O Herdeiro do Selo Proibido
1 1: O Filho do Selo
Capítulo 1: O Filho do Selo
A guerra entre Céu e Submundo não terminava com espadas ou feitiços grandiosos. Terminava em silêncios quebrados, em corpos que se recusavam a morrer de vez, em promessas sussurradas entre inimigos que, por um instante, esqueceram o ódio.
Sarena, a Arcanja da Sétima Legião, estava deitada sobre um altar improvisado de pedra negra, no coração de uma ruína esquecida na fronteira entre os mundos. Suas asas, outrora radiantes como aurora boreal, agora pendiam inertes, manchadas de cinzas e sangue dourado que escorria devagar. A dor a consumia, mas não era a do parto — era a certeza de que aquele filho nunca seria permitido existir.
Do outro lado do altar, Boris, Rei do Submundo, observava em silêncio. Seus olhos vermelhos brilhavam como brasas em uma forja, mas não havia triunfo neles. Apenas algo perigoso: arrependimento. Ele, que devorara legiões inteiras de anjos sem piscar, agora hesitava diante de uma mulher que escolhera morrer por amor.
— Você ainda pode parar isso — murmurou Sarena, a voz fraca, mas firme. — Mate-o antes que respire. Os clãs não perdoarão. Nem o seu, nem o meu.
Boris rangeu os dentes. Suas garras cravaram na pedra, deixando sulcos profundos.
— Eu não vim aqui para matar. Vim porque você chamou.
Ela sorriu, um sorriso triste que iluminou o rosto pálido.
— Tolice de rei. Chamamos um ao outro por séculos, e só trouxemos morte. Mas este... este é diferente.
O bebê chorou pela primeira vez — um choro fraco, mas que ecoou como trovão nos dois reinos. Sarena estendeu as mãos trêmulas e pegou a criança. Cabelos brancos como neve recém-caída. Um olho azul claro, herdado dela. O outro vermelho escuro, marca inegável de Boris.
— Ele é uma ponte — sussurrou Sarena. — Ou uma arma. Não podemos deixar que o usem.
Ela ergueu a mão direita. Luz celestial brotou de sua palma, entrelaçando-se com trevas que saíam da mão esquerda de Boris, que se aproximara sem que ela precisasse pedir. As energias colidiram, mas não se destruíram — fundiram-se em uma runa complexa, circular, pulsando com luz e sombra alternadas.
O Selo Proibido.
Enquanto as runas se gravavam na pele do bebê — no peito, nas costas, nos pulsos —, Sarena gemeu de dor. O selo queimava sua própria essência vital para se completar. Cada linha roubava um pouco mais de sua existência.
— Isso vai mantê-lo oculto — disse ela, ofegante. — Os clãs não o sentirão. Nem anjos, nem demônios. Mas quando o selo rachar... ele despertará como nenhum de nós jamais despertou.
Boris tocou a testa da criança com uma garra, gentil pela primeira vez na eternidade.
— E se ele escolher o caminho errado?
Sarena olhou para ele, os olhos marejados.
— Então que escolha. Não o que nós decidimos por ele.
O selo terminou de se formar. Uma explosão silenciosa de luz e trevas iluminou a ruína por um instante, depois tudo voltou ao escuro. Sarena caiu para trás, o corpo leve demais, as asas se desfazendo em partículas douradas que subiam para o nada.
— Leve-o... para Safyra e Renki — sussurrou ela. — Eles são os únicos humanos que ainda honram a palavra dada. Diga a eles... que o protejam como filho.
Boris pegou o bebê com cuidado surpreendente. O pequeno abriu os olhos — azul e vermelho — e fitou o pai como se o reconhecesse.
— Eu não sou feito para isso — murmurou o Rei do Submundo. — Amor. Proteção. Isso é fraqueza.
Sarena estendeu a mão uma última vez, tocando o rosto dele.
— Fraqueza... é o que nos trouxe até aqui. E é o que pode salvá-lo.
Seus olhos se fecharam. O corpo dissolveu-se em luz fraca, deixando apenas uma pena solitária flutuando no ar.
Boris ficou imóvel por longos minutos. Depois, envolveu o bebê em seu manto negro e desapareceu nas sombras.
Anos depois.
Em uma vila pacata nas fronteiras do reino humano, um garoto de dezessete anos acordou sobressaltado. Leonel. Cabelos brancos desgrenhados, olhos heterocromáticos escondidos por uma faixa improvisada quando saía de casa.
Ele levou a mão ao peito. Uma dor aguda, como se algo dentro dele tentasse rasgar a pele.
O selo pulsou uma vez. Fraco, mas inegável.
Leonel respirou fundo e se levantou. Do lado de fora, Alice — sua irmã mais nova — já o esperava com um sorriso.
— Leonel-nii! Hoje você me ensina a fazer o feitiço de fogo que a mamãe usava?
Ele sorriu de volta, mas seus olhos — um azul claro, outro vermelho escuro — carregavam sombras que nem mesmo ele entendia.
— Claro. Mas só se você prometer cozinhar bem quando eu voltar de viagem.
Alice riu, alheia ao peso que o irmão carregava.
Leonel olhou para o horizonte. Algo o chamava. Longínquo. Antigo.
E, em algum lugar profundo do Submundo, Boris abriu os olhos vermelhos.
— Ele acordou — murmurou o Rei.

Capítulo 2: Olhos que Não Pertencem
A vila de Eldenford era pequena demais para guardar segredos grandes. Casas de madeira e telhado de palha se amontoavam ao redor de uma praça central, onde o poço antigo servia de ponto de encontro para fofocas e julgamentos. Ali, o sol batia forte no verão e o vento cortava como lâmina no inverno, mas nada era mais afiado que os olhares das pessoas.
Leonel tinha sete anos quando percebeu que seus olhos não eram normais.
Ele estava brincando perto do riacho com as outras crianças. Jogavam pedras para ver quem fazia mais ricochetes. Quando chegou sua vez, uma garota chamada Mira — de tranças castanhas e sorriso fácil — parou de rir de repente.
— Ei... por que seus olhos são assim? — perguntou ela, inclinando a cabeça.
Leonel piscou. O olho esquerdo, azul claro como o céu de manhã, refletia a água. O direito, vermelho escuro como sangue coagulado, parecia absorver a luz.
— Não sei — respondeu ele, sincero. — Nasci assim.
As outras crianças se aproximaram. Um menino mais velho, Tomas, o filho do ferreiro, franziu a testa.
— Minha mãe disse que gente com olhos diferentes é amaldiçoada. Tipo... demônio disfarçado.
Mira recuou um passo.
— Ou talvez um anjo caído. Minha avó conta histórias de anjos que caem e viram monstros.
Leonel sentiu um aperto no peito. Não doía fisicamente, mas era pior que dor. Ele baixou a cabeça, os cabelos brancos caindo como cortina sobre o rosto.
— Eu não sou monstro — murmurou. — Sou só... eu.
Tomas riu, mas era um riso nervoso.
— Prova então. Tira a camisa. Mostra que não tem chifres ou asas escondidas.
As crianças formaram um semicírculo. Leonel hesitou, mas obedeceu. Quando a camisa caiu, não havia nada de anormal — só pele pálida e uma marca sutil no centro do peito, como uma cicatriz circular quase invisível. O selo. Ele nem sabia o que era ainda.
Mesmo assim, Tomas cuspiu no chão.
— Estranho do mesmo jeito. Melhor ficar longe, gente. Pode trazer azar.
Daquele dia em diante, as brincadeiras mudaram. As crianças pararam de chamá-lo para jogos. Quando ele passava, sussurravam “olhos do diabo” ou “branco amaldiçoado”. Os adultos eram piores: desviavam o olhar, faziam o sinal da proteção contra o mal, ou simplesmente diziam a Safyra e Renki para “manter o menino em casa”.
Mas em casa era diferente.
Safyra, a general maga que abandonara a corte real para viver uma vida simples, nunca tratou Leonel como diferente. Ela o ensinava feitiços básicos à noite, perto da lareira. “Magia não vê cor de olhos, Leonel. Vê coração.”
Renki, o mestre das espadas, era mais prático. Treinava com ele ao amanhecer, no quintal atrás da casa. “Segure a espada como se sua vida dependesse dela. Porque um dia... pode depender.”
E então havia Alice.
A irmã mais nova nasceu dois anos depois de Leonel chegar à família. Desde o primeiro dia, ela o olhava sem medo. Seus olhos castanhos grandes brilhavam de curiosidade, não de julgamento.
Aos cinco anos dela e sete dele, Alice já o seguia para todo lado. Quando as crianças da vila o excluíam, ela ficava ao seu lado, mãos pequenas cerradas em punhos.
— Se eles não querem brincar com você, então não brincam comigo também! — declarava ela, voz fina mas decidida.
Uma tarde chuvosa, Leonel voltou para casa com o rosto inchado de um soco que Tomas dera “pra ver se saía sangue preto”. Alice o encontrou na porta, encharcado.
Sem dizer nada, ela correu para dentro, pegou um pano limpo e uma tigela de água morna. Sentou-o no banco da cozinha e começou a limpar o machucado com cuidado exagerado.
— Dói? — perguntou ela.
— Não muito — mentiu Leonel.
Alice franziu a testa.
— Você sempre diz que não dói. Mas eu sei que dói. Aqui dentro. — Ela tocou o próprio peito, depois o dele.
Leonel desviou o olhar. O selo pulsou levemente, como se respondesse ao toque.
— Por que eles me odeiam, Alice? Eu não fiz nada.
Ela pensou por um momento, depois sorriu.
— Porque eles têm medo do que não entendem. Mas eu entendo você. Você é meu irmão mais velho. O melhor do mundo.
Leonel sentiu os olhos arderem. Não chorou — Renki dizia que homens não choram —, mas apertou a mão dela.
— Promete uma coisa? — pediu Alice, séria de repente.
— O quê?
— Quando você crescer e for embora pra ficar forte... eu vou estudar magia de verdade. E vou aprender a cozinhar bem, tipo a mamãe. Pra quando você voltar, ter uma casa quentinha e comida gostosa esperando.
