O Herdeiro que Queria Destruir Minha Vida
10 CAPÍTULO 10
Notas iniciais
O tipo de silêncio que muda tudo
Maíra ficou parada no meio da cozinha sem conseguir responder. Porque ninguém nunca falava coisas daquele tipo pra ela. As pessoas normalmente precisavam dela. Dependiam dela. Pediam coisas dela. Mas Caio… Caio olhava como se ela fosse abrigo. E aquilo era assustador. Muito. O relógio da cozinha fazia um tic-tac irritantemente alto no silêncio. Lá fora, algum cachorro latiu. Uma moto passou longe. Manaus continuava viva. Mas dentro daquela cozinha pequena… o mundo parecia parado. Caio ainda observava ela daquele jeito calmo. Honesto demais. Sem máscara. Ela odiava o efeito que aquilo tinha nela.
— Tu precisa parar de falar assim comigo.
A voz saiu mais baixa do que ela queria. Os olhos dele não desviaram.
— Assim como?
— Como se eu fosse…
Ela parou. Porque nem sabia terminar a frase. Importante? Segura? Casa? Perigoso demais pensar nisso. Caio aproximou-se devagar. Sem pressão. Sem jogo. Só perto.
— Como se você fosse o quê?
Droga. Ela cruzou os braços imediatamente. Defesa automática.
— Tu pergunta coisa demais.
— E você foge demais.
O silêncio caiu outra vez. Só que agora… mais quente. Mais íntimo. Ela conseguia sentir o cheiro dele outra vez. A proximidade. O calor. Aquilo devia ser crime.
— Tu vai dormir onde? — perguntou rápido mudando de assunto.
— Onde você mandar.
— Isso soa muito errado fora de contexto.
O canto da boca dele subiu minimamente. Pequeno. Mas real. Ela odiava o quanto tava começando a gostar daquele quase sorriso.
— O sofá é pequeno.
— Eu sobrevivo.
— Tu claramente nunca dormiu num sofá ruim.
— Você ficaria surpresa.
Ela ergueu levemente a sobrancelha.
— Homem rico sofre agora?
— Mais do que devia.
Aquilo saiu brincando. Mas não totalmente. E ela percebeu. Claro que percebeu. Porque agora já sabia ler as rachaduras dele. Grande erro. Muito grande. A mãe dela apareceu no corredor exatamente nesse momento. Cabelo bagunçado. Cara de sono. E zero surpresa ao ver Caio ali. Isso preocupou Maíra profundamente.
— Ah. — a mãe murmurou calmamente — O rico dorme aqui hoje?
— MÃE.
— O quê? Tô perguntando.
Caio abaixou o rosto imediatamente. Escondendo outro sorriso. Traidor. A mãe dela apontou pro sofá.
— Tem coberta no armário. E se vocês forem namorar de madrugada façam silêncio porque eu acordo fácil.
— A GENTE NÃO TÁ NAMORANDO.
— Ainda. — ela respondeu já voltando pro quarto.
Silêncio. Longo. Caio claramente segurava a risada agora. Maíra apontou o dedo pra ele imediatamente.
— Tu ri e eu te jogo pra fora.
— Eu não falei nada.
— Mas pensou.
— Pensei.
Insuportável. Ela bufou baixo e abriu o armário pegando uma coberta velha. Jogou na direção dele. Caio segurou no ar facilmente. Tudo nele era irritantemente coordenado.
— Obrigado.
— Não acostuma.
Ele observou ela por alguns segundos em silêncio. Depois perguntou baixo:
— Você sempre cuida assim das pessoas?
Aquilo pegou ela desprevenida. Porque pra ela aquilo nem parecia cuidado. Parecia normal. Óbvio. Ela deu de ombros.
— Alguém tem que cuidar.
Os olhos dele mudaram na hora. Suavizaram. Droga.
— E quem cuida de você?
Silêncio. O peito dela apertou imediatamente. Porque a resposta era simples. Ninguém. Ela desviou os olhos rápido demais.
— Isso foi golpe baixo.
— Foi pergunta sincera.
— Piorou.
Caio largou a coberta no sofá devagar. Depois aproximou-se outra vez. Lento. Cuidadoso. Como se estivesse aprendendo ela aos poucos.
— Você faz isso o tempo inteiro.
— Isso o quê?
— Age como se carregar tudo sozinha fosse normal.
Ela abriu a boca pra responder. Mas nada saiu. Porque ninguém nunca tinha percebido aquilo em voz alta antes. O silêncio ficou pesado. Emocional demais. Perigoso demais. Então Caio ergueu a mão devagar. E dessa vez ela não se afastou quando os dedos tocaram o rosto dela. Erro colossal. Mas não conseguiu. A mão dele deslizou devagar pela bochecha dela. Gentil. Quente. Cuidadosa demais. O coração dela bateu errado imediatamente.
