O Herdeiro que Queria Destruir Minha Vida
1 CAPÍTULO 01
Notas iniciais
A oficina já estava fechando quando Maíra percebeu que tinha graxa no rosto outra vez. Ela descobriu porque o menino do delivery ficou olhando estranho. Passou a mão na bochecha esquerda, olhou os dedos sujos e soltou um “ah...” cansado, apoiando o quadril no balcão da recepção. O ventilador velho girava acima dela fazendo mais barulho do que vento. Lá fora, o céu de Manaus ameaçava chuva desde cedo. Aquelas nuvens pesadas, quase roxas, deixavam tudo com cara de fim de tarde mesmo ainda sendo quatro horas.
— Maíra! — Diguinho apareceu embaixo de um carro levantado no elevador — A mulher da Hilux branca perguntou se pode parcelar.
— Quantas vezes?
— Cinco.
Ela fechou os olhos por dois segundos. Cinco. Claro que cinco. Todo mundo queria parcelar. Todo mundo queria desconto. Todo mundo dizia: “depois eu volto”. E quase ninguém voltava. Maíra puxou a calculadora do balcão e começou a apertar os botões com força demais.
— Diz que em três dá.
— E se ela insistir?
— Tu insiste de volta.
Diguinho riu pelo nariz.
— Tu tá estressada hoje.
— Hoje?
Ele ficou quieto. Porque realmente não era só hoje. A oficina inteira parecia cansada há meses. O letreiro azul de:
ANDRADE AUTO CENTER
já estava torto fazia quase um ano. Tinha infiltração no escritório. O compressor fazia um barulho estranho. E agora o dono do terreno queria aumentar o aluguel outra vez. Ela puxou uma pasta cheia de papéis do balcão. Boletos. Mais boletos. Uma vontade enorme de simplesmente deitar no chão da oficina e fingir morte passou pela cabeça dela por uns segundos. O celular vibrou. “Mãe”. Maíra atendeu no terceiro toque.
— Oi.
— Tu vai passar no mercado?
Ela olhou a carteira aberta ao lado do teclado do computador. Tinha: duas notas de dez, uma de cinco, e moedas.
— Vou.
Mentiu tão rápido que nem pareceu mentira.
— Traz café também, filha. Teu tio veio pra cá.
Claro. Óbvio. Porque as desgraças nunca vêm sozinhas.
— Tá bom.
Desligou. Ficou olhando a tela apagada do celular por alguns segundos. Depois respirou fundo.
— Digui.
— Hm?
— Se aparecer mais alguém querendo parcelar em quinze vezes eu vou entrar no rio Negro e nunca mais voltar.
— Dramática.
— Realista.
O som de um carro parando em frente à oficina fez os dois olharem automaticamente. Não era cliente comum. Dava pra perceber de longe. SUV preta. Vidro escuro. Limpa demais para aquele ramal cheio de lama. Maíra franziu levemente a testa. A porta do carro abriu. Sapato social. Depois o resto dele. Alto. Camisa preta dobrada até os antebraços. Relógio caro. Postura reta demais pra alguém entrando numa oficina cheia de óleo. Ele olhou em volta como quem tava analisando o lugar inteiro. Não com nojo. Pior. Com cálculo. Maíra já conhecia aquele tipo de homem. Os que entram em lugar simples parecendo estar avaliando quanto custaria demolir tudo. Ela cruzou os braços.
— Posso ajudar?
Os olhos dele finalmente pararam nela. Verdes. Cansados. Mas frios. O homem caminhou devagar até o balcão. Nem parecia ouvir o som das ferramentas ao redor.
— Você é Maíra Andrade?
Ela odiou o jeito que ele falou o nome dela. Como se já soubesse muita coisa.
— Depende.
— Depende?
— De quem tá perguntando.
O canto da boca dele mexeu quase formando um sorriso. Quase.
— Caio Valença.
Ela não reconheceu o nome. Mas Diguinho reconheceu. Porque imediatamente saiu debaixo do carro batendo a cabeça no elevador.
— Ai, caralho—
Maíra olhou assustada pra ele. Diguinho apareceu segurando a cabeça.
— O filho do Valença?