Leonel riu, apesar de tudo.
— Combinado. E eu prometo voltar sempre.
Alice estendeu o mindinho. Ele entrelaçou o dele no dela.
— Promessa de irmão e irmã. Inquebrável.
Lá fora, a chuva caía mais forte. Dentro da casa, o fogo crepitava na lareira, e por um momento o mundo pareceu seguro.
Mas Leonel não sabia que, em algum lugar distante, o selo já começava a sentir o peso do tempo. Uma rachadura minúscula, invisível, formava-se na runa central.
E olhos azuis e vermelhos observavam o horizonte, como se soubessem que a paz era temporária.
Capítulo 3: A Vila em Cinzas
Os anos passaram como água de rio: rápidos demais para serem notados, lentos demais para serem esquecidos.
Leonel completou dezessete anos numa manhã de outono, quando as folhas das árvores ao redor de Eldenford começavam a cair em tons de sangue e ouro. Ele já era mais alto que Renki, com ombros largos de quem treinava espada desde que conseguia segurar uma. Os cabelos brancos agora chegavam aos ombros, e ele aprendera a usar uma faixa preta para cobrir o olho vermelho quando saía da vila — não por vergonha, mas por cansaço. Cansaço de explicar o que nem ele entendia.
O selo no peito ainda pulsava às vezes, como um coração extra que batia fora de ritmo. Safyra dizia que era “só o corpo se acostumando”, mas seus olhos traíam preocupação. Renki, por sua vez, aumentara a intensidade dos treinos: “O mundo lá fora não perdoa fraqueza, garoto. Nem a sua, nem a de quem você protege.”
Alice, agora com quinze anos, crescera bonita e determinada. Seus cabelos castanhos ondulados caíam pelas costas, e ela já dominava feitiços básicos de fogo e cura — graças às lições secretas de Safyra. Todas as noites, depois do jantar, ela sentava ao lado de Leonel e contava sobre seus progressos.
— Hoje consegui fazer a chama durar quase um minuto sem queimar a madeira! — anunciou ela certa noite, orgulhosa.
Leonel sorriu, bagunçando o cabelo dela.
— Logo você vai me ensinar, mana. E aí eu paro de ser o único inútil da família.
— Você nunca foi inútil — rebateu Alice, séria. — Você é o que me faz querer ser forte.
Eles trocaram o mindinho de novo, como faziam desde crianças. A promessa ainda estava viva: ela cozinharia e usaria magia para acolhê-lo quando voltasse. Ele voltaria forte o suficiente para protegê-la de tudo.
Mas o mundo não esperava promessas.
A invasão veio ao entardecer, quando o sol tingia o céu de vermelho.
Leonel estava no quintal, afiando a espada de Renki, quando o primeiro sino da vila tocou — não o sino calmo das horas, mas o alarme agudo de perigo. Ele ergueu a cabeça. Fumaça subia da entrada principal, grossa e negra.
— Alice! — gritou ele, correndo para dentro.
Ela já estava na porta, olhos arregalados.
— O que está acontecendo?
— Fique aqui. Tranque a porta.
Mas Alice balançou a cabeça.
— Não vou te deixar sozinho.
Antes que Leonel pudesse discutir, Renki apareceu no corredor, espada na mão, expressão sombria.
— Igreja. São eles. Vestidos de branco, mas com olhos negros. Possuídos.
Safyra surgiu atrás dele, cajado brilhando com runas azuis.
— Dron lidera. O capitão da guarda da diocese. Ele... não é mais humano.
Leonel sentiu o selo queimar no peito, como ferro quente.
— Por quê? O que queremos nós?
Renki não respondeu. Apenas olhou para Safyra com uma tristeza antiga.
— Vão para os túneis atrás da casa. Levem Alice. Eu seguro eles.
— Não — disse Safyra, voz firme. — Lutamos juntos. Como sempre.
O primeiro golpe veio rápido demais.
Um grupo de cinco clérigos irrompeu pela porta da frente, capas brancas manchadas de cinzas. Seus olhos eram poços negros, veias pulsando escuras sob a pele pálida. No centro, Dron: alto, barba grisalha, armadura cerimonial rachada. Ele sorria como se visse algo engraçado.
— Onde está o híbrido? — perguntou Dron, voz ecoando dupla, como se dois falassem ao mesmo tempo.
Renki avançou primeiro, espada cortando o ar. Dois clérigos caíram antes que pudessem reagir, mas Dron ergueu a mão. Uma onda de energia negra explodiu, jogando Renki contra a parede. O impacto fez rachar a madeira.
Safyra lançou um feitiço de luz — uma lança de energia pura que atravessou o peito de um possuído. Mas Dron era rápido. Ele girou, cravando uma adaga negra nas costas dela.
Safyra arquejou, caindo de joelhos. Sangue escorreu pelo canto da boca.
— Não... — sussurrou Leonel.
Ele correu, espada em punho, mas Dron já estava sobre Renki. O mestre das espadas se levantou, mesmo com costelas quebradas, e bloqueou o golpe seguinte. Metal contra metal. Faíscas.
— Corram! — gritou Renki para Leonel e Alice.
Alice puxou o braço de Leonel, lágrimas escorrendo.
— Irmão... por favor...
Leonel hesitou. Viu Safyra tentar se levantar, viu Renki lutar com o último fôlego. O selo queimou mais forte, fumaça negra escapando pelas bordas da cicatriz no peito.
Dron riu.
— Olhem só. O selo está rachando. Perfeito. O mestre ficará satisfeito.
Renki deu um último golpe — uma estocada perfeita que atravessou o ombro de Dron. Mas o possuído não caiu. Em vez disso, cravou a mão no peito de Renki e puxou. Um som úmido, horrível. Renki caiu, olhos ainda abertos, fixos em Leonel.
— Proteja... ela... — foram suas últimas palavras.
Safyra, com o último suspiro, estendeu a mão para Leonel.
— Fuja... viva... por nós...
A luz em seu cajado apagou.
Leonel gritou. Um grito que não era humano.
Fumaça negra envolveu seu corpo. O olho vermelho brilhou intenso. Asas sombrias — não completas, apenas contornos — tremularam por um segundo atrás dele.
Dron recuou um passo, surpreso.
— Já? Tão cedo?
Mas Leonel não atacou. Não ainda. Ele pegou Alice no colo, ignorando a dor que rasgava seu peito, e correu para os túneis atrás da casa.
Atrás deles, a vila queimava. Gritos ecoavam. Casas desabavam.
Eles emergiram do outro lado da colina, ofegantes, cobertos de fuligem. Alice tremia, agarrada ao pescoço dele.
— Mamãe... papai... — soluçou ela.
Leonel a apertou contra o peito. Lágrimas quentes caíam em seu cabelo.
— Eu vou te levar para o tio materno. Lá você fica segura.
— E você?
Ele olhou para trás. Chamas subiam altas contra o céu noturno. A vila que fora seu lar agora era cinzas.
— Eu vou ficar mais forte. Vou voltar. E vou fazer eles pagarem.
O selo rachou mais um pouco. Uma linha fina, visível agora, pulsando com luz demoníaca e celestial ao mesmo tempo.
Leonel respirou fundo.
— Promessa de irmão. Inquebrável.
Alice assentiu, fraca.
— Volta logo...
Ele a deixou com o tio na vila vizinha, sob a proteção de guardas leais. Depois, partiu sozinho pela estrada escura.
No horizonte, Eldenford queimava.
E, em algum lugar profundo do Submundo, Boris abriu os olhos vermelhos e sorriu pela primeira vez em anos.
— Meu filho... está acordando.
Capítulo 4: A Promessa do Lar
A estrada para a vila vizinha, chamada Pedra Clara, era estreita e cheia de pedras soltas. Leonel carregava Alice nos braços o caminho inteiro, mesmo quando as pernas dele tremiam de exaustão e o selo no peito latejava como uma ferida aberta. O ar cheirava a fumaça distante — Eldenford ainda queimava atrás deles, um brilho laranja no horizonte que não deixava dúvidas: não havia mais volta.
Alice não falava muito. Apenas se agarrava ao pescoço dele, rosto enterrado no ombro, soluços abafados que vinham em ondas. Leonel não tentava consolá-la com palavras vazias. Ele só apertava o abraço, como se pudesse proteger o que restava dela com a força dos braços.
Chegaram à casa do tio materno de Alice — irmão de Safyra — quando a lua já estava alta. A casa era modesta, de pedra e madeira, com uma pequena horta na frente e luzes fracas nas janelas. O tio, um homem chamado Harlan, de barba grisalha e olhos cansados, abriu a porta antes mesmo de baterem. Ele devia ter visto a fumaça no céu horas antes.
— Pelos deuses... — murmurou Harlan ao ver os dois. Seus olhos foram direto para Leonel, depois para Alice, que tremia como folha seca. — O que aconteceu?
Leonel não respondeu de imediato. Colocou Alice no chão com cuidado. Ela cambaleou, mas ficou de pé.
— A vila... — começou Leonel, voz rouca. — A igreja veio. Possuídos. Mamãe e papai... eles não...
Harlan empalideceu. Ele estendeu os braços para Alice, que correu para ele e se enterrou no peito do tio. Harlan a abraçou forte, mas seus olhos não deixaram Leonel.
— Entre. Agora.
Dentro da casa, o calor da lareira contrastava com o frio que Leonel sentia por dentro. Harlan sentou Alice numa cadeira perto do fogo e cobriu-a com um cobertor grosso. Depois, virou-se para Leonel.
— Conte tudo. Sem omitir nada.
Leonel contou. A invasão. Dron. A morte de Safyra pelas costas. Renki lutando até o fim. O selo rachando. Ele não mencionou as asas sombrias que tremularam por um instante — ainda não entendia aquilo, e não queria assustar mais ninguém.
Harlan ouviu em silêncio, punhos cerrados.
