O Herdeiro do Titã

9 Meu olho aprende o comando “Pausa”


Notas iniciais
Ei, pessoal! Todos bem? Feliz Natal pra todo mundo! De presente, aqui vai o capítulo novo pra vocês! Aproveitem e nos vemos lá embaixo!

Andar pelo Acampamento como se nada tivesse acontecido não era exatamente fácil. Ainda mais com várias pessoas apontando armas pra você. Mas Leo andava por entre todos como se estivesse sendo homenageado por todos.

– Olá! Bom dia a todos! Gostei da espada!

Eu só conseguia olhar para os rostos mal-encarados e rezar pra que ninguém quisesse dar um passo a frente e me transformar em espetinho. Mas acho que a minha relação com o titã mais perverso e cruel da história do mundo me manteve seguro dessa vez. Todos recuavam, só de eu olhar pra eles, o que não era muito melhor.

Atrás de um grupo, eu reconheci Lucy. Acenei para ela, sorrindo. Ela só me olhou assustada, como se tivesse um inseto enorme e nojento na minha mão e sumiu entre os campistas. Se ela tivesse me acertado uma flecha no meio da cara, teria sido bem menos doloroso.

Fui com Leo até a base da Colina Meio-Sangue, onde Percy e os outros relaxavam abaixo do Pinheiro de Thalia, a irmã de Jason que foi transformada em árvore e que agora liderava as Caçadoras de Ártemis. Annabeth foi a primeira a nos ver.

– Não acredito.

– Leo, eu dou o braço a torcer! – disse Jason. – Você é sem dúvida o cara!

– É isso aí! Eu tirei nosso bom amigo David da depressão pós-traumática! – Leo exclamou. – Podem aplaudir, que eu mereço!

– Ei! Eu sou o único que está boiando aqui? – perguntei confuso.

Percy se aproximou.

– Estávamos tentando fazer você sair daquele sótão. Mas não tínhamos a menor idea do que fazer, então deixamos por conta de Leo.

– Vocês... queriam me animar? – as palavras não pareciam bem encaixadas, saindo da minha boca. – Por que?

– David, todos nós sabemos o que é viver à sombra de um deus. – falou Jason. – Todo mundo esperando alguma coisa de você, alguma coisa que não quer fazer. Tipo, eu sou filho de Júpiter. Todos sempre me trataram de forma especial, esperando que eu fosse algum líder infalível.

– E as pessoas sempre esperam que eu assombre lugares e fique reerguendo mortos. – disse Nico.

– Como filho de Poseidon, eu sempre tenho que ser o “cara durão”. – completou Percy. – Mas tem vezes que eu só quero ser... menos do que isso.

– Sempre acham que eu vou ser racional e calculista o tempo todo. – disse Annabeth. – Mas eu também não sou feita de pedra e gelo.

– E não é por falta de esforço, Sabidinha. – caçoou Percy.

– Cale a boca, Cabeça de Alga.

– O que estamos dizendo – falou Piper. – , é que mesmo que o resto do pessoal esteja esperando algo de você...

– Algo bem ruim, pelo que eu notei. – resmunguei.

– Mesmo assim, você ainda é o David. – Piper terminou.

– O nosso amigo, David. – completou Jason.

Era difícil acreditar naquilo... Eu os conhecia há menos de um mês, de modo que não vi que já éramos tão amigos assim. Senti uma lágrima rolar pelo meu rosto.

– Não precisa chorar, cara! – exclamou Leo.

– N-não estou chorando! – retruquei, esfregando os olhos. Todos começaram a rir, e eu não pude deixar de acompanhá-los.

“Pro inferno com Cronos!”, eu pensei. “Ele pode ter alguma ligação maluca comigo, mas eu não estou nem aí!”. Me sentia feliz de novo, de modo que, talvez, saber sobre o meu passado não fosse mais tão importante.

De repente, meus amigos pararam de rir. Achei estranho e olhei para trás. Como sempre, péssima ideia. Vários campistas armados até os dentes vinham marchando na minha direção. Uma garota, particularmente forte, seguia à frente do grupo, me apontando uma espada.

