O Herói de Solfernum: Luxúria.
1 Capítulo Único
Notas iniciais
O ano era 1764. A manhã chuvosa repousava sobre a vila de Greystone como um véu de renovação e silêncio. As casas de pedra negra e madeira encharcada pareciam suspensas no tempo, imutáveis sob o peso das eras. Os campos de trigo se estendiam como um mar dourado, ondulando sob a chuva fina, sem jamais encontrar o horizonte.
Noah Tatcher nunca se sentira realmente parte daquele lugar. Tinha dezenove anos, cabelos castanho-claros que o sol dourava nas manhãs mais brandas, e olhos grandes demais para esconder tudo o que viam. Desde menino, enxergava o que não devia: silhuetas que se moviam entre as árvores, sussurros deslizando pelas paredes quando a vila dormia. Após a morte do pai, corria todas as noites para a cama da mãe, tremendo, dizendo ver o espírito dele à espreita. Um espírito que, segundo contava, o seguiu por cinco longos anos, até finalmente encontrar descanso. A vila o considerava um rapaz estranho, perturbado.
A adolescência só tornara tudo mais difícil. Elizabeth, sua mãe, não tinha meios para garantir-lhe estudos. Viviam do que conseguiam colher nas terras que o pai deixara, e Noah logo teve que trabalhar nelas. O esforço lhe rendeu músculos discretos, embora sua beleza singela passasse despercebida por muitos — talvez por sua quietude, talvez pela solidão que carregava.
E quanto aos amigos... esses sempre foram escassos. Na juventude, começou a perceber os meninos de um jeito diferente. Sabia muito bem o que sentia, mas aprendera a esconder. Esconder porque, se descobrissem, seria marcado como desgraça, senão coisa pior. “É pecado!”, murmuravam em cada esquina da vila. Nunca tivera uma namorada, e isso bastava para que amigos e familiares o vissem com desconfiança. Mas, para eles, antes solitário do que... aquilo.
Naquela manhã de janeiro, enquanto a chuva caía firme sobre os telhados de pedra, algo mudou. Uma carroça cruzava a estrada principal, rangendo sob o peso de móveis e baús. O homem que a conduzia saltou para a lama fria com um baque seco das botas pesadas, e sem cerimônia removeu a velha placa de “À venda” da fazenda à frente da casa dos Tatcher.
Christopher Thorne era alto, de ombros largos, mãos calejadas e barba curta. Seus olhos verdes, marcados pelo cansaço da vida, pareciam sempre pesar mais do que deviam. Aos 25 anos, era casado com Abigail e pai de um menino de três anos, Thomas. Tornara-se o novo proprietário da fazenda vizinha, um terreno vasto e bem mais próspero. Christopher era respeitado e temido. Havia algo nele que afastava as pessoas, talvez a intensidade contida no olhar, ou o modo como evitava palavras desnecessárias.
Foi numa tarde de primavera que tudo começou.
Elizabeth, sempre prestativa, não tardou a fazer amizade com a nova família. Em pouco tempo, arranjou um emprego para o filho na fazenda dos Thorne, um jeito de ajudar nas finanças da casa. E assim, sem grande opção, Noah passou a trabalhar para eles.
Carregava sacas de trigo, ajudava com os animais, consertava cercas danificadas. Certo dia, enquanto passava pelo curral, encontrou Christopher sozinho, martelando uma estaca com movimentos firmes e silenciosos. O ar entre eles parecia mais denso que o normal. Um silêncio quase sólido.
Então, pela primeira vez, o homem, ainda jovem, mas com o peso dos anos nos ombros, falou:
— Você não é daqui, é? — perguntou Christopher, sem desviar os olhos do que fazia.
— Nasci aqui — respondeu Noah, com a voz baixa, quase resignada. — Mas nunca senti que pertencia de fato. Greystone é tão pequena que às vezes me pergunto qual é o tamanho real do mundo.
Christopher sorriu de canto, um sorriso breve, mas carregado de algo que Noah não soube nomear de imediato, melancolia, talvez.
