O Herdeiro do Titã

4 Sou promovido de "Garoto Problema" para "Semideus"


Notas iniciais
E aí, galera? Tudo muito bom, tudo muito bem? Tomara que sim! Eu sei, eu disse no capítulo de ontem que eu ia postar um pouco mais devagar, pra dar tempo de escrever mais. Mas eu não aguentei! Podem me culpar, vou tentar ir mais devagar! Bem, vamos lá! Espero que vocês gostem e nos vemos lá no final!

A ideia era tão absurda, que não entrava na minha cabeça. Olhei para Quíron como se esperasse acordar de um sonho maluco. Ou que uma equipe de televisão surgisse de algum lugar, dizendo que caí numa pegadinha idiota.

– Eu? Semideus? Tá bom! – comentei sarcasticamente.

– Estamos falando sério! – disse Ress.

– Qual é?! Eu te conheci hoje! Não me venha com essa! Eu sou um completo otário! – exclamei, meio alto demais. – Tenho dislexia! E TDAH!

– E isso é o que o torna especial. – cortou Quíron. – Quando tenta ler, as letras flutuam não é?

– É...

– Porque seu cérebro entende grego antigo, não o inglês ou qualquer outra língua. – explicou Quíron. – E seu TDAH? Não é que você preste menos atenção do que os outros, David. Você presta atenção a tudo que o cerca. São seus instintos naturais de batalha e impulsividade, lhe mantendo alerta o tempo todo. Isso o mantém vivo em um combate.

– Mas... não faz sentido... – eu estava cada vez mais confuso. – Quer dizer, eu sempre fui... o David... nada mais do que isso.

Quíron me olhava para mim, como se eu fosse um aluno que, mesmo se esforçando, não conseguia entender uma matéria.

– David, você já viu coisas estranhas, não? Coisas que outras pessoas não conseguem.

Me lembrei de quando tinha 6 anos, no orfanato. Eu jurava que tinha visto uma mulher com corpo de cobra atravessar a rua. Ou quando eu tinha 12 e estava no ponto de ônibus com meu pai adotivo. Tinha um homem alto do nosso lado e eu tinha certeza de que ele tinha apenas um olho.

Voltei a olhar para Quíron. Ele sorriu para mim. Mas eu ainda tinha perguntas na cabeça.

– Porque eu? Como...?

– Por vezes, os deuses descem ao mundo humano e se envolvem com mortais. E geram filhos especiais, os semideuses, como você e todos os outros campistas. Meio mortal e meio deus. – disse Quíron, com voz mansa. – Muitos de vocês treinam e crescem para se tornarem heróis. Mas outros, morrem devorados por monstros, antes de se tornarem adultos. Quanto mais velhos, mais forte fica o cheiro de um semideus. E, quando descobrem sua real natureza, se tornam um verdadeiro alvo para todos os monstros há quilômetros.

– Por isso – interveio Ress –, nós, sátiros, vagamos pelo mundo dos mortais, procurando semideuses. Para trazê-los para cá, o único lugar realmente seguro para vocês. Fiquei realmente impressionado por você ter vivido até os dezessete, e ter saído inteiro.

Quíron bateu os cascos nas tábuas do piso, como que dando aquela conversa por encerrada. Ele pôs a mão no meu ombro e me guiou pelo resto do acampamento. Me mostrou os campos de treino, os alvos de arco e flecha (Frank acenou para mim, depois de acertar uma maçã há vários metros de distância), campos de morangos, a fogueira, o pavilhão do almoço, e os chalés. Um chalé para cada deus, onde seus filhos ficavam. Quíron me levou para um chalé particularmente velho e barulhento. Tinha uma placa com o número 11 e um tipo de cajado com duas serpentes enroladas nele. A pintura estava descascada em várias partes.

– Este é o chalé de Hermes. – disse Quíron. – Até descobrirmos quem é seu pai ou mãe divina, é aqui que você vai ficar. Quando for reclamado pelos deuses, irá se mudar para o chalé respectivo.

– Mas porque tenho que ficar aqui?

– Ser o deus dos viajantes e das encruzilhadas são duas das várias atribuições de Hermes. Você é um passageiro que busca seu caminho, então nada mais natural do que ficar aqui até que saiba para onde ir.

Ele foi até a porta do chalé e chamou por duas pessoas.

– Travis! Connor! Venham aqui, por favor!

De dentro do chalé saíram dois garotos de cabelos castanhos, olhos maliciosos, mãos inquietas e carregando mochilas com... aquilo eram bombas fedorentas? Alguma coisa me dizia pra não ser descuidado com aqueles dois... talvez com nenhum dos filhos de Hermes.

