O Herdeiro da Ruina
18 Enfrentamos os Pássaros Kamikaze
Notas iniciais
POV — Benjamin
Eu estava muito preocupado.
Preocupado com essa missão, com a profecia, com a vida de Nico e Amanda, com o que me aguardava fora do Posto Avançado. Essa missão acabou com o que eu chamava de “Período de Paz e Banhos Quentes”, pois quando se é um semideus viajante (e pobre) é difícil ter paz na estrada, banhos também, tomava banho em raras ocasiões quando achava um rio ou represa, também quando invadia casas... Deixa pra lá!
Depois da reunião, Nico foi procurar Amanda para dar a “grande noticia”. Fui ao Dormitório para arrumar minhas coisas. Já que eu era o único filho de Tânatos, tinha um quarto cheiro de beliches só pra mim, no canto ao lado do quadro do meu pai, ficava uma cômoda e um armário de mogno escuro. Peguei uma mochila no armário e joguei um par de luvas e duas camisetas nela. Calcei minhas botas de trilha e peguei um casaco preto com detalhes dourados nas mangas e gola (mas nada gay). Peguei uma garrafa preta com água e outra com néctar em cima da cômoda e coloquei na mochila.
Logo em seguida, peguei a mochila e a joguei por cima dos ombros, antes de sair tirei o Relógio da Sorte do bolso e conferi quanto tempo tinha, “53 segundos”. Eu usei 7 segundos no duelo contra Chloe, para desviar de seus golpes e pegar sua espada no ar.
Estava saindo quando a ouvi alguém bater na porta. Guardei o Relógio e abri a porta. Nico estava junto com Amanda. Ele usava sua habitual jaqueta de aviador, calça jeans e uma mochila laranja nas costas. Amanda estava bonita e sorridente. Seus cabelos loiros estavam presos e usava uma blusa por cima da camiseta roxa do Acampamento Romano, uma calça jeans clara com um lenço rosa preso na cintura, tênis all-stars e cachecol.
– Oi.
– Oi, está pronto? – Perguntou ele.
– Estou e vocês?
– Estamos! – Disse Amanda.
– Certo, vamos acabar logo com isso.
Fomos andando até o estábulo.
O estábulo era um espaço muito grande que tinha um leve cheiro de coco de cavalo. Os pégasos ficavam sob o cuidado de Zachary Polski, de 15 anos, e seus sete ajudantes, que são autômatos de bronze de um metro e vinte de altura, usavam macacão e chapéus de cowboys coloridos.
– Ei Zach, – Disse Amanda – Eles estão prontos?
– Claro que sim, querida. – Disse ele, num tom galanteador.
Lance tinha aquele sotaque forte do Sul, era meio engraçado ouvi-lo falar, pois me lembrava uma pouco do Texas.
– Obrigada.
– Tem um problema. Pégasos não gostam de mim. – Disse Nico.
– Hunf... Eu sei. – Disse Zachary – Por isso que Percy pediu pro Chalé de Hefesto fazer algo especial pra você. Zangado, Dengoso e Soneca tragam “aquilo”. Já!
Três dos autômatos correram em direção ao galpão mais próximo. De lá eles voltaram puxando as rédeas de um pégaso feito totalmente de bronze. Tinha o tamanho natural de um verdadeiro e olhos vermelhos brilhantes.
– Esse não tem medo, é todo seu.
– Incrível!
– E o seu, – Disse ele olhando pra mim – Está ali.
– Eu não vou de pégaso, obrigado. Tenho péssimas memórias com eles. Vou com minha própria carona.
– Ah você que sabe.
Zachary puxou uma alavanca e o teto se abriu, revelando o céu azul acima de nós. Fazia tempos que não via o verdadeiro céu, mas ele não mudou nada (ainda bem!).
– Se afastem, – Digo – Vou chamar minha carona. – Coloquei a mão no símbolo do grifo e o invoquei.
Ele veio voando do céu e pousou perto de mim. Estava grande e bonito como sempre, seus olhos de águia penetrantes olhava para mim com respeito. Acariciei sua cabeça e digo:
– Oi Flewie. Há quanto tempo – Ele soltou um grunhido – Também senti sua falta.
