O Herói do Olimpo
48 Respostas! Finalmente!
Notas iniciais
O caminho inteiro até o shopping uma simples pergunta batucava na minha cabeça.
Por que eu estava no ano da batalha do labirinto de novo?
Eu não sabia o que estava fazendo nesse tempo. Eu tinha algum objetivo? Eu tinha de fazer algo para parar de viajar no tempo? Se eu estivesse realmente viajando no tempo.
Eu não tinha a mínima ideia do que fazer.
Mal percebi quando eu e Annabeth atravessamos as portas de vidro automáticas do shopping. O cinema era no primeiro andar, e precisávamos estar lá em 10 minutos. Sem problemas.
Nunca diga para si mesmo que não há problemas. Sempre há problemas.
Annabeth foi comprar a pipoca enquanto eu a esperava dentro da sala de cinema. Não prestei atenção aos ingressos que havíamos comprado – eu não estava me importando com o filme. Só queria entrar na sala de cinema e ficar quieto ao lado de Annabeth.
Peguei os nossos lugares e aguardei assistindo as propagandas antes do filme. Quando a minha nuca se arrepiou, levei minha mão direita diretamente para o bolso onde eu guardava Contracorrente. Olhei para os lados, procurando qualquer indício de monstros ou deuses hostis, mas só o que achei foram casais e grupos de amigos conversando enquanto esperavam o filme começar.
Suspirei aliviado e tirei a mão da caneta. Não parecia ter monstros naquela sala – pelo menos eu não via nenhum. Apesar de estar bem escuro devido ao filme estar começando, eu enxergava bem.
Annabeth... Faltava poucos minutos para o filme começar e ela ainda não havia chegado. Fila grande para a pipoca? Talvez. Monstros? Talvez.
Decidi me levantar e ver o que acontecia. Com a caneta em mãos, empurrei filas e filas de pessoas que iam entrando na sala de cinema. O filme já estava prestes a começar, e sem sinal de Annabeth no corredor.
Minha mão já estava suando de tanto pressionar Contracorrente em sua forma de caneta. Annabeth não demoraria tanto assim senão fosse um real problema.
Mas eu estava enganado.
Quando cheguei ao lado de fora, aonde eles vendiam pipoca, encontrei os cabelos loiros de Annabeth escorados na parede. Não havia nenhum monstro por perto, e isso me aliviou em certa parte. Mas quando vi o que de fato atrasava Annabeth, mal acreditei.
O garoto com quem ela estava junto antes de que eu desmaiasse estava conversando com ela. Aquele que havia roubado Annabeth de mim. Aquele que é o primeiro da lista de pessoas que Contracorrente ânsia por matar.
Antes que eu pudesse se quer me aproximar deles, um estrondo chamou a atenção de todos que estavam no andar. Outro estrondo. E mais um. Pude ver pelo canto do olho Annabeth retirar sua adaga da cintura e o garoto pegar também uma adaga de sua mochila.
Ainda com Contracorrente em forma de caneta, comecei a andar pelas laterais do andar. Eu estava tentando evitar ser detectado por qual fosse o monstro. Iria tentar matá-lo sem que ele nem notasse minha presença.
O problema era que não era exatamente um monstro. Eram dezenas. Muitos deles eu mal conhecia. Dracaenas, empousas, mantícores, e até mesmo um titã.
Eles invadiam o shopping pela entrada oposta ao nosso lado. Ganhávamos tempo com isso pelo menos.
Corri até onde Annabeth e o garoto estavam.
— Vocês dois precisam sair daqui, agora! — exclamei depressa.
— Tudo bem então, vamos — Annabeth respondeu apressada, segurando o meu braço e tentando me puxar para longe dali, mas eu fiquei fixo no meu lugar. — Percy, vamos, não temos muito tempo!
— Vão na frente, eu vou enrolá-los.
— Ei, galera, sinto que não temos muito tempo — o garoto cochichou.