Silêncio. O homem apenas desviou os olhos pra Diguinho. Aquilo bastou como resposta. E alguma coisa no estômago de Maíra afundou. Porque ela conhecia esse sobrenome. Todo mundo naquela área conhecia. Construtora Valença. Gente rica. Gente que comprava terreno velho. Derrubava tudo. E levantava prédio em cima. Ela descruzou os braços devagar.
— O que você quer aqui?
Caio colocou uma pasta fina sobre o balcão. Organizada. Sem uma folha torta. O oposto da vida dela.
— Conversar sobre o terreno da oficina.
O ventilador continuava girando acima deles. Nhéc. Nhéc. Nhéc. Maíra sentiu o corpo inteiro esfriar mesmo com o calor.
— Que terreno?
— Este.
Ele respondeu simples demais. Como se fosse óbvio. Como se já fosse dele. Ela riu sem humor.
— Não tá à venda.
— Eu não vim perguntar isso.
A oficina inteira pareceu silenciosa de repente. Até os mecânicos diminuíram o barulho. Maíra apoiou as mãos no balcão.
— Escuta aqui, playboy—
— Maíra. — Diguinho murmurou baixo.
Ela ignorou.
— Se teu pai quer derrubar isso aqui pra construir prédio, shopping, condomínio ou sei lá o quê, manda ele procurar outro lugar.
Caio nem piscou. Isso irritou mais ainda. Homem calmo demais durante briga era uma coisa que tirava ela do sério.
— Não trabalho pro meu pai.
— Problema teu.
— E o terreno vai ser vendido.
Ela deu uma risada curta. Daquelas sem alegria nenhuma.
— Vai?
— Vai.
— Por cima do meu cadáver.
Os olhos dele desceram rapidamente até as mãos dela apoiadas no balcão. Cheias de graxa. Unhas curtas. Um pequeno corte perto do polegar. Depois voltaram pro rosto dela.
— Não precisa chegar nisso.
— Engraçado. Geralmente gente rica fala isso antes de ferrar a vida dos outros.
Diguinho fechou os olhos devagar. Porque Maíra daquele jeito era igual cachorro avançando em moto. Não tinha freio. Caio puxou um envelope da pasta. Deslizou até ela.
— Lê isso primeiro.
Ela pegou o papel com força. Abriu. Leu. E o coração dela afundou tão rápido que chegou a doer. Porque no topo da folha tava escrito:
NOTIFICAÇÃO DE DESPEJO.
E pela primeira vez desde que aquele homem entrou ali… Caio viu Maíra perder a expressão debochada. Só por um segundo. Mas viu.
O papel tremia na mão de Maíra. Ela percebeu isso antes de qualquer outra pessoa. Então apertou os dedos com mais força. Não ia deixar aquele homem perceber nervosismo. Nem morta. O ventilador velho continuava fazendo: nhéc. nhéc. nhéc. Como se estivesse debochando dela também.
— Isso é piada. — a voz dela saiu mais baixa do que queria.
Caio manteve a mesma expressão irritantemente calma.
— Não.
Ela releu o papel. Depois releu de novo. As letras não mudaram. A oficina realmente podia ser despejada.
— O terreno tá no nome do meu avô faz mais de vinte anos.
— Estava.
Aquilo bateu errado. Estava. Não está. Estava. Maíra ergueu os olhos devagar.
— O que você fez?
— Eu comprei a dívida.
Silêncio. Até Diguinho ficou quieto. Caio abriu outra folha da pasta. Tudo organizado. Separado. Perfeito. Ela odiava aquilo.
— Seu avô atrasou pagamentos do terreno durante anos. O antigo proprietário colocou em processo judicial há seis meses.
— Meu avô morreu há quatro.
— Eu sei.
O “eu sei” saiu baixo. Sem arrogância dessa vez. Mas Maíra tava irritada demais pra perceber. Ela jogou os papéis no balcão.
— Então você comprou a dívida de propósito.
— Sim.
— Pra expulsar a gente.
— Não exatamente.
— Ah, desculpa. — ela abriu os braços — Vai transformar isso aqui num parque aquático?
Diguinho prendeu a risada. Caio olhou pra ele. A risada morreu imediatamente. Que homem assustador do caralho. Maíra puxou os papéis outra vez. Tentou entender aqueles termos jurídicos infernais. Parecia que tava lendo outro idioma.
— Isso tá errado.
— Não está.
— Eu vou procurar advogado.
— Pode procurar.
