O Herdeiro da Ruina
44 O Destino do Mundo é decidido num Jogo de Morte
Notas iniciais
POV – Nico
Eu estava correndo pelo Palácio Real. Não sabia onde eu estava indo, nem pra onde deveria ir. Eu passei por corredores e sala destruídas, mas tudo não passava de borrões na minha memória.
Meus pensamentos estavam longe, mas eu tinha um objetivo fixo na minha mente, Encontrar Benjamin, Mas eu não sabia o que eu faria em seguida, era isso que me torturava. Eu queria impedi-lo de matar Amanda de qualquer maneira, mas isso podia significar o fim do mundo. Era um terrível dilema. Ou eu salvava a pessoa quem amo, ou o mundo e todos que vivem nele.
Ninguém deveria decidir algo assim na vida.
Consegui sair dos meus devaneios com o som de uma explosão acima de mim, eu corri para a escada mais próxima e cheguei a um corredor diferente dos demais, era mais largo e mais conservado. Ainda havia vasos milenares em seus pedestais e obras de arte pouco gastas pelo tempo, mas o que chamava atenção eram as colunas de mármore branco com diversos desenhos esculpidos, eram obras fora de época.
Eu comecei a caminhar para pegar o fôlego, mas a ansiedade era a mesma. Assim que cheguei perto das enormes portas eu comecei a desconfiar o que era a sala atrás dela, eu tinha quase certeza que era a sala do trono. Quando eu empurrei a porta, que soltou um rangido por causada da idade, um senti uma brisa fria, como se fossem espíritos fugindo da sala. Bem, isso geralmente não é um bom sinal.
A sala do trono de Atlântida era algo incrível. Havia ouro em quase todos os pontos da sala, em colunas e rodapés. Ao fundo, um lance de degraus de mármore levava a um trono majestoso, totalmente revestido em ouro e pedras preciosas e, acima dela, uma enorme faixa azul com um tridente prateado bordado. O símbolo de Poseidon.
Eu comecei a andar até o trono, mas parei quando senti algo quente cair em meu rosto. Parecia pingos de águas, mas quando passei os dedos em meu rosto para limpar, percebi a coloração vermelha neles. Era sangue. Meus impulsos me forçaram a olhar pra cima, foi nessa hora que vi aquela cena macabra, digna de filme de terror.
Um garoto estava suspenso no ar, com arame farpado enrolado em seu pescoço, prendendo-o a uma viga de madeira. Mas o sangue não vinha das feridas que o arame causara, mas sim das três lanças que perfuravam seu corpo. Quem quer que tenha feito isso, não é humano, não mais.
Usei as sombras para chegar numa viga mais próxima, para poder identificar o garoto. Assim que sai das Sombras e eu me agarrei na viga, mas quase cai com o susto que tive quando vi o rosto do garoto. De baixo, parecia que o arame estava apenas enrolado no pescoço do garoto, mas o arame subia pelo queixo e passava pelas bochechas, nariz e olhos, causando feridas e sangramentos por todo rosto – Isso também indicava que fizeram isso quando ele ainda estava vivo.
O garoto estava quase irreconhecível. Quase.
– Meus deuses... Gabe...
Eu invoquei braços de esqueletos na viga em que Gabe estava preso e os fiz desamarrar o arame, quando Gabe começou a cair, eu saltei da viga onde estava e o peguei, entrando nas Sombras em seguida. Então sai de volta ao chão. Com certo esforço, tirei o arame do rosto de Gabe e joguei minha blusa de aviador por cima dele, como se fosse uma mortalha. Mas antes eu deixei dois dracmas de ouro junto com ele, ele iria precisar.
– O Elísio te aguarda. – Desejei uma boa viagem a ele para meu pai e então segui em frente.
Atrás do trono, havia um pequeno feixe de luz vindo de uma fresta suspeita. Assim que cheguei perto, senti o ar saindo de lá. Eu coloquei meus dedos na fresta e puxei, a parede deslocou, revelando uma sala secreta.