— Percy, você tem que vir com a gente! Você tem uma profecia a cumprir! Não é aqui que vai vencer Cronos! — Annabeth exclamou desesperada, puxando o meu braço mais uma vez.
— Eu vou cumpri-la, mas não vai ser hoje. Agora vai logo! — respondi depressa, tendo um vislumbre de dezenas de monstros se aproximarem.
— Vamos, Annie! — o garoto exclamou puxando Annabeth para longe de mim, enquanto a mesma se debatia e tentava voltar.
Quando eu já não tinha mais visão dos dois, olhei para o exército de monstros. Não estavam tão longe agora, mais alguns passos e eu já estaria lutando contra eles.
Destampei Contracorrente e olhei para o titã que liderava o ataque. Era Crios, o titã que me jogou no Tártaro. Se eu acabar com todos aqueles monstros, o próximo será ele.
Me concentrei e senti toda a água do shopping. Sentia ela caminhar pelos canos... E então os explodi.
Rajadas d’água roeram por todas as filas de monstros. Alguns eram fracos demais e já se evaporizavam assim que a água tocava seus rostos. Alguns ficavam atordoados e atrasavam a fileira de trás, me dando mais tempo.
Mas a fileira da frente estava intacta, não havia se deixado abater pela água. Deveriam ser monstros treinados – ou sei lá o quê. Fiz Contracorrente ficar envolta à eletricidade e água e então ataquei.
Eu cortava, desviava e cortava de novo. Meus reflexos estavam terríveis – se não fosse pela maldição de Aquiles eu já estaria no chão. Eu mal sabia porque a maldição voltara.
Sem dúvida eu estava em um dia péssimo. Cheguei até a ser derrubado por algum monstro que nem cabeça tinha. Só não fui pisoteado por ter jogado água para todos os lados no momento que minhas costas se chocaram com o chão.
A coisa estava fugindo do controle. Se eu não acabasse logo com o resto dos monstros – que deveriam ser cerca de 20 ou 30 – eles acabariam achando o meu ponto fraco. E se achassem, eu estaria mais do que morto.
Meu cérebro já não comandavam os meus ataques. Eles saiam fracos, mal vaporizavam os monstros que eram atingidos. Eu estava cansando demais para tentar fazer qualquer coisa com os meus poderes.
E foi quando estava faltando 10 monstros que eu finalmente fui atingido. Garras estavam atravessando o meu ponto fraco, o local um pouco acima da minha cintura. Soltei Contracorrente e cai de joelhos no chão, e senti dois pés empurrarem minhas costas, me fazendo dar de cara no chão.
Com Contracorrente longe e eu à beira da morte não havia mais opções. Crios conseguiu me deter. Era o fim.
Antes que eu pudesse pensar em mais alguma coisa, meus olhos se fecharam e eu apaguei.
...
— Néctar! Ambrosia! Tragam tudo o que puderem! — uma voz desconhecida gritava à minha direita.
Eu ouvia passos pesados de baixo de mim. Minha cabeça latejava a ponto de não me deixar nem abrir os olhos, temendo que qualquer movimento pudesse aumentar a minha dor. Soltei um gemido involuntário que fez todos os meus músculos gritarem de dor.
Eu estava acabado. Eu imaginava que depois de tomar um golpe no meu ponto fraco havia feito com que eu sentisse a dor de todos os golpes que tomei na luta, ou seja, todos os golpes que eu não havia conseguido desviar mas que não dei tanta importância por não sentir a dor na hora.
Que hora para ficar sem os reflexos.
A dor me fez voltar à inconsciência, e com isso veio um sonho, um sonho que a muito tempo eu esperava.
“A mulher que me falara sobre os poderes que haviam na minha mão estava na minha frente, extremamente cansada, por sinal. Ela parecia ter envelhecido anos desde que a vi pela última vez. Seus cabelos agora estavam grisalhos e seu rosto estava coberto por rugas.
— Ah, vamos, garoto, nós não temos muito tempo.
Me surpreendi ao ouvir sua voz de novo, dessa vez velha e cansada, assim como todo o resto de seu corpo.