– Desde quando você tem um grifo? – Perguntou Amanda.
– Desde sempre. – Eu montei o grifo – Então vamos?
– Vamos!
Cada um montou sua respectiva montaria e saímos voando pelo céu de Chicago.
***
Estávamos a 20 quilômetros do Parque Nacional de Yellowstone quando tudo começou a dar errado.
Uma tempestade surgiu do nada, suas nuvens negras tempestuosas cobriram os céus rapidamente, deixando tudo escuro, meu grifo e os pégasos ficaram um pouco agitados. Olhei para frente e vi uma pequena forma voando logo à frente, ela se misturava entre as nuvens negras, mas percebi que estava vindo em nossa direção.
– Nico, – Chamei – Você está vendo aquela coisa ali na frente?
– Estou.
– O que é?
– Não dá pra ver direito, parece um... pássaro.
Tentei localizar o pássaro novamente. Até que senti uma estaca perfurando meu ombro, mas não tinha nenhuma estaca, e sim um pássaro negro de pescoço longo avermelhado, seu bico pontiagudo estava preso em meu ombro. Eu o arranquei com um puxão e joguei de volta aos céus.
– Ben! Você está bem? – Perguntou Amanda.
– Estou. – Meu ombro sangrava.
– Mas você... Cuidado!
Outro pássaro passou zunindo perto do meu ouvido.
– Mas que diabos...?
– Pessoal olhem ali... – Disse Nico, apontando pra frente.
Um relâmpago iluminou o céu por uns instantes e senti um frio na espinha quando vi o que ele tinha visto. Centenas de pássaros-estacas (sim, eu dei um apelido pra eles) estavam vindo em nossa direção. Eles subiram até desaparecerem nas nuvens, os trovões abafavam qualquer barulho feito por eles, deixando-os praticamente invisíveis. E pra piorar, começou a chover.
– Cadê eles?
– Não importa! – Gritei tentando ser mais a alto que a chuva – Vamos mais rápido e sair daqui.
Eles conseguiram me ouvir, ambos os pégasos dispararam em minha frente. Olhei pra cima e notei pelo menos vinte pássaros-estacas mergulhando em minha direção. Mergulhei pra baixo fazendo rodopios, os pássaros-estacas começaram a me perseguir, cortando a chuva.
– Merda!
Flewie não era rápido o suficiente, os pássaros estavam me alcançando. Virei-me sentando de costas no grifo, invoquei meu escudo e pistola. E é claro, atirei que nem louco. Vários viraram pó dourado, se misturando com a água da chuva. Infelizmente não foi o suficiente, eles me alcançaram e me flanquearam, eu me abaixava e usava o escudo para me defender. E atirava quando era possível.
Nico e Amanda não estavam melhores que eu. Amanda perdera seu pégaso em algum momento da batalha, agora ela estava no pégaso de bronze junto com Nico. Ele usava sua espada para se defender, mas não estava conseguindo. Duas das aves estavam cravadas em seu corpo, um na coxa e outro no antebraço.
Se continuássemos assim nós morreríamos. Um pássaro-estaca me acertou por trás e grunhi de dor. Não estava acertando meus tiros, era difícil mirar voando e ainda por cima na chuva. Daí eu tive uma idéia, usar o Relógio da Sorte. O tirei do bolso e o ativei.
A Sorte finalmente estava no meu lado. Nenhum tiro era desperdiçado, todos acertavam um pássaro-estaca em cheiro. Eu sorria que nem bobo quando limpava o céu rapidamente, mas logo eu ouvi um grito que tirou minha sensação de diversão. Nico estava despencando dos céus, inconsciente.
– Nico! – Gritou Amanda, quase chorando.
– Flewie pegue-o!
Flewie mergulhou em alta velocidade na direção dele, no caminho, alguns pássaros-estacas surgiam pra nos atacar, mas eu os eliminava com minha pistola. Agarrei Nico no ar, ele tinha um corte profundo na testa, mas nada muito grave. Amanda apareceu ao meu lado, ela estava em choque.
