O Homem Maior que o Dragão

1 O Homem Maior Que o Dragão


Eu me lembro como se fosse hoje. Se há uma coisa que homens velhos acumulam, são histórias para toda a posteridade. História que escrevo hoje na esperança de que nunca seja perdida, pois os anos podem passar, mas as atitudes de um homem ecoarão para sempre por essa terra amaldiçoada. E eu tive o privilégio de conhecê-lo, o primeiro que não se submeteu ao regime dos tiranos. Ao regime dos dragões.

Fomos criados com a ideia de que não éramos bem-vindos em Oitarrna. Que éramos parasitas em um mundo em que nossa pífia existência era um incômodo para eles. Que todo local que o sol tocava já tinha um dono. Um não, vários.

Naquela época nós não vivíamos e, de certa forma, tampouco sobrevivíamos. Torcíamos para achar cavernas desconhecidas dos dragões, e os subsolos acabaram servindo de abrigo para nós por muitos anos.

Em nossos sonhos podíamos escutar os sons das batalhas das feras aladas. Embora rezássemos para que os dragões bons, que viam em nós algo maior do que escravos e gado, ganhassem de seus irmãos, aquela era apenas uma fútil esperança na época. Nos cercávamos de monges e de paladinos e clérigos que na época ainda nem sabiam que eram paladinos e clérigos, só pessoas boas que rezavam para que não caíssemos na tentação de ter liberdade na morte. Liberdade longe daquela vida.

Mas quando o grupo dos Miles se aventurou por território desconhecido e somente um homem voltou com vida, tudo mudou... Edward Miles. Na época era só um adolescente, pouco tempo mais maduro que eu. Ele viu de perto seu pai, um homem de paz que rezava com todos os que encontrava, morrer brutalmente, assassinado pelo líder dos tiranos, o dragão vermelho.

E eu posso afirmar com certeza que algo dentro de sua alma mudou depois disso. Edward não mais brincava comigo ou meus irmãos quando visitava nosso grupo. Afinal, quando se faz um juramento tão forte como o dele não se pode haver nada além de extrema concentração e foco. Esse é o mínimo requerido para um homem que jurou matar um dragão.

Edward rezou para os deuses, mas não como seu pai rezava. Ele não pedia por misericórdia ou uma vida melhor. Tudo que ele queria era vingança. Ele queria cravar sua espada no corpo de um dragão e descobrir se ele sangrava. E o pior de tudo, ele queria fazer tudo isso com as próprias mãos.

Surpreendentemente, um único Deus o atendeu. Foi Morathus, Deus dos anões, que da maneira mais improvável, abençoou Edward, um humano, e deu a ele força e resistência para concluir seus desejos. Edward jamais se esqueceria disso. Era mais um sinal de que aquele era seu propósito. Que seu pai não havia morrido em vão.

Então, lenta e vagarosamente, uma espécie de “revolução”começava. Revolução não é bem a palavra certa, já que revolução indica um grupo que quer mudar uma situação, e no fundo não era disso que o grupo de Edward se tratava. Os rapazes pensavam da mesma maneira que o jovem Miles. Eles apenas queriam provar, para si ou o mundo, que não eram tão insignificantes. Queriam um motivo melhor para morrer.

Embora não tivesse apoio completo de nosso grupo, Edward recrutou alguns jovens elfos daqui, e eu mesmo na época queria me alistar. Obviamente minha mãe jamais permitiria que tal loucura acontecesse, mas me lembro que vi um lampejo de alegria nos olhos dele quando disse que queria ajudar. Em seu olhar pude encontrar um antigo e quase extinto brilho que ele carregava consigo antes do trauma.

Por mais que os mais velhos não concordassem com o plano de Edward, havia uma certa inegável beleza nele. A loucura suicida dele e dos outros jovens também podia ser traduzida como uma última tentativa de termos esperança, um sentimento tão raro em nossas vidas. Provavelmente por esse motivo que Erin Wolfhard, nossa líder e uma de nossas principais ferreiras, tenha dado um presente que talvez tenha sido mais valioso do que mais um membro para a trupe de Edward.