A primeira coisa que vi foi uma mesa redonda com três pessoas sentadas em volta da mesma. Era algo que eu não esperava, mas estavam Ben, Amanda e um garoto que não conhecia. Ben notou a minha presença e olhou pra mim, com seus olhos dourado brilhantes.
– Nico! –Ele se levantou num pulo – Estávamos esperando por você.
Amanda e o outro garoto também olharam pra mim, o garoto deu um sorriso e Amanda cobriu a boca, como se fosse para impedir um grito. O problema era que não sabia se era um grito de alivio. Ben se aproximou a bateu nas minhas costas como se fossemos amigos que não se encontravam há anos.
Nessa hora eu senti uma ponta de espada cutucando minhas costas, quando olhei para trás vi um ciclope feioso e verde.
– Me entregue sua espada. – Disse ele.
Eu peguei espada e a entreguei a ele, que se afastou e caminhou em direção aos outros sentados a mesa.
– Vamos cara, sente-se, quase que começamos o jogo sem você.
– Jogo?
Ben me conduziu até a cadeira ao lado de Amanda que, assim que me sentei, pegou minha mão por baixo da mesa e a apertou forte. Mas não disse nada. Ben sorriu e se sentou na direção oposta a do garoto desconhecido, entre Amanda e o ciclope (que também se sentou).
– Você pode explicar as regras para o Nico, Neil. – Disse Ben.
Neil? Neil Smith? Então esse era o chefe dos semi-primordiais. Ele um garoto muito diferente do qual eu imaginava, era baixinho e parecia ter 14 anos. Cabelos loiros e volumosos e tinha olhos cinza escuros. Ele vestia um casaco de escuro e uma bermuda jeans e estava descalço.
– Oi! Sou o Neil. É ótimo te conhecer Nico Di Angelo – Disse ele, tirando um revolver Magnum .44 debaixo de mesa. –, o jogo que vamos jogar é algo bem simples. Eu giro era pistola na mesa que tem apenas uma bala em seu tambor, quando ela parar o cano irá indicar que vai colocá-la a boca e puxar o gatilho! Se nada acontecer, giramos de novo, se acontecer... você está fora do jogo.
– É uma roleta russa.
– Isso! Ótimo jeito de decidir o destino do mundo, não acha?
– Que besteira é essa? – Gritei – Benjamin, acaba com ele e vamos pra casa. Não temos motivos para...
– Não. – Disse Ben, me interrompendo. Eu o encarei e ele sorria do mesmo jeito que o Neil.
Foi nessa hora que eu entendi, não era o Benjamin que estava ali, era o Herdeiro. Ben não conseguiu controlá-lo antes da fase final do seu plano. Ben havia abandonado sua humanidade.
– Nico... – Amanda me chamou, ela não parecia assustada – eu não vou deixar eles te machucar. Vamos jogar.
Antes de eu falar alguma coisa, a pistola girou na mesa. Ela girou e girou, aos poucos perdia velocidade. Ela parou apontando pra mim.
– Só um aviso, se você não pegar a pistola... alguém pode pegar e atirar por você.
Eu peguei a pistola e a coloquei embaixo de queixo, a mão de Amanda ainda segurava a minha. Ela me dava confiança. Eu prendi a respiração, puxei o a gatilho e... nada aconteceu. Em seguida, coloquei a pistola de volta a mesa.
– Parabéns, Nico. – Disse Ben. – Você gira.
No tambor daquela Magnum havia espaço para seis balas, uma já estava vazia.
Eu girei a arma e ela parou apontando para Neil, que pegou ela rapidamente e encostou o cano em sua têmpora, a engatilhou e, sem perder tempo, puxou o gatilho. Nada aconteceu. Fiquei surpreso com a confiança com que ele pegou a arma, parecia até que... ele sabia que ela não ia disparar.
A arma foi girada novamente e ela parou em direção ao ciclope, que engoliu seco.
– Ah, desculpe Barry, esqueci que seus dedos não alcançam o gatilho. – Disse Neil, sorrindo. – Sua mão é muito grande, deixa que eu atiro por você.