— Você deve estar cheio de coisa para me perguntar, não é? — ela indagou sentando-se em uma cadeira de frente para uma mesa de chá. — Vamos sente-se.
Ela indicou para a cadeira que ficava à frente dela e me sentei. Ela me olhava como se esperasse que eu começasse a falar.
— Por que o meu braço está rodeado por uma marca que parece uma cobra? — foi a primeira pergunta que me veio à mente.
— Isso é um bom sinal. Quer dizer que seu corpo conseguiu se adaptar aos poderes que tem no seu braço. Não se preocupe, ela não vai crescer mais do que já está — ela me tranquilizou.
— Eu tenho outra pergunta... — falei, e ela me incentivou a continuar com um aceno de cabeça. — Por que eu... por que eu estou voltando constantemente no tempo? Pelo o que me lembro eu estava à beira da morte depois de lutar com Crios.
A mulher sorriu, como se estivesse esperando que eu fizesse essa pergunta.
— Não sei como sobreviveu a esse processo — ela começou, fazendo minhas sobrancelhas se arquearem. Se inclinou para a frente da mesa e olhou bem nos meus olhos. — Olha, você está vivendo um mundo diferente do seu. Isso é meio complicado mas eu vou lhe explicar.
Ela deu uma suspirada longa antes de continuar.
— O que acontece é que você estava tão à beira da morte, mas tão à beira da morte depois da luta de Crios, que sua mente precisou te mandar para outro lugar, um lugar onde você não sentiria dor. Geralmente esse lugar é a morte. Mas com certos semideuses é diferente... Isso só aconteceu com três semideuses até hoje. Enfim, a sua mente te mandou para outro mundo, um mundo aonde você precisa se provar para poder voltar para o seu mundo. Está me entendendo?
Acenei levemente com a cabeça, mesmo não estando entendendo muito.
— Geralmente, quando semideuses entram em seus outros mundos, eles devem ter algo a cumprir. Você está numa espécie de teste. Se passar, volta com vida para os seus amigos. Se falhar, você morre.
Engoli em seco antes de perguntar:
— E como são exatamente esses testes?
— Tem voltado bastante no tempo, não é mesmo? — ela me perguntou, mas antes que eu sequer assentisse com a cabeça, ela mesma o fez. — Parece que os seus testes são refazer fases da sua vida de maneira diferente. Precisa fazer tudo o que fez mas de maneira diferente desta vez. Você falhou na primeira tentativa.
— Por que falhei? Digo, qual foi a primeira tentativa?
— Lutar contra o filho de Cronos e matá-lo. Você não o fez. Tecnicamente morreu para os deuses. Voltar no tempo de novo quer dizer que você perdeu naquele teste. Mas parece que você ainda tem 4 testes para tentar consertar a burrada. Se passar em pelo menos 3, acho que você volta com vida.
Suspirei pesado e olhei para ela. Seus olhos estavam distantes, pareciam estar focados em outro mundo.
— Tudo bem, você precisa ir. Boa sorte, garoto. Você vai precisar.”
Levantei minha cabeça bruscamente e olhei para os lados. Estava na enfermaria do acampamento. Meus músculos ainda gritavam por socorro, mas consegui aguentar a dor tempo suficiente para ver três pessoas entrando no lugar. Fechei os olhos e fingi estar dormindo.
— Como ele sobreviveu? — uma voz feminina perguntou.
— Não tenho ideia — a voz de Quíron respondeu honestamente. Parecia tão intrigado quanto a garoto com quem estava. — Mas ele vai sair dessa, não se preocupe, Annabeth.
— Eu não deveria ter deixado ele lá sozinho. Deveria ter insistido mais... eu deveria! — agora a filha de Atena exclamava.
— Calma, calma, Annabeth, ele vai ficar, vai ficar bem — a outra garota a tranquilizava.
Soltei um gemido involuntário que fez a atenção dos três se focarem em mim.
— Mas que droga... — sussurrei para mim mesmo. — Quíron, me traga água!
