O Herdeiro do Titã
21 Os Herdeiros de Titãs! Jack e Peter!
Notas iniciais
Certo, se antes eu achava que o meu pior momento de “humilhação pública” foi quando Percy contou a Jason e Nico que eu gostava da Lucy... então esse era claramente o maior recorde mundial das pagações de mico na história.
“C-como é que eu me meto nessas furadas?!”, pensei comigo mesmo. Estávamos todos tensos e prontos pra uma luta há dois minutos, mas nem um treinamento militar supervisionado pelo próprio Ares iria deixar alguém pronto pra aguentar essa.
– N-noiva? – Lucy perguntou. A coisa estava feia... – Como assim, David?
... e indo de mal a pior!
Me forçei a levantar, tirando aquela maluca de cima de mim.
– E eu sei lá?! – exclamei. – Nunca vi essa garota na vida!
– Não fale assim. – a maluca segurava meu braço. – Estamos prometidos desde que éramos crianças!
– E lá vamos nós outra vez. – disse uma das vozes nos pedestais. – Alice, vamos continuar o plano. Ninguém aqui quer ouvi o seu monólogo sobre noivado.
A garota, Alice, se virou para os colegas, sem largar meu braço.
– Hãã?! Mas já? Acabamos de nos reencontrar, depois de tanto tempo!
– Se completarmos o plano corretamente – disse a mesma voz – , você vai poder ficar grudada nesse cara pelo tempo que quiser.
– Mesmo?! Então, tá! – Alice me soltou. – A gente se vê depois, David!
Ela foi de encontro aos seus colegas, e um deles falou com voz grossa outra vez.
– Herdeiro de Cronos, suba as escadas e vá até o último salão, por favor. Sua parte do trabalho estará lá.
E todos desapareceram em pequenas explosões de luz, da mesma forma como haviam aparecido. Olhei para trás, para Lucy e os outros.
– Ceeeerto... – disse Leo. – Isso foi decididamente muito estranho.
Eu busquei os olhos de Lucy, que simplesmente olhou para outro lado. O que diabos ela queria que eu fizesse?! Eu nem sabia quem era aquela tal de Alice! Mas acho que tentar conversar agora seria equivalente a um “Você vai acreditar em mim, ou no que você viu?”. Resumo, ela não ia querer escutar. Felizmente, Annabeth se fez ouvir.
– Mas agora sabemos aonde temos que ir.
Todos olhamos para as escadarias.
– O último salão. – falei.
*****
Subimos as escadarias para o segundo andar. O salão era bem parecido com o do piso inferior, só que bem mais acabado. Várias portas estavam quebradas ou bloqueadas por entulho, as salas que podíamos ver estavam igualmente destruídas. A única porta que estava intacta ficava no fim do corredor.
– Tá na cara que é armadilha. – disse Jason. – Eles querem que a gente siga por esse caminho.
– Ou melhor – sugeriu Leo – , querem que David siga por ali.
Olhei a porta mais uma vez, como se ela estivesse mesmo esperando que eu passasse por ela.
– Bem, se é o que querem, então eu vou.
Pensando agora, talvez não tenha sido uma boa ideia, já que não tive uma boa recepção. Quero dizer, em que plano de universo alternativo é considerada boa educação atirar facas nas pessoas?
Assim que eu passei pela porta, me deparei com o que parecia um quarto de criança. Ou melhor, de uma criança que gostava de cortar as paredes, quebrar a mobília e deixar marcas de queimado pelo chão. Do outro lado, só havia outra porta, exatamente igual àquela por onde tínhamos entrado. Eu fiquei tão chocado que quase não vi as duas facas atingindo o espaço entre os meus pés. Pareciam facas de cozinha, mas eram de um metal completamente negro.
– Ops! – ouvimos. – Eu errei!
Do outro lado do sala, sentado em uma prateleira alta, o garoto mais esquisito que eu já tinha visto simplesmente acenou e as facas voltaram para suas mãos. Assim que as pegou, o cara pulou da prateleira para o chão (Espera! Ele estava a quase cinco metros do piso!). E só pra aumentar o nível de estranheza, ele começou a lamber as facas.
– E aí? Eu sou Jack, o herdeiro de Epimeteu. Sou “aquele que pensa depois”. Quem vai brincar comigo? – ele perguntou, curto e grosso. Só ali pude vê-lo claramente.
Ele estava descalço, com uma camisa regata encardida, uma calça esfarrapada e uma jaqueta jeans igualmente aos pedaços, que devia ser muito grande para ele. O cabelo preto comprido, na altura dos ombros, mais parecia um ninho de ratos, cobrindo o olho direito.
– Então? Algum de vocês vai brincar comigo ou eu tenho que escolher? – Jack perguntou novamente. Ele era um completo maníaco, dava pra ver nos olhos!
Antes que qualquer um de nós pudesse fazer qualquer coisa, Leo deu um passo à frente.
– Ainda não entendi qual é a sua, mas eu... brinco?... com você.
– Leo! Que pensa que está fazendo?! – exclamou Jason.
– Eba! Vou brincar com um filho de Hefesto? – riu Jack, de forma estridente.
Eu ia tentar puxar Leo devolta, mas ele simplesmente ergueu a mão.
– Deixem esse maluco psicótico comigo. – ele disse. – Não ouviram? Ele “pensa depois”, o que quer dizer que ele vai no improviso. Assim como eu. Sigam em frente e a gente se encontra depois.
