O Herdeiro da Ruina
46 Apenas uma vida comum
Notas iniciais
– Ei, até quando você pretende dormir. – Perguntou Akhlys.
– Não estou dormindo, eu reunindo coragem para encará-lo e apreciando a calmaria. – Respondi.
Eu estava sentado no topo da Colina Meio-Sangue, encostado no pinheiro que ali tinha. Akhlys estava sentada no meu lado, perto o bastante para que nossos ombros ficassem encostados um ao outro. Eu estava experimentando uma tranquilidade que eu nunca tinha sentido, não havia monstros ou deuses querendo me matar, alguma profecia maluca selando o meu destino ou um poder incontrolável querendo me consumir. Nunca imaginei que isso seria tão bom.
– O que você se lembra, depois da explosão? – Perguntou ela.
– Pra falar a verdade, eu nem me lembro de alguma explosão. Apenas um clarão branco e quente, teve um momento achei que ia ser desintegrado. Mas também não percebi quando eu desmaiei, tipo, uma hora o clarão estava me queimando e outra eu acordei aqui, junto com você.
– Nada melhor do que acordar com uma garota linda como eu no seu lado. – Disse ela, sorrindo. Obviamente referindo-se a ela mesma.
– É, pena que eu nem vi essa “garota bonita”... tudo que eu vi foi você, me assustando.
Akhlys me empurrou pro lado, fazendo cara feia. Eu ri por causa da reação dela.
– Calma, estou brincando, brincando!
Ela tentou manter a expressão brava, mas logo cedeu a um sorriso.
Eu realmente não me lembrava do que aconteceu, mas Akhlys me explicou que depois de Chaos ter usado seu último recurso, houve uma explosão tão forte que abriu uma cratera bem no meio da floresta. Não havia sinal dele, apenas eu no centro da cratera, desmaiado. Ela também me disse que os monstros recuaram logo após a explosão e que Calipso (a garota do pedestal) sobreviveu por pouco.
Eu soltei um suspiro.
– Akhlys, obrigado por tudo. Sem você eu provavelmente teria perdido pra Profecia a muito tempo.
– Com certeza teria, foi tudo graças a mim. – Disse ela – Mas Ben, obrigada por confiar em mim. Depois de tudo o que passamos, o sofrimento, a raiva e a tristeza... tudo o que sofreu por todos esses anos... Obrigada por ser você.
– Ei, eu nunca vou esquecer o que você fez... mas estou disposto a cobrir essas memórias com outras melhores. Por isso, nunca saia do meu lado.
Akhlys se aproximou e me abraçou, uma reação totalmente inesperada, mas eu retribui o abraço. Pra mim, aquilo significava um novo começo pra nós dois.
***
Quando eu entrei no quarto e vi um corpo com a mortalha azul envolvendo-o, senti uma dor que nunca havia sentido, era uma dor angustiante pior do que qualquer ferimento que eu já tenha sido infligida em mim. Se não fosse por mim ele ainda estaria vivo e comemorando com os outros. Eu matei Percy Jackson. Isso é fato.
Eu me aproximei dele e movi parte da mortalha que cobria rosto. Eu encarava um rosto pálido e sereno, um rosto de um amigo que deu a vida para os outros e, sem mesmo ele saber, para meu plano idiota. Que felizmente deu certo, pois se tudo tivesse da certo eu... bem, não faria nada, pois estaria totalmente focado em matar cada ser que se intitula “deus”. Só depois eu ficaria com a consciência pesada por algo que não me lembraria de ter feito. Que merda.
– Cara, você está chorando? – Perguntou Nico, atrás de mim. Eu nem tinha notado que tinha lágrimas em meu rosto.
– Eu... não. Eu estou legal. – Digo limpando as lágrimas.
– Tá, acredito. – Ele se aproximou e disse: – Você não está pensando em trazê-lo de volta né? – Eu não respondi, mas eu queria. Nico continuou: – Você sabe que se fizer o mesmo que fez com a Amanda você pode morrer, você não tem mais os poderes do seu pai.
– Você viu o Percy no Mundo Inferior?
– Eu não fui lá ainda, não sei se você percebeu, eu fiquei desmaiado por um dia inteiro. Eu acabei de acordar.
– Ah, verdade. Tinha me esquecido.