— Safyra... minha irmã... — A voz dele quebrou. Ele passou a mão no rosto, como se tentasse apagar as lágrimas. — E Renki. Malditos sejam aqueles traidores da igreja. Eu sempre soube que havia podridão lá dentro.
Alice, enrolada no cobertor, ergueu o rosto inchado.
— Tio... o Leonel vai ficar com a gente?
Harlan hesitou. Olhou para Leonel, depois para a menina.
— Ele não pode, pequena. Não agora.
Leonel sentiu o estômago revirar.
— Eu não posso ficar — disse ele, antes que Harlan continuasse. — Eles estavam atrás de mim. Se eu ficar aqui, vão vir atrás de vocês também.
Alice se levantou de repente, o cobertor caindo no chão.
— Não! Você prometeu! Você disse que ia voltar, que ia ficar forte e voltar pra mim!
Leonel se ajoelhou na frente dela, segurando suas mãos pequenas e frias.
— Eu vou voltar, Alice. Eu juro. Mas pra isso acontecer, eu preciso ir embora. Preciso entender o que sou. Preciso ficar forte o suficiente pra proteger você de verdade. Sem mais promessas quebradas.
Os olhos dela se encheram de lágrimas novamente.
— E se você não voltar? E se... e se eles te pegarem?
Leonel tocou o rosto dela, limpando uma lágrima com o polegar.
— Eu não vou deixar isso acontecer. Lembra da nossa promessa? Você estuda magia. Aprende a cozinhar bem. Fica segura aqui com o tio Harlan. E eu... eu volto. Com ou sem olhos diferentes. Com ou sem selo. Eu volto pra casa.
Alice fungou, tentando ser forte.
— E quando eu estiver pronta... eu vou te ajudar. Vou ser maga de verdade. Vou lutar do seu lado.
Leonel sorriu, mesmo que doesse.
— Combinado. Mana mais forte do mundo.
Eles entrelaçaram os mindinhos mais uma vez. Dessa vez, o gesto parecia mais pesado, mais real.
— Promessa de irmão e irmã — sussurrou Alice.
— Inquebrável — completou Leonel.
Harlan observava em silêncio. Quando os dois se soltaram, ele colocou a mão no ombro de Leonel.
— Você tem um lugar aqui sempre que quiser. Mas entendo por que precisa ir. Só... tome cuidado. O mundo lá fora é pior do que qualquer vila.
Leonel assentiu.
— Obrigado por cuidar dela.
Harlan entregou a ele uma pequena bolsa: pão duro, carne seca, um cantil de água e uma capa velha mas quente.
— É pouco, mas é o que temos. E leve isso também. — Ele tirou do bolso uma pequena adaga com cabo de osso, a mesma que Renki usava para afiar espadas. — Ele ia querer que ficasse com você.
Leonel pegou a adaga. O metal ainda estava quente, como se carregasse o último toque de Renki.
— Eu vou honrar isso.
Antes de sair, Alice correu até ele e o abraçou com força.
— Volta logo, Leonel-nii. Por favor.
Ele a apertou de volta, inalando o cheiro de casa que ainda restava nela.
— Eu volto. Prometo.
Ele se afastou devagar, saindo pela porta. A noite estava fria, o vento carregando cinzas de Eldenford. Leonel olhou para trás uma última vez: Alice na porta, Harlan ao lado dela, a luz da lareira iluminando os rostos preocupados.
Depois, virou-se para a estrada escura.
O selo pulsou novamente — mais forte dessa vez. Uma rachadura fina se estendeu, visível sob a camisa rasgada. Fumaça negra escapou por um instante, misturando-se ao ar gelado.
Leonel apertou o punho.
— Eu vou ficar forte — murmurou para si mesmo. — Pra eles. Pra mim.
Ele começou a andar. Passo após passo, deixando o lar para trás.
No Submundo, Boris sentiu o chamado mais claro do que nunca. Uma conexão antiga, de sangue e selo, vibrando como corda esticada.
— Venha, filho — sussurrou o Rei. — O mundo está esperando.
Capítulo 5: Estradas de Sangue
A estrada principal para o sul era um caminho antigo, marcado por sulcos profundos de carroças e pedras gastas pelo tempo. Leonel caminhava há três dias sem parar por muito tempo. Dormia pouco, encostado em árvores ou em valas rasas, espada ao lado do corpo e capa enrolada como cobertor. A comida que Harlan dera já acabava — restava apenas um pedaço pequeno de pão seco e água turva do cantil.
O selo no peito não dava trégua. A rachadura fina agora era uma linha irregular, como veia exposta sob a pele. Às vezes pulsava devagar, outras vezes acelerava como se algo dentro quisesse sair. Cada vez que isso acontecia, Leonel sentia um calor estranho subir pelo braço direito, e o olho vermelho ardia como se tivesse areia. Ele evitava olhar para reflexos na água — não queria ver o que estava acontecendo com ele.
O mundo ao redor parecia indiferente à sua dor. Campos abandonados, vilarejos pequenos onde ninguém o recebia de braços abertos. Ele comprava o que podia com as poucas moedas que Renki deixara costuradas na bainha da capa: pão, queijo rançoso, uma maçã murcha. As pessoas olhavam para seus cabelos brancos e desviavam o olhar. Alguns sussurravam. Ninguém perguntava nada.
Na noite do terceiro dia, o céu estava encoberto por nuvens pesadas. Leonel acendeu uma pequena fogueira entre duas rochas grandes, usando gravetos secos que encontrou. Sentou-se com as costas contra a pedra, espada no colo, e tentou comer o último pedaço de pão. O estômago roncava, mas a fome era secundária à exaustão.
Foi quando ouviu os passos.
Leves, mas deliberados. Alguém se aproximava pela trilha lateral, vindo do leste. Leonel ergueu a cabeça, mão já na empunhadura da espada.
Uma figura emergiu da escuridão: um homem jovem, talvez uns vinte anos, alto e magro, com cabelo castanho desgrenhado e uma capa esfarrapada. Carregava uma besta leve no ombro e uma espada curta na cintura. Seus olhos eram cinzentos, frios, e uma cicatriz fina cortava a sobrancelha esquerda.
Ele parou a uns dez metros, avaliando Leonel com um olhar que parecia calcular chances de luta.
— Boa fogueira — disse o estranho, voz baixa e sarcástica. — Importa se eu me juntar? Noite fria pra morrer sozinho.
Leonel não baixou a guarda.
— Depende. Quem é você?
O homem deu um sorriso torto.
— Lucky. Pelo menos é assim que me chamam agora. Antes tinha outro nome, mas... bem, sorte não dura pra sempre, né?
Ele se aproximou devagar, mãos visíveis, sem movimentos bruscos. Sentou-se do outro lado da fogueira, estendendo as mãos para o calor.
— E você? Cabelos brancos, olhos escondidos por faixa... parece que tá fugindo de alguma coisa. Ou de alguém.
Leonel apertou a espada.
— Não estou procurando conversa.
Lucky riu baixo.
— Ninguém que senta numa fogueira solitária tá procurando conversa. Mas todo mundo precisa de informação. E eu tenho muita.
Ele tirou um cantil do cinto e ofereceu.
— Água limpa. Troca por um pedaço da sua história?
Leonel hesitou, mas pegou o cantil. Bebeu um gole — era mesmo água fresca. Devolveu.
— Leonel. Só isso.
Lucky assentiu, como se esperasse exatamente isso.
— Justo. Eu também não gosto de nomes longos. Mas vou te dar um conselho de graça: se tá indo pro sul, cuidado com as patrulhas da igreja. Eles estão caçando “aberrações” ultimamente. Híbridos, mestiços, qualquer coisa que cheire a anjo ou demônio. E você... cheira a problema.
Leonel sentiu o selo pulsar forte. Ele disfarçou a careta de dor.
— Por que você se importa?
Lucky deu de ombros.
— Porque eu sei como é ser caçado. Meu pai era demônio de classe baixa. Matou minha mãe humana quando descobriu que ela tava grávida. Eu nasci mestiço. Cresci fugindo. Aprendi a sobreviver. E agora... ajudo quem tá na mesma merda.
Ele olhou direto para Leonel.
— Seus olhos. Um azul, um vermelho, né? Eu vi quando você piscou. Não precisa esconder de mim. Já vi coisa pior.
Leonel tirou a faixa devagar. O olho vermelho brilhou refletindo o fogo.
Lucky assobiou baixo.
— Isso é... impressionante. E perigoso. O selo no seu peito tá rachando, não tá? Eu sinto o cheiro de poder vazando. Se continuar assim, vai explodir antes que você chegue onde quer ir.
Leonel se levantou de repente, espada em punho.
— Como você sabe disso?
Lucky não se moveu. Apenas ergueu as mãos.
— Calma, herói. Eu sinto. Mestiços como eu têm instinto pra isso. E eu não vim brigar. Vim oferecer uma aliança temporária. Estrada é longa. Sozinho você morre. Juntos... talvez a gente sobreviva mais um dia.
Leonel baixou a espada, mas não a guardou.
— Por quê eu confiaria em você?
Lucky sorriu, dessa vez sem sarcasmo.
— Porque eu não tenho nada a ganhar te traindo. E porque, se você morrer, quem vai vingar sua família? Eu sei reconhecer sede de vingança quando vejo.
Leonel ficou em silêncio por um longo momento. O fogo crepitava entre eles.
Finalmente, ele sentou de novo.
— Temporário. Se você me trair...
— Eu sei — interrompeu Lucky. — Você me mata. Justo.
Ele estendeu a mão.
Leonel hesitou, depois apertou.
— Temporário.
Lucky riu de verdade dessa vez.
— Bem-vindo ao clube dos amaldiçoados, Leonel. Agora me conta: pra onde você tá indo de verdade?
Leonel olhou para o fogo.
— Pra lugar nenhum. Só... pra longe. Até ficar forte o suficiente.
Lucky assentiu.
— Então vamos juntos. Pelo menos até a próxima cidade. Lá tem rumores de uma demônia forte que caça bandidos por esporte. Pode ser útil... ou mortal.