Estávamos relutantes em concordar, mas Jack jogou as facas em direção a Leo, que rolou rapidamente para um lado.
– Vão de uma vez! – ele gritou para nós.
Não tínhamos escolha. Corremos, dando a volta na sala até a porta seguinte. Jack até tentou nos parar, atirando outra faca, mas Leo a deteve com uma bola de fogo.
– Ei! É comigo que você vai brincar, lembra? – Leo o desafiu.
Jack se virou para Leo com uma risada maníaca.
– Tá booom...
A última coisa que vimos foi outra explosão de fogo de Leo, e passamos pela porta.
*****
Depois de passarmos pelo quarto de Jack, estávamos em outro corredor.
– Será que Leo vai ficar bem? – perguntou Lucy.
– Vai, sim. – disse Jason. – Se ele já voltou dos mortos, ele aguenta lidar com o maníaco por facas.
Andamos pelo corredor, atentos a qualquer armadilha ou movimento dos herdeiros, mas não aconteceu nada. Quando chegamos ao outro lado, eu já ia abrir a porta, quando Annabeth me deteve.
– Será que vai ser assim até o final?
– Como assim? – perguntou Percy.
– Aquele garoto estava sozinho na sala... E se tiver um herdeiro por sala, até o último salão?
Todos captamos a ideia de Annabeth.
– Então... vamos ficando para trás, um de cada vez? – deduziu Piper.
Encarei a porta, agora com uma preocupação totalmente diferente. Qual herdeiro estaria do outro lado? E qual de nós iria ter que lidar com ele?
Respirei fundo e abri a porta.
O quarto seguinte era... bem mais arrumado do que o de Jack. Era igualmente imenso, com paredes em cores neutras. De modo geral, parecia mais uma academia, com pesos e aparelhos de ginástica em todo lugar. No meio da sala, só tinha um cara em pé, com os braços cruzados. Vestia uma camiseta cinza, calças camufladas e botas militares. O cabelo curto e o olhar de poucos amigos não ajudava a suavizar as coisas. Pelo contrário, só me fazia sentir mais tenso.
– O Jack deixou vocês passarem? – ele perguntou, sem esperar resposta. – Ele sempre foi um completo idiota, mas não me admira. Como herdeiro do titã que “pensa depois”, ele nunca avalia as consequências de seus atos.
Eu encarei o sujeito, e me aproximei uns dois passos, lentamente.
– E você é...? – perguntei, cada vez mais tenso.
– Peter. Herdeiro de Atlas. – ele respondeu, me olhando friamente. Acho que ele não gostou de eu interromper suas críticas ao seu companheiro. – Bem, tirando o herdeiro de Cronos, eu não preciso deixar mais ninguém passar daqui.
O tal de Peter parecia impaciente conosco. Bem, ele também estava conseguindo torrar a minha paciência.
– Se querem que eu vá a algum lugar, meus amigos vem comigo. – retruquei.
Peter me encarou ainda mais mau-humorado, se é que isso era possível. Ele suspirou e começou a estalar os ossos dos dedos.
– Muito bem. Então é só eu dar cabo de todos esses semideuses insignificantes, e você não vai precisar se preocupar.
“Qual é a desse cara?”, pensei. “Ele está sozinho e desarmado... acha mesmo que consegue dar conta de nós seis?”.
Me preparava para girar o relógio de pulso, quando Peter simplesmente socou o chão, fazendo o piso ao redor tremer e arrebentar, como se tivesse sido atingido por uma bola de demolição. Vários pedaços de madeira, pedra e um ou dois halteres voaram pra cima de mim. “OK, eu já era.”, e fechei os olhos para tentar congelar o tempo, protegendo a cabeça com os braços... mas acabei não precisando. Abri os olhos, só em tempo de ver o entulho ser soprado para o outro canto da sala.
– Não temos tempo pra isso, cara. – eu ouvi a voz de Jason. – Então, por que você não luta comigo?
– Hm? E quem é você, semideus? – Peter perguntou, fazendo uma carranca (que, na verdade, acho que era a única cara que ele sabia fazer).
– Jason Grace, filho de Júpiter.
– Sei... versão romana de Zeus, não é? Meu senhor, Atlas, é quem sustentava o céu. Ele segurava os domínios do seu pai, impedindo o céu de esmagar a terra e... – Peter não teve tempo de completar a frase.
Jason havia invocado um raio, que atingiu o herdeiro de Atlas em cheio. Como ele fez um raio cair dentro da Casa, eu não sei. Só fiz uma nota mental para nunca deixar Jason realmente irritado comigo.
– Você não para nunca de falar? – Jason disse, debochado. – Vão indo, eu seguro esse grandalhão.
– Certo. Boa sorte. – eu disse e corremos em direção à próxima porta.
– Como se eu fosse deixar! – ouvi Peter rugir atrás de nós. Olhei por sobre meu ombro, o garoto enorme se lançando sobre nós, como um urso selvagem. Até Jason usar os ventos novamente, desviando Peter para o lado, fazendo-o cair em cima de um jogo de levantamento de pesos. Sem perder mais tempo, fomos direto para a próxima sala.
Dois de nós já tinham ficado para trás, lutando contra um maníaco e um grandalhão tagarela. Apesar de estarmos ainda seguindo em frente, senti que as chances não estavam exatamente ao nosso favor.
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