O Homem Que Viu O Mundo
12 Ibben
Fazia um frio demoníaco naquele lugar, e vento era cortante como o ferro no alto das montanhas. Ib escolhera aquele lugar por ser o mais alto, e assim ter vista para todo o mundo que Liknell criara para ele. Maldito, pensava, todos dias, mandou-me para este pedaço de gelo como prova de misericórdia. O palácio que construíra para si não era grande coisa, nem mesmo era pequena coisa. Um amontoado de pedras sobre uma enorme pedra, era o que ele considerava daquele lugar. Era como Ulthos, mas ele não gostava de Ulthos.
Alguns criados viviam com ele no palácio de pedra, servindo-o e bajulando-o. Cinco mulheres também viviam lá, e Ib fodia com alguma delas sempre que tinha vontade. Estava sentado a uma cadeira de madeira ao pé de uma janela em seu quarto, que na verdade era um furo na parede. De lá podia observar tudo o que havia para ver em Ibben. Uma cidade a leste, um porto a oeste, e uma imensidão de nada no centro. enormes extensões de terra plana rasa eram usadas para cultivar uns nabos e beterrabas, e os montes eram revestidos de pasto para a criação de búfalos. Era tudo o que havia lá, se não menos. Os navios partiam incessantemente para fora dali, e muito demoravam para voltar. Alguns iam à Asshai, Valíria ou Ghis, e outros ficavam perambulando pelos mares como corsários, e assim traziam coisas de fora para a ilha de gelo.
Aquele povo era o mesmo de treze anos antes,ainda peludos como os ulthi, ainda grosseiros como os ulthi e ainda falavam a língua de Ulthos, mas já não se consideravam daquele povo. Aprenderam a fazer armas e a cultivar plantas, e isso fez toda a diferença para eles. Ibbeneses, era como se chamavam agora, e não haveria quem negasse. Ib vivia como o rei mais pobre do mundo ali, e também não gostava do frio que fazia. Era comum estar no porto observando os homens trabalharem. Não havia honrarias entre o povo e seu rei, e raramente o tratavam por alguma majestade, mas somente curtos e apressados olhares. Homens barbudos trabalhavam na construção do porto, sempre cansados e com as cabeças baixas. Nutriam certo respeito pelo seu rei, mesmo sem estar enfeitiçados, mas não quer dizer que gostavam de suas vidas. Vez ou outra um ibbenês pulava de um navio ou das amuradas do porto em busca de liberdade no mundo dos mortos, e Ib não os condenava por isso. Também desejava liberdade, mas cria que este não era o momento.
Uma jovem mulher estrangeira vinha na direção de Ib. Fora capturada por corsários em um navio escravista de Ghis, uma mulher treinada nas casas de prazer para satisfazer um homem. Ib a recebera dos piratas no dia em que completava seu trigésimo sétimo ano de vida, seis luas antes, e dera honrarias e terras em troca aos aduladores. Ela era valiriana de nascimento, isso era bem visível. Tinha cabelos louros muito claros, e olhos azuis salpicados de púrpura incrivelmente belos. Seu rosto era esculpido pelos deuses de Valíria, os melhores para fazer gente bonita. Um nariz pequeno e fino estava em sincronia com seus lábios sensuais e vermelhos. Ela caminhava graciosamente vinha em sua direção, sempre o olhando nos olhos. Era uma das coisas que o encantava nela: todas as outras putas que vinha a ele olhavam para o chão, mas esta era especial. Era melhor. Estava vestida em grossas peles de urso cinzento, mas Ib gostava de vê-la nua, pois o frio fazia seus mamilos e lábios se incharem. Ela se ajoelhou aos pés da cadeira onde Ib estava sentado e abaixou o roupão de peles que vestia, deixando seus seios à mostra, e Ib sorriu em aprovação. Ele raramente sorria, mas ela era uma fagulha de felicidade naquela vida fria.
A valiriana retirou o cobertor de Ib e desamarrou suas calças de couro, liberando seu membro, que já estava ereto pela presença daquela mulher. Ela o aqueceu em sua boca quente do sul e o esfregou em seus seios belissimanete inchados, soltando alguns gemidos baixinhos, que deixavam I em estado de êxtase. Uma sensação de prazer crescente fazia seu corpo tremer, então uma onda de calor se espalhou por ele, e derramou sua vida na boca da mulher. Ela continuou seu trabalho, limpando-o completamente. Ela se levantou em direção à sua boca, mas ele não teve coragem de beijá-la naquele momento. Ela saiu do quarto tão muda e graciosa quanto entrara, e Ib se sentia quase apaixonado por ela. Não é uma puta, pensou é uma deusa do amor.