Leonel não respondeu. Mas, pela primeira vez em dias, não se sentiu completamente sozinho.
Atrás deles, na escuridão da estrada, sombras se moviam. Não eram patrulhas da igreja.
Eram algo pior.
Capítulo 6: A Demônia que Sorri Lutando
O amanhecer do quarto dia trouxe névoa densa à estrada. Leonel e Lucky caminhavam lado a lado, mas com distância suficiente para que nenhum se sentisse encurralado. Lucky falava pouco, mas quando falava era para apontar perigos: trilhas de bandidos, marcas de garras em árvores, cheiro de enxofre no ar. Leonel escutava. Não confiava ainda, mas reconhecia utilidade.
— Tem uma ponte quebrada adiante — disse Lucky, apontando para o mapa improvisado que desenhara na terra na noite anterior. — Melhor contornar pela floresta. Mas cuidado: dizem que uma demônia anda caçando por aqui. Não é do tipo que negocia.
Leonel tocou o selo sob a camisa. A rachadura agora formava uma teia fina, como vidro estilhaçado.
— Demônia... tipo o quê?
Lucky deu de ombros.
— Alta. Forte. Gosta de lutar. Dizem que ela ri quando mata. Se for verdade, melhor não cruzar com ela.
Eles entraram na floresta. Árvores antigas bloqueavam a luz, transformando o dia em crepúsculo. O chão estava coberto de folhas úmidas e raízes expostas. Leonel sentia o selo pulsar mais forte, como se respondesse a algo próximo.
Então veio o som.
Um riso. Alto, selvagem, cheio de prazer puro.
— Quem vem aí brincando de esconder-esconde na minha floresta?
A voz era feminina, rouca, divertida. Leonel parou. Lucky sacou a besta, olhos estreitados.
Da sombra entre as árvores surgiu ela.
Valquíria.
Alta — quase dois metros —, pele cinza-escura com veias vermelhas pulsantes, chifres curvos para trás como coroa de batalha. Cabelos negros longos amarrados em rabo de cavalo selvagem. Vestia couro reforçado com placas de metal demoníaco, braços e pernas expostos mostrando músculos definidos. Nos punhos, luvas com garras retráteis. Seus olhos eram amarelos flamejantes, pupilas verticais como as de um felino.
Ela sorria. Um sorriso largo, dentes afiados brilhando.
— Humanos? Não... um mestiço e... hmm... — Ela farejou o ar. — Algo mais interessante. Olhos diferentes, selo rachado. Você cheira a anjo e demônio misturados. Delícia.
Leonel sacou a espada de Renki. O metal cantou ao sair da bainha.
— Não queremos briga.
Valquíria riu de novo, jogando a cabeça para trás.
— Mentira. Todo mundo quer briga quando me vê. E eu adoro quando mentem.
Lucky apontou a besta.
— A gente só tá de passagem, demônia. Deixa a gente ir.
Ela inclinou a cabeça.
— Passagem? Essa floresta é minha caça desde que o último rei demônio caiu. Quem entra, luta. Quem vence, vive. Quem perde... vira diversão.
Ela estalou os dedos. Uma aura vermelha explodiu ao redor dela — poder demoníaco puro, sem corpo humano para contê-lo. O chão tremeu levemente.
Leonel sentiu o selo responder. Dor lancinante no peito. Fumaça negra escapou pelas bordas da cicatriz.
— Lucky, recua — murmurou ele.
— Nem pensar. Se for pra morrer, morro lutando.
Valquíria avançou em um borrão. Punho direito voou contra Leonel.
Ele bloqueou com a espada. O impacto fez seus braços tremerem, ossos rangendo. Ela era forte — forte demais. Mas Leonel não recuou. Girou o corpo, usando o impulso para contra-atacar com um corte diagonal.
A lâmina raspou no braço dela. Sangue negro escorreu, mas Valquíria só sorriu mais largo.
— Bom! Muito bom! Faz tempo que não sinto isso!
Ela chutou. Leonel rolou para o lado, a bota dela esmagando a árvore atrás dele como se fosse papel. Lucky atirou um virote. Acertou o ombro dela. Valquíria nem piscou — arrancou o virote e lambeu o próprio sangue.
— Dois contra um? Adoro desvantagem!
Ela pulou. Leonel bloqueou o soco seguinte, mas o impacto o jogou contra uma rocha. Ar escapou dos pulmões. O selo queimou como fogo vivo. Fumaça negra subiu mais densa, envolvendo seu braço direito. O olho vermelho brilhou intenso.
Valquíria parou, olhos arregalados de excitação.
— Isso... isso é lindo. Mostra mais, híbrido!
Leonel se levantou. Algo dentro dele se mexeu — não controle, mas instinto. Ele atacou. Velocidade que nem ele sabia que tinha. Espada girando em arco. Valquíria bloqueou com os antebraços, garras cravando na lâmina. Eles se encararam de perto, rostos a centímetros.
— Nome? — perguntou ela, ofegante de empolgação.
— Leonel.
— Valquíria. Prazer em te conhecer, Leonel.
Ela o empurrou para trás com força bruta. Leonel voou, mas girou no ar e aterrissou de pé. O selo rachou mais uma linha. Luz branca misturada à treva escapou, formando contornos de asas fantasmagóricas por um segundo.
Lucky aproveitou a abertura e atirou mais dois virotes. Um acertou a coxa dela. Valquíria grunhiu — dor real dessa vez.
— Chega de brincar — disse ela, sorrindo ainda.
Mas antes que atacasse de novo, Leonel falou:
— Para.
Valquíria parou. Curiosa.
— Por quê?
— Não vim pra matar. Vim pra ficar forte. Se você quer luta, tudo bem. Mas não aqui. Não agora.
Ela inclinou a cabeça, avaliando.
— Interessante. Você não foge. Não implora. Só... pede tempo.
Silêncio.
Então Valquíria riu — não de deboche, mas de genuína alegria.
— Tá bom! Eu aceito. Mas com uma condição.
Ela se aproximou, ignorando Lucky que ainda mirava.
— Se eu te derrotar algum dia... você casa comigo.
Leonel piscou.
— O quê?
— Casar! União de sangue! Você é forte. Cheira a poder. Eu gosto. Se eu ganhar, você vira meu. Se você ganhar... bem, eu viro sua. Justo, né?
Lucky baixou a besta, boquiaberto.
— Ela tá louca.
Leonel sentiu o rosto esquentar — não de vergonha, mas de absurdo.
— Isso é ridículo.
Valquíria se aproximou mais, rosto perto do dele.
— Ridículo é bom. Vida é chata sem ridículo. Aceita?
Leonel olhou nos olhos amarelos dela. Viu fogo, loucura, mas também... honestidade estranha.
— ...Temporário. Se eu vencer, você me ajuda. Sem truques.
Valquíria estendeu a mão com garra.
— Combinado.
Leonel apertou. A garra era quente, quase queimando.
Ela sorriu mais largo.
— Agora sim. Vamos viajar juntos, Leonel. Vou te treinar. Vou te bater. E quem sabe... te beijar no final.
Lucky gemeu.
— Eu tô fora dessa loucura.
Mas ele não foi. E Leonel, pela primeira vez desde a vila, sentiu algo além de vingança: curiosidade.
A demônia que sorria lutando agora caminhava ao seu lado.
E o selo pulsava, como se aprovasse.
Capítulo 7: A Santa que Não Quer Ser
A viagem com Valquíria mudou tudo — e não exatamente para melhor.
Lucky andava na frente, resmungando o tempo inteiro. Valquíria ia ao lado de Leonel, ombro colado no dele de propósito, rindo alto de qualquer coisa que ele dissesse (ou não dissesse). Ela cutucava o braço dele com o cotovelo, fazia comentários sobre “como o híbrido cheira bem quando tá suado depois de lutar” e ameaçava “treinar” ele toda vez que paravam para descansar. Leonel tentava ignorar, mas o rosto dele traía um rubor ocasional que só fazia Valquíria rir mais.
Lucky revirava os olhos tanto que parecia prestes a ficar vesgo.
— Se ela te beijar de novo, eu juro que atiro nela — murmurou ele para Leonel numa parada para água.
— Ela não me beijou — rebateu Leonel, seco.
— Ainda. Dá tempo.
Eles chegaram a uma vila chamada Rio Sereno no final da tarde do quinto dia juntos. O lugar parecia pacato: casas de telhado vermelho, um rio correndo ao lado, crianças brincando na praça. Mas o cheiro no ar estava errado. Enxofre misturado com fumaça recente. Gritos distantes ecoavam do outro lado da ponte.
Valquíria parou de sorrir.
— Demônio. Classe média. Cheiro de podridão e fogo sujo.
Lucky sacou a besta.
— Vamos contornar?
Leonel já estava correndo.
— Tem gente lá.
Eles cruzaram a ponte. O caos era visível: casas em chamas, moradores fugindo, um demônio de pele escamosa e chifres retorcidos no centro da praça. Ele tinha cerca de três metros, braços como troncos, boca cheia de presas. Jogava bolas de fogo negro contra quem tentava fugir.
No meio da praça, uma figura de branco tentava proteger um grupo de crianças.
Uma garota.
Asas vestigiais — pequenas, quebradas, penas brancas manchadas de sangue e fuligem. Ela erguia as mãos, criando uma barreira fraca de luz dourada que tremia a cada impacto das chamas do demônio. Seu rosto era pálido, cabelos loiros curtos desgrenhados, olhos verdes grandes cheios de medo... mas determinação.
— Saiam daqui! — gritava ela para as crianças. — Corram para o rio!
O demônio riu, voz gutural.
— Anjinha caída... você não pode me parar. Sua luz está fraca. Venha, deixe-me queimar você também.
Ele lançou outra bola de fogo. A barreira rachou. A garota caiu de joelhos, ofegante.
Leonel não pensou. Correu direto para o demônio, espada em punho.
— Ei! — gritou Valquíria, animada. — Deixa um pedaço pra mim!
Lucky atirou um virote que acertou o ombro do monstro. O demônio virou-se, rosnando.
