O Herdeiro do Titã
11 A Casa dos Imortais
Notas iniciais
Meus ossos pareciam ter derretido, mas me forcei a ficar de pé. Rachel deve ter notado a tensão através da mensagem de Íris.
– Pessoal, está tudo bem?
– Sim, Rachel. – disse Quíron. – Apenas...
– Não me diga. – ela falou. – Já começou, certo?
Quíron apenas assentiu com a cabeça.
– E quem é? – perguntou Rachel.
A contragosto, levantei a mão.
– Meu nome é David e... – as palavras pesavam para sair. — ... sou o herdeiro de Cronos.
– Viram?! Ele admite! – exclamou Clarisse, com raiva. – É uma ameaça e temos que acabar com ele!
– Pelo amor dos deuses, você quer calar essa boca e se acalmar? – disse Nico, perdendo a paciência.
– Perdeu a cabeça, di Angelo?! – Clarisse parecia a ponto de quebrar a mesa em duas. – A profecia diz que “o mundo ou um coração irá se quebrar”. Se acabarmos com ele aqui e agora é fim de história!
Alguns conselheiros pareciam considerar a ideia de Clarisse. Será que se eu morresse, todos ficariam seguros? “Não quero causar problemas para ninguém... Mas também não quero morrer.”, pensei.
– Está errada. – disse Annabeth, me tirando de meus pensamentos. – Matar David não é a resposta.
– Do que está falando, Chase? – Clarisse disse, cada vez mais furiosa. – Use a lógica! Não é isso que você faz? Se cortarmos essa erva daninha, não teremos que lidar com os perigos de uma infestação!
– Estaremos fugindo. – Annabeth a cortou. – E todos sabemos que não se pode fugir de uma profecia. Elas acontecem, de um jeito ou de outro.
Clarisse ficou sem fala.
– Annabeth tem razão. – disse Quíron. – O que devemos fazer agora é decidir quem irá para a missão.
– Missão? – eu perguntei. – Tipo, sair do Acampamento?
– Exatamente. – respondeu Jason. – Então, temos que decidir quem vai.
– Acho que você e eu estamos incluídos nessa, cara. – disse Percy. – A profecia fala de “mar” e “céu”. Se isso é uma referência aos semideuses, então somos nós, filhos de Poseidon e Zeus.
– Seguindo esse raciocínio, então temos filhos de Hefesto, Apolo, Atena e Afrodite. – disse Piper. – Seis semideuses... não, sete, se contarmos David como o Herdeiro do Titã.
– Sete outra vez? – Nico disse, e parecia bem perturbado. – E para onde iremos dessa vez?
– Para a Casa dos Imortais. – eu disse, chamando a atenção de todos. – É pra lá que temos que ir.
– Como sabe? – perguntou Jason.
– Por que é lá que estão aquelas pessoas. – respondi, como se soubesse daquilo a minha vida inteira. – E foi lá que eu nasci.
*****
– Muito bem – disse Percy, depois da reunião. – , e você sabe chegar nessa “Casa dos Imortais”?
– Pensando bem, não faço a menor ideia. – eu respondi. – Sempre que tento lembrar de onde fica ou que tipo de lugar, minha cabeça começa a doer e não consigo pensar em nada.
– Então como sabe que esse lugar existe? – perguntou Nico. – Digo, além dos seus sonhos.
Expliquei a eles sobre a carta dos meus pais adotivos e do cesto de dormir. Foi absurdamente constrangedor, ainda mais depois que todos começaram a rir até ficarem sem ar.
– De qualquer forma – eu disse, bastente irritado. – , a minha única pista da Casa dos Imortais está... inacessível.
Nico me encarava, pensativo.
– E se formos falar com Clóvis? – ele disse por fim. – Como filho de Hipnos, ele entende de problemas de memória.
– Pode dar certo. – comentou Jason. – Istó é, se você conseguir manter o cara acordado por mais de trinta segundos.
– Mas ele pode descobrir por que não consigo lembrar da Casa dos Imortais? – perguntei.
– Provavelmente. – disse Nico.
– Então me leve até ele.
Fui com Nico até um dos chalés. O lugar era quente, com cortinas cobrindo as janelas e uma lareira aconchegante. Um tipo de galho pingava uma água esbranquiçada em um vaso.
– Não toca nessa coisa. – advertiu Nico. – Água do rio Lete, o rio do esquecimento. Algumas gotas disso e adeus memórias.
Assenti e me afastei dos galhos. Nos beliches, algumas crianças dormiam profundamente... parecia tão bom que fiquei tentado a pegar um travesseiro e dormir em qualquer lugar ali. Nico foi até um dos garotos adormecidos e lhe deu um empurrão com o pé, fazendo-o cair da cama.
– Clóvis! Acorda logo!
– Hm? Que horas são? – perguntou o récem-acordado Clóvis.
