O Herói do Olimpo
50 Mundo real...?
A academia à minha frente parecia mais sombria do que eu me lembrava. A luz da lua batia em suas rochas e deixavam um aspecto tão sombrio que eu poderia jurar que ali já foi a casa de um filho de Hades.
E por algum acaso havia dois filhos de Hades lá dentro.
— Vamos? — a voz de Thalia perguntou ao meu lado, dando um passo para a frente e abrindo as grandes portas de carvalho. O rangido das portas me lembrou que o lugar era realmente velho.
O lugar em si era imenso. As paredes estavam repletas de estandartes de batalha e armas em exposição. Mesmo sendo uma escola militar e tudo, era exagerado demais.
As portas se fecharam violentamente atrás de nós. O som de uma música penetrava as rochas e vinham direito para os nossos ouvidos. Instantaneamente me lembrei que estava havendo um baile do outro lado da parede.
Começamos a andar e logo nos deparamos com um homem e uma mulher saindo da sombra e nos abordando.
O homem eu me lembrava muito bem. Era o mantícore que sequestrou Annabeth certa vez. Levei minha mão ao bolso e fixei os meus olhos no do mantícore. Dessa vez eu o mataria antes que pudesse sequestrar alguém. Mas teria de esperar a hora certa para fazer isso. Teria de ser fora da escola.
— Posso saber o que estão fazendo aqui? — indagou a mulher, levando sua mão ao queixo e nos examinando mais de perto.
Thalia estalou os dedos e disse, muito calma:
— A senhora não se lembra de nós? Sou Thalia, essa é a Annabeth e esse é o Percy. Estudamos aqui.
Pareceu que a mulher instantaneamente se lembrou de nós. O efeito da névoa.
— Ah, sim... Sim, claro. Vão para o baile, não eram para estar aqui.
E sem dizer mais nada, começamos a andar por mais um corredor escuro. Andamos, andamos e andamos até ouvir passos. Passos não, estavam mais para galopes...
— Percy! Annabeth! Thalia!
Grover vinha correndo em nossa direção. Ele ofegava bastante e quando parou diante de nós levou as mãos aos joelhos.
— Vocês.... Conseguira... Chegar! — exclamou ele entre uma longa respirada e outra. Tinha um sorriso meio preocupado e meio alegre em seu rosto.
Ele abraçou Annabeth e Thalia e depois bateu em minha mão.
— Vamos, precisamos ir até o ginásio.
Andando à frente, não demorou muito até que Grover abrisse mais algumas portas e enfim dar de cara no ginásio.
Balões pretos e vermelhos preenchiam todo o local. Os garotos estavam pegando-os e chutando-os – ou só pegavam a corda da ponta e tentavam estrangular alguém com ela. As garotas se moviam de lá para cá, usando maquiagem, blusas de alça fina, calças de cores berrantes e sapatos que pareciam instrumentos de tortura.
Grover nos parou em frente à uma arquibancada e nos pediu para sentar. Fiquei no meio de Annabeth e Thalia, focando meus olhos na bagunçada que estava sendo aquele baile. Somente desviei meus olhos da multidão quando Grover começou a falar.
— Certo. Temos dois semideuses aqui, filhos de alguém forte. Eles estão bem ali — ele apontou para a arquibancada do outro lado do ginásio. Havia um garoto e uma garota ali, que logo reconheci como Bianca e Nico.
— Os irmãos di Ângelo. O menino se chama Nico e a menina Bianca — Grover voltou a falar.
— E monstros? Tem algum por aqui? — Thalia perguntou.
— Ah, sim, o vice diretor. Dr. Espinheiro.
— Tudo bem, então. Vamos pegá-los e dar o fora daqui. — Annabeth disse, se levantando e começando a andar em direção aos irmãos.
— Espera, Annabeth. — A chamei olhando para a porta do ginásio. Dr. Espinheiro estava se esgueirando por ela.
— É ele! — Grover exclamou apontando para o vice diretor.
Annabeth parou de andar e voltou a se sentar ao meu lado.
— Tudo bem. Vamos ter de disfarçar. Finjam que são alunos. Dancem. Bebam ponche e comam. Não olhem para os irmãos. Talvez conseguiremos enganá-lo. Nosso cheiro também é forte, vai confundi-lo.
Me levantei e olhei para Thalia.
