O Homem Que Viu O Mundo
21 As crianças da floresta
Notas iniciais
O ancião fitou Lell com um par de olhos claros e estreitos. Eram grndes demais para aquela cabeça reduzida, e produziram um intenso medo no intruzo.
– Abaixem as armas! – gritou o comandante, em uma língua que Lell custou algum esforço para entender – Voltem aos seus lugares!
A voz daquela criança velha tinha um tom tão melódico quanto música, mas era perceptível quando ele dava uma ordem. Todos saíram daquela enorme clareira com cerca de cinco quilômetros quadrados, tão rápidamente quanto haviam-se posto em posição de ataque. Liknell permaneceu atônito enquano homenzinhos esbarravam em suas pernas com uma indiferença quase palpável. O velho comandante estava parado com um olhar fixo nada convidativo, mas mesmo assim Lell se sentiu forçado a ir em sua direção.
– De joelhos! – ordenou o ancião, quando Lell estava a cerca de sete metros de distância. Estava se ajoelhando quando o outro continuou a dar ordens – Diga-me seu ome!
– Liknell. – respondeu, com um avoz tão insegura que o fez odiar a si mesmo.
– Liknell, o estranho. – disse um pequeno homem que estava ao lado do velho. Vestia uma maça de madeira e folhas dos pés à cabeça que parecia ser uma armadura, e em sua mão esquerda estava uma lança com cerca de um metro e vinte de altura, mais de meio metro acima do indivíduo. O o velho voltou a falar.
– Não consegui ler seus pensamentos, Liknell. O que há¿ Você tem algum tipo de magia especial¿ Por que não morreu como os outros estranhos¿ De onde vem, Liknell¿
O tom das perguntas fazia Lell ficar tonto, como se lhe houvessem estapeado. Estava aflito como nunca estivera antes. Suas mãos suavam, sua cabeça girava e sua visão estava turva.
– Senhor...- Lell começou a falar. Precisava olhar para baixo para se dirigir ao velho, mesmo estando aquele de joelhos e este de pé – Sou de Assenhayy, terra do sol nascente. Os deuses me agraciaram com certa magia, e por isso estou vivo.
– Os deuses não agraciam estranhos, Liknell do Nascente. – o rosto do velho era repleto de manchas, e estas pareciam ainda maiores quando ele gritava – Diga-me a verdade! De onde vem¿ Por que está aqui¿
Mil bolhas turvas contaminaram a visão de Liknell, e sua cabeça começou a girar.
– Os... os deuses do leste, eles me deram meus poderes. Eu vim... eu vim por lorde Kahyr Lamminen.
– Kahyr Lamminen¿ — a voz do homem soou como um deboxe musical, dando a entender que ele já conhecia o nome – Altan, pode interromper o tormento.
A cabeça parou de doer e de girar. As mãos não suavam mais nem os joelhos de debatiam contra o chão. Lell sentiu seus dedos dos pés relacharem e as bolhas saírem de sua visão. Sentia-se tão bem que teve vontade de se levantar e correr, mas quand fez menção de se mecher, percebeu que seus joelhos pesavam demais.
– O que está fazendo comigo¿ — perguntou ao ancião em um tom brando, ainda que mil vezes mais incisivo que o da fala anterior.
– Tormento. – respondeu ele – Usamos este encanto contra estranhos.
– Foi o que fez os valirianos de voltarem contra mim¿
– Não, Liknell. – algo na voz do homem se assemelhou a uma risada carregada de desprezo – Foi você mesmo que fez isso. Os trouxe para as nossas águas, os fez acampar sobre nossas terras e os deixou à mercê do nosso tormento. A culpa é sua, inteiramente sua. Deveria estar morto, Liknell. Como sobreviveu a todos aqueles ataques¿
– Sou insensível a armas de prata. – Lell não viu problema em omitir parte da verdade – É o dom que os deuses me... os deuses do leste me deram.
– Sei que mente, mas sua verdade sobre isso não me interessa agora. Meu nome é Hennay, sou o Grande Pai dos cantores da Campina.