No dia em que o pai de Edward morreu, o temível dragão vermelho cuspiu fogo por todo vale, afim de nos mostrar mais uma vez seu poder e nossa insignificância. Entretanto, seu fogo, além de ter consumido grande parte da floresta, se chocou com uma gelada lagoa. A mistura dos dois elementos produziu um material único, que nosso grupo coletou e que fez Erin forjar uma espada afiadíssima a partir dele, depois entregando de bom grado ao jovem Miles.

E por mais que grande parte das pessoas achassem que Edward partiria cegamente contra um dragão, ele demonstrou uma qualidade que poucos acreditavam que ele tinha: paciência.

Ele estudou as rotas que os dragões faziam por meses, afim de aprender uma brecha em que poderia encontrar o tirano sozinho. Ele percebeu que o dragão vermelho estava mais vulnerável quando saia com seus filhotes, mas ainda assim ele precisava de uma distração para afastar o dragão de sua cria.

Se Edward mandasse um pequeno grupo servir de distração para a fera, seria perigoso, já que o dragão poderia incendiá-los sem pestanejar. O vermelho também poderia não se importar com uma única pessoa, afinal, a distração poderia terminar servindo como alimento para os filhotes.

Então se lembrou da personalidade dos dragões. Eles não voavam e simplesmente matavam todos os que encontravam. Naquele período estavam fazendo mais isso por estarem entediados conosco, mas eles são malignos e sádicos por natureza, então Edward pensou como um dragão e percebeu qual seria a única coisa que um deles não mataria logo de cara.

Tendo idealizado seu plano, pensou em desistir. Questionou-se sobre a própria humanidade após considerar aquela opção como algo válido. Sua vingança realmente valia a vida de outros? Quão melhor ele era em relação a seu nêmesis se sua moralidade estava tão deturpada?

Edward abandonava seu plano, e isso chegou aos meus ouvidos. Eu sonhava com um mundo livre daqueles malditos. Eu sonhava com uma era em que o homem era o real protagonista de sua história. E em minhas infantis fantasias, desejava profundamente que Edward nos livrasse dos dragões e nos desse a vida que merecíamos. Por isso fugi de meu refúgio e fui de encontro ao grupo do jovem Miles. Um ato extremamente tolo e que podia ter custado minha vida, mas não custou.

Eu cheguei à trupe de Edward e eles mal podiam acreditar que um garoto podia ter fugido a noite e não ter sido morto no meio da floresta. Antes que o jovem Miles me desse um esporro, me ajoelhei perante ele e implorei, com o mais desesperado choro que advinha de meu coração, que não abandonasse seu plano. Silêncio reinou naquela floresta. Só o meu chorar podia ser escutado. Então Edward se abaixou e tocou meu ombro.

— Não posso, Felton. Você é pequeno, não sei se vai entender, mas é muito egoísmo arriscar a vida de tantas pessoas por mim. Se eu perdi meu pai, devo vingá-lo sozinho. Não posso envolver outros nisto.

— Não é só sobre o seu pai, Edward. — Eu me esforcei para parar de chorar, pois sabia que algo deveria ser dito. — Você só está sendo egoísta agora porque acha que isso é sobre você ou só sobre seu pai. Todo mundo perdeu alguém pra esses malditos, e o vermelho é o pior deles. Vocês já foram tão longe, então por que vão desistir agora? É pelo bem de todos que esse desgraçado tem que morrer!

— Eu não queria parar, pequeno, mas eu não posso fazer isso. Isso é demais.

— Por quê? Vocês não estavam descobrindo uma distração para deter os dragões?

— Nós estávamos. E achamos.

— Então qual o problema? — Eu perguntei e Edward não conseguiu me dar uma resposta. Foi um dos membros do grupo que interviu e sanou minha dúvida.

— O problema é que a única coisa que um dragão não mataria sem pensar duas vezes é uma criança. Não tem carne suficiente nas crianças nem pro dragão nem pros filhotes. Então ele abordaria uma criança somente para atormentar ela.

Eu fiquei em silêncio, pensando no que tinha acabado de ouvir. Edward não conseguiu se conter e uma única lágrima caiu de seus olhos.

— Você entende agora? Acha que eu não queria vingar meu pai? Eu queria, mas… Não posso fazer isso. Não é certo.