– Muito bem, cria de titã! – ela disse. – Hora de você sumir daqui, por bem ou por mal!

– Ei, calma aí, Clarisse! – Percy tentou argumentar.

– Fique fora disso, Jackson! Eu devia te dar uma surra também, por socializar com esse... esse... seja lá o que for!

Percy quis dar um passo à frente, mas eu o detive.

– David?

– O problema deles é comigo. Clarisse, não é? O que você quer?

– Quero que deixe o Acampamento Meio-Sangue e nunca mais volte. – ela disse, ainda me apontando a espada. Não sei o porquê, mas não me sentia mais com medo.

– E se eu recusar?

– Então eu vou tirar os seus restos daqui.

– Muito valente em dizer isso, apontando uma espada para alguém desarmado. – eu retruquei. Devia estar maluco pra enfrentá-la desse jeito, mas eu não estava nada intimidado. Ela deu um sorriso... um bem sinistro.

– Então acha que pode lutar comigo, uma filha de Ares? Vamos apostar. Se eu vencer, você some daqui, sem dizer mais nada. Se você vencer, pode ficar ou fazer o que quiser.

Eu não tinha como ganhar de Clarisse. Filha do deus da guerra, ela era claramente superior a mim, em todos os aspectos referentes à batalhas. Mas eu não podia ir embora, sem mais nem menos. Aceitei o desafio, com um aceno de cabeça. Outro campista passou uma segunda espada para Clarisse, que a entregou para mim. A arma não estava firme na minha mão, como todas as outras. Não era a certa para mim, mas eu não tive tempo para pensar.

Clarisse avançou contra mim, mas eu consegui desviar para o lado. Ela atacou novamente, e eu escapei. Ficamos assim por alguns minutos. Clarisse não conseguia me acertar, mas eu também era incapaz de fazer outra coisa que não fosse desviar dela. Tentei me lembrar das dicas que Percy e Jason haviam me ensinado, talvez alguma pudesse me ajudar aqui. Fique atento às mãos do oponente, pois elas é que vão guiar o ataque. Não segure a espada com muita força ou seus movimentos ficarão mais lentos. Tente manter a cabeça fria, e vai conseguir achar brechas na guarda do oponente. É, essa iria servir.

Passei para a ofensiva. Clarisse deixava pequenas brechas, mas quando eu ia atacar, ela defendia e já tinha um contra-ataque pronto. Sem dúvida, filha de Ares. O embate voltou a ficar equilibrado por mais um ou dois minutos, até Clarisse acertar minha mão com a parte chata da lâmina, me fazendo largar a espada.

– Você já era, cria de titã! – ela disse, e avançou em uma estocada.

“Não... não! NÃO!! PARE!!” gritei em minha mente. Do nada, senti uma pressão estranha em meu olho esquerdo. Fechei os olhos com força, esperando o golpe de Clarisse.

Mas não aconteceu nada.

Confuso, abri os olhos, lentamente. Clarisse ainda estava à minha frente, a espada apontada para mim. Mas ela não se movia. Na verdade, ninguém do grupo dela se movia. Olhei para trás, Percy e os outros olhavam para mim, chocados.

– David – começou Jason – , o que é que você fez?

– E-eu não sei... – eu andei, cuidadosamente, na direção de Clarisse. Ela estava imóvel e meio borrada, como uma fotografia sem redução de movimento. – Eu só pensei “pare” e... – levei a mão ao olho esquerdo. Me virei para os meus amigos. – Gente... tem algo errado com o meu olho?

– UOU!! – exclamou Jason. Mau sinal. – Como não vi isso?!

– O quê?! – perguntei.

– David, olhe aqui. – Piper sacou a adaga para que eu usasse de espelho.

– MAS QUE DIABOS É ISSO?! – eu berrei para o meu reflexo.

Meu olho tinha mudado. Minha íris agora era um dourado relógio de ponteiros, parado.

– O que houve com o meu olho?!