– Apenas de Hennay. – respondeu o homem de armadura que estava ao lado do Grande Pai – Só somos chamados pelos nossos nomes. Eu sou Altan, Primeiro Lanceiro dos cantores da Campina.
– Cantores¿ — Lell ainda não compreendia.
– Sim, cantores. – o Pai respondeu – Somos aqueles que cantam a canção da terra. Vivemos em perfeita sintonia com a natureza e com os deuses, e alguns de nós recebem dons especiais. O meu é o de ler mentes.
– E o meu é de provocar tormento. – interviu Altan.
– Alguns podem voar, outros controlam algum elemento da natureza e alguns podem falar com animais. No Norte existem os videntes, os mais poderosos dentre os cantores. Há quem acredite que eles nos olham através dos represeiros.
– Represeiros. – ecoou Liknell – Eu vi um rosto branco em Valíria, na casa de Kahyr Lamminen. Era esculpido em um caule de árvore, exatamente igual a um que eu vi há algumas horas.
– Sim, quase é bem visível que você é enviado desse tal Kahyr. – disse Hennay.
– Conhece o homem¿ — perguntou Lell.
– Conheço o nome. – Hennay deu alguns passos para trás e se sentou em uma pedra coberta por musgo, fazendo sinal para que os outros dois o acompanhassem. Lell se sentou no chão, fiando na mesma altura que os homens – Estiveram aqui há nove ciclos, depois há cinco ciclos. Um último há três ciclos. Em todas as vezes se pronunciava o nome Kahyr Lamminen, e sempre havia uma esvoaçante bandeira azul com uma cobra dourada.
– Um dragão. – corrigiu Lell – Um dragão dourado.
– O que é isso¿ — perguntou Altan, no momento em que Lell já se preparava para exlicar. Coçou o queixo por debaixo da barba e continuou falando.
– Não animais enormes que voam mais alto que qualquer pássaro e cospem fogo pela boca.
– Deve estar se referindo aos seres de fogo. – disse Hennay – Não são vistos há milhares de ciclos na Campina. Há quem jure que viu um no Norte há dois mil ciclos, mas depois disto, nunca mais em nenhum lugar.
– Com o que esses seres de fogo se parecem¿ — perguntou Lell.
– Pássaros. – respondeu Hennay – São feitos de fogo e voam tão alto quanto as estrelas.
– Já viu um¿ — Lell permaneceu incrédulo, apesar de tudo.
– Não, não vi. A última visão de um ser de fogo na campina foi há trezentos mil ciclos, muito antes de meu nascimento.
– Mas quanto... quanto tempo dura um ciclo para os cantores¿ — indagou Lell, enquanto mudava de posição naquele solo coberto de gramíneas e um pouco de lama.
– Um ciclo é o que é, Liknell. O tempo aqui não é visível como na sua terra do nascente. Ciclos são mágicos, determinados pelos deuses e pela eterna magia que nos protege. Eu, por exemplo, já vivi trezentos mil ciclos e sou o mais velho dentre os cantores da Campina, por isso sou o Pai. Quando eu morrer, será Altan.
Alguns segundos se silêncio se seguiram, Lell deu uma rápida olhadela para Altan, imaginando como aquele homenszinho deveria desejar a morte de seu soberano. Depois pensou melhor e concluiu que talvez nem todos os seres vivos do mundo fossem egoístas como ele. Hennay voltou a falar.
– Qual a missão que Kahyr Lamminen deu desta vez¿
– Queria que navegássemos pelo mar do oeste até atingir o norte. – Lembrou-se daquela fatídica reunião na sala de Therion Alter, dos rostos solenes dos lordes valirianos e de quão pouco durara a paz naquela galé. Tudo parecia ter ocorrido há milhares de anos.
– Interessante. – ponderou o Pai – Se sobrevivessem aos tormentos pelo oeste, teriam uma incursão muito mais tranquila.
– O que quer dizer com isto¿ — perguntou Lell.
