O Herdeiro que Queria Destruir Minha Vida
9 CAPÍTULO 09
Notas iniciais
O nome dela na boca da família dele
Maíra ficou olhando pra Caio sem conseguir responder imediatamente. Porque alguma coisa naquela frase entrou fundo demais.
“Eles querem saber por que eu tô protegendo você.”
Protegendo. Não usando. Não fingindo. Não negociando. Protegendo. Aquilo era perigoso num nível absurdo. O corredor do hospital parecia pequeno agora. Mais fechado. Mais quente. Caio ainda segurava o celular com força demais. A mandíbula travada. O olhar distante por alguns segundos. Como alguém tentando decidir quantos problemas contar de uma vez.
— O que tua família pensa que eu sou? — Maíra perguntou finalmente.
Os olhos verdes voltaram pra ela. Cansados.
— Uma ameaça.
Ela soltou uma risada curta.
— Meu Deus. Eu literalmente vendo peça de carro e discuto preço de amortecedor.
— Você não entende minha família.
— Ainda bem.
Silêncio. Caio apoiou a cabeça rapidamente na parede atrás dele. Fechou os olhos por um segundo. E pela primeira vez desde que ela conheceu ele… pareceu genuinamente preocupado. Não irritado. Não controlado. Preocupado. Aquilo apertou alguma coisa dentro dela imediatamente.
— Ei.
Ele abriu os olhos devagar. Ela odiava o fato de já estar aprendendo a ler as expressões dele.
— Eles fariam alguma coisa comigo?
A pergunta saiu mais baixa do que ela queria. Mais vulnerável. Caio ficou quieto tempo demais. E isso já foi resposta suficiente. O coração dela afundou.
— Caio.
— Eu não vou deixar.
A voz veio firme. Rápida. Instintiva. Como se ele nem precisasse pensar antes de responder. E isso assustou ela mais ainda. Porque homem nenhum jamais tinha falado daquele jeito sobre ela antes. Como se proteger ela fosse óbvio. Ela desviou os olhos rapidamente. Precisava parar de sentir coisas. Urgente.
— Isso tá ficando muito maior do que eu queria.
— Eu sei.
— Eu só tava tentando salvar minha oficina.
— E eu tava tentando te manter fora disso.
Ela soltou um riso sem humor.
— Tá funcionando super bem.
O canto da boca dele quase subiu. Quase. Mas morreu rápido. Porque o celular dela começou a tocar dessa vez. Número desconhecido. Os dois olharam pra tela. O estômago de Maíra gelou imediatamente. Não sabia por quê. Só sentiu.
— Atende no viva-voz. — Caio falou na hora.
Ela franziu a testa.
— Tu tá paranoico.
— Maíra.
O jeito que ele falou fez ela atender sem discutir.
— Alô?
Silêncio. Depois uma voz masculina. Mais velha. Calma demais.
— Então você é a menina da oficina.
O corpo inteiro dela gelou. Caio ficou imóvel ao lado dela. Frio imediatamente.
— Quem tá falando?
O homem ignorou a pergunta.
— Meu filho sempre teve um gosto curioso pra problemas.
Os olhos de Caio fecharam devagar. Raiva pura.
— Desliga. — ele falou baixo.
Mas Maíra continuou ouvindo. Porque alguma coisa dentro dela ficou irritada instantaneamente.
— Olha aqui—
— Escute com atenção, Maíra Andrade.
A voz continuava calma. Educada até. O que tornava tudo pior.
— Você parece inteligente. Então vou poupar seu tempo.
Silêncio curto. Depois:
— Se afaste do meu filho.
O corredor inteiro pareceu gelar. Maíra sentiu o coração batendo forte demais. Mas junto do medo… veio outra coisa. Raiva. Muita.
— E se eu não quiser?
Silêncio. Caio virou o rosto pra ela imediatamente. Como se não acreditasse que ela realmente respondeu aquilo. Do outro lado da linha, o homem soltou um pequeno riso. Frio.
— Então isso vai machucar você antes de machucar ele.
Aquilo bateu errado. Muito errado. Porque não parecia ameaça vazia. Parecia aviso. Caio pegou o celular da mão dela na hora.
— Não fala com ela de novo.
A voz dele saiu perigosamente baixa. O tipo de voz que faz qualquer pessoa inteligente ir embora.
— Você já perdeu o controle da situação, Caio. — o homem respondeu calmamente — E tudo que perde controle… quebra.
Então desligou. Silêncio. Pesado. Horrível. Maíra ficou imóvel alguns segundos olhando pra tela apagada. Depois levantou os olhos lentamente pra Caio.
— Teu pai é psicopata.
— Eu avisei.
Ela passou a mão no rosto. Tentando organizar o cérebro. Falhando miseravelmente.
— Meu Deus.
Caio observava ela atentamente agora. Como se esperasse que ela surtasse. Ou fugisse. Ou mandasse ele embora. Talvez ele até merecesse isso. Porque aquilo realmente tava ficando perigoso. Muito. Mas o problema? Maíra tava cansada demais pra fugir. E pior:
uma parte dela tava com raiva por ele. Raiva do jeito que aquela família tratava ele. Do jeito que controlavam tudo. Do jeito que transformavam pessoas em peças. Ela cruzou os braços lentamente.
— Então é por isso que tu queria casar comigo.
Caio ficou quieto. Ela continuou:
— Tu queria alguém que tua família nunca conseguiria controlar.
Silêncio. Longo. Depois ele respondeu baixo:
— Sim.
Aquilo bateu forte nela outra vez. Porque pela primeira vez… Maíra percebeu uma coisa assustadora: Caio não escolheu ela só porque precisava. Ele escolheu porque confiava nela.