Ainda encarando meu reflexo na adaga de Piper, vi os ponteiros começarem a se mover e voltei a olhar para Clarisse e seu bando. Ela voltou a se mover, avançando com a espada. Mas como eu já não estava mais na sua frente, ela simplesmente caiu no chão.

– Como você fez isso?! – ela gritou, se levantado. – Você estava bem na minha frente, e agora está aí! Que tipo de truque foi esse, cria de titã?!

– E-eu não sei... aconteceu.

– Então, não vou te dar tempo para descobrir! – Clarisse se preparou para atacar novamente.

– PAREM!! – gritou Quíron. Clarisse o encarou, incrédula.

– Mas Quíron, essa coisa está ligada aos titãs! – ela disse, me apontando a espada.

– Assim como eu, Clarisse La Rue. E nem por isso você me aponta uma espada. Eu disse que David ficaria aqui até segunda ordem.

– Mas ele é perigoso! – exclamou Clarisse.

– Já disse que não sei como fiz aquilo!

Quíron me olhou, com olhos cansados.

– Fez o quê, David?

Eu olhei, hesitante. Não sabia se devia responder ou não. Mas precisava confiar em Quíron.

– De alguma forma... – comecei. – Acho que paralisei Clarisse, no meio da luta. Mas não sei como.

– Acho que sei. – Annabeth se pronunciou, me encarando. – você parou o tempo de Clarisse.

– Eu fiz o quê?!

– David, você está sob a proteção de Cronos, como Percy está sob a de Poseidon. E Cronos controla o tempo. O que quer dizer que você também controla.

*****

Caí de cara na cama, exausto demais para pensar em qualquer outra coisa. Depois da minha luta com Clarisse, Quíron dispersou os campistas, menos eu, Percy e os outros.

– O que aconteceu, exatemente? – Quíron perguntou.

– Clarisse ia me perfurar. – comecei. – Daí, eu pensei em “pare” e... tipo, ela parou.

– Você a fez parar. – disse Annabeth. – Como se tivesse congelado o tempo dela, ou coisa assim.

– Faz sentido. – Piper falou. – Seu olho ficou parecido com um relógio parado. E os ponteiros voltaram a se mover quando Clarisse “descongelou”.

Quíron me analisou da cabeça aos pés.

– Sem dúvida, algum tipo de influência pela sua relação com Cronos. Annabeth tem razão, David. Você pode controlar o tempo, assim como Percy controla as águas e Jason, os ventos.

Eu ficava cada vez mais assustado. Comecei a olhar para cada parte do meu corpo, esperando que minhas mãos explodissem, ou que saísse uma cabeça de cobra do meu umbigo. Voltei a encarar Quíron.

– Não pedi por isso!

Senti uma mão em meu ombro. Leo.

– Calma, cara. Nenhum de nós pediu qualquer coisa. Sabia que eu tento que me manter calmo o tempo todo, pra não explodir em chamas? Principalmente quando estou perto da minha flor-do-dia. – ele disse, indicando Calipso com o polegar.

– F-fique quieto, Leo! – ela retrucou, visivelmente envergonhada.

– Mas aqui estamos nós. – ele completou.

E, como sempre, Leo tinha razão. Eu não desejei ser um semideus mais do que qualquer um de meus amigos. Mas eu ainda estava assustado.

– Mas... não quero isso! E se eu congelar o tempo pra sempre? Ou voltar no tempo e, sem querer, destruir o mundo? Ou..

Quíron ergueu a mão, me interrompendo.

– Relaxe, David. Tente parar de pensar em “E se”. Você pode estar ligado a Cronos, mas isso não o torna uma pessoa ruim. Suas escolhas definirão quem você é. Não o seu passado.

Assenti. Voltamos para o Acampamento e fui para meu... acho que posso chamar de quarto, no sótão da Casa Grande. Talvez fosse por ter “parado” o tempo, mas eu estava morto de cansaço.

Notas finais
E isso é tudo por enquanto, galerinha! Espero que tenham gostado! Logo que eu terminar de escrever o capítulo 15, eu posto o próximo pra vocês. Com sorte, sai antes do Ano Novo. Novamente, feliz Natal e até a próxima.