– Ah...
Sem esperar a resposta de Barry, o ciclope, Neil pegou a pistola e apontou para ele. Ao puxar o gatilho a arma disparou e a bala atravessou a testa do ciclope, que se desfez em poeira dourada.
– Opa! – Disse Neil – Achamos a bala.
Novamente ele não demonstrou a reação esperada, ele apenas mantinha seu sorriso (que estava ficando irritante) enquanto colocava uma nova bala na arma. Era estranho suas reações sabendo que sua vida também estava em risco. Parecia que ele iria manter essa loucura até o fim.
– Espera Neil. – Disse o Herdeiro – O que você acha de usarmos duas balas nessa rodada?
Eu estava prestes a protestar, mas senti a mão de Amanda apertar a minha mais forte. Eu a encarei a ela mandou um olhar do tipo “fique quieto”. Nessa percebi que tinha um plano em ação no momento e parecia que a minha parte nele era ficar quieto, por hora.
– Duas balas? – Neil ergueu uma das sobrancelhas, mas logo relaxou. Talvez ele tenha achado que seria divertido – Todos concordam?
– Claro. – Disse Ben.
– Sim. – Digo.
– Eu não que tenho escolha, então sim. – Disse Amanda.
– Que surpresa. – Neil colocou uma segunda bala na arma, recolocou o tambor num giro e engatilhou a arma. – Eu achei que pelo menos o Nico iria recusar, já que a vida de sua amada está em jogo (é isso foi estranho até pra mim). Eu estou começando a achar que tem um plano secreto rolando por aqui, deve ficar atento, Herdeiro?
Nessa hora, o sorriso do Herdeiro vacilou e Amanda apertou minha mão outra vez. Meu palpite estava certo, tanto quanto o de Neil.
– Pare de paranóia e gire a arma. – Digo – Hoje estou sentindo que estou com sorte.
Neil sorriu e perguntou:
– Porque acha isso?
– Eu passei por Darius e achei Amanda mais rápido que eu pensava.
Eu tentei soar um pouco ameaçador, mas apenas deu os ombros e girou a arma. Ela parou apontada para o Herdeiro, que a pegou e puxou o gatilho apontando para o rosto. Nada aconteceu.
– Próximo. – Disse o Herdeiro, girando a arma.
A arma parou apontando pra mim, novamente. Dessa vez, eu fui mais rápido ao puxar o gatilho e novamente nada aconteceu. Então a coloquei na mesa e a girou com força. A arma parou e foi a vez de Neil pega-la, eu estava torcendo para que arma disparasse, mas nada aconteceu. Neil riu ao ver minha expressão de decepção.
Desde a recarga para duas armas, nós já havíamos disparado três e todas estavam vazias. Já que a arma tinha espaço para seis balas, isso significava que havia mais um tiro seguro. E o próximo iria ser morte certa. Essa rodada iria a ser decisiva.
Neil girou a arma e em pouco tempo ela parou, apontando para Amanda. Dessa vez fui eu que apertou a mão dela, tentando transmitir a mesma confiança, mas acho o que transmiti fui preocupação. Ela pegou a Amanda sem pestanejar e deu uma rápida olhada para o Herdeiro e depois pra mim, então encostou o cano em seu queixo e puxou o gatilho.
Nada aconteceu.
Eu me permiti soltar um suspiro de alivio, assim como Amanda.
– Acho que chegamos num ponto interessante. – Disse Neil. – A próxima rodada, terá uma morte.
– Amanda, gire. – Disse o Herdeiro.
Ela girou a arma sem muita força e por isso ela parou rapidamente, revelando a próxima morte.
– O que? – Disse Neil, olhando para o cano apontando para ele.
– O que foi, Neil? – Começou o Herdeiro – Não esperava por essa, não é?
– Como foi... que... – Ele encarou o Herdeiro – Seu desgraçado! Isso é algum tipo de trapaça? Você fez isso!
