O Homem Invencível

3 Capítulo 2: Valéria


Notas iniciais
Conhecemos mais de Valéria e do novo trabalho de Conan e seus amigos.

Valéria, a ex-escrava negra, recém libertada por Conan, corria o mais rápido que podia por caminhos antigos que ela sabia que a levariam para seu antigo lar. Ao longo da trilha ela foi reconhecendo árvores, descampados, cheiros e texturas. Logo avistou um aglomerado de casinhas. Seu coração transbordou de emoções por muito tempo represadas, ela chorava enquanto continuava a correr. Passou pela primeira casainha, depois a segunda, finalmente a terceira. Teve que parar, seu peito doía, não de cansaço, mas de emoção. Aproximou-se a passos cambaleantes da porta da pequena choupana.

_Mamãe? Eu voltei. Papai? Sou eu Valéria. — Ela falava num tom alto, sem gritar. Sua voz estava embargada pela emoção.

_Valéria! Não pode ser! Filha você voltou! — Falou um homem negro, com a cabeça branca, mas ainda rijo e forte. Valéria reconheceria esse homem em qualquer lugar do mundo. Sonhava com ele e sua mãe quase todos os dias.

_Papai! — Valéria correu até o pai e o abraçou forte, enquanto chorava com a cabeça encostada no ombro dele.

_Minha filha, que bom que os deuses a mandaram para casa, a tempo de ver sua mãe. — Falou o pai de Valéria.

_Mamãe? O que houve com mamãe, pai? — Valéria ficou aflita.

_Sua mãe está muito doente. Nenhum curandeiro conseguiu reverter o malefício que se abateu sobre ela. — Disse o pai de Valéria tristemente.

Valéria foi levada para ver sua mãe. A velha mulher de cabelos cacheados e pele de ébano estava emagrecida e respirava com dificuldade, fazendo barulho, suas perna e barriga estavam muito inchados, mas seu peito, braços e cabeça estavam só pele e ossos. Ela estava recostada em uma espécie de divã, com muitas almofadas nas costas. Não conseguia falar e respirar ao mesmo tempo. Seus olhos se encheram de lágrimas quando viu a filha recém chegada.

Valéria aproximou-se da mãe e segurou suas mãos. Beijou as mãos de sua mãe enquanto chorava copiosamente. Seu pai aproximou-se e abraçou-a, dando tapinhas na sua cabeça e fazendo um som que significava: "já passou, tá tudo bem".

Nos dias que se seguiram, Valéria cuidou de sua mãe no leito de morte. Todos no povoado ficaram felizes por saberem-na liberta da escravidão. Algumas famílias ainda tinham filhas aprisionadas no palácio do rei, como escravas. Todas foram levadas em tenra idade, e de certo morreriam na escravidão, sem que suas famílias nunca mais a vissem.

Após alimentar e limpar sua mãe, Valéria recolheu-se ao seu quarto. Pegou uma bonequinha de madeira de entre seus pertences. A bonequinha simulava um pequeno homenzinho. Ela colocou o homenzinho a altura dos olhos e orou.

_Stacath, deusa de muita sabedoria, guarde esse homem bom, Conan, pois ele libertou esta serva. Proteja-o dos inimigos e eu lhe caçarei um gamo que imolarei em honra ao seu nome. Kulan Gath, guardião dos infernos, segure os malfeitores e os anjos-demônios ante a passagem de Conan por suas propriedades. Não lhe faça mal que eu lhe caçarei um lobo, que imolarei em honra ao seu nome. Nada de mal te acontecerá nobre Conan. Eu te protegerei.

Enquanto isso, muito distante dali, Conan e seus amigos estavam chegando à cidade de Dassama. Ela ficava em um planalto, numa região montanhosa. Era cercada por muralhas, e arqueiros a protegiam dia e noite. O rei de Dassama, Alibasson já conhecia a fama de Conan. Recebeu-os no seu palácio com cordialidade.

_Meu caro Conan, sua fama o precede. Tivemos notícias de que é um excelente guerreiro, e invencível em um campo de batalha. Precisamos de seus serviços em Dassama. — O rei começou a entrevista.

_Infelizmente não posso permanecer para sempre a seu serviço Majestade. — Conan diminuiu um pouco o entusiasmo do rei.

Sprague admirava a firmeza de Conan, embora tivesse ficado contente em permanecer naquela hospitaleira cidade por algum tempo. Siobhan estava distraído admirando os afrescos e mosaicos nas paredes. Ele ouviu a resposta de Conan e achou que o amigo se precipitou ao não aceitar uma estadia naquela cidade tão organizada. Declan parecia ser o único a concordar com a resposta de Conan, mas até mesmo ele gostaria de passar algumas semanas descansando e enchendo a cara em alguma taverna.

_O que eu tenho em mente, meu caro Conan é o seguinte: Que acha de você e seus companheiros treinarem uma milícia para mim? Temos tido problemas com os reinos vizinhos, e meu exército regular precisa de um apoio para guardar a cidade. — O rei falou e deu um pequeno sorrisinho com o canto da boca, ao perceber que Conan e seus amigos gostaram da idéia.