— Eu vou. — Eu disse e já não vi mais o brilho no olhar de Edward, como vi quando pedi para me alistar da primeira vez.

— Você está louco, garoto? Não ouviu nada do que eu disse? Você não pode ir! Não vou mandar uma criança para morrer!

— Eu não sou criança! Já tenho trinta e seis anos! Sou mais velho que todos vocês!

— Você é elfo, Felton! É bem diferente e você sabe!

— É, eu sei sim! Sei como são os dragões a mais tempo que vocês e já vi eles matarem mais gente do que vocês viram, então, por favor, me deixa ajudar! Pela primeira vez eu senti que a gente ia poder ganhar deles, eu não quero deixar de sentir isso! — Eu disse e voltei a chorar descontroladamente. Aquela esperança era um sentimento bom, puro e praticamente inexistente em minha vida. Eu não queria perder isso de jeito nenhum.

— Felton… — Edward disse enquanto eu estava ajoelhado e chorando no chão. — Sua mãe jamais permitiria isso…

— A de vocês permitiu? — Eu disse e todos eles se assustaram. Aposto que não esperavam ficar ser resposta diante de uma criança. Depois de cinco segundos de puro silêncio, enfim desabafaram.

— Minha mãe morreu depois do meu nascimento. — David, um habilidoso monge e braço direito de Edward, respondeu com tristeza.

— Minha mãe tá quase morta. Ela tá sob cuidado de uns clérigos que dizem que ela pode nunca mais acordar depois de ter se encontrado com o dragão verde. — Clark, o mais novo membro do grupo, um devoto paladino de Solum, respondeu sem esperança.

— Minha mãe não fala mais nada desde que meu pai morreu. Ela não morreu fisicamente, mas uma parte dela se foi no dia em que eu encontrei o desgraçado do vermelho. — Edward respondeu, com um doloroso tom de aceitação.

— Eu ainda tenho minha mãe para me proibir de ir com vocês, e quero continuar tendo. Então por favor, me levem. Me levem e matem ele.

O olhar de todos eles era o mesmo. Uma mistura de encanto, medo e confusão. Todos tínhamos algo tomado pelos dragões. Um parente, nossa liberdade, nossa alegria de viver. E por mais que aquele ato não significasse o fim da tirania dos dragões, ele ao menos mostrava que ainda tínhamos motivo para viver. E eu acredito que Edward também pensou dessa maneira.

— Eu ainda tenho uma mãe que amo e que desejo que viva uma vida melhor. Tenho um irmão mais novo que vai crescer sem o pai, mas também pode viver uma vida sem os dragões. Eu sei que posso tentar fazer algo por eles, mas só o farei com sua autorização. Então, Felton, você quer mesmo ir conosco?

— É tudo o que eu quero.

— Então hoje sua vida vale mais que a minha, e é meu dever te dar a vida que quero para minha família.

Edward me estendeu a mão e eu o abracei. Um abraço puro, que me confortava em uma situação tão complexa. Por mais que eu estivesse mais próximo da morte com aquele plano, tudo que importava era que estava mais distante da dor da opressão.

Não podíamos esperar muito tempo. Era arriscado demais uma patrulha élfica vir me procurar, mas por sorte a trupe de Edward já tinha todo o ataque planejado. Sabiam onde se esconder e como atacar o dragão. A paciência de Edward mostrava seus frutos com a qualidade do planejamento. Contudo, ainda assim, nenhum deles parecia confiante. Talvez aceitativos, mas não confiantes.

Descansei ao lado dos jovens, que antes de irem dormir, me explicaram detalhadamente como seria o decorrer do ataque. O tempo passou rapidamente e então chegou a hora. Os garotos me levaram até o local e foram se esconder. Faltava pouco para o meio dia. Eu estava sozinho no meio da alta floresta aberta, que me permitia observar com clareza o céu; o que era extremamente assustador, já que se eu podia observar as nuvens, tudo que estava ao lado delas também podia me ver.

Eu não escutava nada, mas nem por um segundo me passou pela cabeça a ideia de que ele não estaria lá ou que coincidentemente o dragão não viria a aparecer por qualquer motivo. Eu tinha a mais absoluta certeza de que eu olharia nos olhos dele quando menos esperasse.