Ele me deu um soco no braço.
– Você está pegando a mania da Amanda de ficar me batendo, afaste-se dela.
– Nem pensar. – Ele riu – Eu vou me encontrar com ela agora, ela está me esperando na área dos chalés. Tenho que me apressar. Você vem?
– Claro, mas daqui a pouco. Vou me despedir. – Digo olhando para Percy.
– Certo. Te vejo lá fora.
Ele saiu e fiquei novamente sozinho com Percy. Eu me senti na cadeira que ali tinha e fiz uma prece aos deuses (Primeira vez que faço isso) para que ele chegue e viva em segurança no Elísio. Era o máximo que eu podia fazer por ele.
– Nunca pensei que você ia fazer uma prece para os deuses. – Disse eu voz atrás de mim. Eu sabia quem era.
– E eu nunca achei que Poseidon iria te deixar vivo, pai.
Eu me virei e me vi encarando o meu pai idiota. Ele parecia bem, bem até demais. Vestia uma roupa social preta, com camisa preta e uma gravata branca listrada.
– Que roupa é essa?
– Eu vou numa reunião no Olimpo. Zeus quer fazer um julgamento e me punir. Como se ouvir toda besteira que ele tem pra dizer já não fosse o bastante.
– Sei... o que faz aqui?
Ele se aproximou de Percy e o tocou na testa, como se checasse a temperatura dele.
– Percy Jackson é um semideus único, nunca lutei com um mortal tão poderoso. – Ele desabotoou terno e levantou a camiseta, revelando uma três cicatrizes circulares no abdômen – foi ele quem fez isso comigo, com o tridente daquele garoto filho de Pontos. Quem sabe, o que poderia acontecer se nossa luta tivesse durado mais alguns minutos? Bem, realmente uma grande perda para o mundo quando ele faleceu tão... inesperadamente.
– Inesperadamente, por quê? Você o matou. E eu vou matá-lo por isso.
Ele ignorou a última parte e disse:
– Inesperadamente, pois... não estava na hora dele, ele não estava na minha lista naquele dia. – Ele ajeitou a camiseta para dentro da calça e abotoou seu terno. – Acho que devo minha vida a ele... – Lembrei que Nico tinha me dito que Percy tinha resgatado Tânatos no Alasca das mãos dos gigantes – De qualquer forma, foi bom vê-lo, meu filho.
Era muito estranho ouvir isso dele, pois meu plano quase o matou, mas algo me dizia que, com o fim da profecia, eu e meu pai finalmente poderíamos formar alguma relação normal de pai e filho. Começar tudo de novo. Sei que ele quer isso, já eu... tenho algumas inseguranças a serem superadas para tentar isso.
– Foi bom... vê-lo também.
Ele sorriu e então uma névoa negra o envolveu, desaparecendo em seguida.
Olhei novamente para Percy, meu velho amigo, lembrei do nosso reencontro quando Annabeth me trouxe para o Acampamento meses atrás. Quando acordei depois de enfrentar a Akhlys, ele estava no meu lado. Seria legal se invertêssemos os papeis, mas a diferença que ele não vai mais acordar.
Eu andei até a porta e quando estava prestes a sair, eu ouço um gemido. Eu voltei correndo até ele, mas ele parecia o mesmo.
– Ei, Percy. – Chamei, cutucando sua bochecha. E nada. Eu me encostei à cadeira e fechei os olhos, acho que estou ficando maluco.
– Cara... por que você está no meu quarto? – Perguntou Percy, com uma voz sonolenta.
Eu abri os olhos e encarei Percy. Ele estava sentado na cama e se espreguiçando. Como se tivesse apenas dormido demais.
– Percy? – Eu o cutuquei com o dedo. – Você tá vivo ou estou alucinando?
– Ahn... vivo, eu acho.
Lagrimas começaram a escorrer em meu rosto involuntariamente. Lembrei de meu pai tocando Percy na testa, dizendo que não estava na hora dele. Realmente não estava, ele deve ter feito algo que tenha o matado apenas por um tempo, ou feito o mesmo que fiz com Amanda. Não sei, isso não inportava.
– Cara, você tá bem? Você pode me dizer por que tem uma mortalha em cima de mim? Que piada sem graça.
