O Homem Que Tentou Voar
1 Uma tarde cinzenta.
Notas iniciais
Hoje em dia tudo é rápido, nada dura nesta era sem beleza
Até mesmo a inocência pegou o trem da meia-noite
– These Days, Bon Jovi
– Então... Jimmy. – Beth começou, puxando a ficha de seu novo paciente para o colo e cruzando as pernas. – Por onde quer começar?
A psicóloga de longos cabelos negros e olhos da mesma cor fitou o homem a sua frente, sentado em uma cadeira de rodas, com vários hematomas no corpo, cabelos cor de areia e olhos claros. Jimmy Shoes nem de longe aparentaria ter pulado do segundo andar de seu prédio. Sua aparência era normal no limite, não de um suicida.
– Bem, acho que me forçaram a vir nesta consulta para falar sobre o meu salto – Lembrou-lhe, desviando seu olhar para fitar a parede branca da sala – Está um dia belo lá fora, não é mesmo?
A sala possuía uma janela grande de vidro, por onde a chuva escorria transparente e gelada, mas não era na direção dela que o loiro olhava.
– Está uma tempestade lá fora. Não sei se consideraria isso um dia belo.
– Como você não pode ver a beleza por trás dessas nuvens cinzentas e desse céu escuro? – Ele realmente parecia fascinado, mesmo sem olhar para a janela. — O dia está uma maravilha.
Beth batucou a caneta contra o ficheiro, percebendo que o rapaz tentava mudar de assunto. Pacientes como o aquele homem eram comuns ali, pessoas perdidas e sem rumo, em um mundo incompreendido.
Às vezes ela gostava de simplificar os termos: Pessoas loucas.
E aquele rapaz loiro à beira dos 27 anos podia aparentar ser normal, mas um brilho de loucura tingia seus olhos âmbar. Suas pernas danificadas e seus hematomas cinzentos eram a prova mais concreta disso.
Pigarreou, chamando o olhar do homem na sua direção.
– Jimmy, você já tem conhecimento de como é chamado pelas pessoas? – Pegou em cima da sua mesa um jornal de uma semana atrás, estendendo-o na direção dele.
Ele não aceitou.
– “O homem que tentou voar” – Ele falou sério, sem expressão – é meu título, ao que parece. Não preciso de um jornal para lembrá-lo.
Constrangida, Beth retomou as rédeas da conversa, posicionando o jornal na mesa novamente. Jimmy era esperto, tentando aos poucos confundi-la.
– Poderia me dizer o que pensou na hora? No momento em que ficou em pé no parapeito e olhou para baixo?
– Ora, muitas coisas, Elizabeth. Primeiramente: "E se eu cair?" – Ele sorriu de canto e por um breve instante ela jurou ter visto um homem normal a sua frente – Pensei em muitas coisas, doutora, acredito que você terá de ser mais especifica.
A morena descruzou as pernas e seus lábios vermelhos se contraíram em uma linha fina.
– Acho melhor termos uma conversa direta e simples, então. Porque você pulou?
E o loiro sorriu mais abertamente desta vez, pegando o jornal em cima da mesa, onde o título da manchete estava destacado em negrito, letras de forma e em uma fonte extensa. “O homem que tentou voar.”
– Acho que o título da manchete responde sua pergunta.
– Você não poderia realmente estar pensando que poderia voar, tinha consciência na hora de pular que iria cair. As pessoas lhe mandaram à mim porque sabiam que você havia tentado cair.
– E porque diabos uma pessoa ia tentar cair, doutora?
Aquele diálogo estava ficando mais difícil de manter do que ela pensava. Jimmy Shoes era direto, sarcástico e adorava responder uma pergunta com outra, tentando mostrar-se superior às suas indagações mesmo quando não era.
– Talvez você houvesse tentado se matar. É a única explicação. Agora me diga, Sr. Shoes, por que você tentou se suicidar?
– Eu não tentei me matar, doutora. Não havia motivos para tal ato, então essa não é a única explicação. – Ele rebateu – E não tenho motivos para tentar me suicidar, porém posso lhe contar os motivos pelo qual pulei, se é isso que deseja ouvir.
Ela assentiu.
–Tudo começou naquela mesma tarde, onde chovia assim como chove hoje. Eu estava andando em meio à multidão, apenas um qualquer tentando se esconder da chuva...
– Jimmy, apenas desejo saber...
Mas ele a cortou.
– Foi então que vi um mendigo usando uma coroa de isopor, um rei digno aos meus olhos, mas os que passavam sequer olhavam em sua direção. Fiquei pensando se acabaria da mesma forma. E acho que acabaria.
Beth abriu a boca para interrompê-lo, pois a conversa havia fugido totalmente do rumo que deveria ter tomado. Jimmy estava enrolando-a, fazendo o possível para roubar o tempo de sua consulta.
– Diga-me, você olhou o céu da noite estrelada ontem? Não? Bem, deveria, foi uma noite linda.
– Jimmy, apenas me responda o simples questionamento...
– Você quer me perguntar se sou louco, mas não consegue, não é? – Os olhos claros do rapaz pareciam mais claros ainda ao inclinar-se para frente e olhá-la nos olhos – E eu lhe respondo que não, acrescentando também, que essa foi a mesma indagação de minha mãe ao ver-me no batente da janela, em pé, com o vento forte da tarde chuvosa nos meus cabelos.
– E o que foi que você a respondeu? – Beth olhou para o relógio impaciente – Digo, quando ela lhe perguntou.
– Disse a verdade, ora. Disse que tudo estava rápido demais, que beleza alguma durava nessa era perdida, mas você sabe disso, você mesma não pode enxergar. O dia está lindo lá fora, não está, doutora?
– Jimmy, essa nossa consulta em nada foi produtiva e seu tempo acabou. – Esclareceu – Você se recusa a falar comigo, se recusa a me contar o que realmente aconteceu.
– Então você além de cega é surda, doutora, pois acabei de lhe contar até mesmo mais do que devia. – Jimmy guiou as rodas de sua cadeira em direção a porta, porém parou antes de sair. – Todos os heróis morrem, creio que eu preferia morrer a ser perdido na memória.
E então se retirou, deixando a psicóloga para trás com a mente confusa. Teria ele pulado apenas para ser lembrado?
Para Elizabeth, Jimmy Shoes estava louco.
Para Jimmy Shoes, todas aquelas pessoas estavam loucas.
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