— Talvez seja isso que temos em comum.
Noah retribuiu com um sorriso leve, mas atento. Foi naquele instante que percebeu, com mais clareza do que nunca, a força contida em Christopher, o modo como seus braços firmes domavam o trabalho do campo, como sua presença se impunha sem esforço. Era másculo, silencioso... fascinante. Noah, sem querer se perder nos próprios pensamentos, tentou manter o fio da conversa.
— Homens como nós cruzaram o oceano e descobriram as Américas... Hoje, já não se descobre mais nada. Talvez seja isso que nos falta.
A tarde correu com leveza. Falaram pouco, mas os olhos, esses diziam mais do que qualquer palavra ousaria. Os dias seguintes passaram como folhas levadas pelo vento. Depois, vieram as semanas. E a amizade se transfigurou. Tornou-se algo oculto, sutil, escondido nos cantos escuros dos celeiros, nos olhares furtivos trocados durante a feira, nos toques acidentais que ardiam mais do que qualquer brasa. Não falavam sobre o que sentiam, apenas sentiam.
Christopher resistia. Era casado. Tinha um filho. Mas resistir não era negar, era desejar em silêncio. E quanto mais o desejo crescia, maior se tornava a sombra ao redor dele.
Noah a via.
Uma sombra espessa, viva, que se arrastava às costas de Christopher. Era algo que ninguém mais percebia, mas Noah, habituado desde criança a ver o que os outros não viam, a sentia crescer a cada dia. Aquilo o inquietava, mais do que medo, havia curiosidade. Por que aquele homem carregava trevas tão densas? Que dor era essa que o acompanhava? Tudo que dizia respeito a Christopher era, para Noah, motivo de fascínio.
E então, veio a noite da tempestade.
A chuva caía como chicotes sobre os telhados, açoitando a vila com fúria repentina. Noah, que terminava os últimos afazeres da tarde, foi surpreendido pela tormenta e chegou à fazenda completamente encharcado. Abigail já dormia. Christopher, ao vê-lo, o conduziu silenciosamente até o celeiro, onde poderia se abrigar até que o temporal cedesse. Imaginava que passaria rápido, como tantas outras vezes.
Lá dentro, entre os fardos de feno e o sussurrar inquieto do vento entre as frestas, os dois se isolaram do mundo. Noah acendeu uma lamparina, lançando sombras tremeluzentes nas paredes de madeira. Christopher ajeitou alguns fardos, empilhando-os num canto seco.
— Está tudo arrumado — disse ele, oferecendo um meio sorriso. — Se quiser dormir aqui, não será problema.
— Não vai ficar? — perguntou Noah, virando-se para ele. A voz trêmula traiu o que seu coração tentava esconder.
— Minha esposa me espera — respondeu Christopher, com uma calma estudada.
— Minha mãe também — retrucou Noah. — Minha casa é logo ali. A chuva não me assusta.
— A minha também é perto, mas mesmo assim fiz questão de te acomodar — disse Christopher, sem encará-lo.
Noah respirou fundo, reuniu coragem e se aproximou até ficar frente a frente com ele, algo que nunca ousara fazer antes. Seu coração batia forte, como se quisesse fugir do peito.
— Eu me importo com meu único funcionário — disse Christopher, enfim levantando os olhos. — Está frio lá fora. Não quero que adoeça.
Passou a mão pelos cabelos úmidos de Noah, num gesto breve, quase protetor.
— E eu me importo com meu único patrão — replicou Noah, tentando sorrir. — Mas está tudo bem. Eu espero aqui. Se é isso que te preocupa tanto.
Abaixou a cabeça. O toque de Christopher ainda queimava em seus fios como um sinal aceso, e todos os pelos de seu corpo estavam arrepiados.
O silêncio se estendeu por alguns segundos.
— Você quer que eu fique? — perguntou Christopher, a voz mais baixa agora, quase um sussurro.
Noah não respondeu. Apenas levantou o rosto e o encarou diretamente. Olho no olho. Não precisava dizer nada. Seu olhar gritava: “Eu preciso do seu calor... agora.”