O prazer era presente na vida do rei Ib, mas ele precisava cumprir com suas obrigações de governar sua enorme pedra repleta de bosta de búfalo. Ib se levantou, amarrou as calcas e vestiu uma grande toga de pele de búfalo, seguida por um manto e um capuz. Saiu de seu quarto dando passos curtos, pois seu membro ainda ardia do amor da valiriana. Os aposentos do rei eram grandes, mas completamente vazios. Paredes de pedra e lareiras se espalhavam pelos cantos, e, na extremidade oposta à porta, uma cama e uma cadeira de madeira ficavam próximos a uma janela.
Dois guardas estavam na porta do quarto, com suas orgulhosas armaduras de couro e lanças de bronze. Os soldados do rei raspavam suas barbas e deixavam somente o bigode crescer, talvez para se diferenciar do restante dos homens, talvez para ficar parecidos com os dotharki. Ib não sabia a razão dessa decisão dos generais. Os dois guardas ergueram suas lanças em saudação ao rei. Era o máximo que faziam. Dois outros guardas o escoltariam hoje. Gherr e Burgor eram ambos extremamente fortes, mas também muito gordos. Desderam a montanha montados em fila, com Burgor na frente, Ib no centro e Gherr atrás, sendo que o rei montava um burrico e os guardas montavam búfalos.
O caminho até a Cidade era complexo, mas aqueles homens eram experientes. Desceram o monte por uma pequena estrada esculpida em pedras e gelo, vez ou outra precisando desviar de galhos de pinheiros ou matar um lobo que vinha. Levaram três horas até que alcançassem a floresta boreal ao pé da montanha, e mais uma hora para chegar à cidade. O lugar era quase tão vazio quanto um campo de nabos, exceto por algumas casas aqui e acolá, que certamente serviam de abrigo para os políticos, comerciantes e alguns empregados. A cidade não possuía saída para o mar, e era um vale gelado destinado quase que exclusivamente ao governo de Ibben, que, por sua vez, nada mais era que a coleta de impostos de comerciantes e fazendeiros, as leis e manutenção do Porto.
O local de trabalho de Ib era chamado Torre branca, que era nada mais que um amontoado de pedras das montanhas, onde o rei e os conselheiros se reuniam para discutir os assuntos sem importância daquele lugar sem importância. Precisaram passar por quatro casas pequenas antes de chegar à Torre, provando mais uma vez para In que aquela cidade era o mesmo que nada.
Ib estivera em uma verdadeira cidade. Tinha dez anos quando seus pais morreram em uma batalha contra outro clã, liderado por um tal Hummer. Duas mulheres haviam encontrado o menino escondido em uma caverna e o instruíram a fugir para Asshai, para que não fosse morto pelos inimigos. Ele entrou escondido em um navio e partiu para o outro continente. O porto de Asshai era maior do que todo o mundo de pedras que o rapaz conhecera té então, e a cidade era ainda maior, mas era no porto que o dinheiro caía como chuva. Asshai era governada por três mulheres velhas e gordas, porém incrivelmente astutas, que formavam a chamada Tíade. Mayel comandava os exércitos, Gilha governava a cidade e Lahis contava o infinito dinheiro que se fazia nos portos. Elas eram incrivelmente ricas e possuíam nomes nobres, mas havia que essas mulheres haviam iniciado a vida em uma casa de prazer e se pendurado nos paus dos homens para subir no poder.
Ib fora instruído a se tornar serviçal em qualquer lugar de Asshai, mas não era assim tão simples. Ele ainda estava abatido com a morte dos pais e faminto com a viagem, e também não conseguia entender uma palavra do que os homens vermelhos diziam. A língua de Asshai não era muito diferente da de Ulthos, mas naquela se falava rápido demais, e as palavras se partiam no meio para formar frases completamente desconexas. O jovem menino não demorou muito tempo para se tornar mendigo, ladrão e assassino, andando pelos cantos do porto e se esgueirando pela cidade pedindo, roubando e matando uns homens a serviço de outros.
Ib já andava como um rato solitário pela cidade portuária há seis luas quando conheceu aquele garoto. Já dominava a língua de Asshai, portanto pôde entendê-lo bem quando ele o ameaçara. Encontrara Ib em um beco à noite e lhe encostara uma faca no pescoço, dizendo algo a respeito de estar roubando os clientes dele, e que deveria ir embora dali. Fora a palavra final no porto. Aquele jovem chamava-se Lamminen, e tinha mais de vinte anos e uma enorme corja de criminosos debaixo de suas asas. Dizia-se que era tão rico quanto qualquer comerciante de escravos, apesar de somente roubar dinheiro destes. Anos mais tarde Ib soubera que aquele criminoso fora perseguido pela Tríade e tivera que fugir para Valíria.