– Você deve ter visto a neblina antes de ancorar na nossa praia, não¿
– Vi sim. – Lell respondeu – Mas não ancoramos. O navio foi despedaçado e quem sobreviveu nadou até a praia ou deu a sorte de ser trazido pelas ondas antes de morrer.
– Pois bem. – continuou – É o tormento que Altan produz na Campina. Não há esta proteção no Norte.
– E o que os protege¿
– O frio.
Mais informações sobre a neblina deixaram Lell curioso.
– Contra o que este tormento protege¿
– Estranhos. – foi Altan que respondeu – Vocês não sabem nadar, por isso fazem esses barcos de madeira. – Lell preferiu omitir a real razão de os barcos existirem. Talvez não fosse bom contrariar um homem tão poderoso – A neblina afunda todos, e se não afundar, eu imponho o tormento necessário em terra.
– Mas desta vez não funcionou. – disse Hennay, olhando para o pequeno homem que estava ao seu lado.
– Sua presença deve estar desestabilizando nossa proteção, estranho. – acrescentou Altan, com um tom de voz quase evasivo.
– Afinal de contas, o que pretende fazer aqui, Liknell, já que não obedece mais às ordens de Kahyr Lamminen¿
– Eu não sabia o que me esperava além da névoa. – Lell começou – E ainda não sei exatamente. Talvez... se me deixassem conhecer suas terras.
– Não, não pode. – respondeu Altan.
– Está desestabilizando nossa proteção, Liknell. Se o efeito continuar, teremos de ser hostis contra você.
Lell se lembrou de um truque antigo, que não usava há mais de dez anos, mas que talvez ainda funcionasse.
– Posso me tornar um de vocês. – Os dois cantores o olharam como se tivesse dito que se transformaria em um mamão – A magia. Disseram que eu quebro a magia, então o efeito cessaria. Eu posso tomar outras formas além desta. A forma de um de vocês.
– Absurdo! – bradou Altan – Um estranho trocar de peles com um cantor¿ Nunca!
Lell olhou para o homem cuja opinião realmente importava.
– Não, não pode. – Hennay respondeu.
– Se me permite fazer uma pergunta. – Lell prosseguiu sem esperar uma auorização – Por que não me matou no momento em que apareci¿
– Não consegui ler seus pensamentos. – ele respondeu – Depois de matar tantos estranhos, resolvi dar-lhe o benefício da dúvida.
– E não pode me conceder esse benefício novamente¿
O velho Pai ficou calado por um longo tempo. Vestia uma espécie de toga feita de folhas vermelhas, mas não havia nada sobre sua cabeça além de uma cobertura de manchas sobre a pele branca. Olhou para Lell e respondeu.
– Não pode, Liknell. Um estranho não pode trocar de peles com um cantor, nem mesmo pode permanecer vivo aqui. Sua presença quebra o tênue equilíbrio da magia que nos protege. Aproveite a chance que lhe dou e vá embora daqui.
Lell olhou para o chão, tentando fingir estar resignado.
– Meu barco foi destruído pelo seu tormento.
– Siga pelo Braço. – sugeriu Altan.
Hennay fez um olhar de desaprovação para o Primeiro Lanceiro, mas este continuou.
– Ora, ele já veio aqui uma vez. Se pretender, virá novamente. Não creio que faça alguma diferença. – se levantou da pedra e apontou uma direção – A leste. Siga pelo leste sem olhar para trás, e então chegará ao Braço. De lá poderá chegar às terras desse Kahyr Lamminen.
Lell olhou para cima em busca do sol, mas estava totalmente nublado.
– A diante. – indicou Altan – Ande para frente, esse é o leste.
Todos se levantaram e Lell saiu sem dizer uma palavra. Andou cegamente pela floresta durante o que pareceram ser horas, até que sentiu segurança em olhar para trás. Não havia nenhum som ou imagem até onde seus sentidos alcançavam. Me obrigre, Altan, pensou, enquanto subia em uma árvore. Do alto de seus galhos se concentrou para repetir aquele truque antigo. Quando fora a última vez que tentara¿ Certamente uns vinte anos. Saltou para fora da árvore, sentindo seus pés se tranformarem em garras e seus braços em asas. Bateu-as duas vezes, mas não conseguiu se manter no ar.
