ully já o considerasse como um amigo. Garth passou a considerá-lo naquele momento. Hennay não mudou a expressão facial, mas levantou levemente o tom da voz.

– Não poderia, nunca! Um estranho vivendo entre nós desestabilizaria a natureza. Não há como.

– Há um modo. – Arkansas falava calma e pausadamente, mas a ousadia era visível em seus olhos – Eu vi quando dançava aos represeiros, ciclos atrás. No Norte alguns cantores podem tomar novos corpos.

– Wargs. – interveio o Pai.

– Não, é diferente. – ela continuou – Vi que os cantores da mente podem tomar o corpo de outros, ou produzir uma ilusão de que são outra coisa. Você pode fazer isso, Hennay.

– O quê¿ Tomar a forma de outro cantor¿

– Não, claro que não. – a mulher parecia mais firme agora, embora sem perder a cautela – Pode fazer isso com Mãos-Verdes. Transformá-lo em um cantor, para que não cause desequilíbrio.

Hennay entrou em um silêncio reflexivo que pareceu durar mil anos. Até Ully pareceu ansioso quando disse:

– Vou ensiná-lo meu ofício com obsidiana. Ele será o melhor, sem dúvida. Não será, Garth¿

Nunca mais verei minha família, pensou, mas se lembrou logo em seguida de que um marujo não pode ter esperanças de ver sua família.

– Serei. – respondeu, com uma convicção que não tinha, mas estava desesperado para ter.

– Então que assim seja. – declarou Hennay – Farei um encanto, e seu corpo se parecerá com de um cantor. Prepare-se para sentir dor.

Dor foi uma palavra fraca para descrever o que ele sentiu, e quando acordou, poderia jurar que retornara dos mortos. Estava à beira de um riacho – ouviu o tamborilar das águas antes de se levantar e confirmar. Olhou para o seu corpo, que poderia ser idêntico ao anterior não fosse pelas centenas de manchas que lhe cobriam a pele e por seu tamanho reduzido. Levantou-se com dificuldade e logo ouviu paços correndo em sua direção. Era Ully, agora mais alto que Garth, trazendo suas roupas. Era uma mistura de retalhos das roupas que usava desde as galés, agora perfeitamente adaptáveis ao seu corpo pequeno.

O amigo sorriu cantou em sua língua da floresta e ele entendeu, respondendo em melodias logo em seguida. Conseguia sentir o vento bater no ritmo do seu coração, o solo respirando sob seus pés descalços, a água do riacho sussurrando dentro de seus ouvidos. Andaram juntos até perto de um lago, onde Garth pôde ver no que se tornara. As barbas jovens que cultivava permaneceram do mesmo tamanho, deixando-o com a aparência de um velho barbudo no alto de seus dezenove anos.

– Venha, preciso lhe ensinar a trabalhar a obsidiana. – chamou Ully – Hoje veremos o corte, amanhã as armas.

Garth foi atrás de seu amigo, pronto para começar sua nova vida.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.