Antes que Quíron pudesse dizer qualquer coisa, os dois desembestaram a falar.

– Não fomos nós que trocamos a ração dos pegásos!

– Eu não queria jogar aquela colméia de abelhas nos garotos do chalé 4! Uns caras do 5 me obrigaram!

– A explosão nos campos de morangos foi uma.... experiência mal-sucedida com o pessoal do 9!

– Definitivamente não íamos jogar bombas fedorentas nos garotos do chalé de Afrodite!

– E não aprontamos nada na parede de escalada!

Só deu tempo de ouvir um BUM! e um monte de campistas correndo, depois que a parede de escalada começou a jorrar lava verde. Travis e Connor olharam para o “acidente” e de volta para Quíron.

– Não fomos nós.

– E você é nosso álibi.

Se ainda restava um mínimo de paciência em Quíron, ele estava realmente se segurando. Respirou fundo e se voltou para mim.

– David, esses são os irmãos Travis e Connor Stoll, filhos de Hermes e conselheiros-chefe do chalé 11. Eles ajudarão você a se organizar enquanto estiver aqui.

Quíron me deu um último tapinha nas costas, como se dissesse “Agora é por sua conta. Boa sorte.” e foi embora galopando. Agora eu tinha certeza absoluta de que não queria estar perto dos irmãos Stoll. Principalmente quando eles estavam armados até os dentes com bombas fedorentas.

– Então, você é um novato? Muito prazer, eu sou Travis.

– E eu sou Connor. Venha, vamos entrar e achar um cantinho para você.

Lá dentro pensei “Cantinho onde?”. Cada centímetro do chalé estava atulhado de colchões, roupas largadas, travesseiros e crianças correndo de um lado para o outro.

– São todos... filhos de Hermes? – perguntei.

– Alguns. – respondeu Connor. – Nosso pai tem muitos filhos por aí, mas outros são como você. Esperando uma confirmação.

– De qualquer forma, bem-vindo ao chalé 11, meu amigo! – disse Travis. – Você vai adorar esse lugar. Temos uma vista excelente, acomodações de luxo e, vez ou outra, conseguimos contrabandear doces e outras coisas de fora do acampamento.

– Contrabandear?

– Isso aí! – exclamou Connor, como se fosse algo realmente maravilhoso. – Como filhos do deus dos ladrões e das trapaças, esse tipo de coisa é fichinha pra gente! Basta alguns dracmas de ouro, uma lista do que você quer, e pronto! Selo Stoll de Qualidade Garantida, ou seu dinheiro de volta!

– Ou não! – completou Travis.

– Ou não. – reforçou Connor. – Frequentemente, não. Mas isso não importa. Somos todos uma grande família feliz aqui! Sempre tem alguém novo pra conversar...

– Ou zoar...

– Ou roubar... Bem, agora vamos achar um lugar pra você.

No fim, arranjei um colchão em um canto do chalé. Travis me conseguiu itens de toalete (escova de dentes, xampu, essas coisas), que eu suspeitei que ele simplesmente roubou da lojinha do acampamento.

Estava ficando escuro, e a única coisa que eu queria era dormir como uma pedra. O dia havia sido insuportavelmente longo. Mas Connor e Travis me arrastaram (literalmente) para fora junto com todos os campistas do chalé de Hermes para o jantar. Assim como havia um chalé para cada deus, havia uma mesa para cada um, também, e os campistas só podiam ficar na própria mesa. Naturalmente, a mesa do 11 era uma bagunça completa.

Apesar de tudo, eu estava com mais fome do que cansaço e o jantar já era de encher os olhos. Pão recém-assado, queijo fresco, cachos de uvas maduras e todo tipo de coisa que estava me deixando com água na boca. Mas antes que eu pudesse pegar qualquer coisa, Quíron se fez ouvir perto da fogueira.

– Atenção, todos! Quero anunciar que temos um novo campista conosco esta noite! – ele acena para que eu me aproxime. – David Matt Willer!

Alguns me aplaudiram, outros só ergueram as canecas. Não foi a recepção mais calorosa que já tive, mas talvez tenha sido melhor assim. Acho que já tinha chamado atenção demais por um dia. Foi quando lembrei de algo importante.

– Quíron, e os meus pais?

– Eles estão bem. Mandamos um sátiro explicar tudo a eles, enquanto Ress ia buscá-lo. Eles mandaram algumas coisas para você, então vá até a Casa Grande amanhã. Mas agora, vá jantar.

Segui o conselho de Quíron. E o meu estômago.

Notas finais
E aí, o que acharam? Gostaram? Odiaram? Comentem, por favor! Eu fico super animado quando vejo as opiniões de vocês!