– Não importa. – Nico me puxou e me colocou à frente do garoto. – Precisamos que David se lembre de um lugar chamado Casa dos Imortais, mas tem alguma coisa bloqueando. Pode ajudar?
Clóvis me encarou, me olhando de cima a baixo, com um bocejo particularmente longo.
– Acho que sim. Tente fechar os olhos, como se fosse dormir.
Eu obedeci. Parecia bastante estranho, mas acho que eu já estava acostumado àquela altura.
– Tente lembrar desse lugar. – ouvi Clóvis falando.
Busquei a imagem da Casa dos Imortais na minha mente, nas lembranças do meu sonho. Via a mansão vitoriana, o vale esquisito. Tentei ir mais fundo, nas memórias de quando eu era menor. A dor começou e me forçou a parar.
Abro os olhos, deitado no chalé de Hipnos, com Nico e Clóvis me encarando.
– Cara, você apagou por quase meia-hora. – disse Nico, com os braços cruzados. Meia-hora?! Eu jurava que não tinha sido mais do que cinco ou sete minutos!
– Agora entendi o que você quis dizer com “bloqueio”. – falou Clóvis, coçando a nuca. – Tente de novo. Mas dessa vez, não resista. Deixe tudo fluir.
– Como assim? – perguntei.
– Essa dor que você sente... esse bloqueio... é uma parte de você que não quer acessar essas memórias. – Clóvis explicou. – Como se estivesse com medo do que pode encontrar.
Assenti, embora estivesse confuso. Eu queria descobrir do onde eu vinha e ao mesmo tempo não queria? Isso era possível? Bem, eu não ia descobrir se ficasse nervoso. Fechei os olhos novamente e respirei fundo. “Deixe fluir”, repeti em pensamento. “Deixe fluir”.
Estava vendo a Casa novamente. Sentia a dor querendo me conter, mas me forçei a relaxar. De repente, o mundo das minhas memórias começou a se mover muito depressa. Eu estava deitado, até que alguém me tirou de onde eu estava, às pressas e me colocou em outro lugar. Fui levantado e começei a me mover, enquanto ouvia uma respiração ofegante, pela corrida. Estava sendo carregado para algum lugar.
Estavámos indo cada vez mais rápido, e eu ouvi uns barulhos estranhos ao longe, como se fossem patas de criaturas batendo no chão. Estávamos sendo caçados.
– Fique calmo, querido! – uma mulher falou. – Vai ficar tudo bem!
A corrida parava de tempos em tempos, enquanto a mulher tomava fôlego e se escondia, para então correr novamente. Seja lá o que estivesse atrás de nós, sempre nos encontrava novamente. De repente, uma luz estranha surgiu de algum lugar e passamos por ela, como se fosse um portal. Do outro lado, vi uma torre branca muito alto antes que passássemos por outro portal.
– Manhattan! – gritou a mulher.
Passamos pelo portal e ela continuou correndo por mais algum tempo, até que chegamos ao que parecia uma construção com paredes azuis e uma luz acima da porta. Fui colocado no chão e pude ver o rosto da mulher. Cabelos castanhos e olhos verdes, iguais aos meus. Muito bonita e, apesar do rosto preocupado, pude ver todo o amor e carinho em seus olhos.
– David, querido – ela disse – , agora vamos ter que nos separar. Você vai ficar bem.
Não queria me separar dela. Finalmente a estava vendo, depois de tanto tempo! Tentei alcança-la, mas meus braçinhos mal conseguiam sair do cesto de dormir. Ela sorriu com tristeza, tomando minhas mãos entre as dela.
– Seja forte, David. – ela disse, com lágrimas nos olhos. – Você merece mais do que aquele lugar.
Ela olhou rapidamente para trás e outra vez para mim.
– Eu te amo, David! Adeus!
Ela sumiu da minha vista. Queria que ela voltasse. Começei a chorar, mas ela não voltou.
*****
Me sentei subitamente, ofegante, como se tivesse tido um pesadelo. Não, aquilo era pior que um pesadelo. Aquilo era uma lembrança. Foi real. Mesmo sem vê-los, sabia que Nico e Clóvis estavam logo atrás de mim.
– Quanto tempo? – perguntei.
– Três horas. – Nico respondeu. – Tive que acordar Clóvis cinco vezes.
Me levantei e saí do chalé, com Nico em meu encalço.
– Ei! Mas então? Descobriu alguma coisa?
– Sim. – eu disse, lembrando da torre branca. – Descobri a entrada para a Casa dos Imortais. Eu e minha mãe passamos por lá, quando ela fugiu de lá.
– Sua mãe?
– Minha mãe biológica. Foi ela que me tirou de lá.
Nico ficou quieto por alguns segundos. Talvez ele entedesse dos sacríficios que os pais fazem pelos filhos.
– E... onde é? – ele perguntou por fim.
Respirei fundo e me virei para encará-lo.
– No Monumento Washington.
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