Passaram-se dez anos desde o nascimento de Sakon, e aquele bebê abandonado na floresta cresceu forte e saudável. Agora, uma criança cheia de energia, ele passava seus dias correndo pelas ruas do vilarejo, sempre com um sorriso no rosto, brincando com os amigos e explorando cada canto do lugar que o acolhera como lar. Sakon também se tornara próximo de seu pai adotivo, acompanhando-o nas caçadas que fortaleciam o vínculo entre eles. Juntos, embrenhavam-se nas florestas, rastreando animais, uma ironia do destino, visto que fora naquele mesmo ambiente hostil que ele quase perdera a vida. Sakon também nadava nos grandes rios próximos, onde aprendeu a pescar, uma habilidade que lhe dava orgulho. Ele era conhecido por sua coragem e determinação, e os moradores da vila muitas vezes comentavam como Sakon parecia ter nascido para a vida selvagem, sempre em sintonia com a natureza. As florestas, que antes representavam uma ameaça à sua existência, agora eram seu playground, e ele corria por entre as árvores com uma leveza que fazia com que parecesse parte do próprio ambiente. Esses anos tranquilos, de inocência e aprendizado, moldaram o menino, mas a sombra de seu passado ainda o esperava, paciente, pronta para ser revelada.

Por mais que Sakon fosse apenas uma criança, era evidente que ele não era como as outras. Sua resistência e força estavam muito além do normal. Enquanto os garotos de sua idade se cansavam rapidamente nas brincadeiras ou nas atividades diárias, Sakon parecia incansável. Ele tinha a força de dez homens, algo que deixava muitos aldeões perplexos. Além disso, seu tamanho chamava atenção. Mesmo com apenas 10 anos, Sakon já media 1,10 metros, uma altura impressionante para alguém tão jovem. Esse crescimento incomum reforçava a ideia de que havia algo de especial nele. O povo da aldeia muitas vezes comentava, admirado, que Sakon parecia ter uma força oculta, como se carregasse um poder ancestral, desconhecido até para ele mesmo.

A paz sempre reinara na vida de Sakon e em seu vilarejo. Porém, como qualquer equilíbrio, esse também estava destinado a se quebrar. Numa manhã ensolarada, após uma noite turbulenta marcada por tempestades violentas e ventos cortantes, o vilarejo foi sacudido por um som que trazia com ele presságios sombrios. O sino da praça central ecoou pelas ruas de pedra, um sinal inconfundível de que algo urgente e grave havia acontecido.

Em questão de minutos, todos os aldeões se reuniram na praça, suas expressões tensas, enquanto olhavam para o homem que tocara o sino. Era Galdor, um dos mais respeitados caçadores da vila. O rosto dele estava marcado pela dor e pelas lágrimas, sua postura abatida como se a alma tivesse sido arrancada de seu corpo. Ele demorou alguns segundos para encontrar as palavras, seu olhar perdido no chão. Quando finalmente ergueu a voz, era entrecortada pelo desespero.

— Eu estava... estava andando pela floresta esta manhã — começou Galdor, sua voz trêmula. — O tempo tinha clareado, e eu queria ver se as árvores e trilhas estavam em ordem depois da tempestade de ontem à noite.

Ele respirou fundo, tentando conter o choro.

— Mas o que eu encontrei... o que eu vi...

Ele parou por um momento, as lágrimas começando a descer por suas bochechas, enquanto alguns aldeões trocavam olhares preocupados.

— Eu encontrei meu irmão, Andril... morto. Ele... ele foi dilacerado... ele estava em pedaços! — a voz de Galdor se quebrou, e ele caiu de joelhos no meio da praça, a dor finalmente tomando conta dele por completo. — Eu... eu não sei o que fez isso, mas... algo... algo terrível está nas nossas terras...

O choque passou pela multidão, que se entreolhava sem saber o que pensar. O terror começou a se espalhar, como um fogo que se alastra rapidamente. Alguma coisa estava à espreita nas florestas que Sakon tanto amava, algo capaz de destroçar um homem.

O pai de Sakon, Joseph, um homem robusto e respeitado entre os aldeões, caminhou até o centro da praça. Sua postura firme e confiante contrastava com o caos emocional que começava a se espalhar pela multidão. Ele colocou a mão sobre o ombro de Galdor em um gesto de solidariedade, tentando confortar o homem em meio à sua dor.

— Não entraremos em pânico — declarou Joseph com uma voz grave, mas cheia de autoridade, chamando a atenção de todos ao redor. — Eu sinto muito pelo seu irmão, Galdor. Andril era um bom homem, um excelente caçador. Nós caçamos juntos desde crianças, e sei que ele sempre foi cuidadoso nas florestas.

Houve uma pausa respeitosa enquanto ele permitia que essas palavras de consolo acalmassem Galdor e a multidão, antes de continuar.

— Mas acredito que isso seja obra de uma matilha de lobos — disse Joseph, observando os rostos ao seu redor. — Temos visto sinais deles vagando pelas redondezas nos últimos dias. Talvez, com a tempestade de ontem, eles tenham se agitado e atacado.

Os aldeões murmuraram entre si, alguns aliviados por uma explicação mais mundana, enquanto outros permaneciam inquietos.

— Vamos ficar atentos — prosseguiu Joseph, sua voz agora mais calma, mas firme. — Se precisarem sair à noite, levem proteção. Não vamos nos expor ao perigo desnecessariamente. Agora é o momento de mantermos a cabeça fria e cuidarmos uns dos outros.

Com essas palavras, ele ajudou Galdor a se levantar, enquanto a multidão começava a se dispersar, ainda temerosa, mas com um senso de direção e liderança.

Dentro de sua casa simples, Sakon e sua família se sentaram em torno da lareira, onde as chamas dançavam, aquecendo o ambiente contra a fria escuridão lá fora. O clima estava tenso desde o aviso trágico na praça, e o silêncio era quase insuportável.

— Joseph — disse Meriene, a mãe adotiva de Sakon, olhando para o marido —, você tem certeza de que são lobos? Lobos não costumam deixar comida para trás assim...

Joseph refletiu por um momento antes de responder.

— Se não forem lobos, Meriene, o que mais poderia ser? — Sua voz estava firme, mas havia uma ponta de incerteza.

Meriene cruzou os braços, inquieta.

— Eu não sei... Pode ser alguém. Alguma pessoa tentando nos intimidar... ou roubar nossa vila.

Joseph balançou a cabeça lentamente, sem querer acreditar que algo mais sinistro poderia estar à espreita.

— Seja o que for, temos que estar preparados. Amanhã, vamos reforçar as patrulhas e garantir que ninguém saia desacompanhado.

Depois de trocarem olhares preocupados, a conversa cessou e todos se recolheram para dormir. O silêncio da noite caiu sobre a vila, enquanto as pessoas tentavam esquecer o que havia acontecido e encontrar algum descanso.

No entanto, enquanto a vila dormia, algo sombrio se movia nas profundezas da floresta, oculto pelas sombras densas das árvores. Silencioso e paciente, ele espreitava como um predador à espera da próxima vítima. A calmaria da noite era apenas uma ilusão, pois o verdadeiro perigo estava cada vez mais próximo, e ninguém poderia prever o que estava por vir ao amanhecer.


Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.