O Herdeiro do Titã
17 Um Sol nada amigável nos recebe em Washington
Notas iniciais
– Calma! – eu exclamei. – Você não quer me torrar!
– Não tente me enrolar, Herdeiro de Cronos. – Apolo disse, apontando uma flecha dourada em minha direção. – Posso não ser tão inteligente quanto os outros deuses, mas de forma alguma sou tolo.
É, a nossa chegada em Washington bem que podia ter um comitê de recepção melhor. Ou, pelo menos, um que não incluísse um deus sol irritado.
Depois de deixarmos Eron para trás, continuamos andando até finalmente chegarmos à cidade. Agora, tínhamos que pensar em nosso próximo passo.
– Não devíamos ir direto ao Monumento Washington? – eu propus.
– Pode até ser. – disse Annabeth. – Mas tem algo faltando.
Eu a encarei confuso.
– Fala da profecia? – perguntou Jason.
– É. Até agora, uma boa parte da profecia se cumpriu. “O Herdeiro do Titã será encontrado, por seus inimigos e aliados”. David é um Herdeiro de Titã, nós somos os aliados, e o inimigo também já o encontrou.
– A parte seguinte falava sobre quais semideuses estariam envolvidos. – lembrou Piper. – “Mar, Fogo, Céu, Sol, Sabedoria e Amor hão de lutar”.
– O que eu não entendo é sobre essa “flecha de Apolo”. – Annabeth continuou. – Deve ser algo importante, já que foi citada na profecia.
– Sem contar que está ligada com a morte de um de nós. – completou Percy, lembrando do aviso de Nico. – Lucy, você tem alguma ideia do que possa ser?
Lucy pensou por alguns segundos. Como ela conseguia ser tão graçinha, mesmo em uma situação assim? Me forçei a parar de olhar os olhos dela, ou não iria mais prestar atenção em nada.
– Não. – Lucy disse por fim. – Não tenho a menor ideia do que possa ser.
– Então... estamos em um beco sem saída? – perguntou Leo, acariciando a cabeça metálica de Festus. – Precisamos dessa flecha se quisermos ter uma mínima chance de impedir os planos dos titãs.
Ficamos todos quietos, pensando em como conseguir a tal flecha. Tinha que ter uma solução.
– Acho que essa flecha, seja lá o que for, deve estar em algum lugar na cidade. – eu falei, antes que pudesse me conter.
Todos me encararam como se eu tivesse dito que a chuva cai para cima ou que rinocerontes podem dançar sapateado.
– Você está supondo que a flecha de Apolo, que é a chave pra salvarmos o mundo, está em algum da cidade de Washington? – disse Leo, sarcasticamente. – Como não pensei nisso antes? Vamos simplesmente revistar cada maldida rua dessa cidade. Não deve ter tantas assim.
Eu encarei Leo. Novamente, pensei seriamente em parar o tempo e jogá-lo em algum buraco bem fundo. Se bem que a vontade de dar uma surra também me pareceu tentadora.
– Você tem ideia melhor? – eu perguntei, segurando a raiva.
– Não, mas que tal alguma que a gente possa completar em menos de um ano?
Quando eu ia mostrar a Leo o quão boa era a foice que ele havia me dado, Jason interrompeu.
– Espera... talvez a ideia de David não seja tão absurda assim. Ele pode estar certo.
– Ele está? – perguntou Leo.
– Estou? – eu perguntei. Tá, a ideia era maluca mesmo! Admito.
Jason pensou por mais um minuto, antes de continuar.
– A cidade de Washington é repleta de museus, monumentos e esse tipo de coisa. Alguns deles devem ter algo a ver com a Grécia Antiga e, por consequência, com Apolo.
Todos absorvemos as palavras de Jason, considerando a possibilidade.
– Então, procuramos apenas nos locais que possam ter alguma coisa a ver com Apolo? – perguntou Percy. – Ele é o deus da medicina, da música, do sol. Procuramos lugares assim?
– É um plano. – disse Annabeth. – Ou melhor, está mais para um tiro no escuro. Mas é tudo o que temos.
*****
Assim nos separamos em grupos e começamos a procurar. Jason, Piper e Leo foram ao Museu de História Natural, do Smithsonian. Percy e Annabeth foram a monumentos com arquitetura grega. Eu e Lucy resolvemos procurar nos teatros famosos da cidade.
– Centro John F. Kennedy? – perguntei a Lucy, encarando a entrada da construção.
– É o maior complexo de artes dessa cidade. Duvido que o meu pai fosse ignorar algo assim.
De alguma forma, era um argumento consistente. Ainda estava cedo e o prédio estava fechado, então entrar foi bastante simples. Foi só passar por um ou dois guardas que estavam ocupados demais, cochilando em seus postos.
Começamos a procurar em todas as salas em que conseguimos entrar. Qualquer coisa que nos levasse a um caminho para a flecha de Apolo. Mas encontrar o próprio Apolo... aquilo, sim, foi inesperado.
Entrei em um dos salões de apresentação. Estava tudo vazio, com exceção de uma pessoa sentada em uma das fileiras do meio, observando o palco como se houvesse uma peça ou ópera, naquele exato momento.
– É um lugar realmente impressionante, não concorda?
Ele se levantou para me encarar. Os cabelos louros pareciam brilhar como se tivessem luz própria (ou como se o cara tivesse simplesmente mergulhado a cabeça em um pote de gel). Usava óculos escuros, uma camisa branca, um casaco preto, calça jeans e botas de caminhada. Roupas simples, mas o cara parecia pronto pra um ensaio fotográfico.
– Já assisti a muitas peças em palcos como esses. Comédias, romances, óperas... Mas é curioso que toda história sempre tenha um vilão. – ele continuou. – Ele pode nem ser mau pra valer, mas só causa problemas. Não concorda, David?
Apolo estava ali, bem na minha frente. Eu não consegui fazer muito mais do que ficar encarando.
– Sabia que eu concedo o dom da previsão? Em outras palavras, é por minha causa que os oráculos podem ver o futuro. – agora ele estava há cinco metros de mim. – E eu vi o seu futuro. Você pode não ser de todo mau, mas é melhor prevenir do que remediar.
Com essas palavras, ele fez surgir um arco dourado e apontou uma flecha na minha direção. Foi aí que eu me toquei do perigo. E foi aqui que vocês me acharam.
– Calma! – eu exclamei. – Você não quer me torrar!
– Não tente me enrolar, Herdeiro de Cronos. – Apolo disse. – Posso não ser tão inteligente quanto os outros deuses, mas de forma alguma sou tolo.
– Mas eu não fiz nada!
– Vai fazer. Eu vi. Você vai trazer a ruína para todos nós, mortais ou deuses. Sendo esse o caso, eu precisava tomar uma atitude. E dar um fim em você parece uma ótima solução.
Dialogar com um deus Sol teimoso não funciona. Muito bem, lição aprendida. O que eu podia fazer? Lutar estava fora de questão. Ele já queria me matar estando calmo. De jeito nenhum eu lhe daria motivo pra querer mesmo acabar comigo. Eu tinha que ganhar tempo.
– Olha, eu não tenho a menor ideia do que você viu, mas eu juro que não quero me aliar a Cronos ou aos outros Herdeiros!
– Então por que vai à Casa dos Imortais?
Essa era uma pergunta que eu gostaria de não precisar responder. Principalmente para um deus maluco e armado. Por sorte, Lucy resolveu aparecer bem naquela hora.
– David! O que aconteceu? Achou alguma coisa...?
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