A calmaria da costa de Sothoryos deixava saudades, mas era bom sentir novamente o cheiro do Golfo da Mágoa. Haviam levado dez semanas para atingir aquele ponto, onde havia um intenso tráfego de barcos comerciais do mundo inteiro. Lell era capaz de reconhecer a origem de um barco pela sua aparência, mas se fechasse os olhos, ainda sentia o cheiro característico de cada lugar. Os navios de Asshai tinham um cheiro forte de especiarias e incenso, ao passo que os ghiscari vinham sempre abarrotados de escravos, tapetes, tecidos e ouro, exalando um odor de peles e metais.

Os barcos valirianos eram menos comuns, mas todos cheiravam a ovelha. Também havia alguns dragões voando no céu. Eram enormes, mas nenhum tão grande quanto o Wlman de Kahyr Lamminen. Somente lordes imprudentes levavam seus dragões para alto mar. Era frequente que eles perdessem as focas e caíssem, e um dragão não sabia nadar. Se acabasse por pousar em um barco, era mais provável que este afundasse, mas também poderia acontecer de pegar fogo, ou os dois ao mesmo tempo.

Os dragões iam e voltavam, sem nunca se afastar muito da costa, e os navios passavam uns pelos outros, sempre acabando por sumir no horizonte. Das dez galés que Kahyr fornecera, Jaemon decidira conduzir apenas três, todas abarrotadas pelo ouro conseguido na venda de sete navios novos. As velas negras esvoaçavam no topo dos mastros enquanto uma grossa camada de piche revestia o exterior dos cascos, fazendo a antes tão imponente galé nobre se assemelhar a um barco peixeiro grande.

Jaemon Lyyr quase nunca saía de sua cabine de trabalho. O velho não parecia sentir sono, pois sempre havia uma vela acesa durante a noite. Ele ordenara a Maegor que comprasse um exército escravo de uma tribo em Sothoryos. Os homens eram fortes e obedientes, mas nenhum passava de um metro e meio, além de serem completamente estúpidos. Eles possuíam uma pele escura como leite queimado, mas não escura quando a dos dothraki. Só entendiam a língua deles, então viera junto com eles um escravo intérprete. O antigo dono era o chefe dos Yankee, e vivia em uma casa de pedra no meio de uma floresta. Possuía muitos exércitos, então não se viu prejudicado ao trocar três mil homens por trezentos dragões de ouro.

– Esses selvagens são estúpidos, você poderia ter oferecido um cobre que ele lhe venderia o exército! – gritara Jaemon, quando Maegor lhe apresentara os yankee.

Os barcos estavam superlotados devido à avareza de Jaemon, então levaram muito mais tempo que o comum para alcançar a costa ghiscari. Lell não reconheceu o enorme porto de Ghis sem suas harpias, assim como não reconheceria Valíria sem dragões.

– O que houve com esta cidade¿ — disse Maegor, encostando-se no parapeito da galé bem ao lado de Lell. Estava vestido com o mando de Lyyr, fazendo os peixes vermelhos dançarem com seus olhos de mesma cor, e seus cabelos claros cintilavam à luz do sol ghiscari. – Ou eu deveria perguntar o que você fez¿

– Arranquei a alma desta cidade. – respondeu Lell – Já que não pude tirá-la de Arkrazz à força, tirei de maneira sutil. Tirei as harpias de Ghis.

– Você pode ter matado as harpias, mas não matou cidade alguma. Veja. – Maegor apontou para uma construção distante – Os ghiscari estão refazendo sua própria alma. Estão construindo uma harpia, desta vez com formas diferentes e mil vezes maior.

– Não será a mesma coisa. Não estará em todos os lugares, nem mesmo será real.

– Será tão real quanto eles quiserem que seja. Estará onde eles acreditarem que esteja. A harpia está se reerguendo, faz menos de um ano que você deu seu golpe fatal. Você não é Deus, Liknell. Não pode destruir alma alguma.