Ib saíra do porto para a cidade, onde oscilara entre os templos vermelhos. Foi servente dos sacerdotes de um deus chamado R'hollor, e depois de outros adoradores de um deus sem nome, e outros que adoravam uma enorme cabra. Todos eles faziam suas orações e suas magias, encantando e cativando as pessoas que os viam, o que interessara a Ib. Aos doze anos ele decidiu sair de um templo vermelho e se deslocar até o que os homens chamavam de Terras da Sombra.
Essas terras ficavam localizadas a norte de Asshai, após um imenso descampado coberto por uma estranha grama branca que queimava a pele ao menor toque. Uma floresta se seguia a este gramado, e ela era repleta de árvores negras com folhas cinzentas, como se tivesse sido incendiada mas ainda permanecesse viva. O som que havia naquele lugar era terrivelmente sombrio, mas o templo negro que apareceu era ainda mais. Um sacertdote veio à porta, como se já esperasse Ib. TInha a pele branca como o gelo, mas vestia uma toga negra que o cobria do pescoço aos pés, e um turbante negro com uma pedra de sílex, mas não tinha olhos, somente crateras negras em sua face.
Esses homens eram malditos, mas fizeram tudo o que Ib era hoje, e que Liknell descobrira por alguma maldição dos deuses de árvores. Tomaram seus olhos e o ensinaram a enxergar com os outros sentidos. Lhe mostraram os encantos do convencimento e da metamorfose, assim como a magia da morte, a qual pretendia usar somente com os ulthi e talvez consigo mesmo. Ib treinara com os feiticeiros cegos durante nove anos, e, quando retornara a Ulthos, se tornara o maior líder daquele lugar. Desde que retornara, todas as suas noites vinham repletas de sonhos de vingança, mas sempre sonhos negros e quase sempre surdos, mas ele podia sentir o cheiro se sangue. O sangue de pedra de Hummer, o sangue de urso de Mormont e o sangue infinito de LIknell.
Um tapa nas costas o despertou de seus devaneios. Era Barthold, Senhor do Porto. O Porto de Ibben era a única coisa realmente grande naquele lugar. Navios piratas iam e vinham trazendo riquezas dos quatro cantos do mundo, além dos grandes navios mercantes, que traziam escravos, tapetes, roupas e ouro. Os navios baleeiros traziam o principal alimento do povo litorâneo, enquanto na região do Porto se comia baleia, no interior se comia búfalo. Barthold vestia uma toga negra de pele de baleia e um manto vermelho de lobos da floresta. Sua barba estava como sempre armada e hirsuta, cobrindo totalmente a boca, e os fios grisalhos apareciam cada dia a mais. Ele vinha acompanhado por Gerrl e Kahn, Senhores da Receita. Eles sempre trabalhavam juntos, aqueles três, pois toda a receita vinha do porto. Gerrl tinha uma voz aguda demais para um homem alto e gordo, mas falava com segurança, apesar de tudo. Seus cabelos eram totalmente brancos, mesmo não tento ainda chegado aos quarenta, ao contrário do colega Kahn, que tinha sessenta anos e cabelo e barba castanhos como árvores da floresta boreal.
Os homens se sentaram à mesa principal, que, na realidade, era o único objeto que existia naquela "torre". A mesa e as cadeiras eram feitas de madeira comum, algo que não faltava naquela ilha, mas sem pintura alguma, pois os ibbeneses ainda eram um povo primitivo, e, apesar de seu orgulho, ainda eram ulhti. Havia duas cadeiras além das que já estavam ocupadas, que serviriam ao Comandante do exército do rei e o Corsário-mor, que respondia por todos os navios piratas que partiam em direção ao mundo. Não levou mais de dez minutos até que os dois homens chegasse às pressas em uma carruagem grande feita de madeira e peles. Ragort usava sobre suas roupas de frio algo que pretendia ser uma armadura de soldado, mas que era somente um pedaço de couro costurado a pano, com uma gravura em forma de lança feita por metal quente representando seu comando. Este era um dos homens de maior confiança de Ib, pois, apesar de muito orgulhoso, tinha honra e fidelidade nas veias, ago raro em Ibben, que não se encontrava nem mesmo em Ib.