Caiu no chão, novamente em forma humana. Com uma forte dor nas costas, Lell subiu a árvore e saltou novamente, caindo logo em seguida. Só conseguiu voar na sext tentativa, mas mesmo assim o bater de asas era doloroso e cansativo. Apesar de tudo, enxergava bem melhor que como homem. O corvo seguiu por sobre as árvores e olhou par baixo. Copas de todos os tons de verde contrastavam com as vermelhas dos represeiros, árvores muito maiores que as demais. As crianças corriam lá em baixo, fazendo muito barulho. Talvez essas sejam realmente crianças, Lell pensou. Ouvia plenamente os sons da floresta. O vôo das aves, o farfalhar das folhas, os animais caçando e os cantores quebrando vidro negro para fazer armas. Após algumas horas, Lell decidiu voar mais alto, e para isso tomou a forma de uma águia. O céu estava tão nublado que ele desconfiou que isso fosse efeito da magia protetora. Apesar de tudo, quanto mais ele subia, mais distante parecia o céu. Tomou a forma de uma harpia ghiscari, trinta vezes maior que a águia.
Em certo ponto era possível ver a floresta da Campina se dissipando e dando lugar a gramíneas e arbustos. Represeiros ficavam mais raros à medida em que o olhar avançava na direção que Altan indicara como leste. A norte uma cadeia rochosa se erguia, com menos plantas que a Campina, embora mais que o Braço. Seguindo naquela direção, Lell sentiu o cheiro inconfundível de ouro. A rocha estava repleta dele, e em vários pontos era possível ver o brilho do sol onde o precisíssimo metal transbordava nas rochas.
Só então Lell se deu conta do que via. Com alguma dificuldade, se virou e olhou para cima, planando sobre sua envergadura de dez metros. O sol estava lá, e as nuvens haviam sumido quase por completo. Estou fora da Campina, concluiu. Queria se transformar em um dragão e derreter todo aquele ouro para levar consigo, mas estes eram animais mágicos demais para que ele tomasse sua forma. O calor começou a incomodá-lo, então imergiu novamente nas nuvens de Altan. A floresta cheirava bem, mas não era tão bom quanto o ouro. Lell voltou à forma de corvo e penetrou na copa de uma árvore, pousando sobre um galho. Pretendia voltar à forma humana imediatamente, mas um som chamou sua atenção. O canto das crianças da floresta chamando um corvo. Ele ainda não conhecia essa combinação de notas, mas seu instinto animal o levou à origem delas. Uma mulher de quase um metro de altura o esperava. Lell sabia que era adulta, pois, apesar de não ter quase nenhuma mancha no rosto, rugas rodeavam seus olhos e sua boca. Longos cabelos negros brotavam de sua cabeça e pousavam sobre ombreiras de madeira cobertas por folhas secas. Ela olhou para Lell e disse:
– Encontre Ully e avise que Mãos-Verdes está comigo.
Lell permaneceu voando perto dela, sem saber o que fazer.
– Rápido, preciso que o avise. – a mulher continuou – O que há de errado com você¿
– Nada. – Lell respondeu, abismado por sua capacidade de falar em forma de corvo.
– Então repita logo o nome, preciso que ele saiba. Tirei Mãos-Verdes da toca dele e o trouxe para a minha.
– Ully. – Lell disse, meio sem saber o que fazia, mas assim que disse o nome, já sabia onde encontrar o indivíduo.
– Sou Arkansas. Voe logo e avise.
Voou por alguns minutos entre as árvores e viu uma rocha com uma caverna. Dentro dela havia algumas fogueiras, onde cantores forjavam armas com vidro negro. Ully estava em um canto relativamente isolado, trabalhando em uma peça que mais parecia ser uma enxada do que uma arma. O rapaz olhou para Lell e perguntou:
– O que há, corvo¿
– Arkansas levou Mãos-Verdes. Está com ele agora. – Dentro da caverna, a voz parecia ser ainda mais aguda e estridente.