Christopher ergueu a mão devagar e tocou o rosto de Noah, pele contra pele, maciez contra calo. Sentiu um arrepio que subiu pela espinha e fechou os olhos, sem conseguir evitar. Foi o bastante para que Noah se aproximasse ainda mais, colando seus corpos num gesto silencioso, inevitável.
A distância entre eles desapareceu.
E então, os lábios se encontraram.
Foi um beijo quente, urgente. Um beijo que desafiava o mundo. As roupas logo caíram ao chão, esquecidas entre suspiros e mãos apressadas. O feno virou leito improvisado. Os gritos abafados de prazer se misturavam aos sons noturnos do celeiro, entre os cavalos inquietos e a chuva que tamborilava lá fora.
Noah finalmente sentia aquilo que sempre desejara em silêncio: o calor de um homem. De Christopher.
Foi intenso. Foi real. Foi proibido. Quase mágico.
Mas a magia, como todas, veio com um fim.
Quando tudo terminou, o silêncio caiu sobre eles como um lençol pesado. Christopher se sentou, ainda despido, encarando o vazio.
— Isso não pode acontecer de novo — murmurou, como se falasse para si mesmo. — Eu... sou um covarde. Não posso abandonar minha família. E você merece algo que eu jamais poderei dar.
Noah tentou protestar, balbuciando palavras que nunca se completaram. Mas a decisão já estava firmemente cravada no olhar do mais velho. Christopher se aproximou e o beijou uma última vez. Um beijo carregado de culpa, mas também de uma verdade silenciosa e inevitável.
Depois, o mandou embora, sob a chuva, com o coração partido e os passos pesados.
Os dias que se seguiram foram nublados dentro e fora de Noah. Não comia. Não dormia. Andava como quem perdeu parte da alma. Ainda assim, era forçado a continuar trabalhando, agora ao lado de um homem que já havia sido seu por uma noite, mas que todas as manhãs voltava para os braços de outra. De sua esposa. De sua vida.
E foi então que Noah percebeu.
As sombras que antes via se arrastando ao redor de Christopher agora estavam também em si. Cresciam por dentro, como ervas negras em carne viva. E sussurravam. Vozes que nenhum outro ouvia, segredos desfiados como fiapos de fumaça:
— Se você levar o que está morto, mas não amaldiçoado, até a encruzilhada da floresta... e chamar por ela... ela virá — diziam. — A terceira das sete. Mas cuidado, menino. Ela sempre cobra o preço justo.
Naquela noite, tomado por um desespero febril, Noah roubou três cordeiros da fazenda da mãe. Suas mãos tremiam quando cravou a lâmina. Tremiam por culpa, sabia que aqueles animais fariam falta, e por medo: nunca havia tirado uma vida antes. Esse papel sempre coubera à sua mãe.
Com os corpos ensanguentados embrulhados em panos, adentrou o bosque retorcido sob o luar pálido, até a velha encruzilhada onde quatro caminhos se cruzavam em meio à mata que parecia viva, suspirando com o vento.
Ali, traçou um círculo de sal grosso. Colocou os animais no centro. E chamou:
— Eu quero Christopher. Quero o amor dele. Quero que ele me escolha. Faça isso... e dou o que for preciso.
O mundo silenciou. A bruma se ergueu do chão como um véu encantado. O tempo pareceu parar, o ar, pesado como chumbo.
Então ela apareceu.
Não era exatamente uma mulher. Era uma figura envolta em véus negros, o rosto oculto por sombras densas, os olhos vazios como buracos no tecido do mundo. Sua voz não saiu de uma boca, mas de todos os cantos do espaço ao redor, como se o próprio bosque sussurrasse:
— Amor não pode ser forçado, criança. Mas pode ser... inclinado. Uma maré também se move por influência da lua.
— E o que você quer em troca?
Veio o silêncio. E ele doeu mais do que qualquer resposta.
— Você. Em vinte anos. No vigésimo ciclo após esta noite, você será meu. Recolhido ao mundo de Solfernum, onde os lamentos não conhecem fim.