O Corsário-mor se chamava Kellokk, mesmo nome daquele jovem magricela que aparecera como salvador dos ulthi. A terra era seca e as águas haviam secado, então todos decidiram segui-lo, mas atualmente estavam em Ghis, segundo os informantes diziam, vivendo como agricultores. Mas o grande pirata nada tinha do irmão do maldito Liknell. Ele era astuto e violento, sem escrúpulos ou culpa. Dizia-se que o corsário roubava desde muito novo, até mesmo era capaz de fazer uma criança morrer de fome se cobiçasse seu pedaço de pão. Ele comandara navios em Ulthos antes de as árvores acabarem, e até mesmo tentara conseguir um pedaço de terra para o povo dele em Asshai, pedido negado pela grande Tríade. Ele tinha cabelos e olhos da mesma cor amarelo como urina, e era o homem de que Ib mais precisava, mesmo sendo o menos confiável. Ib pediu vinho para os cinco políticos e começou a falar.
- Senhores, sei que nossas reuniões costumam acontecer a cada volta de lua, mas eu precisei convocá-los hoje para dar um aviso. Me ausentarei de Ibben durante as próximas três luas.
- Por quê? — perguntou Kellokk, precipitadamente, ao passo em que o Comandante Ragort o olhou com uma face de reprovação, como se, pelo fato ele proibir a si mesmo de questionar o rei, todos os outros também estavam.
- Recebi notícias de que Liknell sairá de Ghis em breve, e viajará em navios de um ghiscari rico qualquer chamado Arkrazz, levando junto comsigo trinta e oito mil ulthi, contando com mulheres e crianças. Precisarei da ajuda de seus corsários, Kellokk, para atacar e destruir aquele povo.
- Ora, por que tanto ódio? — questionou Kahn, provocando contrações na face de Ragort — É certo que somos superiores aos ulthi, mas eles não nos fizeram mal.
- Ao caralho suas opiniões! — respondeu Ib, enfurecido — Nunca nos fizeram mal? Vou dizer uma coisa a você, Kahn. Hummer matou meus pais. Angor teve a mulher que eu amava, Mormont, Liknell e Kellokk traíram minha confiança! Digo que eu já os teria matado no Mar Dothraki, se LIknell não tivesse ameaçado a vida de cada um de vocês e nos exilado nesse três vezes maldito bloco de gelo.
- Quantos navios corsários pretende enviar, Ib? — perfuntou Kellok, com a mesma calma de sempre.
- Cinco ou seis de tamanho médio serão suficientes. — Ib estava se recompondo em sua cadeira, enquanto seu tom de voz baixava — Os ulthi são muitos, mas quase nenhum tem destreza em batalha ou saque. Ragort, precisarei de alguns de seus soldados também. Serão enviados junto com os corsários de Kellokk para atacar os demais navios de ulthis.
- Reverendíssimo, desculpe a intervenção — disse Ragort, repreendendo a si mesmo em cada palavra — Mas soldados do rei são homens honrados, e não devem lutar lado a lado com corsários.
- Os soldados do rei lutam lado a lado com quem o rei quiser. — respondeu Kellokk, com um olhar zombeteiro.
- É verdade. — continuou Ib — E lutarão bem, se quiserem ser recompensados. A prioridade é o ataque aos líderes. Quero aqueles que se chamam de nobres presos e vivos, porque eu os matarei. Quanto a Liknell, tragam-no acorrentado em aço valiriano. Um feiticeiro de Asshai certa vez me disse que é o único metal capaz de bloquear magia divina.
- Não vejo problemas em seu plano. — proferiu Kellokk — Mas ainda não entendi por que você terá que viajar também. Afinal de contas, o rei precisa governar enquanto os políticos fazem seu trabalho.
- Tenho minhas razões para tomar minhas atitudes, e no momento não quero mais ser questionado. — respondeu friamente Ib — Durante minha ausência, o governo fica nas mãos de... — Os quatro políticos fizeram caras de expectativa, e Ib pôde ver o brilho nos olhos de cada um — Kellokk, corsário-mor. Levante-se e ajoelhe-se ali, por favor.
O corsário se ajoelhou de maneira desengonçada, como se nunca tivesse reverenciado ninguém antes. Ib retirou a coroa de sua própria cabeça e a pês sobre a cabeça de Kellokk.
- Agora levante-se, Kellokk, Rei Regente de Ibben. — ele deu um sorriso amarelo, se levantou e saiu sorrateiramente, dizendo somente na porta:
- Reunião do conselho em quatorze dias. A expedição contra os Ulthi parte amanhã pela manhã.
A ordem do rei foi cumprida, e, de certa forma, foi divertido para Ib.Ele saiu em seu navio corsário médio, levando sua mulher valiriana consigo. Seria o fim de sua vingança, e o fim de sua vida.
Fale com o autor