Ully fez uma expressão de aproveção e respondeu, quase num sussuro:
– Certo. Não repita isso. Pode ir.
Lell saiu voando da caverna, ainda impressionado pelo que acabara de acontecer. Corvos como mensageiros. Em Ghis se usava falcões, mas ninguém imaginaria que eles pudessem falar as mensagens. Seria muito mais simples, pensou. Quiçá poderia entregar os planos de Jaemon Lyyr a tempo. Pensar naquela viagem o deixou triste. Lembrou-se de Maegor e de que nunca mais o veria. Às vezes era acometido pelo desejo de voltar às Ilhas, abraçar seu amor valiriano e se afogar em seus beijos, mas logo se forçava a lembrar de que o tempo era o corredor da morte dos deuses, e de que ainda tinha dois irmãos e milhares de Ulthi a quem devia uma resposta.
O canto de outra criança da floresta veio como uma brisa dos deuses despertá-lo de seus maus pensamentos. Era uma pequena mulher vestida em um tecido branco e elástico que mais parecia ser teia de aranha. Não fosse pela roupa diferente, Lell poderia jurar que era Arkansas, já que todos os cantores lhe pareciam iguais. Ela estava ajoelhada diante de um imenso represeiro, que parecia muito maior agora que Liknell estava na forma de ave. Um rosto incrivelmente real brotava daquele tronco branco. Os olhos vermelhos brilhavam como resina cristalizada, mas na cor de sangue fresco. Pensou que aquilo provavelmente era da seiva da árvore, mas não fez parecer menos assustador.
– Diga a Hennay que eu o espero à sombra do represeiro. – a voz desta mulher era mais aguda que a de Arkansas, e olhando mais de perto, percebeu que era mais jovem, apesar de ser mais alta. Era maior que a maioria dos cantores, com mais de um metro de altura, mas mesmo assim não chegava ao dobro do tamanho do corvo.
– Hennay. – repetiu o nome, como fora instruído a fazer na ocasião anterior.
A jovem ficou calada por um longo tempo olhando para o chão, então voltou a olhar para cima. Seus olhos estreitos tinham um brilho acima do normal, e Lell poderia jurar que estavam úmidos de lágrimas.
– Ainda está aqui¿ — a voz parecia ainda mais aguda agora – Por que ainda não o chamou¿
– Não me disse seu nome. Lell se empoleirara sobre o nariz do represeiro, mas um forte incômodo o fez voltar a voar em torno da árvore e da cantora.
– Ora, não é preciso. Apenas diga a Hennay que estou aqui, e ele saberá do que se trata. Faz isso todos os dias, afinal. – Alguns segundos se passaram até que Lell compreendesse. A mulher gritou – Vá logo, corvo!
O grito o fez se afastar rapidamente e seguir para onde seu instinto o levava. Pensou na conversa que tiveram com Hennay. Há quanto tempo fora¿ Lell não sabia por quanto tempo voara sobre a Campina, mas certamente fora menos de um dia. Tinha de ser, Voou por sobre as copas das árvores durante quase uma hora, vez ou outra cruzando com outros corvos, que certamente também transportavam mensagens. A clareira onde Hennay se encontrava ficava mais perto da praia que Lell se recordava, a ponto de ele conseguir sentir o cheiro do mar antes de mergulhar no ar.
Ele estava ao lado de Altan, conversando na mesma pedra em que estivera quando Lell partira. Será que o reconheceria por debaixo daquela pele de corvo¿ Lell teve medo, mas preferiu arriscar e cumprir sua missão. Era como se uma força mágica o impulsionasse enquanto estava naquela forma. Hennay levantou-se assim que o viu, como que pronto para ouvi-lo.
– Ela o aguarda à sombra do represeiro. – disse Lell, no tom que considerou ser o mais neutro possível.