– Amanda! Cadê os pássaros-estacas? O que aconteceu lá em cima?
Amanda não respondeu, apenas olhava fixamente para Nico.
– Amanda acorda!
– Eu-eu-eu não sei. Nico desmaiou de repente. – Ela se segurava pra não chorar – E os pássaros subiram nas nuvens de novo.
– Ok, se acalma. Leva ele pro chão e cuide dele. Eu vou te dar cobertura.
Ela assentiu e pegou Nico. Ela desceu os céus rapidamente e eu fui logo atrás. Os pássaros logo apareceram. Eu os atraí para longe de Amanda, mas quanto mais eu destruía, mais surgiam. E os meus segundos de Sorte estavam quase no fim. Lutar em cima de um grifo é algo muito complicado, não se pode mover por conta própria e a velocidade dele dificulta o equilíbrio. Fora isso era incrível.
Era estranho. Todos eles apenas atacavam não se importavam de desviar dos tiros. Desde que eles me acertem, não se importavam em morrer. Isso deixou tudo mais rápido, logo consegui destruir o ultimo pássaro que restava.
Fiquei realmente cansado e ferido. Verifiquei o relógio e vi que só tinha mais 4 segundos de Sorte.
– Merda, eu usei demais. – Lamentei – Ah, Flewie vamos até a Amanda, ela está nos esperando.
No caminho, eu me perguntava se esses pássaros trabalhavam pra alguém, mesmo que seja coincidência, acho difícil que centenas deles tenham se reunido pra um passeio em meio a uma tempestade. Encontrei Nico e Amanda descansando numa clareira, ele estava consciente.
Pulei de cima de Flewie e corri na direção deles.
– Como você está? – Perguntei pro Nico, ele tinha um lenço rosa enfaixando sua cabeça.
– Vivo.
– Não brinca!
Ele sorri.
– Estou surpreso que tenha sobrevivo aos meus pássaros Herdeiro! – Disse uma voz grave atrás de mim.
Me virei e vi um cara fantasiado de Exterminador do Futuro. A única diferença é que uma aura vermelha estava em volta de seu corpo, e segurava uma espada enorme e caixa escrita “Cuidado – Plutônio Radioativo”.
– Ares, – Disse Nico – agora faz sentido. Aqueles pássaros são as Aves de Ares, as aves-flechas. Pensei que eles apenas protegiam, não atacavam.
– Eu decido o que eles fazem. Além disso, – Ele se virou pra mim – foi divertido assistir. Você atira bem garoto.
– Tive Sorte. – Ele sorriu – Por que tentou nos matar? Sabe que estamos em missão.
– Eu sei, mas ainda sim, você é uma ameaça para nós Herdeiro. Não se surpreenda quando algum deus tentar te matar em sua jornada. – Ele colocou a caixa no chão e sentou em cima – Eu fui apenas o primeiro, mas gostei de você no Duelo de Marte então não vou tentar novamente, mas também estou curioso como vai fazer para nos destruir, antes de eu te matar.
– Obrigado, acho.
– De nada. Ah quase me esqueci. Se ainda quiserem viver, continuem por terra. Zeus só estava esperando meus pássaros acabarem de morrer para ele matá-lo pessoalmente. – Um raio caiu a menos 100 metros de nós – Adeus Herdeiro, espero que nossa luta não demore muito para acontecer.
– E eu espero que nunca aconteça.
Ele sorriu novamente e desapareceu.
– Isso foi estranho – Disse Amanda.
– Concordo.
– É, – Digo – vamos continuar. Já devemos estar no Estado do Wyoming. Nico pra quem lado?
– Sul.
– Quer ajuda cara?
– Não. Eu consigo – Nico se levanta devagar, mas eu o ajudei mesmo assim.
E assim seguimos. Amanda na frente olhando o mapa e bebendo néctar e Nico apoiado em mim andando passo-a-passo. Logo ele desmaia e eu tive que levá-lo nas costas, por quase 20 quilômetros.
VINTE QUILOMETROS. ANDANDO.
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