– Talvez seja verdade. – disse Lell, enquanto observava o porto se aproximando – Mas você disse “Deus” e não “deuses”. Não acredita nos deuses de Valíria¿

– Quando se é um homem viajado, é difícil manter uma fé. Já estive em mais de cem cidades em Essos, e mais tantas outras em Sothoryos. Os ghiscari acreditam na Grande Harpia, os asshai, no Deus Vermelho. Os valirianos creem em milhares de deuses, mas não tantos quanto os Sothoryosi. Eu só acredito no ouro, ou em Vammenn, se quiser interpretar assim, já que nasci e fui criado em Valíria. Na realidade, já estive na presença de dezenas de deuses, mas nenhum deles foi tão bom para mim quanto ele. E você, Liknell, a que deuses serve¿

– Aos deuses de Asshenayy, ao Deus Vermelho de Asshai. Aos deuses das árvores de Ulthos e aos milhares de deuses de Valíria. À Grande Harpia de Ghis e aos deuses selvagens de Sothoryos, mas, ao mesmo tempo, num único deus.

– Então acredita que todos os deuses sejam um só¿

– Sem dúvida. Ele mesmo disse isso.

– Ele quem¿ — a voz de Maegor tinha um tom cortante de incredulidade.

– Deus.

– Então talvez tenhamos a mesma crença. Deus é único, o mesmo para mim e para você, mas se manifesta em faces diferentes.

O homem se desencostou e saiu, na direção da cabine de Jaemon, deixando Lell entretido em seus pensamentos, cada vez mais atingido pelo balanço irregular das águas rasas.

Quando o porto se aproximou a aproximadamente duas horas de distância, a construção da Harpia ficou plenamente visível. Enormes vigas de ferro, bronze e aço se erguiam e se entrelaçavam no ato. As bases estavam quase prontas, feitas de pedra calcária, que futuramente seria pintada. Os pés lembravam em muito os pés de um leão, e um trecho do corpo que se erguia denunciava a forma que a nova harpia teria. Aproximadamente mil homens trabalhavam naquela construção, e ela certamente ficaria pronta logo, dado que eles se amontoavam como formigas num formigueiro. Pela altura a que as vigas chegavam Lell supôs que deveriam ter mais de trinta metros de altura, mas ainda assim seria muito menor que o templo de Vammenn que estava sendo construído em Valíria.

O momento era pleno e oportuno para Jaemon Lyyr. Aquela galé não era projetada para a guerra, então ele teve certa dificuldade em posicionar seu exército para o desembarque. Os soldados estavam agrupados em dois mil na galé nobre e mais mil em cada uma das outras galés. Maegor ordenara a construção de uma rampa que ligava dos fundos do navio até a popa. Desta forma, eles poderiam subir até a superfície no momento oportuno e saltar para o cais, dando início ao ataque à Ghis.

Jaemon permanecia enfurnado em sua cabine, certamente planejando os últimos detalhes de as conquista, ou talvez escrevendo as palavras que diria a Arkrazz antes de arrancar seu coração. A cidade mais gloriosa do mundo estava a pouco mais de uma hora de distância. Os remadores suavam em suas braçadas lentas, enquanto os soldados se amontoavam perto deles. A rampa permaneceria erguida até o último momento, segundo ordens do próprio Jaemon, não importa o quão escaldante fosse o calor lá embaixo.

Lell se desencostou do parapeito e se direcionou a cabine do Capitão. Ela era a única cabine dedicada exclusivamente ao trabalho, e ficava no segundo ponto mais alto da galé, sendo superada apenas pelos mastros. A porta estava fechada, e acima dela havia uma placa de ouro com hieróglifos ghiscaris com o dizer “Grande Mestre”. Lell empurrou a porta, que se abriu sem maiores esforços. Jaemon não era homem de trancar portas, pois nada era capaz de lhe atrapalhar a concentração. Neste momento, no entanto, não estava trabalhando. Estava sentado, conversando com Maegor sobre nada, como um tio conversaria com se sobrinho. Um punhado de guardas valirianos os acompanhava, todos vestindo o manto branco com peixes vermelhos de Lyyr e carregando enormes espadas de aço de dragão.

– Espero não estar interrompendo. – disse Lell ao entrar.

– Não, não está. – respondeu Jaemon. Ele estava com um semblante estranhamente mais leve, e Lell poderia dizer que viu um quase sorriso no rosto do velho. — Meu trabalho já acabou, estou agora contando a Maegor sobre a Valíria antiga.

– Aquela sem os dragões. – adicionou Maegor.

– Oh, isso me parece um tanto interessante. – disse Liknell – Lorde Jaemon, eu gostaria de lhe fazer uma pergunta sobre essa Valíria que não conheci.

– Sim, pode perguntar.