Ela levantou os olhos rápido. Odiava a segurança na voz dele. Odiava gente que parecia sempre estar dez passos na frente.
— Você se acha muito esperto, né?
— Não.
— Parece.
Ele apoiou uma das mãos no balcão. A manga da camisa subiu um pouco mais no antebraço. Relógio caro. Veias aparentes. Uma pequena cicatriz perto do punho. Detalhes idiotas. Mas o cérebro dela guardou mesmo assim.
— Eu vim aqui antes porque prefiro resolver isso conversando.
— Conversando?
Ela soltou uma risada desacreditada.
— Você chega aqui com ordem de despejo e chama isso de conversa?
Caio sustentou o olhar dela sem desviar. E aquilo irritava. Porque Maíra tinha a sensação horrível de que ele enxergava quando ela tava desesperada. Mesmo tentando esconder.
— Quanto tempo? — ela perguntou.
— Trinta dias.
Diguinho soltou:
— Puta merda…
Ela fechou os olhos. Trinta dias. Como alguém salva uma oficina inteira em trinta dias? Pagava funcionários como? Comprava peças como? Arranjava outro lugar COMO? Ela respirou fundo pelo nariz. Não ia chorar. Não na frente dele. Nem ferrando.
— Tá satisfeito agora?
Caio franziu minimamente a testa.
— Com o quê?
— Com isso tudo.
Ela apontou em volta.
— Gente rica adora fazer esse tipo de coisa, né? Entrar na vida dos outros igual trator.
— Você fala como se me conhecesse.
— E você fala como se entendesse alguma coisa daqui.
Os dois ficaram se encarando. A oficina parecia pequena demais de repente. Quente demais. Diguinho olhava de um pro outro igual quem assiste partida de tênis.
— Eu entendo mais do que você imagina.
A frase saiu baixa. Sincera até. Mas Maíra tava ocupada demais odiando ele.
— Ah, claro. — ela pegou os papéis e empurrou de volta — Então entende isso aqui também:
Ela apontou pra oficina inteira.
— Esse lugar não é só parede velha e elevador quebrado.
O olhar dela começou a mudar enquanto falava. Mais sério. Mais perigoso.
— Tem gente aqui que depende disso.
Tem homem pagando pensão. Tem mecânico sustentando filho. Tem cliente que parcela conserto porque precisa do carro pra trabalhar. Ela chegou mais perto do balcão sem perceber.
— Então não vem aqui fingir que tá fazendo favor.
Caio permaneceu imóvel. Mas alguma coisa no olhar dele mudou rápido demais pra ela perceber direito.
— Você acha que eu não sei disso?
— Sei lá o que você sabe.
— Eu cresci em oficina.
Ela riu na hora.
Automática. Sem acreditar.
— Tá bom.
— É verdade.
— E eu sou princesa da Inglaterra.
Diguinho tossiu tentando esconder outra risada. Caio pegou a pasta devagar. Organizou as folhas. Tudo milimetricamente alinhado. Aquilo irritava num nível pessoal.
— Amanhã eu volto.
— Não precisa.
— Precisa.
Ela cruzou os braços.
— Pra quê?
Os olhos verdes encontraram os dela outra vez. Firmes. Cansados.
— Porque você ainda não ouviu a proposta inteira.
Maíra sentiu um arrepio estranho subir pela nuca. E não gostou nem um pouco disso.
— Que proposta?
Mas ele já tava andando em direção à saída.
— Amanhã. Oito da manhã.
A porta da oficina abriu. O vento de chuva entrou junto. E antes de entrar no carro preto, Caio olhou pra trás só uma vez.
— E tenta ler o contrato inteiro antes de me xingar de novo.
A SUV foi embora levantando lama. Silêncio. Longo. Diguinho foi o primeiro a falar:
— Tu percebeu que tu chamou um milionário de playboy umas quatro vezes?
Maíra continuou olhando a rua vazia.
— Cinco.
— Tu tá ferrada.
— Eu sei.
Ela baixou os olhos pro papel outra vez. NOTIFICAÇÃO DE DESPEJO. As letras continuavam iguais. Mas agora uma coisa incomodava mais que o resto. “Porque você ainda não ouviu a proposta inteira.” Aquilo tinha cara de problema. E pela primeira vez desde que conheceu Caio Valença… Maíra teve a sensação horrível de que a vida dela tava prestes a piorar muito.

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