Noah hesitou. O nome soava como um eco vindo de um lugar sem luz.
— E ele? Christopher?
A criatura pareceu se inclinar sem se mover.
— Se desejar, posso arrastá-lo contigo. Então o amor será eterno. Mas a dor... também.
Noah fechou os olhos, com a respiração suspensa.
E aceitou.
Na manhã seguinte, Christopher bateu à porta da casa de Noah. Havia algo de errado em seu semblante, um torvelinho de confusão e angústia, como se fosse prisioneiro de um sentimento que não sabia nomear.
Elizabeth o recebeu com gentileza e surpresa. Ofereceu-lhe chá, que ele recusou com educação, e apontou a direção do estábulo, onde Noah cuidava dos animais após um suposto “roubo” ocorrido na noite anterior.
Sem dizer mais nada, Christopher foi até lá.
— Eu... eu não consigo parar de pensar em você — disse, assim que encontrou Noah. — Há algo diferente. Como se... como se uma parede tivesse caído dentro de mim. Eu ainda não quero perder minha família, nunca quis, mas, no fundo, sinto que você faz parte dela.
Noah, tomado por um turbilhão de emoções, chorou silenciosamente. Tocou o rosto de Christopher com mãos trêmulas. A culpa ainda sussurrava em seu ouvido, mas ele a abafava com a alegria crua daquele momento.
— Como eu poderia fazer parte da sua família, Chris? Eu... eu sou só o que sobra.
— Não — disse Christopher, sem hesitar. — Você é a parte mais importante. A parte escondida do meu coração. Aquela que nunca pude mostrar. Meu desejo. Meu segredo. Eu pensei muito... e percebi que não posso abrir mão daquilo que meu corpo e minha alma já escolheram. Mesmo com riscos. Eu... não aguento mais viver sem o seu calor.
E assim, entregaram-se um ao outro novamente. Por semanas viveram em segredo, encontros sob árvores encharcadas, à beira do lago, em cabanas esquecidas, entre os ecos do mundo que não os aceitaria. O amor florescia, mesmo em solo amaldiçoado.
Mas algo estava errado.
Christopher começou a ter pesadelos. Sonhos pesados, onde sombras o observavam por trás das portas. Vultos o seguiam pelas estradas. O leite da fazenda azedava ainda fresco. Seu filho, Thomas, adoeceu de forma repentina. Abigail chorava dia e noite, à beira de um colapso.
A desordem invadiu sua casa como uma praga silenciosa e, ironicamente, foi isso que o fez se aproximar ainda mais de Noah. Uma fuga dentro da própria condenação.
Numa dessas noites, após o ato, enquanto repousavam nus sobre o feno do celeiro, Christopher murmurou:
— Por que minha vida está desmoronando? — perguntou, o olhar perdido no teto de madeira. — Isso... isso não é normal. Você parece ser a única coisa que ainda me dá luz.
Ele se calou por um instante. Lágrimas começaram a escorrer, lentas.
— Os médicos disseram que Thomas talvez não sobreviva a essa gripe…
Noah sentiu o peso daquelas palavras como se o ar lhe fosse arrancado. A culpa, que antes silenciara, agora gritava.
Caiu de joelhos.
— Eu... eu preciso te contar. Tudo.
E contou.
Falou da bruxa. Do círculo de sal. Dos cordeiros mortos. Do pacto. Do nome maldito de Solfernum.
Chorou como uma criança nos braços do homem que amava. Sentia que ia perdê-lo de qualquer jeito, mas não suportava mais ser a fonte de todas as desgraças.
Christopher empalideceu, os olhos arregalados em horror.
— Você... você vendeu a sua alma? A nossa? Por mim?
Levantou-se com um sobressalto, afastando-se como se Noah fosse feito de fogo.
— Você tem noção do que fez?! Meu filho está morrendo... e agora tudo faz sentido. Tudo! Eles estavam certos. Isso... isso que a gente faz... é pecado!
— Eu não podia te perder!
Christopher gritou. Chorou. Xingou os céus e se amaldiçoou por dentro. Mas não foi embora.
