O Homem Invisível

6 Caixa De Pandora


Notas iniciais
Gente esse é o penúltimo capitulo. ^.^

Caminhar de madrugada acabou se tornando uma rotina na minha nova vida.

O ar frio, pessoas na penumbra, comércio fechado – exceto por um punhado de bares lotados de jovens bêbados –, postos de gasolina e restaurantes sofisticados.

A rua me chamava a atenção. Um silêncio perturbador na cidade que dormia mesmo com aqueles que insistiam em continuar acordados.

Eu havia mudado. Meus valores haviam se transformado, e isso me amedrontava.

Uma nova pessoa havia surgido tão rápido como se todo o seu passado tivesse se perdido.

A madrugada me trazia conforto. Não precisava encarar ninguém na sombra da escuridão noturna. As caminhadas me levavam a novos lugares, ou talvez não fossem assim tão novos, eu simplesmente não estava reconhecendo-os dessa perspectiva.

Mas aquela madrugada me levou a um lugar que eu conhecia muito bem.

Reconheci vozes que vinham pelas minhas costas, virei-me pra dar um rosto a elas. O rosto me encarou e logo tornou a virar a cara pro outro lado, entretido com o outro rosto.

Estava em frente ao mesmo lugar em que voei com ela pela primeira e última vez, e sabia que ela poderia estar lá também. Não iria entrar; seria incapaz de encará-la e dizer

- Tá tudo bem, e com você?

Ela me deixaria totalmente exposto com um olhar. Fiquei andando, às vezes trotando entre uma esquina e outra, talvez pudesse vê-la sem que ela me visse.

Queria dizer a ela que mudei – e agora não era por sua causa –, que isso se tornou natural em mim. Queria que ela enxergasse o novo homem que eu me tornei, mais seguro e decidido. Mas eu sabia que era mentira.

Desisti.

Ela teria de ver isso naturalmente em mim, sem explicações, sem sorrisos envergonhados, sem olhares perdidos.

Pus-me a andar madrugada adentro, dando costas àquilo que já não fazia mais parte do meu presente.

Ergui a cabeça e continuei.

Acredito que ela tenha me visto, nessa ou naquela madrugada, provavelmente acenou pra mim e eu não percebi, ela estava invisível agora. Ela já não poderia me dar mais nada, pois já havia me dado a chave para abir a caixa de Pandora.