– Quanto tempo os homens viviam¿ Pergunto isso porque já ouvi dizer que os valirianos vivem acima do normal.

– É verdade que alguns valirianos vivem mais que o normal, Liknell. Tenho o conhecimento de duas famílias, os Lyyr e os Valoys. Nos meus tempos de criança, quase nenhum homem vivia além dos trinta e cinco anos, e as mulheres não passavam dos quarenta. Houve um senador que alcançou os sessenta anos, mas, além dele, somente dessas das famílias.

– Mas se essas famílias vivem tanto tempo –questionou Lell – como todos os seus parentes estão mortos¿

– Eu nunca disse que eles estão mortos.

– Mas é algo óbvio de se afirmar, não¿ Maegor é um intendente de Valíria, o que haveria de fazer em Ghis¿ E o senhor, bom, creio que teria certamente muitos irmãos no Senado, e talvez tivesse se casado com uma irmã, e agora estaria casado, e com filhos e netos.

– Está bem, estão todos mortos. À exceção de mim e Maegor, não há nenhum membro vivo da Família Lyyr.

– Não por enquanto. – interviu Maegor – Quando for Mestre das Finanças de Ghis, pretendo me casar com alguma senhora nobre ghiscari e dar continuação à linhagem.

– Mas porque seus parentes não viveram tanto quanto o senhor, Jaemon¿ — perguntou Lell.

– Ora, não sei. – respondeu Jaemon, enquanto se levantava agitado. Os guardas que o acompanhavam na sala o olharam com um olhar confuso.

– Lorde Jaemon, não fique tão embaraçado. – disse Lell, em um tom brando que buscava ser irritante – Eu não o condenaria por isso. Eu tenho um irmão de criação que já fez o mesmo que o senhor.

– Já fez o quê¿ — Jaemon olhava para baixo, como quem não quer estar em um lugar — Do que você está falando¿

– De matar seus parentes, ora. Kellokk matou a própria mãe ao nascer, mas eu não o condeno. Diga-me, como matou a sua¿

– Não matei minha mãe! – gritou Jaemon, dando um soco forte na mesa – Ela morreu em um incêndio na nossa casa.

– Conte-me, por favor. Não tem nada a perder com isso.

– Pois que seja. – Jaemon se sentou novamente, mas sem recobrar a calma. – Eu era o mais novo dos filhos de Mesteor Lyyr, e vivíamos em uma grande fazenda, em um tempo em que as casas eram feitas de madeira, e não de pedra. Duas meninas mais velhas, dois meninos mais novos. Estava feita a sucessão. Meu irmão Maegor, bisavô deste que você vê agora, se casaria com Myriam, e eu me casaria com Allera. Mas um incêndio na nossa casa matou minha mãe, e meu pai, em um ato de loucura, casou-se com Myriam, sobrando Allera para Maegor e nada para mim. Meu pai foi morto por um grupo de ladrões, e Myriam morreu pouco depois, após ingerir veneno no seu vinho. Desconfiados, Maegor e Allera se mudaram para a Cidade Franca, onde tiveram um filho chamado...

– O pai de meu pai se chamava Aerys. – disse Maegor, se levantando com uma expressão confusa.

– Sim, Aerys. – continuou Jaemon – Aerys ficou órfão aos quatorze anos, quando seus pais foram sequestrados e mortos. Neste caso, não haveria quem me culpasse, pois eu estava em Asshai sendo intendente de navios. Como não tinha nenhuma irmã, Aerys casou-se com Fisenya Garten, uma dama nobre da Cidade Franca, e dessa união vieram os pais de Maegor, Saleor e Rhaella.

– O senhor matou meus pais¿ — perguntou Maegor, visivelmente confuso e enfurecido.

– Claro que não, rapaz. – respondeu Jaemon, olhando para o chão enquanto falava – Você sabe muito bem que seus pais morreram afogados no Golfo da Mágoa, durante o naufrágio de uma galé nobre de passeio.

– E o que aconteceu depois disso¿ — perguntou Lell.

– Maegor foi enviado para viver com os avós. – respondeu Jaemon – Aerys e Fisenya estavam na faixa dos sessenta anos nessa época, e foi quando eu me mudei para Ghis e me tornei nobre. Foi só uma questão de algumas luas até que os dois fossem mortos por uma chuva de flechas, em um suposto ataque à cidade. Maegor foi enviado para viver comigo depois disso, e, quando me tornei Mestre das Finanças, ele já era há muito adulto, e viajava o mundo como intendente de navios, mas abandonou a profissão quando Kahyr Lamminen iniciou a construção do templo de Vammenn.