Leonel chegou primeiro. Golpeou com força total. A lâmina cortou o braço escamoso, sangue negro jorrando. O demônio urrou e revidou com um soco que Leonel mal desviou. O impacto rachou o chão.
Valquíria pulou nas costas da criatura, cravando garras nos ombros.
— Hora do treino, híbrido! Mostra o que aprendeu!
Leonel sentiu o selo queimar. Fumaça negra subiu pelos braços. Ele girou e cravou a espada no peito do demônio. Luz branca escapou da lâmina por um instante — herança de Sarena. O monstro gritou, corpo tremendo.
Lucky atirou mais dois virotes nos olhos. O demônio cambaleou.
Valquíria saltou para trás.
— Acaba com ele!
Leonel puxou a espada e golpeou de novo — dessa vez, direto na garganta. O demônio caiu de joelhos, gorgolejando. Corpo se dissolveu em cinzas negras que o vento levou.
Silêncio caiu sobre a praça. Apenas crepitar de fogo e choro das crianças.
A garota de asas quebradas se levantou devagar. Olhou para Leonel, depois para Valquíria (que ainda lambia sangue das garras), depois para Lucky.
— Vocês... salvaram a gente.
Leonel guardou a espada.
— Você tava segurando eles sozinha. Quem é você?
Ela baixou os olhos, envergonhada.
— Serapina. Eu era... anja. Do clã celestial. Mas fui expulsa. Agora sou só... curandeira. Tento ajudar onde posso.
Valquíria bufou.
— Anja caída? Que graça. E ainda por cima tímida. Que desperdício de asas.
Serapina corou.
— Eu... não sou mais santa. Não quero ser chamada assim.
Leonel se aproximou.
— Você lutou por essas crianças. Isso é mais do que muitos fariam.
Serapina ergueu o olhar. Seus olhos verdes encontraram os dele — azul e vermelho. Ela piscou, surpresa.
— Seus olhos... são lindos.
Leonel congelou. Ninguém nunca dissera isso. Sempre “estranhos”, “amaldiçoados”, “do diabo”.
— ...Obrigado — murmurou ele, sem graça.
Serapina sorriu tímido.
— Você também é lindo. Quer dizer... bonito. Quer dizer... forte! — Ela cobriu o rosto com as mãos. — Desculpa! Eu falo besteira quando tô nervosa.
Valquíria cruzou os braços, ciumenta na hora.
— Ei, ei, ei. Ele já tem dona, anjinha. Eu vi primeiro.
Serapina piscou.
— Dona? Ele... casou com você?
Valquíria sorriu maliciosa.
— Ainda não. Mas vou casar. Ele prometeu lutar comigo até o fim.
Leonel massageou as têmporas.
— Eu não prometi casamento. Prometi aliança temporária.
Lucky riu pela primeira vez em dias.
— Bem-vinda ao circo, Serapina. Aqui é assim todo dia.
Serapina olhou para os três — o híbrido de olhos diferentes, a demônia explosiva, o mestiço sarcástico — e algo mudou em seu rosto. Medo deu lugar a esperança.
— Posso... ir com vocês? Eu sei curar. E... não quero ficar sozinha de novo.
Leonel olhou para ela. Viu a asa quebrada, a timidez, mas também a coragem que a fez enfrentar um demônio sozinha.
— Se quiser. Mas o caminho é perigoso.
Serapina assentiu, determinada.
— Eu sei. Mas com vocês... parece mais seguro.
Valquíria bufou, mas não protestou.
— Tá bom. Mas se você tentar roubar meu híbrido, eu arranco suas penas restantes.
Serapina corou de novo.
Leonel suspirou.
O grupo agora era quatro. Um híbrido, um mestiço, uma demônia e uma anja caída.
E o selo no peito de Leonel pulsou mais uma vez — como se sentisse o equilíbrio estranho se formando.
No horizonte, o sol se punha, tingindo o rio de vermelho.
Eles partiram juntos.
Capítulo 8: A Asa Quebrada
A estrada após Rio Sereno tornou-se mais selvagem. O caminho oficial dava lugar a trilhas estreitas que serpenteavam entre colinas rochosas e florestas esparsas, onde o vento carregava o cheiro de pinheiros e algo mais antigo — enxofre distante, talvez resquícios de portais antigos ou simplesmente o mundo lembrando que nunca foi gentil.
O grupo de quatro caminhava em formação irregular. Lucky na frente, sempre atento, besta pronta. Valquíria ao lado de Leonel, ombro colado no dele de propósito, comentando qualquer coisa que pudesse arrancar uma reação. Serapina um pouco atrás, passos leves, carregando uma bolsa improvisada com ervas e bandagens que ela mesma colhia pelo caminho. Leonel fechava o meio, espada na cintura, mão direita inconscientemente pressionando o peito onde o selo agora formava uma teia visível de rachaduras finas, como porcelana prestes a estilhaçar.
— Ei, híbrido — Valquíria cutucou o braço dele com o cotovelo. — Você tá quieto demais hoje. Tá pensando na anjinha ou no meu pedido de casamento?
Leonel suspirou.
— Nem um, nem outro.
— Mentira. Eu vi você olhando pra asa dela mais cedo. — Ela inclinou a cabeça, sorriso malicioso. — Quer consertar? Eu arranco a minha se você quiser uma de verdade.
Serapina, que ouvia tudo, corou violentamente e acelerou o passo para alcançar os dois.
— P-por favor, não brinque com isso… Minhas asas… elas não são mais como antes.
Valquíria deu de ombros.
— Relaxa, pena quebrada. Eu só tô dizendo que se ele gosta de asas, a minha é maior e mais resistente. E ainda funciona.
Lucky, à frente, revirou os olhos tão forte que quase tropeçou numa raiz.
— Vocês dois são insuportáveis. E você, Valquíria, já parou pra pensar que talvez ele não queira casar com alguém que ameaça arrancar as próprias asas?
— Ele vai querer — respondeu ela, confiante. — Só precisa de mais uns treinos. E uns beijos. Principalmente beijos.
Leonel massageou as têmporas.
— Podemos falar de outra coisa? Tipo… pra onde estamos indo?
Lucky apontou para o mapa rabiscado que carregava.
— Tem uma passagem nas montanhas adiante. Dizem que leva a uma cidade neutra chamada Vau das Sombras. Mercenários, contrabandistas, alguns clérigos renegados… lugar perfeito pra quem tá sendo caçado. E tem rumores de um ferreiro que conserta armas encantadas. Talvez dê pra reforçar essa espada velha do seu pai adotivo.
Leonel tocou o cabo da espada de Renki. Ainda quente em sua memória.
— Vamos pra lá então.
Mas o destino tinha outros planos.
O ataque veio ao entardecer, quando o sol tingia as colinas de laranja e roxo.
Primeiro foi o cheiro: enxofre forte, podridão doce. Depois o rugido baixo, como trovão engasgado na garganta de uma besta.
Um demônio classe média surgiu no topo da colina à direita do caminho. Maior que o de Rio Sereno — quase quatro metros, corpo coberto de placas ósseas irregulares, quatro braços terminando em garras curvas, olhos amarelos múltiplos piscando em descompasso. Uma cauda espinhosa chicoteava o ar, arrancando pedaços de rocha.
— Híbrido… — a voz saiu como múltiplas camadas sobrepostas. — O selo… está chamando. O mestre quer você vivo… ou em pedaços.
Leonel sacou a espada no mesmo instante.
— Fiquem atrás de mim.
Valquíria já estava rindo, garras estendidas.
— Atrás? Nem ferrando. Isso aqui é treino em grupo!
Serapina ergueu as mãos trêmulas, luz dourada fraca se formando.
— Eu… eu posso curar enquanto vocês lutam…
Lucky mirou a besta.
— Então vamos acabar rápido. Esse cheiro tá me dando náusea.
O demônio desceu a colina em um salto que rachou o chão. Dois braços atacaram Leonel, os outros dois Valquíria. Ela bloqueou com os antebraços, garras cravando nas placas ósseas, e riu alto.
— Forte! Gosto!
Leonel desviou de um golpe que esmagou uma rocha ao seu lado. Contra-atacou com um corte ascendente — a lâmina de Renki cortou uma placa, mas mal arranhou a carne por baixo. O demônio revidou com a cauda; Leonel rolou, mas a ponta espinhosa rasgou sua capa e deixou um corte superficial no ombro.
Sangue escorreu. O selo respondeu imediatamente.
Dor lancinante. Fumaça negra explodiu do peito, subindo pelos braços como veias vivas. O olho vermelho brilhou tão intenso que até Valquíria piscou surpresa. Contornos de asas sombrias tremularam atrás dele — maiores que antes, quase sólidas por um segundo.
— Isso… — murmurou o demônio, lambendo os lábios. — Perfeito. O herdeiro está acordando.
Valquíria chutou o joelho da criatura, forçando-a a se abaixar.
— Ei, monstro! Ele é meu noivo. Você não toca!
Ela pulou nas costas do demônio, cravando garras nos ombros. Lucky atirou virotes nos olhos múltiplos — dois acertaram, fazendo a besta urrar.
Serapina correu até Leonel, mãos brilhando.
— Seu ombro… deixa eu curar!
Mas quando ela tocou o ferimento, algo estranho aconteceu.
A luz dourada dela encontrou a fumaça negra que saía do selo. Em vez de se repelirem, as energias se entrelaçaram por um instante — branco e preto girando como yin-yang. O corte no ombro de Leonel fechou em segundos. Mas Serapina arquejou, caindo de joelhos.
— O que… foi isso? — perguntou ela, ofegante.
Leonel a ajudou a se levantar.
— Não sei. Mas… obrigada.
O demônio se livrou de Valquíria com um giro violento, jogando-a contra uma rocha. Ela caiu rindo, sangue negro escorrendo do canto da boca.
— Mais! Me dá mais!