Ficou ali.
Porque já não sabia mais aonde pertencia.
Porque perder Noah agora seria o mesmo que se perder completamente.
Vinte anos se passaram.
A vila de Greystone era agora apenas um sussurro entre as árvores. Muitos partiram. Outros definharam lentamente, como flores esquecidas sob o frio. A fazenda Thorne jazia em ruínas, engolida por trepadeiras secas e silêncios densos. O solo da vila apodrecera. Nada mais florescia ali, nem planta, nem esperança.
Elizabeth, a mãe de Noah, morreu um ano após o pacto. Seu coração simplesmente parou. Alguns diziam que foi tristeza. Outros, que ela sentiu o peso de algo que não sabia nomear.
Thomas, o filho de Christopher, não resistiu à gripe e morreu dois meses depois, nos braços da mãe. Abigail suportou mais dois anos de um lar em ruínas, entre brigas e silêncios amargos, até o dia em que flagrou o marido com Noah... na cama onde seu filho antes dormia.
Ela não disse nada. Apenas partiu.
Nunca mais foi vista, nem por familiares, nem por fantasmas.
Na encruzilhada onde tudo começou, Noah e Christopher se encontraram mais uma vez. Era como se aquele lugar tivesse sido esculpido para o fim, um altar de pedra, lama e lembranças.
E, mesmo com tudo que perderam, eles ainda tinham um ao outro.
Amavam-se como no primeiro dia. Como naquele celeiro esquecido. Uma chama persistente, que o tempo, a dor e a morte não conseguiram apagar.
Noah agora tinha trinta e nove anos. Christopher, quarenta e cinco. Ambos estavam envelhecidos, como era de se esperar em tempos tão duros, mas os olhos ainda se buscavam com a mesma fome, a mesma ternura.
E então, ela veio.
Pontual.
A bruxa surgiu envolta em véus negros, como uma rachadura no próprio tecido do mundo. A bruma se curvou ao seu redor. Os corvos silenciaram.
— O tempo terminou — sussurrou, com uma voz que não saía de uma boca.
Christopher apertou a mão de Noah.
— Leve-nos. Juntos.
Mas a bruxa riu. Um som seco, como vidro estilhaçado.
— Apenas um pode vir de boa vontade. O outro... deve ser colhido.
Foi então que a terra abriu a boca.
Garras negras emergiram, famintas. Agarraram Christopher pelos tornozelos, pelo peito, pelos braços. Ele gritou. O grito de um homem arrancado de tudo que ama. Um estalo ecoou, seco, cruel.
O sangue se misturou à lama.
Noah caiu de joelhos, em desespero.
— Você prometeu! Disse que estaríamos juntos!
A silhueta se inclinou, como se sorrisse por trás do véu.
— Prometi o amor dele. E ele te amou. Prometi vinte anos. E você os teve. Agora... é minha vez.
O mundo escureceu. O céu apagou-se como uma vela. O ar tornou-se denso, pesado, um odor de ferrugem, carne e enxofre se espalhou.
E então veio a névoa.
Solfernum.
Um lugar onde as ruas não levavam a lugar algum, feitas de pedra quebrada e angústia. Criaturas vagavam sem olhos, chorando sons que não eram humanos. Espelhos pendiam das árvores, mostrando dores esquecidas, culpas escondidas, momentos que nunca mais voltariam.
Ali, Noah viveria.
Para sempre.
Com as memórias do amor que teve, e o preço que pagou.
E com o tempo, mesmo essas lembranças começaram a se apagar. A sombra o consumiu. A pele perdeu cor. A voz perdeu forma. Ele deixou de ser homem.
Tornou-se criatura.
Um ser sem nome, incapaz de criar suas próprias emoções. E, como um faminto eterno, precisava se alimentar dos sentimentos dos outros.
Dor. Medo. Amor. Culpa.
Tudo aquilo que ainda ardia nos vivos.
Tudo aquilo que ele, um dia, sentiu por Christopher.
E jamais sentirá outra vez.
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