Jaemon desviou o olhar para o canto da sala. Maegor estava encostado à parede, com o olhar baixo e desolado.

– O que há rapaz¿ — perguntou Jaemon

– O que há¿ — gritou Maegor. Seu rosto estava contraído, e seus olhos vermelhos borbulhavam em chamas – Você matou meus pais!

– Maldição, não matei ninguém! Apenas queria a herança da Família Lyyr e precisei tirar alguns irmãos do meu caminho!

– Não, você os matou. – continuou Maegor, com a boca espumante – Tirou do seu caminho todos que tinham uma pretensão maior que a sua, e, se me lembro bem das leis, eu tenho mais direito a esta herança que você.

– E só trouxe Maegor consigo para que sua pretensão não o atrapalhasse. – acrescentou Lell, pondo mais lenha na fogueira.

– E só não me matou porque eu sou o único capaz de gerar descendentes e continuar a linhagem dos Lyyr.

– Ora, que se fodam você dois! – gritou Jaemon, enfurecido, enquanto dava passos titubeantes para trás. – Sim, matei seus pais. Paguei alguns remadores para que furassem o casco da galé antes da partida, mas nunca fiz mal algum a você, Maegor. Garanti que tivesse a melhor educação e uma vida boa como intendente. Agora você será o segundo homem mais poderoso de Ghis, e talvez de todo o mundo. Será o Grande Mestre depois de mim, e dará continuação à gloriosa família Lyyr. Magor, eu sou seu pai agora.

– Você não é meu pai. – A voz de Maegor era calma e pausada, e seus olhos vermelhos fitavam os olhos de Jaemon, como dois dragões brigando – Meu pai morrei afogado há trinta anos, segundo suas próprias ordens.

– Valar Morghulis. – respondeu Jaemon.

Em um movivento mais que rápido, Maegor puxou de sua cintura um facão de aço valiriano e o fincou no peito de Jemon Lyyr. Lell pôde ouvir o suave som do linho fino se rasgando, seguido pelos fios de ouro da toga do homem velho. A faca rasgou pele e carne, e foi possível ouvir o raspar de aço nas costelas de Jaemon. O sangue jorrou vermelho e cheio de vida, quase tão escuro quando os olhos de homem. Ele caiu no chão em berros de agonia extremamente altos, que mais pareciam de um porco no matadouro. Sangue sauiu pela boca e pelas orelhas do velho, e suas pernas se debatiam freneticamente enquanto ele morria.

– Valar Morghulis. – respondeu Maegor, enquanto retirava a faca do corpo do tio e a colocava novamente, uma, duas, três, quatro, cinco vezes, até que ele parasse de se mover.

Os guardas de Jaemon caíram como meteoros sobre Maegor. Era cinco no total, mas eram altos e fortes, e certamente valiam por dez soldados comuns. Um guarda segurava uma adaga de aço valiriano, e a fincou na barriga de Maegor. Este usou o facão com o qual matara Jaemon para rasgar o pescoço deste guarda. Dois tentaram atacá-lo por trás, mas Lell se levantou e chocou seus capacetes de aço, fazendo-os cambalear para trás, e em seguida usou a espada de um deles para sangrar o peito de ambos. Lell sentiu o beijo frio de aço contra sua nuca, mas logo depois o punhal desceu arranhando suas costas. Ele se virou e viu um guarda de Lyyr que caía, com uma espada enfiada nas costas, e na outra extremidade estava Maegor, ofegante, segurando a espada.

Lell não estava cansado como um humano comum, mas seu coração batia rápido como as asas de um beija-flor. Maegor estava acocorado no chão, soluçando inconsolável. Lell se dirigiu até ele, que, mesmo estando com a cabeça baixa, percebeu a presença do outro homem.

– O que eu vou fazer¿ — disse Maegor, entre soluços.

– Sobre o quê¿ — perguntou Lell.

– Sobre tudo. Toda a minha vida foi traçada por Jaemon. Nos últimos quatro anos eu estive sompletamente empenhado neste maldito plano de consquistar a Ghis, e não havia nenhum problema nisso, mas... ele matou meus pais!

– Não posso dizer que conheço sua dor, porque não conheço. Sou ainda mais novo que você, e não me vejo em condição de lhe dar um conselho.