Eu cheguei perto dele e o abracei forte.
– Ahn... Ben você está bem? – Eu não respondi. Então, ele apenas retribui o abraço.
Assim que me sentei na cadeira novamente, expliquei tudo o tinha acontecido. Sobre Atlântida, o sacrifício de Amanda, a batalha no Acampamento, como ele morreu e voltou a vida.
– Caramba... mas como estão todos?
– Tivemos perdas... – Gabe, Mary, Will, Dakota, Lacy... – mas acho que teremos paz por mais tempo, espero. – Percy esboçou um sorriso – Cara, vamos lá fora! Todos vão ficar super felizes que você está vivo! Principalmente Annabeth.
O rosto de Percy ficou pálido.
– Acho que ela vai me matar por assustá-la desse jeito... vai dar na mesma.
Eu ri, Percy se apoiou em mim e o levei para fora da Casa Grande.
Assim que chegamos na varanda, Percy olhou para o Acampamento em fase de reconstrução. Fazia menos de 24 horas de que a guerra acabou e todos já estavam trabalhando. Os sátiros estavam replantando os canteiros de morangos destruídos com ajuda da sua musica mágica; eu conseguia ouvir quatro ou cinco semideuses reparando o telhado acima de nós. Comecei a levar Percy até os chalés, era uma boa caminhada. No caminho, vários semideuses paravam o que estavam fazendo e iam até Percy. O cumprimentavam, abraçavam, davam tapinhas nas costas... Percy era popular no Acampamento.
Assim que chegamos na área dos chalés. Eu vi Nico, Kevin, Amanda e Chloe. Kevin estava com o braço numa tipóia e com uma faixa no abdômen que cobria sua ferida de faca. Chloe estava com a um par de muletas por causa do pé engessado. Só de vê-la daquele estado eu sentia raiva daquele Albino estúpido. Nico e Amanda estavam bem, Nico levou pontos num corte perto do pescoço e Amanda ganhou apenas uns cortes e uma bela cicatriz no peito durante a batalha em Atlântida (ela ainda não me desculpou por isso).
Como o resto, eles não acreditaram quando viram Percy andando no meu lado. Percy cumprimentou a todos e Chloe o abraçou, seguido por Amanda e Kevin. Nico era mais reservado e deu apenas um aperto de mão, mas ele estava prestes a chorar... queria ter uma câmera fotográfica agora.
Outros semideuses (dezenas) saíram de seus chalés para ver Percy. Logo ele ficou cercado por eles, eu tentava sair do meio daquela multidão até que senti alguém pegando na minha mão. Chloe. Eu a vi no meio da multidão e ela me puxou para perto dela. Ficamos frente a frente, com outros nos apertando.
– Como você trouxe Percy de volta a vida? – Perguntou ela sorrindo.
– Meu pai... ele fez isso.
– Seu pai? Como ele... – Eu a interrompi com um beijo. O tão esperado beijo foi tão automático que quando enfim nos separamos eu não sabia o que dizer.
– Ah... – Ela me encarava, surpresa, mas então ela riu. – O que foi?
– Nunca achei que você tomaria a iniciativa.
– Isso foi ruim? Desculpa, mas eu... – Ela colocou o dedo nos meus lábios, me silenciando.
– Você fala demais.
Ela me puxou para perto dela e me beijou novamente. Mesmo com os sentidos quase entorpecidos, ouvi Kevin dizer “finalmente esse cara pegou alguém!”, também ouvi Amanda dizer “Olha Nico, que meigo!”
Assim que nos afastamos, eu não parava de sorrir. Nessa mesma hora, todos se silenciaram e estavam olhando para a mesma direção. Annabeth. Ela estava na porta de seu chalé vendo toda a bagunça, mas principalmente para Percy. Os olhares de ambos de encontraram e assim eu pude sentir a faísca entre eles.
Os semideuses abriram espaço para Percy ir até ela. Ele começou a andar até ela, assim como ele até ela. Até que se encontraram. Eles ficaram se encarando, era estranho, parecia um daqueles duelos do velho oeste, um movimento errado podia significar a morte do outro. Bem, assim é o amor.
– Annie eu... – Disse Percy, estendendo o braço até ela. Querendo pegar sua mão.