— Dançar? Com quem é que eu vou dançar? — indaguei indignado.
— É, dançar. Acho que você sabe o que significa. Vamos, garoto bode.
— Eu? — Grover perguntou frazindo a testa. — Eu não sei dançar!
— Não se preocupe, vou conduzi-lo! Agora vem!
Thalia o puxou para o meio da multidão e sumiu de vista. Olhei pelo canto do olho para Annabeth.
Voltei à minha sentar ao lado de Annabeth. Viver aquela situação pela segunda vez era mais constrangedor do que a primeira.
— E então, fez algo de legal esse ano? — perguntei tentando quebrar o silêncio incômodo que se estabeleceu entre nós.
Antes que ela pudesse se quer abrir a boca para responder, Thalia e Grover apareceram, dançando, em frente a nós.
— Ei, vocês dois! Dancem!
E se foram novamente para o meio da multidão.
Cocei atrás da nuca.
— Quem você acha que eu deveria tirar para dançar? — perguntei me lembrando desse momento anos atrás. Me preparei para o soco que viria logo em seguida.
— Eu, Cabeça de Alga! — ela exclamou dando o soco bem no meu estômago.
Sorri para ela e me levantei. Ergui minha mão e a ofereci para ela, que aceitou e se levantou. Coloquei uma mão na sua cintura e ela começou a me conduzir. Eu ainda não sabia dançar.
— E então, vai continuar morando em Nova York? — perguntei. Eu sabia da resposta de qualquer jeito, só falei aquilo para poder quebrar o gelo.
— Meu pai aceitou um emprego em São Francisco — ela respondeu com a testa franzida. — Por que me fez essa pergunta?
Não abri a boca para respondê-la, porque quando me virei para ver aonde Nico e Bianca estavam percebi que haviam sido levados.
Como fui idiota de não me lembrar disso?
Comecei a correr deixando uma Annabeth em dúvida para trás. Talvez demoraria um pouco para ela notar que os irmãos haviam sumido. Enfim, queria cuidar disso sozinho. Era pessoal.
Saí pelas portas do ginásio e comecei a correr pelo corredor. O gorro verde que Bianca usava estava jogado no chão, ao lado das peças do jogo de Nico.
Quando cheguei ao hall da escola, vi o Dr.Espinheiro de frente às portas que davam na rua. Bianca e Nico estava ao seu lado, abraçando um ao outro.
Saí de trás de uma estátua que havia ali e olhei direito para o mantícore. Ele ainda estava na sua forma humana. Se eu fosse rápido talvez conseguisse detê-lo ainda aqui dentro.
Tirei a caneta do meu bolso e a destampei. Logo Contracorrente já estava com seus 90 cm pronta para decapitar alguns monstros.
Corri em direção ao monstro, que só foi notar a minha presença quando eu estava do seu lado. Ele se abaixou e por pouco não foi perfurado por Contracorrente.
Ouvi um grito vir de Bianca e um Uau! de Nico. O mantícore saiu da sua forma humana e isso arrecadou mais um grito de Bianca.
Recuei um pouco e acabei esbarrando em Nico. O garoto quase caiu no chão, mas sua irmã conseguiu pegá-lo a poucos centímetros do chão.
— Saiam daqui! Procurem por uma garota com um bracelete de prata no pulso! — exclamei para os dois, que se apressarem em fazer o que eu mandava.
Quando a silhueta dos dois desapareceu totalmente pela escuridão do corredor, pude me virar para o Dr.Espinheiro. Ele havia tomado a forma de um escorpião gigante. Suas pinças nas mãos batiam freneticamente contra o chão.
— Perrrcy Jacksonnnn — disse ele com seu sotaque francês.
Não dei espaço para que ele dissesse mais alguma coisa. Rolei para a frente e tentei cortar sua cauda. Sabia que ali era o seu ponto forte e fraco. Aqueles espinhos que continham na ponta poderiam me matariam em pouco tempo.
Ele tentou me ficar com um dos espinhos. Falhou por pouco – pude sentir até um passar de raspão por mim. Senti uma dor aguda no abdômen, mas não parei para olhar isso.
Tentei perfurá-lo na barriga mas foi em vão. Ele se esquivou e jogou mais espinhos com sua cauda. Senti outra dor aguda, dessa vez no braço, mas não parei para olhá-la.