Eu procuravam pelas pessoas do grupo, e apesar de saber exatamente onde elas aguardavam, não enxerguei nenhum deles. Estavam verdadeiramente bem escondidos. Caminhei pela floresta por menos de dois minutos, mas não vi ou ouvi nada. Apenas senti.

Senti uma forte rajada de vento bater nas minhas costas, fazendo com que eu involuntariamente desse um passo a frente. Eu não sabia o que fazer. Ainda sem olhar para trás, percebi que vários dragões pequenos voavam para longe de mim. Eram os filhotes do dragão vermelho, ordenados para que seguissem em frente. Eu me deixei chorar por um único segundo, então enxuguei minhas lágrimas e olhei para trás.

Enroscado a duas árvores de distância de mim, estava ele. Temivelmente quieto, o tirano vermelho fitava seus olhos em mim, esperando uma reação da minha parte e finalmente percebendo que eu havia congelado ali. Ele deixou uma pequena risada escapar e lentamente saiu da árvore para o chão.

Todas as suas escamas vermelhas, que protegiam a parte de cima daquele lagarto nojento, reagiam ao seu movimento, como se respirassem. Suas quatro patas deixavam grandes marcas no chão; ele parecia propositalmente recolher as unhas das patas dianteiras para que não deixassem marcas ainda maiores. As asas também estavam coladas ao corpo. Ele deliberadamente tentava parecer menor. Aquele monstro terrível, do tamanho de uma fortaleza, tentava parecer menor para que eu não fugisse dele.

Parando então a uma distância que o próprio julgava por “segura”, ele mais uma vez me fitou com aqueles olhos, vermelhos e agudos como os de um gato maligno, e deixou a risada se soltar por mais tempo.

— Há quantos anos já não fazem isso? — Ele perguntou, com uma voz grave, mas contida e extremamente calma. — Há quantos anos já não fazem isso e ainda não aprenderam nada! Ainda deixam um pedaço de carne vagar pela minha casa! — O dragão dizia enquanto andava ao meu redor, mas sem se aproximar diretamente de mim, como se respeitasse uma linha imaginária que ele mesmo criou.

— Por favor… Por favor não me machuca… — Eu disse com o mais profundo temor do meu coração, mas sem me deixar chorar. Não podia chorar na frente dele. Não fui até lá para chorar.

— Shhhh… Shhhh… — Ele disse, e no que ele recolhia seus lábios, pude ver, dentro de sua garganta, o início de seu fogo se ajuntando. — Criança tola, não percebe a sorte que tem? Não te disseram nada sobre este mundo, elfo patético? O meu mundo! No meu mundo poucos tem a sorte que você tem. Poucos enxergam minha cor e vivem para descrevê-la a outros! — Ele começou a aumentar o tom de voz, que antes era contida, mas agora podia ser escutada de longe. — Você caminha pela minha terra, insolente! Você caminha por um chão construído por deuses, que fizeram sua pífia existência como deleite para mim, elfo! — O dragão então se aproximou, ignorando a antiga linha imaginaria, se colocando a um metro ou dois de distância de mim, onde eu já conseguia sentir seu pútrido hálito de fogo e carne.

— Por favor, não me machuca… — Eu sussurrava, enquanto todo meu corpo tremia. Entretanto, o dragão podia ver meu medo, mas não minhas lágrimas. Eu não daria esse privilégio a ele.

— Eu não vou te machucar, garoto. Eu vou lhe tornar famoso. Eu vou levar seu patético corpo comigo enquanto alço voo. Lá nas alturas você irá congelar e só então eu vou cair com você e ver sua pele e tudo isso que você chama de corpo se desfazer por completo! E então eu gritarei, segurando sua ossada em meus pés, do ponto mais alto que sua gente ainda consiga ouvir, que UM GAROTO, TÃO ESTÚPIDO COMO UM CUPIM, NÃO SABIA DAS REGRAS! NÃO SABIA QUE EU SOU REI! QUE EU SOU DEUS! QUE NÃO HÁ LUGAR NESSE MUNDO PARA O QUE NÃO FOR DRAGÃO! QUE O QUE CRUZA MEU CAMINHO É TOMADO PELO FOGO!