A princípio ele estava atordoado demais para fazer o que pediu, mas quando me forcei a sentar na cama ele assim fez, indo até o banhei e trazendo um balde d’água.
— É melhor vocês se afastarem — avisei.
E então derramei todo o balde sobre a minha cabeça. Senti uma sensação extremamente boa na hora. Era quase como se eu estivesse tomando um banho no mar em uma linda manhã ao lado de Annabeth.
Saí de meus devaneios quando olhei para o meu corpo. Cheio de feridas, devo dizer.
— Acho que vou precisar de outro banho no Estige... — resmunguei alto demais, atraindo a curiosidade de Quíron.
— O que quer dizer com isso? Banho no Estige?
Ah, droga, eles ainda não sabiam que eu havia dando um pulinho no rio do mundo inferior. Eu ainda estava no ano do labirinto, e o meu pulo no Estige era só daqui a alguns meses.
— Brincadeira — forcei um sorriso que pareceu satisfazê-lo por um tempo, talvez esperaria minha recuperação para depois fazer perguntas.
— Como você está vivo? — Annabeth perguntou, fazendo meus olhos se focarem totalmente nela.
Seus olhos estavam vermelhos, sinais de que ela chorara. Seus cabelos estavam presos em um coque mal feito, talvez tivesse sido feito às pressas. Sua camisa do acampamento tinha alguns cortes, mas nada sério. Seus jeans tinham rasgados nos joelhos e sangue saia do buraco.
— Hã... Sorte? — se eu abrisse o jogo agora, iriam me torturar com perguntas e mais perguntas, então preferi mentir até ter a hora certa para contar apenas parte da história. Me sentei com pernas de índio e voltei minha atenção à Annabeth. — Como foi que me tiraram de lá?
— Eu aqui!
A garota que eu ouvira a voz falando com Quíron se encontrava no canto da enfermaria, tímida.
Ela tinha os olhos cinzas como os de Annabeth e o mesmo cabelo loiro. Mas no momento atual, os olhos dela brilhavam enquanto os de Annabeth pareciam estar em uma tempestade. A garota vestia um vestido simples e parecia não estar no acampamento muito tempo – nem arma ela havia ali. Seu rosto estava corado, e o sorriso mostrava que ela estava extremamente tímida.
— Ah, sim. Percy, essa é a Abby. Abby, esse é o Percy — Annabeth nos apresentou apressada. Parecia assim como eu ter esquecido a presença da garota ali.
— Prazer, filha de Atena. — Eu já iria dizer que eu era filho de Poseidon quando Abby se adiantou. — Sei quem você, o filho de Poseidon que salvou a vida da minha irmã.
— Sua irmã...? Ah, sim, claro, Annabeth — sorri tímido. Eu ainda não havia pegado a parte de que ela era filha de Atena. — Mas e então, nunca te vi no acampamento. Quantos anos tem?
— Dezesseis. Ela chegou aqui faz cerca de um ano, mais ou menos quando eu estava lá em São Francisco — ela parou por um momento, como se recordasse do fato. — Ela...
Annabeth foi interrompida por uma entrada brusca na porta da enfermaria. Um garoto – filho de Hermes pelo jeito – estava suado e parecia meio desesperado.
— O que foi, criança? — Quíron se apressou a perguntar. Eu mal lembrava que ele ainda estava na enfermaria.
— Thalia... Thalia Grace... Ferida... Refeitório — ele disse antes de cair no chão, desmaiado.
Annabeth e Abby correram até o garoto.
— Vai, eu cuido dele — Abby disse à Annabeth, que não contestou, saiu em disparada para ver o que acontecia com Thalia.
Tentei me levantar mas meus músculos voltaram a gritar de dor. Insisti nisso por minutos, até não ter mais força para se quer levantar minha perna.
Enquanto eu fazia esforço, Abby colocava o garoto em uma das camas da enfermaria. Ela estava abrindo a boca para falar algo quando a porta foi novamente aberta bruscamente. Mas dessa vez não era um garoto cansado na porta.
Era Luke.
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