Quando rolei para o lado, fingi tentar sua cauda – ele teve a reação que eu esperava, saltou para trás. E esse foi o erro dele. No meio do caminho do pulo, desviei Contracorrente para que ela cortasse um dos seus braços.
O braço virou pó e o mantícore se desequilibrou. Jogou mais espinhos mas consegui me desviar de todos. Com o monstro agora caído, porém ainda vivo, consegui cambalear até ele e enfiei a espada no seu coração.
Ouvi passos correndo em minha direção ao mesmo tempo que o monstro se tornava pó e eu caía de joelho no chão. Meu braço e meu abdômen gritavam de dor. Quando abaixei a cabeça para ver o que havia acontecido, vi dois espinhos com um líquido verde espumando nos buracos no meu braço e no meu abdômen. Soltei Contracorrente e me deitei no chão, com a barriga para cima.
Os passos foram se aproximando... A dor aumentando... Minha visão foi ficando turva... Ouvi um grito... Pessoas se ajoelhando ao meu lado... Uma cabeleira loira cobrir todo o meu campo de visão... Mais gritos... Uma multidão de passos vir em nossa direção...
E finalmente apaguei.
~.~
Levantei a cabeção tão bruscamente que isso me gerou um pouco de tontura. Olhei ao redor. Não era a enfermaria do acampamento, muito menos um hospital. Meu braço estava normal, assim como o meu abdômen.
Aos poucos meus olhos foram se abrindo, revelando um teto aos pedaços. Minhas costas gemeram de dor quando tentei movê-las – o colchão parecia estar no mesmo estado de velhice do teto. Quando finalmente passei por cima da minha dor nas costas e me sentei, notei aonde estava. Era o mesmo quarto velho aonde eu havia acordado e ouvido Nico e Thalia falando sobre Annabeth gostando de outro cara...
Depois de ter apoiado minhas costas sobre a cabeceira da velha cama de casal em que eu estava sentado, pensei em gritar por alguém. Se ainda houvesse alguém naquela casa, já que ela parecia não durar muito tempo sem desabar...
— Percy? — uma voz hesitante disse à porta. Virei meu olhar lentamente para ver o rosto de Nico abrir um sorriso. — Você acordou!
E correu para o lado de minha cama, examinando-me mais de perto.
— Como você está? Está se sentindo bem? Precisa de água ou alguma...
— Calma, calma, Nico. Eu estou bem, estou bem... — apressei a tranquilizá-lo, já que a velocidade que ele fazia perguntas começava a me dar dor de cabeça. — Como é que estão as coisas por aqui?
Ele sorriu.
— Bem, quando chegamos em casa no dia em que você apagou, vimos Crios e você, atirados no chão, completamente inconscientes. Não mortos, por bem pouco. Até hoje não sabemos o que foi que aconteceu — ele olhou para mim como se pedisse algo, mas neguei com a cabeça. Depois eu poderia contar o que aconteceu. — Enfim, Emma e Thalia amarram ele com algumas coisas que Quíron nos deu e conseguimos extrair algumas informações dele. Graças a você, acho.
— Você acordou!
Olhei para a porta e me deparei com Thalia e Emma, ambas com os olhos arregalados. Não demoraram muito para virem correndo em direção à minha cama e ficando ao redor dela.
Ambas olhavam ansiosas para mim, mas somente dei de ombros.
— Então... Pode nos contar o que aconteceu? — Nico perguntou hesitante.
— Certo... Mas antes preciso comer.
Thalia e Nico foram até a cozinha pegar algo. Emma foi até a ponta da cama e fixou seus olhos em mim.
— Quíron pediu que eu transmitisse uma mensagem para você. — Ela hesitou antes de continuar. — Ele disse... disse que você tem que tomar cuidado com os seus atos. Pensar duas vezes antes de fazê-los.
— Por que ele diria isso? — indaguei com a testa franzida.
— Annabeth... Ela... Foi sequestrada por Gaia, Percy. Não sabemos como aconteceu.
Eu mal acabara de acordar e já queria voltar para os sonhos. Queria poder dormir de novo e acordar com uma notícia boa, não uma ruim como essa.
Thalia e Nico trouxeram a comida e eu a comi sem a menor vontade. Perdi toda a vontade depois das palavras de Emma entrarem em meus ouvidos.
Não, isso não iria ficar assim. Eu traria Annabeth de volta.
Isso não ia ficar assim.
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