– Certo, está bem. – o velho respondeu, virando-se para Altan logo em seguida – Pode cuidar da limpeza sozinho, certo¿
O Primeiro Lanceiro assentiu com a cabeça.
– Certo. – prosseguiu Hennay – Vigie para que ninguém fique com peça alguma. Tudo deve ser queimado ou jogado no mar. As cinzas que não puderem ser recolhidas devem ser enterradas. Corvo. – se virou novamente para Lell, que voava apreensivo perto do velho – Leve a este represeiro.
O percurso até a árvore branca durou mais de três horas, ditado pelo ritmo lendo do andar de Hennay. Lell dava saltos de árvore em árvore, empoleirando-se em um galho sempre que precisava esperar que o outro o alcançasse. Quando chegaram ao represeiro, a moça estava lá ajoelhada, exatamente igual a quando chamara o corvo. Hennay tocou seu ombro, fazendo-a virar rapidamente, como se tivesse despertado de um sono profundo.
– Hennay. – ela pronunciou o nome da mesma forma que Lell teria dito o de Karkzan Yozz Argazz. – É meu tempo. Estou... Estou pronta.
Seguiu-se a cena mais absurda que Liknell já observara, indigna de ser rememorada por qualquer homem. Empoleirado por detrás das folhas de uma árvore próxima, Lell viu o Grande Pai possuir a jovem de uma maneira horrenda, certamente dolorosa para ela, mas aparentemente indiferente para ele. Seria o título de Grande Pai literal¿ Seria Hennay o único homem capaz de se reproduzir naquele povo ou caberia a ele a obrigação de deflorar todas as jovens¿ Ele faz isso todos os dias, Lell se lembrou, A ideia o encheu de nojo, então decidiu que estava cansado de ser corvo.
Voou por cima das árvores até considerar suficientemente alto, então tomou novamente a forma da harpia. Durante muito tempo observou as terras da Capina, até ela se extinguir e dar lugar ao braço, um enorme deserto em que não havia nada mais vivo que pedras. Lell refletiu sobre o que vira. Árvores, ouro, areia. Crianças. Não fosse por elas, o lugar poderia ser bom para viver. Poderia trazer os ulthi para cá, libertando-os do trabalho fatigante de Valíria. Para um povo que vinha das terras mortas de Ulthos, as Terras do Poente pareciam uma opção viável e até mesmo agradável. Preciso voltar para Valíria, pensou. Convenceria Kahyr Lamminen a liberá-los do trabalho na construção, talvez até pudesse indenizá-lo, o que não seria grande problema, visto aquele rochedo dourado. Falaria com Mormont e com Kellokk e até mesmo com Angor, se já tivesse voz ativa dentre os nobres. Atravessariam o Braço e tomariam aquelas terras.
Lell viu o deserto se esvair e dar lugar a uma vegetação alta de caniços. As terras do Braço eram banhadas por mar em ambos os lados, e, após voar por várias horas, Lell percebeu que aquilo deveria ser uma enorme ponte construída por Deus. A névoa começou a ficar densa sobre seus olhos e a atrapalhar o bater de suas asas. Viu-se obrigado a descer bruscamente, até que teve de voltar à forma humana. A neblina mágica de Altan se fechava em torno de si à medida que avançava, e, menos de uma hora, Lell estava totalmente inserido em uma nuvem.
Lutou obstinadamente contra a neblina, que o empurrava com um vendaval fortíssimo. Seguia na direção que imaginava ser o leste, embora sem nenhuma certeza, já que não conseguia enxergar nada a um palmo de distância. Lell não saberia dizer quando tempo se passou, mas em algum momento a nuvem se rarefez e o sol atingiu seus olhos. O chão era novamente gramado, mas com um deserto se estendendo alguns quilômetros adiante. A espessa camada de névoa ocultava o mundo atrás dela, branca como uma nuvem que oculta o sol. Uma águia cinzenta do deserto alçou vôo e seguiu na direção de Valíria.
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