Ela agarrou o braço dele e puxou, ao mesmo tempo girou o corpo e passou seu outro braço por baixo da axila dele, fazendo algo parecido com encaixe de braço. Então ela só inclinou pra frente e puxou o braço encaixado com toda força, derrubando Percy no chão. “Uma belo e bem executado golpe de judô”, pensei.
Ela sentou em cima dele em seguida, imobilizando-o seus braços com os joelhos e se preparou para socá-lo, mas antes, ela diz nervosa:
– Cabeça de Alga nunca me assuste assim de novo! Você tem idéia pelo eu passei vendo você morrer e me deixando sozinha? Seu grande... – Ela se curvou sobre ele, na hora em que as lágrimas começaram a escorrer em suas bochechas. Elas pingavam no rosto de Percy – Não faça isso de novo... eu não vou aguentar... por favor.
– Eu nunca vou te deixar. – Percy livrou seus braços e abraçou sua amada como se nada mais importasse, eles se separaram hesitantes – Eu fiz uma promessa, lembra-se? – Annabeth sorriu – Eu te amo.
– Eu também te amo.
Então eles se beijaram. O reencontro que parecia impossível finalmente aconteceu, foi de um jeito esquisito, mas aconteceu. Ao anoitecer, um grande banquete foi feito. Para comemorar o retorno de Percy e, ao mesmo tempo, homenagear os mortos nesse último ano. Todos os semideuses estavam ali. Vi Leo e Calipso perto da mesa de enchiladas (tinha um sátiro atacando-as), eles pareciam estar super felizes. Num outro canto, Piper estava sentado na mesa com seus irmãos do chalé, que conversavam e ao mesmo tempo arrumavam o cabelo dela, notei que ela olhava pra Jason com desconfiança, ele mantinha certa distância dela, mas acho que era uma questão de tempo pra que o relacionamento deles voltarem ao normal. Percy, Annabeth e Quíron (que estava com uma faixa na cabeça) estavam ao centro conversando e os semideuses curiosos.
– Ei, – Chamou-me Kevin – eu fiquei saber que o Neil falou algo sobre mim. Sobre meus pais.
– É, ele falou coisas bem curiosas. – Digo.
– Eu sabia que ser filho de dois semideuses seria um problema, mas não desse tipo... – Ele tomou um gole do ponche que tinha em mãos – Um propósito de existência... eu sou descendente de Péricles de Atenas, e sou filho/neto de Belona e Apolo. Acho que qualquer propósito que escolher, vou ser um novo problema para todos.
– Você vai um problema se quiser ser, não pense nisso agora. Apenas relaxe, pois é isso que eu vou fazer.
Ele riu.
– É um bom conselho.
– Valeu. Ah, acabei de lembrar, o que aconteceu com a Naomi?
– Ela seguiu seu rumo, mas falei pra ela sobre Nova Roma. Talvez algum dia ela vá pra lá.
Sem qualquer aviso, Amanda pulou em cima de mim por trás. Eu quase caí por causa dela, sorte que eu a segurei e me firmei com as pernas. Eu me virei e vi Nico e Chloe, rindo da cena.
– Amanda, o Ben não é seu cavalinho. – Disse Chloe – É o meu.
– Eu fui rebaixado de namorado a cavalo em poucas horas, – Digo enquanto Amanda descia das minhas costas – foi o relacionamento mais curto que eu já tive.
– Foi mais do que você merece. – Disse Nico, sorrindo.
Eu fui até Chloe e lhe dei um beijo, em meio as risadas de todos. Cara, eu estava muito apaixonado por ela. Eu olhei pra trás e vi Percy olhando pra mim, então ele ergueu o copo, como um gesto de “bem-vindo”.
Eu sorri pra ele e olhei em volta, observando os semideuses e toda aquela movimentação. Em meio as pessoas vi meu pai sorrindo por um segundo, mas desapareceu assim que um semideus passou na minha frente. Depois olhei para a Chloe, ela me encarava com um sorriso, como se soubesse o que pensava (Bem, isso era bem possível).
– Você está em casa. – Disse ela.
Finalmente tudo estava bem, eu não tinha mais nada me prendendo. Nem profecias ou deuses querendo minha morte, agora eu podia viver como um semideus normal (pra variar) ao lado dos meus amigos. Eu não precisava de mais nada.
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