No dia seguinte Conan e seus amigos estavam na área reservada aos guerreiros para seus treinamentos. Os cidadãos daquela cidade haviam se voluntariado para a milícia. Havia cerca de duzentos homens ali. Candidatos de todos os tipos, idades, compleição física e nível de inteligência. Conan percebeu que teria muito trabalho pela frente. Seria uma dureza treinar aqueles homens na arte de guerrear e manter-se vivo.

_Conan, eu não acho que a maioria desses homens sobreviva a um combate corpo a corpo. — Observou Sprague.

_Não se preocupe Sprague, eu mesmo irei treiná-los para que fiquem bem encorpados. — Conan tratou de sossegá-lo.

_Conan você está brincando não é? Olhe só esses lavradores. Eles nunca empunharam uma espada na vida. Só terão alguma chance se lutarem com forcados. — Reclamou Declan.

_Não se antecipe Declan. Primeiro eles adquirirão músculos, depois Siobhan os ensinará a manejar armas. — Conan tentou acalmar os ânimos.

_Siobhan? Agora eu estou preocupado. — Declan não apreciava Siobhan tanto quanto o outro merecia.

_Declan vai fazer o que? Sim porque a única coisa que ele sabe fazer é puxar briga. — Agora era Siobhan se estranhando com Declan.

_Declan ensinará o combate corpo a corpo. — Conan tentava impor ordem.

_O que? Você está brincando. — Declan sempre reclamando.

_E eu, o que eu faço Conan? — Sprague tentava cooperar.

_Você ensinará estratégia Sprague. — Conan achou que havia dividido bem as tarefas.

Se Conan pudesse, selecionaria três homens e os outros duzentos mandaria para casa, mas ele não tinha esse poder. Teria que trabalhar aqueles velhos, jovens imberbes, baixos, gordos, esquálidos e defeituosos homens. Até transformá-los em algo parecido com soldados. Conan dirigiu-se à massa de milicianos.

_Eu trabalharei agora com vocês. Eu os transformarei em homens fortes e robustos, capazes de agüentar as durezas de uma guerra. Minha primeira lei é: A partir de agora comam o dobro do que comiam antigamente. Com o trabalho pesado que vão encarar, necessitarão de muita energia.

_Senhor Conan, posso falar? — Um homem baixo e com roupas rotas se manifestou.

_Fale só se for importante. Senão permaneça calado. — Conan o advertiu.

_Senhor Conan, em nossa casa não há comida. Nós estávamos passando fome. Pensávamos que aqui receberíamos comida de graça. Por isso vieram tantos homens. — O baixinho falou envergonhado, mas a massa de milicianos o apoiou.

_Isso é mal. Sem comida não há milícia. — Conan afastou-se e reuniu-se com seus amigos.

_Acho que terei que procurar o rei. Vocês três façam esses homens caminharem e nadarem. Não deve ser muito difícil. — Conan avisou seus amigos e montou seu cavalo para ir ao palácio do rei.

_Bem já que Conan nos deixou encarregados de treinar estes bundas moles, vamos começar. — Declan se entusiasmou com a possibilidade de fazer alguns homens sofrerem.

_Declan, vá devagar. Estes homens nunca guerrearam. Nós temos que treiná-los e não matá-los. — Siobhan avisou-o enquanto corria para alcançá-lo.

_Declan, nós apenas os faremos andar e nadar, entendido? — Sprague tentava controlar a situação.

Declan formou dois grupos de 100 homens. Os primeiros 100 ele mandou caminhar por 50 km. Os outros 100 ele mandou nadar 50 km, em um riozinho que havia por ali. Declan e Siobhan acompanharam os homens na caminhada. Sprague acompanhou os 100 homens na natação.

_Vamos seus palermas, força nessas pernas. Andem não se arrastem. Vamos. — Declan estava empolgado com o trabalho.

_Declan venha aqui. — Siobhan gritava do fim da coluna de homens.

_Pare de me amolar seu molengão. Estou ocupado liderando estes homens. — Declan preferia trabalhar sozinho que com Siobhan.

Este veio correndo até ele. Se havia algo bom em Siobhan era o fato de ele nunca ficar magoado com as declarações dos amigos.

_Declan, tem algo errado com um dos homens. É melhor você dar uma olhada. — Falou Siobhan aflito.

Declan achou melhor atender-lhe o pedido, senão tinha medo que o outro começasse a chorar. Correu até um aglomerado de milicianos. No centro da roda havia um homem idoso, roxo, duro e com as duas mãos agarrando fortemente o peito. O homem estava morto.

_Já vi isso acontecer antes. É coração fraco. Ele não resistiu à caminhada. — Declan esperou que todos voltassem a sua posição inicial, mas os homens estavam mais interessados no morto. _Voltem às suas posições, o treino ainda não acabou. — Declan não foi ouvido.

Os milicianos carregaram o homem morto no alto das cabeças e levaram-no em direção ao centro comunitário.

_Declan acho que o treino acabou. Deixe esse povo velar pelo seu amigo. Amanhã continuaremos. — Siobhan falava o óbvio.

Declan chutou um pedregulho de raiva. Sprague teve melhor sorte com seus nadadores. Nenhum morreu.

Fim do Capítulo

Notas finais
Continuo insistindo nos diálogos. Não houve ação neste capítulo, mas tentarei colocar mais seqüências de lutas no próximo.