— Tu precisa parar com isso.
A voz saiu quase falhando. Os olhos verdes prenderam nela.
— Com o quê?
— Me olhar como se eu fosse…
De novo ela não conseguiu terminar. Porque o problema era exatamente esse. Ela não sabia o que tava virando pra ele. E isso assustava. Muito. Caio aproximou-se mais um pouco. Perto o suficiente pra ela sentir a respiração dele outra vez.
— Você quer que eu pare?
Silêncio. Longo. Perigoso. Porque a resposta certa era sim. Obviamente sim. Mas o corpo inteiro dela já tava cansado de fingir que não queria aquilo. Ela observou os olhos dele. A boca dele. A forma como ele esperava ela decidir. E percebeu uma coisa horrível: Caio sempre dava chance pra ela fugir. E ela nunca fugia.
O começo da queda
Maíra odiava o jeito que o coração dela reagia perto dele agora. Porque não era mais só nervosismo. Era pior. Muito pior. Era expectativa. Ela ainda sentia a mão de Caio no rosto dela. Quente. Cuidadosa. Como se ele realmente tivesse medo de machucar ela. Aquilo destruía completamente a capacidade dela de pensar direito. Os dois estavam perto demais outra vez. Na cozinha pequena. No silêncio da madrugada. Com a luz amarelada deixando tudo mais íntimo do que deveria. Perigoso. Muito.
— Tu continua fazendo essa cara. — ela murmurou tentando manter algum controle.
Os olhos verdes não desviaram dela.
— Que cara?
— Como se tivesse prestes a fazer alguma coisa impulsiva.
O canto da boca dele subiu minimamente.
— Talvez eu esteja.
Droga. Ela deveria se afastar. Devia mesmo. Mas continuava parada ali como idiota. Porque o problema era que perto de Caio… ela começava a esquecer o cansaço. As dívidas. A oficina. O medo. E isso era viciante.
— Isso vai dar muito errado. — ela falou baixo.
— Provavelmente.
— Tu fala “provavelmente” pra tudo.
— É meu jeito otimista.
Ela soltou uma risada pequena pelo nariz. E foi exatamente aí que Caio perdeu o pouco autocontrole que ainda tinha. Porque no segundo em que ela riu… ele beijou ela outra vez. Mais rápido dessa vez. Menos cuidadoso. Como alguém que tentou segurar por tempo demais. A mão dele deslizou pra cintura dela imediatamente. Puxando ela mais pra perto. E Maíra odiou o fato do corpo dela responder na mesma hora. As mãos agarraram a camisa dele sem pensar. O coração entrou em colapso outra vez. E o beijo ficou mais intenso rápido demais. Perigoso. Muito perigoso. Caio beijava como homem faminto. Mas diferente da primeira vez… agora parecia que ele tava esquecendo de manter controle. E isso mexeu com ela num nível absurdo. Porque pela primeira vez… ela percebeu que afetava ele de verdade também. Não era só atração. Nem só contrato. Nem carência momentânea. Tinha alguma coisa crescendo ali. Alguma coisa que nenhum dos dois tava sabendo parar. Quando se afastaram outra vez… os dois estavam respirando errado. Muito perto ainda. Muito envolvidos ainda. A testa dele encostou levemente na dela por um segundo. E aquilo foi absurdamente íntimo.
— Isso definitivamente não parece mais contrato. — Maíra sussurrou.
Caio soltou um pequeno riso sem humor. Baixo. Rouco.
— Acho que a gente perdeu essa parte faz tempo.
Ela fechou os olhos rapidamente. Porque ouvir aquilo em voz alta assustava. Muito.
— Tu percebe que isso pode destruir minha vida completamente, né?
A voz saiu baixa agora. Mais vulnerável. Caio afastou só o suficiente pra olhar direito pra ela. Sério outra vez.
— Eu sei.
— E mesmo assim continua.
Silêncio. Longo. Honesto. Então ele respondeu:
— Porque quando eu tô contigo…
é a primeira vez em muito tempo que eu não me sinto preso. Aquilo entrou direto no peito dela. Forte demais. Porque ninguém nunca tinha falado algo assim sobre ela antes. Nunca. Ela ficou olhando pra ele em silêncio. E percebeu o momento exato em que aconteceu. O momento exato em que deixou de ser só atração. Porque agora… ela tava começando a se apaixonar. E isso era a coisa mais perigosa que já tinha acontecido com ela.
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