Leonel avançou. O selo rachou audivelmente — uma linha nova cruzando o centro. Fumaça negra envolveu a espada. Quando ele golpeou, a lâmina carregava luz branca nas bordas e trevas no centro. O corte atravessou duas placas ósseas e abriu um talho profundo no peito da criatura.
O demônio urrou, recuando.
— Impossível… o selo ainda não quebrou por completo…
Lucky aproveitou: virote certeiro na garganta. Valquíria pulou de novo, cravando as garras na nuca. Leonel deu o golpe final — espada cravada entre os olhos múltiplos.
O corpo colossal desabou, se desfazendo em cinzas escuras que o vento levou.
Silêncio. Apenas respiração pesada.
Valquíria se levantou, limpando o sangue do rosto.
— Boa, híbrido. Tá ficando perigoso. Eu gosto.
Serapina se aproximou devagar de Leonel, olhos fixos no selo agora visível sob a camisa rasgada.
— Isso… está piorando. Cada luta, ele racha mais.
Leonel cobriu o peito com a mão.
— Eu sei.
Lucky guardou a besta.
— E o que acontece quando quebrar de vez?
Ninguém respondeu.
Serapina estendeu a mão hesitante e tocou o selo por cima da camisa. Novamente, luz dourada e fumaça negra se tocaram — dessa vez mais calmas, como se se reconhecessem.
— Talvez… — sussurrou ela. — Talvez eu consiga ajudar a segurar. Não parar… mas atrasar.
Valquíria cruzou os braços, ciumenta.
— Ei, pena quebrada. Mãos fora do meu noivo.
Serapina corou, mas não tirou a mão.
— Eu só quero ajudar…
Leonel olhou para as duas, depois para Lucky — que apenas deu de ombros como quem diz “eu avisei”.
— Vamos continuar — disse ele, voz firme apesar da exaustão. — Vau das Sombras. Lá a gente descansa… e pensa no próximo passo.
Eles recomeçaram a andar. O selo pulsava devagar agora, como um coração cansado.
Atrás deles, nas cinzas do demônio, uma runa minúscula brilhou por um segundo antes de se apagar — um símbolo que Boris reconheceria de longe.
No Submundo, o Rei sorriu.
— Mais perto, filho. Mais perto.
Capítulo 9: Ciúmes e Risadas
A noite caiu sobre o acampamento improvisado nas encostas das montanhas que levavam ao Vau das Sombras. O grupo havia encontrado uma pequena clareira protegida por rochas altas, longe o suficiente da trilha principal para não atrair olhares indesejados. Uma fogueira baixa crepitava no centro, iluminando rostos cansados mas vivos.
Lucky estava de guarda primeiro, encostado numa rocha com a besta no colo, olhos fixos na escuridão. Leonel sentava perto do fogo, afiando a espada de Renki com movimentos lentos e ritmados — o som do metal contra a pedra era quase hipnótico. Valquíria, deitada de bruços com o queixo apoiado nas mãos, observava Leonel como um gato olhando para um passarinho. Serapina, um pouco afastada, mexia em um punhado de ervas que colhera durante o dia, preparando uma pasta para os machucados leves que todos carregavam.
O silêncio era confortável, mas Valquíria nunca deixava o silêncio durar muito.
— Ei, híbrido — ela chamou, voz baixa e provocadora. — Você tá afiando essa espada faz meia hora. Se continuar assim, vai virar uma agulha. Quer que eu te ajude? Posso afiar com as garras… ou com outra coisa.
Leonel nem ergueu os olhos.
— Estou bem.
Valquíria rolou para o lado, ficando de barriga para cima, braços atrás da cabeça. Seus olhos amarelos brilhavam refletindo o fogo.
— Você é chato quando fica sério. Relaxa um pouco. A gente matou um demônio hoje. Merece comemorar.
— Comemorar como? — perguntou Lucky sem virar a cabeça. — Com dança? Ou você vai propor casamento de novo?
— Já propus. Ele aceitou temporariamente. — Valquíria sorriu largo. — Próximo passo é beijar na frente de todo mundo pra marcar território.
Serapina deixou cair uma erva. Suas bochechas ficaram vermelhas instantaneamente.
— B-beijar…? — murmurou ela, quase inaudível.
Valquíria virou o rosto para Serapina como se tivesse ouvido um desafio.
— O que foi, pena quebrada? Tá com ciúmes? Relaxa, tem híbrido pra todo mundo. Ou… você quer tentar também?
Serapina balançou a cabeça rápido, as asas vestigiais tremendo levemente.
— N-não! Eu… eu só… ele salvou a vila. E me salvou. Eu só… admiro ele. Muito.
Leonel parou de afiar a espada. Olhou para Serapina, depois para Valquíria.
— Parem com isso. As duas.
Valquíria sentou de repente, cruzando os braços.
— Tá vendo? Você fala assim porque não quer magoar a anjinha. Mas eu sou direta. Se eu gosto, eu digo. E eu gosto de você, Leonel. Gosto do seu cheiro de luta, gosto dos seus olhos diferentes, gosto de como você fica forte quando o selo racha. Então por que não assume que também gosta um pouquinho de mim?
Leonel suspirou fundo.
— Porque eu não tô pensando nisso agora. Minha família morreu. Minha irmã tá lá fora, esperando eu voltar forte o suficiente pra proteger ela. Eu não tenho tempo pra… isso.
O silêncio caiu pesado. Até Valquíria perdeu o sorriso por um segundo.
Serapina se aproximou devagar, sentando-se do outro lado do fogo, de frente para Leonel.
— Eu entendo… — disse ela, voz suave. — Perdi meu clã também. Fui expulsa porque recusei ordens que achava erradas. Eles queriam que eu caçasse híbridos como você. Eu disse não. Então me quebraram as asas e me jogaram fora. Eu sei o que é carregar dor e ainda ter que seguir em frente.
Leonel ergueu os olhos para ela. Pela primeira vez, viu além da timidez: uma tristeza antiga, mas não quebrada.
— Por que você não me contou antes?
Serapina baixou o olhar.
— Porque… eu tinha medo que você me odiasse. Por ser anja. Mesmo caída.
Valquíria bufou, mas dessa vez sem veneno.
— Ninguém aqui odeia ninguém. Senão já teria matado todo mundo. Inclusive eu.
Lucky riu baixo da rocha.
— Verdade. Vocês são um grupo de aberrações. E eu sou o mais normal aqui. Imagina.
Leonel guardou a espada na bainha.
— Ninguém aqui é aberração. Somos só… o que sobrou.
Valquíria se arrastou até ficar ao lado dele, ombro colado no ombro.
— Então deixa a gente ajudar você a ficar forte. Eu treino você. A anjinha cura você. O mestiço atira em quem vier atrás. E quando tudo acabar… aí você decide quem fica do seu lado. Ou quem fica dos dois lados. Eu não sou ciumenta… muito.
Serapina corou de novo, mas dessa vez sorriu tímido.
— Eu… eu também quero ajudar. Não por… por isso. Só porque você é bom. E seus olhos… eles me lembram que nem tudo que é diferente é ruim.
Leonel olhou para o fogo. O selo pulsou devagar, quente, mas não doloroso dessa vez.
— Tá bom — murmurou ele. — Mas sem mais conversa de casamento. Nem beijo. Nem território. Pelo menos… até a gente chegar no Vau das Sombras.
Valquíria deu um soco leve no ombro dele.
— Combinado. Temporariamente.
Lucky se levantou, esticando os braços.
— Meu turno de guarda acabou. Alguém assume?
Valquíria pulou de pé.
— Eu vou. Mas antes… — Ela se abaixou rápido e plantou um beijo estalado na bochecha de Leonel. — Isso não conta como beijo de verdade. É só pra marcar o acordo.
Leonel ficou vermelho até a raiz dos cabelos brancos.
— Valquíria!
Serapina cobriu a boca, tentando não rir, mas os ombros tremiam.
Lucky caiu na gargalhada.
— Eu avisei. Circo completo.
Valquíria piscou para Serapina.
— Sua vez, pena quebrada. Se quiser marcar território também.
Serapina balançou a cabeça freneticamente, mas seus olhos verdes brilhavam com algo novo — não mais só timidez, mas uma faísca de coragem.
— Eu… eu vou esperar o momento certo.
Leonel massageou o rosto, tentando esconder o rubor.
— Vocês são impossíveis.
Mas, pela primeira vez desde a vila em cinzas, ele sorriu de verdade. Um sorriso pequeno, cansado, mas real.
A fogueira crepitou mais alto, como se aprovasse.
No céu, acima das montanhas, uma estrela cadente riscou o escuro — ou talvez fosse algo mais. Um mensageiro. Um aviso.
Mas naquela noite, pelo menos por algumas horas, o grupo permitiu-se rir. Ciúmes, provocações, promessas não ditas. Tudo misturado ao crepitar do fogo e ao som distante do vento nas rochas.
O selo no peito de Leonel pulsou em ritmo calmo, como se, por um instante, também estivesse descansando.
Capítulo 10: O Discípulo da Lenda
O Vau das Sombras não era uma cidade — era uma ferida aberta no coração das montanhas. Casas de pedra negra e madeira retorcida se amontoavam contra penhascos íngremes, ruas estreitas serpenteavam como veias, e lanternas de óleo azul pendiam em correntes enferrujadas, lançando uma luz fria que nunca chegava a aquecer. Mercenários bebiam em tavernas sem nome, contrabandistas negociavam relíquias proibidas nas sombras, e clérigos renegados vendiam bênçãos falsas por moedas sujas. Ninguém perguntava nomes. Ninguém olhava nos olhos por muito tempo.
O grupo chegou ao entardecer, capas sujas de poeira e sangue seco. Lucky liderou o caminho até uma estalagem chamada “O Corvo Caído”, um prédio torto com telhado de ardósia rachada. Dentro, o ar cheirava a cerveja azeda, fumaça e aço afiado.
— Aqui é neutro — murmurou Lucky, pedindo quatro canecos de hidromel aguado. — Ninguém mexe com ninguém enquanto pagar a conta. Mas cuidado com quem olha demais.