— Eu não fui! — Depois daquela fera ter crescido e inclusive levantado as asas para demonstrar como era colossal, escutamos essa voz, que nascia a alguns metros atrás de nós. — Eu te encontrei e continuo de pé. Eu não só vivo, como também tenho um objetivo. Eu vou destruir você, dragão.

Edward surgiu do meio da mata. Ele se levantou e suas pernas não fraquejaram diante daquele monstro. Sua voz não falhou. Suas mãos seguravam firmemente a lâmina que era consequência do próprio vermelho. E ali, naquele momento, o dragão perdeu. Seus anos de tirania não foram suficientes para domesticar esse homem. Ele havia falhado, pois um ser se levantava e o enfrentava de igual para igual! Ali pouco importava as dimensões do dragão, pois um homem havia se tornado muito maior do que ele!

— E como pretende fazer isso, humano?! — O dragão perguntou, tentando disfarçar a surpresa.

— Você vai ver. — Edward disse calmamente, e então disparou em nossa direção.

O dragão rugiu e levantou o peito, deixando suas patas traseiras no chão e as dianteiras no ar. Eu rapidamente me abaixei e vi que ele estava pronto para soltar seu bafo de fogo. Contudo, do lado esquerdo da fera, David, o monge, surgiu. Com seu Chi, ele habilmente soltou uma rajada de gelo na boca do dragão, que não conseguiu lançar seu fogo fatal.

Do outro flanco do dragão, o grupo de magos e feiticeiros surgiu e lançou diversas cordas mágicas nas patas da fera, afim de impedi-la de voar e fugir de nosso ataque; ao mesmo tempo, um grupo de paladinos, liderados por Clark, lançou uma magia de paralisação nas asas do dragão, o que as impediu completamente de se mexer.

E durante tudo isso, Edward não havia parado de correr por um segundo sequer. Ele passou por mim e então pulou na besta com sua arma em punhos, atingindo profundamente o olho do desgraçado e perfurando completamente as escamas do dragão. O vermelho sangrava, e sangrava da mesma cor que nós.

Edward então retirou sua roxa lâmina do olho do dragão, afim de acertá-lo em outro ponto, mas a fera moveu a cabeça com força para frente e Edward acabou caindo. Ao mesmo tempo, o feitiço dos paladinos falhou, e o tirano conseguiu movimentar uma asa com força, o que fez com que os magos caíssem, e de repente o dragão não mais estava contido.

Ele, agora com seu único olho, me fitou com puro ódio, mas não me atacou imediatamente. Ao invés disso ele se virou e foi na direção dos paladinos, quebrando o feitiço de gelo com fogo e devorando Clark em uma única bocada, o que fez com que suas asas fossem totalmente libertas do feitiço. Não satisfeito, o vermelho incendiou David, os magos e o restante dos paladinos, que conseguiram dar o mínimo de dano a fera antes de serem dizimados.

Eu olhei ao redor e me assustei com o que vi. Tudo o que eu conseguia enxergar era morte, fogo e o tirano. Meus olhos procuravam por Edward desesperadamente, pois eu sabia que ele não estava morto, e tudo que eu conseguia me lembrar naquele momento era da promessa que ele havia me feito.

Após ter dizimado completamente nosso grupo de ataque, o vermelho se virou e olhou para trás, diretamente para mim, desta vez sem os mesmos procedimentos anteriores; ele apenas olhou, correu e gritou:

MALDITO SEJA!— Com as patas dianteiras e as asas para frente ele vinha em minha direção, provavelmente afim de cumprir sua promessa de voar comigo antes de me matar. Agora eu havia sentido o mesmo que os garotos sentiam. Não era medo. Era orgulho. Orgulho de ter feito algo e provado àquele desgraçado que não éramos tão pequenos quanto ele pensava.

Então eu gritei e esperei. Aquele maldito não ia me fazer chorar ou correr. Vi aquela fera lentamente diminuir a velocidade, já que não queria me partir no meio e acabar me matando antes da hora.

A menos de um metro de distância dele eu me assusto, pois de repente vejo Edward surgir de uma árvore ao meu lado, onde ele se escondia, me empurrar no chão com uma mão, e com a outra penetrar o pescoço do dragão com sua espada.