Neil começou a se levantar com raiva, mas então Amanda segurou seu braço e enfiou sua adaga na mão dele, prendendo-o a mesa. Nessa hora, eu usei as sombras e peguei espada no chão, onde o ciclope tinha morrido e a apontei para o pescoço dele.
– “E pela decisão do pai, o filho morrerá”... – Disse Amanda, num sussurro.
– A profecia. – Digo.
– Não esperava por essa, não é? – Disse o Herdeiro. – Está estampado na sua cara.
– Isso não faz sentido, meus pais estão mortos!
“Pais?”, pensei.
– Sim, eu sei disso. Mas seu avô, não. – Neil o encarou sem entender – Você sabe que qualquer parente de linhagem sanguínea dos deuses são chamados de “descendentes”, mas você sabe que seu caso é diferente. Você é descendente de dois deuses ao mesmo tempo.
– Seus pais eram semideuses. – Digo, percebendo o que Ben disse.
– Exato, mas você é um caso extremamente raro. Você tem os poderes dos seus dois avôs divinos. Moros (o deus da sorte) e Ares (o deus da guerra), você é neto dos deuses e, ao mesmo tempo, filho. Por causa dos poderes herdados.
Normalmente, filhos de semideuses não apresentam os poderes divinos dos seus pais semideuses, se fosse assim, o acampamento estaria mais que lotado. Dizem que um semideus filho de semideuses são extremamente poderosos, foi por isso que Ben insistiu nesse jogo, pois lutar contra ele poderia causar a morte de Amanda, já que ela estava com ele quando Ben chegou aqui.
Mas Neil não contava com a profecia, ele atirava em si mesmo sem hesitar, pois sabia que sua “sorte” iria mantê-lo vivo, mas seu “pai” (Moros) o abandonou. Contudo, como Ben nos mantinha vivo? A arma carregada podia parar na direção de qualquer um de nós. Então eu perguntei a ele.
– Ah, foi com isso. – Ele tirou um relógio dourado do bolso, o mesmo relógio que Moros tinha dado a ele meses atrás. – Eu tinha apenas 4 segundos, então usei um segundo a cada vez que girávamos a garrafa, apenas a primeira vez que não. Nós tínhamos a Sorte no nosso lado também.
– Eu não sabia disso, acho que foi isso que causou a minha morte, ou será foi meu avô/pai covarde? – Ele riu de si mesmo – Que desgraça. Eu vou te contar uma coisa que você não sabe também. – Ele pegou fôlego – Você sabia que os semideuses iguais a mim nascem com três tipos de propósito na vida. Conquistar, exterminar ou revolucionar. Aqui vai alguns exemplos na historia: Spartacus, nasceu para revolucionar; Napoleão nasceu para conquistar; Hitler nasceu para exterminar; Genghis Khan para conquistar e a lista continua...
– Você nasceu com que propósito? – Perguntou Amanda.
– Exterminar. – Disse Neil, com um sorriso – Mas o que vocês precisam descobrir é o propósito do seu amigo Kevin... – Ele notou nossas expressões – O que? Não sabiam? Ele é igual a mi...
Neil não conseguiu terminar sua frase, pois uma bala atravessou sua cabeça. Ele morreu na hora.
– Ótima historia. – Disse o Herdeiro, segurando a arma.
– Ben! – Gritou Amanda – Por que fez isso?
– Estamos sem tempo, – Ele se levantou e invocou sua foice negra – vamos começar, Amanda.
Ela cerrou o punho, ela parecia nervosa.
– Começar o que? – Perguntei.
– O sacrifício. – Disse ele, andando até ela.
Nessa hora, lembrei porque estava atrás dele.
– Isso não vai acontecer!
Eu girei a espada na direção dele, apesar da surpresa, ele conseguiu defender-se.
– Nico, você enlouqueceu?
– Eu não vou deixar você matá-la, independente de qual for sua intenção! – Digo, me lembrando da minha conversa com Chloe – Você vai ter que passar por cima de mim.
– Então vai ser assim, Nico?
Eu me projetei entre Amanda e ele, apontando minha espada para ele.
– Vai ser assim, Herdeiro.
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