A escolha
Maíra não voltou pra casa naquela noite. E isso por si só já mostrava o tamanho do problema. Porque qualquer pessoa minimamente inteligente teria: ido embora, bloqueado Caio, protegido a própria vida, fingido que nada daquilo aconteceu. Mas ela tava sentada numa cadeira horrível do hospital às duas da manhã… comendo salgadinho vencido da máquina enquanto Caio dormia torto do outro lado do corredor. Ridículo. Completamente ridículo. Ela observou ele em silêncio. A cabeça apoiada na parede. Camisa social amassada. Olheiras profundas. Cansado. Muito. Pela primeira vez desde que conheceu Caio… ele parecia jovem. Não empresário. Não herdeiro. Não homem que controla tudo. Só um cara exausto tentando impedir a própria vida de desmoronar. Aquilo apertou o peito dela de novo. Desgraça. O celular vibrou no colo dela.
Mensagem de Diguinho:
“o bairro inteiro acha q vcs tão namorando”
Ela respondeu:
“vou matar todo mundo”
Ele mandou:
“inclusive eu shippo”
Traidor do inferno. Ela guardou o celular rapidamente quando viu Caio se mexer. Os olhos verdes abriram devagar. Confusos por dois segundos. Depois encontraram ela imediatamente. Como se procurassem ela antes de qualquer outra coisa. E aquilo foi um problema emocional gigantesco.
— Tu dormiu? — ele perguntou com a voz rouca.
— Um pouco.
Mentira. Caio percebeu. Claro que percebeu. Ele passou a mão no rosto lentamente.
— Você devia ir pra casa.
— E tu?
— Eu fico aqui.
— Sozinha?
Silêncio curto. Depois ele deu de ombros. Aquilo incomodou ela mais do que devia. Porque Caio sempre falava “sozinho” como se fosse normal. Como se estivesse acostumado. Ela levantou da cadeira devagar. As pernas doendo. A cabeça pior ainda.
— Vem comigo.
Os olhos dele subiram imediatamente pra ela.
— O quê?
— Minha casa.
Caio ficou imóvel por um segundo. Claramente tentando entender se ouviu certo.
— Maíra…
— Tu não tá em condição de dirigir.
— E você acha que me levar pra tua casa depois de tudo isso é uma boa ideia?
— Não.
Resposta rápida. Honesta. Ele quase sorriu. Quase.
— Então por que tá oferecendo?
Ela cruzou os braços imediatamente. Defensiva outra vez.
— Porque tu tá com cara de quem vai desmaiar em quinze minutos.
— Romântico.
— Cala a boca.
O silêncio veio rápido depois disso. Mas diferente. Mais íntimo agora. Mais perigoso. Caio levantou devagar da cadeira. Mais alto do que ela lembrava naquele corredor. Os dois ficaram próximos outra vez. E Maíra odiou o jeito que o corpo dela reagiu automaticamente. Idiota. Muito idiota.
— Você tem certeza? — ele perguntou baixo.
Aquilo pegou ela desprevenida. Porque não parecia pergunta sobre dormir na casa dela. Parecia pergunta sobre outra coisa. Sobre eles. Sobre o beijo. Sobre continuar. Ela desviou os olhos primeiro. Covarde.
— Não faz essa cara séria agora porque eu volto atrás.
O canto da boca dele finalmente subiu de verdade. Pequeno. Mas real. E aquilo deu uma sensação estranha no peito dela. Quente. Perigosa. A rua tava silenciosa quando chegaram. Madrugada abafada. Luzes fracas. Cachorros latindo longe. A SUV preta parecia absurda estacionada ali outra vez.
— Tu realmente chama atenção demais. — Maíra murmurou saindo do carro.
— Você reclama de tudo.
— Porque quase tudo em ti é irritante.
Caio saiu do carro devagar. Cansado ainda. Mas mais leve agora. Ela percebeu. E odiou perceber. Antes que chegassem no portão… uma voz surgiu da janela da vizinha:
— MAÍRA?!
Os dois congelaram. A cortina abriu mais.
— DE NOVO ESSE HOMEM?
Meu Deus. Maíra fechou os olhos imediatamente.
— Dona Sônia vai dormir pelo amor de Deus.
— Esse é o namorado rico?!
Caio virou o rosto claramente segurando a risada. TRAIDOR.
— NÃO É MEU NAMORADO.
— Hm. Sei.
A janela fechou. Mas ela sabia. Sabia que em menos de oito horas: a rua inteira, o mercado, a padaria, e provavelmente metade de Manaus, já teria notícia. Ela apontou o dedo pra Caio enquanto abria o portão.
— Se minha vizinha criar fanfic sobre nós dois eu vou te culpar.
— Justo.
Entraram em silêncio. A casa tava escura agora. Calma. Quente. Caio observou tudo outra vez daquele jeito atento. Mas dessa vez parecia diferente. Menos visitante. Mais…
presente. E isso assustou Maíra profundamente. Porque a casa dela começava a parecer confortável pra ele. Ela largou a bolsa na cadeira da cozinha. Virou-se pra falar alguma coisa… mas parou. Porque Caio tava olhando pra ela outra vez daquele jeito. Calmo. Intenso. Perto demais emocionalmente. O tipo de olhar que faz uma pessoa esquecer o próprio nome.
— O quê? — ela perguntou baixo.
Ele demorou um pouco pra responder. Como se estivesse pensando se devia falar. Depois:
— Acho que ninguém nunca ficou do meu lado antes.
Aquilo destruiu ela completamente. Porque saiu sincero demais.
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