Eles se sentaram numa mesa encostada na parede. Valquíria já estava bebendo como se fosse água, Serapina segurava o caneco com as duas mãos como se fosse explodir, e Leonel observava o salão. Seus olhos — azul e vermelho — atraíam olhares curiosos, mas ninguém se aproximava. Ainda.
Foi quando a porta se abriu com força.
Uma mulher entrou.
Alta, ombros largos, armadura leve de couro reforçado com placas de metal escuro. Cabelos castanhos curtos, presos atrás da cabeça, cicatriz fina cruzando o queixo. Espada longa nas costas, bainha gasta pelo uso constante. Seus olhos cinzentos varreram o salão como lâminas — pararam em Leonel.
Doria, Capitã da Guarda Real do antigo reino de Eldenford.
Ela atravessou o salão em passos firmes. Parou diante da mesa deles. O burburinho ao redor diminuiu.
— Leonel — disse ela, voz baixa, mas carregada de autoridade. Não era pergunta. Era certeza.
Leonel se levantou devagar. Mão na empunhadura da espada.
— Você me conhece.
— Conheço o estilo. — Doria apontou para a espada na cintura dele. — Aquela guarda alta, o giro no pulso antes do corte descendente… é o mesmo que Renki usava. O mesmo que ele me ensinou.
Valquíria se levantou também, garras estendidas sutilmente.
— Ei, humana. Se veio brigar, avisa antes. Eu gosto de luta justa.
Doria nem piscou.
— Não vim brigar. Vim confirmar. Renki era meu mestre. Quando eu era só uma recruta na Guarda Real, ele me tirou da rua e me transformou em soldado. Safyra… ela era a general que me deu a primeira missão de verdade. Quando soube do massacre em Eldenford, vim atrás de respostas. E encontrei você.
Leonel sentiu o selo pulsar, mas dessa vez não era dor — era como se algo dentro dele reconhecesse.
— Eles morreram por mim.
Doria assentiu devagar.
— Eu sei. A igreja infiltrada. Dron. Eles estavam atrás de um “híbrido”. Um herdeiro proibido. — Seus olhos foram para o peito dele, onde a camisa rasgada deixava entrever as rachaduras do selo. — E você carrega o selo. Eu sinto o poder vazando.
Lucky cruzou os braços.
— E agora? Vai entregar ele pra igreja?
Doria balançou a cabeça.
— Não. Renki me ensinou uma coisa antes de tudo: lealdade não é cega. Eu abandonei a Guarda quando vi a corrupção. Agora sou só… uma caçadora de respostas. E vingança.
Ela olhou para Leonel de novo.
— Mas antes de qualquer coisa… prove que é mesmo o discípulo dele. Lute comigo. Aqui. Agora. Sem matar. Só pra ver se o legado sobreviveu.
O salão inteiro parou. Mesas foram afastadas. Um círculo se formou. Alguém gritou “aposta!” e moedas começaram a tilintar.
Valquíria sorriu largo.
— Isso eu quero ver.
Serapina tocou o braço de Leonel, preocupada.
— Você está machucado ainda…
— Eu aguento — respondeu ele, baixo.
Leonel e Doria se posicionaram no centro. Espadas desembainhadas. Nada de armadura extra. Nada de truques.
Doria atacou primeiro — um golpe rápido, preciso, idêntico ao que Renki usava para testar alunos. Leonel bloqueou. O impacto reverberou nos ossos. Ele contra-atacou com o giro que Renki chamava de “Corte do Vento Morto”. Doria desviou por pouco, olhos arregalados.
— Exato… — murmurou ela.
Eles dançaram. Golpe após golpe. Metal cantando contra metal. Leonel era mais jovem, mais rápido, mas Doria tinha experiência — cada movimento dela era calculado, econômico. Ela o forçava a recuar, testando limites.
Então o selo reagiu.
Uma rachadura nova se abriu. Fumaça negra subiu pelos braços de Leonel. O olho vermelho brilhou. Por um instante, suas asas sombrias tremularam — contornos reais, quase tangíveis.
Doria parou. Baixou a espada.
— Chega.
O salão ficou em silêncio absoluto.
Ela guardou a arma.
— Você é o herdeiro. E carrega o peso dos dois. Renki e Safyra… eles morreram orgulhosos de você. Eu vi nos relatórios. Eles lutaram até o fim.
Leonel baixou a espada, ofegante.
— Por quê você veio mesmo?
Doria olhou para o grupo — Valquíria pronta para pular, Serapina com as mãos brilhando de cura, Lucky com a besta meio erguida.
— Porque o reino está caindo. A igreja controla o trono agora. Dron não age sozinho. Há algo maior. Um “mestre” que eles servem. E você… você é a chave. Ou a arma que pode destruí-los.
Ela estendeu a mão.
— Eu não peço lealdade. Só informação. E talvez… uma aliança. Quando você estiver pronto.
Leonel hesitou. Depois apertou a mão dela.
— Temporário.
Doria sorriu de leve — o primeiro sorriso verdadeiro.
— Como tudo nessa vida.
Valquíria bufou.
— Tá bom, humana forte. Mas se tentar roubar meu híbrido, eu te desafio também.
Doria riu baixo.
— Aceito o desafio. Mas primeiro… descansem. Amanhã tem mais estrada. E mais inimigos.
O grupo se sentou de novo. O salão voltou ao barulho normal. Mas algo havia mudado.
Leonel tocou o selo. As rachaduras pareciam mais profundas, mas pela primeira vez, ele não sentiu medo. Sentiu… propósito.
No fundo da taverna, uma sombra observava. Olhos negros como os de Dron. Um mensageiro da igreja.
Eles sabiam onde o herdeiro estava.
E o dragão negro já voava em direção ao reino.
Capítulo 11: O Dragão Negro
O amanhecer no Vau das Sombras era cinzento e úmido, como se o próprio ar carregasse o peso das mentiras que se contavam ali. O grupo saiu cedo, mochilas leves e armas pesadas. Doria os acompanhava agora — não como prisioneira, nem como líder, mas como alguém que havia encontrado um propósito comum. Ela caminhava ao lado de Leonel, falando baixo sobre o que restava do reino: o trono vazio, a igreja controlando o conselho, e rumores de um “mestre” que falava através de Dron e outros possuídos.
— Eles não querem só você — disse ela. — Querem o poder que o selo guarda. Se quebrar de vez, você pode virar uma arma que nem anjos nem demônios controlam. Ou… podem tentar usá-lo como portal.
Leonel tocou o peito. As rachaduras formavam agora um padrão quase completo — uma runa circular rachada no centro, pulsando com luz branca e treva alternadas.
— Então por que ainda não quebrou?
Doria olhou para ele.
— Porque você ainda resiste. Renki sempre dizia: “A força não está na lâmina. Está na mão que a segura.” Você segura o selo com vontade, não com medo.
Valquíria, andando atrás, bufou.
— Bonito discurso, humana. Mas se o selo quebrar, eu cuido dele. Ninguém toca no meu híbrido.
Serapina, silenciosa até então, ergueu os olhos.
— Eu… eu posso tentar selar de novo. Com a minha luz. Ontem, quando toquei… as energias se misturaram. Talvez se eu…
Lucky interrompeu, apontando para o céu.
— Guardem conversa pra depois. Olhem.
Acima das montanhas, uma sombra enorme cruzava o sol nascente. Asas negras como noite sem estrelas, escamas reluzindo em tons de obsidiana e vermelho sangue. O dragão negro voava baixo, tão baixo que o bater das asas fazia o chão tremer. Montado em suas costas, uma figura encapuzada — Claus, o arauto da igreja infiltrada, o mesmo que Dron servia. Ele erguia uma lança cerimonial, runas vermelhas brilhando na ponta.
O dragão abriu a boca. Um rugido que não era som, mas pressão — o ar se comprimiu, árvores ao redor se curvaram.
— O herdeiro do Submundo! — gritou Claus, voz amplificada por magia. — Entregue-se, ou o reino queima de novo!
Doria sacou a espada.
— Ele veio atrás de vocês. Direto pro Vau das Sombras. Isso não é coincidência.
Valquíria riu selvagem, garras estendidas.
— Finalmente uma luta de verdade!
O dragão desceu em espiral. O impacto das patas no chão rachou a terra a dezenas de metros. Chamas negras saíram da boca, incinerando uma fileira de casas próximas. Gritos ecoaram. Mercenários fugiam, mas alguns sacavam armas — o Vau das Sombras não era lugar de covardes.
Leonel avançou primeiro.
— Claus! Você matou minha família!
Claus riu de cima do dragão.
— Sua família? Eles eram obstáculos. O selo pertence ao mestre. E você… você é o recipiente perfeito.
O dragão atacou. Cauda chicoteou, mirando Leonel. Ele rolou para o lado, espada cortando a escama — faísca, mas pouco dano. Valquíria pulou nas costas da besta, cravando garras nas juntas das asas. O dragão urrou, tentando sacudi-la. Lucky atirou virotes envenenados nos olhos — um acertou, fazendo a criatura piscar furiosa.
Serapina ergueu as mãos, barreira de luz dourada protegendo civis que ainda corriam.
— Leonel! O selo… está chamando!
De fato. O selo queimava como nunca. Fumaça negra explodiu do peito, envolvendo o corpo inteiro. Asas sombrias se formaram — não contornos, mas reais, membranosas, negras com veias de luz branca. O olho vermelho brilhou como brasa. Poder puro vazava, incontrolável.
Claus sorriu.
— Veja! O herdeiro desperta!
Leonel não respondeu com palavras. Ele pulou. As asas o impulsionaram para cima — voo instintivo, desajeitado, mas forte. A espada de Renki brilhou, luz celestial misturada à treva demoníaca. Ele colidiu com o dragão no ar.
Golpe após golpe. A lâmina cortava escamas, sangue negro jorrava como chuva. O dragão revidou com fogo — Leonel desviou por pouco, asas queimando nas bordas, mas regenerando com a fumaça negra. Valquíria, ainda nas costas da criatura, cravou as garras no pescoço.