Como o dragão havia diminuído a velocidade, não caiu sobre o corpo de Edward, que deu alguns passos para trás, sem soltar a lâmina que havia matado o assassino de seu pai. A penetração da arma foi tão profunda e forte que era possível enxergá-la dentro da boca do dragão, que apesar de não estar morto, não parecia conseguir se mover contra nós.

Voc… vo… você… —A fera balbuciava em seus momentos finais de vida.

— É assim… Assim que eu pretendo matar um dragão, desgraçado! — Edward disse, sorrindo, vendo que sua vingança estava completa.

— Você conseguiu… Você matou ele! — Eu gritava, comemorava e finalmente me permitia chorar.

— Não teria conseguido sem você, Felton. — Ele olhou para mim com um sorriso verdadeiro e também chorou. Respirou profundamente e, pela última vez, vi o puro brilho de seu olhar. Edward voltou a encarar o dragão, e toda felicidade de seu rosto de repente cessou, sendo tomada por uma expressão de terror. — FELTON! CORRE!

Eu não entendi o súbito grito de Edward, que abruptamente me chutou no peito, o que me fez ser jogado para trás, e quando olhei de volta para meu amigo, vi que o dragão havia jorrado uma enorme rajada de fogo. Em seu último suspiro, o dragão atacou com seu bafo, o que dizimou completamente Edward e teria me matado também se não fosse pelo chute do jovem Miles.

Me levantei e vi a mesma cena que outrora levou Edward a sua jornada: Fogo. Fogo na floresta e a morte de um homem bom. Em uma desesperada tentativa para ver se meu amigo estava bem, adentrei o ponto em que o dragão estava sob controle, encontrando o corpo da fera, ainda sangrando, e a poucos passos de distância dela, a ossada de Edward, que não tive coragem de me aproximar. Eu apenas chorei e, pouco a pouco, vi o fogo que havia matado meu amigo tomar completamente a floresta e me cercar, mas eu não me importava com isso.

Depois de quinze minutos em que meus pulmões já sofriam com a fumaça, escuto as vozes. E então percebo que a luta de Edward foi mais significativa do que eu esperava.

Acalmem teus corações, pois não é a loucura que bate à porta de vocês. As vozes que escutam estão sendo faladas nas mentes de todos os seres racionais de Oitarrna, pois há algo de valiosa importância a ser dito. Somos nós quem falamos com vocês. Os criadores desse mundo, aqueles que vocês gastaram noites a fio rezando por uma vida melhor. Nós escutamos. Drakmas, a Deusa dos dragões, está morta. Não há mais lugar algum para os dragões malignos ao lado de vocês. A partir de hoje eles estão banidos de pisar em qualquer lugar tomado por vocês. Acabou. Não chorem mais. —A voz dos Deuses era mista, com diferentes tons e timbres, pois era a voz de todos eles.

Eu não sabia como reagir depois de escutar aquilo. Após esse discurso senti uma gota d'água cair em meu rosto, e então veio a chuva. Chuva grossa, forte, que apagou o fogo do dragão. Eu me levantei e reparei que meu pulmão parecia limpo. Os Deuses haviam cuidado de mim.

Voltei ao meu povo, que em parte não comemorava, pois procurava por mim. Expliquei tudo o que aconteceu a eles e vi que, mesmo com o misto de sensações, eles ainda se alegraram, pois tínhamos muito pela frente.

E então meus sonhos se tornaram realidade. O homem se tornou protagonista de sua própria história, sem um inimigo que o submetesse a humilhação. Nunca mais vi nenhum dragão, nem mesmo os bons. O mundo mudou. Vi Wolfhard e Miles deixarem de ser apenas famílias para também se tornarem vilas extremamente poderosas, tão prosperas ao ponto de pensarem em se inimizar. Tolice.

Mas além de eternizar a tua história, meu amigo, quero te dizer algo que nunca disse, e que devo a você. Obrigado, Edward, muito obrigado. Gratidão por conseguir ser tão grandioso em um momento que todos eram tão pequenos. Que toda Oitarrna se lembre para sempre da história do homem maior que o dragão.

Notas finais
Este conto faz parte do universo de Oitarrna, um cenário de RPG e saga com dois livros publicados que, em algum momento, terá sua terceira edição e posteriores também publicados.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!