– Não pedi um conselho. Pedi uma decisão. O que eu vou fazer agora¿

– Certo, Maegor. Eu devo lhe confessar algo. Planejei este momento. Eu não pretendia permitir que Jaemon Lyyr se tornasse o homem mais poderoso do mundo. Fiz com que você o matasse, porque não poderia lutar contra os dois.

– Não seu se te mato ou te agradeço.

– Não sou capaz de morrer.

– Então algum dia eu devo lhe agradecer. Mas primeiro, preciso de uma direção.

– O mais certo a fazer, creio eu, seria voltarmos à Valíria e devolver todo o ouro a Kahyr Lamminen.

– Se eu voltar, Kahyr me mata. Eu fiz parte da traição de Jaemon, e Kahyr Lamminen não é homem que perdoe alguém.

– Então vejo uma solução à nossa frente. Podemos vender os exércitos em Ghis, podemos vender os barcos também. Viajaremos novamente a Naath e nos abasteceremos, e seguiremos para as Terras do Poente.

– Nunca foi de meu interesse conhecer tais terras. Dizem que são nebulosas e cheias de maldições.

– E é provável que seja verdade. Estaria disposto a enfrentar a viagem, ou prefere a ira do homem mais rico e poderoso do mundo¿

– Ora, após tanto tempo, minha vida já não mais tem um rumo.

– Pouco mais de qinze anos atrás, conheci seis mil ulthi que não tinham rumo. Os recursos eram escassos em seu mundo de pedras, e eles precisavam se mudar. Hoje estão em Valíria, trabalhando e vivendo.

– Então irei para onde você quiser, Liknell.

Demoraram sete dias para se livrar dos exércitos sothoryosis e das galés excedentes. Os remadores também eram escravos, e foram tatuados com marcas ghiscaris quando vendidos. Conseguiram mil e oitocentos milhões de pesos de ouro, o equivalente a aproximadamente mil milhões de dragões de ouro. Reabasteceram o navio em Ghis e zarparam com uma única galé, uma tripulação de três mil homens e Liknell como Capitão, enquanto Maegor fazia o papel de intendente. Lell mandara coser em Ghis um brasão prórpio, já que não era de nenhum afamília tradicional. O símbolo que ele escolheu era uma mulher feita de fogo sobre um campo branco, algo entre a primeira visão que tivera dos deuses e sua instrutora de magia, que morrera dezesseis anos antes.

O percrso pelo Golfo da Mágoa foi estranhamente calmo, lembrando os mares da costa oeste de Sothoryos. Levaram cinco semanas para atingir a ilha de Naath, onde adquiriam suprimentos para a viagem mais longa, que pretendia chegar às Terras do Poente, mas desta vez pelo sul, não para o norte. Após doze semanas, um homem no mirante avistou terras à distância. Pássaros coloridos vieram para dentro da galé quando esta aportou em uma praia de areia branca. Os homens desceram do barco como moscas que saem de um cavalo quando este abana a cauda.

Liknell e Maegor se puseram a diante dos servos, andando em direção a uma mata fechada. As árvores eram altas e verdes, com inúmeros pássaros barulhentos habitando seus galhos. As ondas do mar também eram barulhentas, e o calor eraq insuportável, mas a brisa do mar o amenizava. Andaram mata adentro durante horas, enfrentando insetos voadores do tamanho de mãos, e, vez ou outra, algum animal parecido com um ser humano muito pequeno passava sobre suas cabeças, pensurado nos galhos das árvores, mas homem algum apareceu.

Quando a tarde caía e a floresta estava escurecendo, os homens retornaram à praia e lá armaram suas barracas. Alguns retornaram para dentro da galé, mas a maioria já não aguentava o balanço das ondas. O sol se punha em uma forte vermelhidão nos céus quando Lell se dirigia à cabine do Capitão, quando algo chamou sua atenção no horizonte. Maegor passava por perto e ele o chamou.

– O que há, Lell¿ — perguntou Maegor.

– Está vendo o horizonte¿ — disse Lell

– Vejo o pôr do sol.

– Não, não olhe para oeste. Veja o que há a norte.

Maegor se virou para norte junto com Liknell, que perguntou:

– E agora, consegue ver¿

Ele olhou fixo para o horizonte, observando o estranho fenômeno que havia naquele lugar.

– Neblina.