— Acaba com ele, noivo!
Leonel girou no ar. A espada desceu em arco perfeito — o mesmo Corte do Vento Morto que Renki usava, mas amplificado pelo selo. A lâmina atravessou o pescoço do dragão. A cabeça colossal caiu, corpo despencando em espiral.
Claus saltou antes do impacto, lança na mão, caindo de pé. Mas Leonel já estava sobre ele.
Não quer ver anúncios?
Com uma contribuição de R$29,90 você deixa de ver anúncios no +Fiction durante 1 ano, além de outros benefícios.
Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!— Por Safyra. Por Renki. Por Alice.
Ele cravou a espada no peito de Claus. Luz branca e treva negra explodiram ao mesmo tempo. O arauto gritou — corpo se contorcendo, runas vermelhas se apagando. Ele caiu de joelhos, depois desabou, sem vida.
Silêncio. Apenas o crepitar das chamas distantes e o bater acelerado de corações.
Leonel aterrissou. As asas se desfizeram em fumaça. O selo… parou de pulsar. As rachaduras ainda estavam lá, mas quietas. Por enquanto.
Valquíria caiu ao lado dele, ofegante, sorrindo.
— Isso… foi lindo. Você voou, híbrido. Meu noivo voou.
Serapina correu até ele, mãos brilhando para curar os queimados.
— Você… você está bem?
Doria se aproximou, olhos fixos no corpo de Claus.
— Ele disse “o mestre”. Quem quer que seja… agora sabe que você acordou.
Lucky guardou a besta.
— E o Submundo sentiu. Olha.
No horizonte, uma rachadura vermelha se abriu no céu por um segundo — como um olho distante abrindo. Boris. O Rei do Submundo. Sentindo o chamado do filho.
Leonel olhou para o grupo. Cabelos brancos desgrenhados, olhos heterocromáticos brilhando com algo novo: não mais só vingança, mas determinação.
— Eu não vou ser arma de ninguém. Nem deles. Nem do mestre. Nem do meu… pai.
Ele apertou o punho.
— Vamos acabar com isso. Todos juntos.
Valquíria colocou a mão no ombro dele.
— Juntos. E depois… casamento.
Serapina corou, mas sorriu.
Lucky riu.
— Circo voador agora.
Doria assentiu.
— O reino precisa de vocês. E eu vou com vocês.
O dragão negro jazia morto. Chamas se apagavam devagar.
Mas no Submundo, Boris abriu os olhos vermelhos e sussurrou:
— Meu filho… está pronto.
Capítulo 12: O Herdeiro do Submundo
O crepúsculo tingia o céu de vermelho profundo, como se o próprio mundo sangrasse pela ferida aberta do dragão morto. O Vau das Sombras ainda fumegava ao fundo — casas queimadas, corpos espalhados, o cheiro acre de enxofre e carne carbonizada. O grupo estava parado na colina mais alta próxima, de onde se via o horizonte inteiro: as montanhas ao norte, o reino ao sul, e, no limite da visão, uma rachadura vermelha pulsando no céu como uma veia exposta.
Leonel estava de pé no centro. Cabelos brancos colados na testa pelo suor e pelo sangue seco. A espada de Renki ainda na mão, ponta cravada no chão como âncora. O selo no peito não pulsava mais — estava quieto, mas as rachaduras formavam agora uma runa completa, quase brilhante, como se esperasse apenas uma palavra para se abrir de vez.
Valquíria estava ao lado direito dele, garras retraídas pela primeira vez em dias, olhos amarelos fixos no horizonte.
— Ele tá vindo, né? Seu pai.
Leonel assentiu devagar.
— Eu sinto. Como se tivesse uma corda no peito. Puxando.
Serapina estava à esquerda, asas vestigiais tremendo levemente. Suas mãos ainda brilhavam com resquícios de luz dourada da cura que fizera nele minutos antes.
— Leonel… se o selo quebrar agora… você ainda vai ser você?
Ele olhou para ela. O olho azul claro refletia a preocupação dela; o vermelho escuro parecia absorver a luz do crepúsculo.
— Eu não sei. Mas eu não vou deixar ninguém decidir por mim. Nem Boris. Nem o mestre da igreja. Nem o selo.
Doria, um pouco atrás, segurava a espada com força.
— O reino inteiro vai sentir isso. Se você despertar como herdeiro… pode virar o jogo. Ou destruir tudo.
Lucky, encostado numa rocha, besta no ombro, deu um riso seco.
— Ótimo. De fugitivo pra possível fim do mundo em menos de uma semana. Meu tipo de progressão.
A rachadura no céu se alargou. Um som grave ecoou — não trovão, mas algo mais antigo, como o bater de um coração colossal. Das trevas vermelhas emergiu uma silhueta: alta, coroada por chifres negros retorcidos, manto de sombras vivas ondulando como fumaça. Boris, Rei do Submundo, não veio em corpo completo — era uma projeção, uma manifestação de vontade pura, mas ainda assim imensa, preenchendo o céu como uma tempestade viva.
Seus olhos vermelhos — idênticos ao de Leonel, mas infinitamente mais antigos — fixaram-se no filho.
— Leonel.
A voz rolou como avalanche, ecoando dentro da cabeça de todos.
Leonel ergueu o queixo.
— Você demorou.
Boris inclinou a cabeça, quase divertido.
— Eu esperei você acordar. O selo que sua mãe fez… foi bem feito. Mas agora ele cumpriu seu papel. Você está pronto.
— Pronto pra quê? — perguntou Leonel, voz firme apesar do tremor interno. — Pra ser sua arma? Pro seu trono? Pra destruir o que sobrou?
Boris desceu devagar, a projeção ficando menor até tocar o chão a poucos metros do grupo. Agora parecia quase humano — alto, pele cinza-escura, cabelos negros longos, olhos ardendo.
— Pra escolher.
Ele estendeu a mão. Uma runa idêntica à do selo flutuou na palma.
— O selo está rachado porque você lutou. Porque você matou. Porque você protegeu. Ele não é prisão — é herança. Anjo e demônio. Luz e treva. Você pode selar tudo de novo… ou deixar quebrar. E quando quebrar, o poder será seu. Não meu. Não deles. Seu.
Valquíria deu um passo à frente, garras estendidas.
— Ei, rei. Se você tocar nele, eu arranco sua coroa.
Boris olhou para ela — pela primeira vez, algo como aprovação passou por seus olhos.
— Você tem bom gosto, garoto. Ela é forte.
Serapina se aproximou também, mão na manga de Leonel.
— Ele não precisa ser como você. Ele pode ser… melhor.
Boris riu baixo — um som que fez o chão vibrar.
— Melhor? Talvez. Mas o mundo não perdoa fraqueza. E o mestre que a igreja serve… ele já sabe. Ele vem. Com exércitos. Com portais. Com fome antiga. Se você não tomar o poder, ele tomará você.
Leonel sentiu o selo queimar de novo. Não dor — chamado. Ele olhou para o grupo: Valquíria pronta pra morrer lutando, Serapina com olhos cheios de fé, Lucky com sorriso torto de quem já aceitou o caos, Doria com a postura de quem jurou proteger o que restava.
Então olhou para o horizonte sul — onde Alice esperava, estudando magia, cozinhando, guardando a promessa do mindinho.
Ele respirou fundo.
— Eu não vou ser herdeiro de ninguém. Nem do Submundo. Nem do Céu. Nem do mestre.
Ele levou a mão ao peito. Os dedos tocaram as rachaduras. Fumaça negra e luz branca subiram ao mesmo tempo, girando em torno dele como um vórtice.
— Eu sou Leonel. Filho de Sarena e Boris. Irmão de Alice. Discípulo de Renki e Safyra. E vou proteger quem amo… do meu jeito.
Com um gesto lento, deliberado, ele pressionou a palma contra o selo.
As rachaduras brilharam intensas. Uma explosão silenciosa de luz e treva iluminou a colina. Asas — negras com veias douradas — se abriram atrás dele, completas dessa vez. Chifres curtos brotaram na testa, mas não grotescos — elegantes, como coroa. Poder puro correu pelas veias, mas não o consumiu. Ele o segurou. Como Renki ensinara: a força está na mão que segura.
Boris observou em silêncio. Depois, sorriu — não de triunfo, mas de algo próximo a orgulho.
— Você escolheu.
A projeção começou a se desfazer em partículas vermelhas.
— Quando precisar… o Submundo estará aberto. Mas só pra você. Não pra mim.
Ele desapareceu.
Silêncio.
Leonel fechou as asas devagar. Elas se retraíram até sumirem. Os chifres também. O selo… agora era uma marca limpa, circular, brilhando suavemente sob a pele — não mais rachado, mas integrado. Poder controlado. Não mais vazando.
Ele caiu de joelhos, exausto, mas vivo. Mais vivo do que nunca.
Valquíria foi a primeira a reagir. Correu e o abraçou por trás, rindo alto.
— Isso foi a coisa mais linda que eu já vi! Meu noivo virou rei sem querer!
Serapina se ajoelhou na frente dele, tocando seu rosto com cuidado.
— Você… você ainda é você.
Leonel sorriu fraco.
— Ainda sou.
Lucky se aproximou, estendendo a mão pra ajudá-lo a levantar.
— Parabéns, herdeiro. Agora a gente tem que lidar com o resto do mundo querendo sua cabeça.
Doria olhou para o sul.
— O mestre vem. Mas agora… você tem uma chance real.
Leonel se levantou. Olhou para todos.
— Vamos voltar pra Alice. Depois… a gente enfrenta o que vier.
Ele estendeu o mindinho pro grupo — gesto infantil, mas carregado de promessa.
— Promessa de família. Inquebrável.
Um a um, eles entrelaçaram os mindinhos: Valquíria rindo, Serapina tímida, Lucky revirando os olhos, Doria séria.
No céu, a rachadura vermelha se fechou devagar.
Mas no horizonte sul, nuvens negras se formavam — exércitos se movendo. O mestre acordara.
E o herdeiro do selo proibido estava pronto.
Fale com o autor